Na parede da cozinha da nossa casa havia um pequeno espelho de moldura simples. Não era um objeto de decoração. Estava ali por pura conveniência, para um último olhar antes de sair para o trabalho ou para conferir se o rosto ainda carregava marcas da noite mal dormida. Durante muitos anos, refletiu apenas a rotina de uma família comum.
Tudo corria naquela cadência previsível que costumamos chamar de felicidade. Dois carros na garagem de um condomínio simpático, as contas pagas em dia e dois filhos, um de dez e outro de nove anos, transformando o quintal em campo de aventuras. Aos olhos de quem passava — e aos nossos — parecia que havíamos erguido, com esforço, o equilíbrio entre segurança e tranquilidade. A vida era boa.
Mas o ser humano é curioso. Mesmo quando tudo parece estar no lugar, às vezes surge uma pergunta que não cabe em resposta alguma. Foi assim conosco. Sentíamos que havia uma dimensão da existência que ainda não conhecíamos.
Decidimos frequentar uma igreja em um bairro próximo. Entramos com sinceridade, desejando fortalecer a fé. Durante algum tempo, acreditamos que ali encontraríamos as respostas que procurávamos. Contudo, à medida que conhecíamos melhor aquela comunidade, percebíamos uma distância incômoda entre o que era ensinado e o que era vivido. O discurso apontava para um lugar; a prática caminhava em outra direção.
Conversamos com o orientador espiritual da congregação na esperança de dissipar nossas dúvidas. Saímos respeitando as pessoas, sim, mas sem encontrar a clareza que buscávamos. A inquietação não desapareceu, mas apenas mudou de endereço. E foi assim que deixou as dependências da igreja e passou a morar dentro da nossa casa.
Foi então que a mesa da cozinha começou a se transformar. Livros se empilhavam ao lado da fruteira, cadernos permaneciam abertos durante dias e muitas conversas atravessavam a noite enquanto as crianças dormiam. Numa noite fria, deparamos com uma pergunta tão antiga quanto atual: afinal, o que significa conhecer a si mesmo?
Abandonamos os mapas prontos e fizemos daquela pergunta a nossa bússola.
Aos poucos compreendemos que, na tradição cristã que estudávamos, conhecer-se não significava alimentar a própria autoestima nem buscar fórmulas de realização pessoal. Era algo muito mais exigente. Significava reconhecer as próprias limitações com honestidade, abandonar as máscaras que usamos até diante de nós mesmos e permanecer disponível para que Deus nos transformasse. Descobrimos que, sem humildade, o autoconhecimento pode facilmente se transformar numa forma refinada de orgulho.
Daquelas notívagas conversas nasceu uma prática simples, anotada no velho caderno sempre aberto na mesa da cozinha. Não pretendíamos criar método algum; apenas buscávamos disciplina para não nos perder nas emoções do momento.
Primeiro, orar. Não para convencer Deus de coisa alguma, mas para apresentar diante d'Ele aquilo que realmente habitava o nosso coração.
Depois, silenciar. Descobrimos que o silêncio não é apenas ausência de palavras. É o exercício paciente de diminuir o ruído do ego para perceber aquilo que normalmente passa despercebido.
Por fim, observar. Não os outros, mas a nós mesmos. Não aquilo que dizíamos acreditar, e sim aquilo que nossas atitudes revelavam quando a vida contrariava as nossas expectativas.
Foi nesse período que nos lembramos de uma antiga narrativa popular, tradicionalmente atribuída a Sócrates, mas sem comprovação histórica, segundo a qual toda palavra deveria passar por três filtros antes de ser acolhida. Não importava tanto a autoria da história, mas a sabedoria que ela continha. Sempre que surgia uma conclusão precipitada, uma crítica ou mesmo um julgamento sobre nós ou sobre alguém, procurávamos perguntar: isto é verdadeiro? É realmente necessário? Produzirá algum bem?
Essas perguntas não resolveram todos os nossos conflitos. Também não eliminaram nossas incoerências. Mas diminuíram a distância entre aquilo que desejávamos ser e aquilo que efetivamente éramos.
Pouco a pouco, aprendemos a reconhecer nossos erros sem desespero e a recomeçar sem transformar cada tropeço numa sentença definitiva. Entendemos também que nenhuma espiritualidade amadurece no isolamento. A experiência com Deus só encontra sentido pleno quando floresce na convivência, na caridade e no serviço ao próximo.
Ainda hoje, todas as manhãs, enquanto o café passa, meus olhos encontram aquele pequeno espelho na parede da cozinha. O condomínio continua o mesmo. Os carros permanecem na garagem. Os meninos crescem. A vida segue com suas alegrias e dificuldades de sempre.
O que mudou foi o reflexo. Hoje compreendo que conhecer a si mesmo nunca foi descobrir uma versão ideal de quem somos, mas permitir que Deus revele, com paciência, aquilo que ainda podemos nos tornar. É um caminho lento, por vezes doloroso, quase sempre silencioso, mas extraordinariamente libertador.
Olho para a estrada percorrida e, com a serenidade de quem aprendeu que as maiores transformações acontecem sem alarde, posso dizer: Deus é sempre bom.
Nenhum comentário:
Postar um comentário