Feira livre


 No outro dia, dei por mim caminhando pela feira livre de Marechal Floriano. Cheiro molhado de uma manhã chuvosa e fria, frutas frescas, verduras e muita gente circulando. Um senhor que parecia ter saído de um filme antigo, que me abordou sem pedir licença: suspensórios segurando as calças, o inconfundível berretto italiano na cabeça. Desandou a falar de seus antepassados como se eu fosse seu conhecido de longa data. Com muito orgulho e entusiasmo, falava como os primeiros de sua família chegaram àquela região montanhosa, as dificuldades para desbravar a terra e criar os filhos. Eu tentava ouvir com atenção, mas minha mente já tinha ido embora dali.

Foi o sotaque colonista que deu o estalo. Meu pensamento voou direto para Vitória, para os sábados de feira em Jardim da Penha.

Feira livre é um universo à parte, um caos com regras próprias, e Jardim da Penha não é exceção. 

Numa manhã recente, com gente passando pra cima e pra baixo, desviando por milímetros, carregando bolsas, sacolas plásticas, e carrinhos abarrotados. No meio do burburinho, um violinista tirava notas chorosas de um bolero, acompanhado por um playback cansado saindo de uma caixinha de som. O estojo do instrumento, aberto no chão, esperava moedas de quem quisesse pagar pelo fundo musical daquela correria. Quase ninguém olhava.

Mais adiante, o contraste beirava o cômico. Um candidato a vereador distribuía santinhos e sorrisos automáticos — abraços mecânicos, como se fosse um robô programado para simular afeto. A poucos metros desse teatro, um mendigo sentado bem no meio do caminho fazia do próprio corpo um obstáculo físico, na tentativa desesperada de capturar a atenção de quem insistia em olhar para o horizonte.

Escapando dessa densidade toda, parei na barraca de mel. Olhei pra garrafa dourada e, num espírito puramente brincalhão, soltei:

— Isso aqui é daquilo que a abelha também faz?

O homem do mel me olhou meio espantado e reagiu na hora. Rosto vermelho:

— Então você acha que o meu produto é falso? Você me tira por quem?!

O que eu achava brincadeira boba quase virou confusão de feira. Pedi desculpas rápido, saí de mansinho, o vendedor ainda resmungando lá atrás. Mas a reação foi tão desproporcional que a dúvida ficou pendurada no ar enquanto eu me afastava: será que o mel era falso mesmo? Saí dali sem saber se havia encontrado um homem excessivamente sensível ou um mel excessivamente suspeito.

Ainda um pouco incomodado com a cena, fui andando sem pensar muito pra onde, só seguindo o cheiro de pastel frito, até dar de cara com o japonês da kombi. Pedi um caldo de cana trincando de gelado e um pastelão de palmito, aqueles que a gente morde e sai o vapor quente. O famoso pastel de vento, recheio só na ponta, mas que na hora da fome é iguaria divina. Pequena refeição, mundana, saborosa. Sempre vale a pena.

Terminei o trajeto no setor de peixes. Na barraca do Serjão, garanti o prato principal: um belo badejo fresco e camarões daquele tamanho. Passei ainda pelas hortaliças — coentro, cebolas, tomates e urucum. Hoje vai ter moqueca capixaba lá em casa, e como já dizia o saudoso jornalista Cacau Monjardim, “o resto é peixada.”

Com os braços pesados de sacola, fui juntando os cacos daquela manhã. A feira livre é o maior palco da nossa existência: o lugar onde os corpos se cruzam o tempo todo, mas os olhares nunca se encontram. Cada um ali fechado na sua própria missão — achar o melhor preço, pegar a fruta mais firme, ir embora logo — como se o outro fosse só mais um obstáculo no caminho, tanto faz se é mendigo, candidato ou violinista.

Simmel escreveu sobre isso há mais de cem anos, sobre como a cidade grande nos ensina a nos blindar do excesso de gente, cor, som e apelo. Mas não precisa de livro pra ver: o candidato abraça sem sentir, o pedestre desvia do mendigo como desvia de um poste, o violinista toca pro vento, e o feirante — esse, ao menos, ainda reage com raiva de verdade quando alguém mexe no que é dele. Justa ou não, talvez tenha sido a única reação genuína da manhã inteira.

E no almoço, a moqueca borbulhando dentro da panela de barro devolve um pouquinho de calor àquilo que a feira, com toda sua vivacidade barulhenta, tinha deixado para trás.


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