A urgência de não entender

 

por Giovanni Angius, em 21/7/2026.

Há esperança infinita, mas não para nós.

O sentido da vida é que ela termina.

Franz Kafka.

Lembrei de certo dia, à tarde, quando encontrei com o Orlando, um velho amigo desde os tempos em que trabalhávamos na Vale. Sentamos numa mesinha de uma lanchonete localizada em uma grande loja de departamentos, em Goiabeiras. Foi tanto papo que quase esquecemos o que tínhamos ido comprar.

Lá pelas tantas, entre um pão de queijo e outro, a conversa enveredou para os nós que a gente dá na própria cabeça. O Orlando mexeu o açúcar no café e soltou, meio sem jeito:

— Penso demais, meu caro. Mas não é um pensar bonito, não. É um pensar que me rói por dentro.

Contou que havia dias em que acordava e, antes mesmo de pôr o pé fora da cama, a cabeça já engrenava num falatório sem fim. Uma dúvida puxava a outra e, quando assustava, já estava ali se debatendo com culpa, escolhas, o rumo das coisas — essas palavras pesadas que a gente insiste em carregar sem necessidade.

Perguntei quando tudo aquilo havia começado. Ele apenas deu de ombros.

— Acostumei com a companhia dos próprios pensamentos.

Enquanto isso, a vida acontecia. Seus filhos cresceram, estudaram, formaram-se na UFES, construíram suas carreiras, casaram. Vieram os netos, cinco pequenos que transformavam qualquer reunião de família numa mistura de risadas, brinquedos espalhados e gente correndo de um lado para o outro.

O Seu Orlando, agora calvo e grisalho, sempre enxergara tudo isso como algo natural, quase uma obrigação cumprida. Nunca parara muito para pensar que, em tempos de famílias tão fragmentadas, manter uma casa cheia de afeto talvez fosse uma das maiores conquistas de sua existência.

Seu olhar insistia em procurar o que faltava. Vivia convencido de que existia alguma coisa errada consigo. Sentia uma culpa difícil de explicar. Como se estivesse sempre devendo algo a alguém ou à própria vida. Havia dias em que o mundo parecia opaco, indecifrável. Tudo era motivo para reflexão, e cada uma delas parecia abrir outras tantas. Pensava tanto nas possibilidades de fracasso que acabava adiando algumas decisões. Imaginava cenários, consequências, riscos, perdas. A mente produzia labirintos com uma eficiência admirável.

Ao tentar saber o que sua esposa achava daquilo, ele confessou que nunca dividira essas inquietações com ela.

— Não converso nem com ela, nem com os filhos. Não falo disso com ninguém. Fica tudo aqui dentro.

Até que, numa manhã comum, o destino resolveu simplificar as coisas. A filha bateu à sua porta afobada, bolsa a tiracolo, checando o celular:

— Pai, me salva! Deu um pepino gigantesco no trabalho e não tenho com quem deixar o menino. Você fica com ele hoje?

— Claro, minha filha. Entra. Quer que eu vá junto?

— Não, não, coisa rápida, eu resolvo. Beijo, amo vocês!

Nem deu tempo de responder. A porta bateu e o Orlando sobrou ali na sala, olhando para baixo, segurando uma mãozinha que nem cabia inteira na dele.

O menino olhou para o avô como quem não carregava nenhuma preocupação além de descobrir qual seria a brincadeira do dia. Foram para o quintal.

Enquanto Orlando ainda organizava mentalmente o que fariam, o menino já havia encontrado um graveto, duas pedrinhas e um pedaço de terra úmida que, aos olhos dele, pareciam suficientes para construir um universo inteiro.

Passou boa parte da manhã inventando estradas entre os canteiros da horta da avó. Conversava sozinho, ria das próprias descobertas, enchia as mãos de terra e chamava o avô apenas para mostrar alguma novidade extraordinária que existia somente na imaginação dele.

Depois veio o almoço. Comeu com aquele entusiasmo que só as crianças conhecem, como se cada colherada fosse uma celebração. Pouco depois, deitou-se no sofá. Dormiu profundamente, o peito subindo e descendo lentamente.

Foi olhando o menino dormir no sofá que algo cedeu por dentro. Não houve revelação, nem grande resposta. Só a percepção, simples e incômoda, de que passara anos exigindo da vida uma explicação ou um manual de instruções que ela nunca prometera dar.

Percebeu que passara tanto tempo interrogando a vida que deixara de notar o que ela já colocava diariamente diante dele: sua família, sua casa, o cheiro da comida vindo da cozinha, a horta que sua esposa cultivava com tanto carinho, as vozes dos netos ocupando os corredores, as conversas sem importância ao redor da mesa.

Ele sorriu e resumiu tudo numa frase:

— Nada disso possui grandiosidade. E justamente aí reside o seu valor.

Orlando me disse que entendeu, naquele momento, que seus conflitos continuariam existindo. A angústia não desapareceria fácil. Continuaria convivendo com perguntas difíceis, com limites, com dúvidas e com essa estranha sensação de que há partes da existência que jamais compreenderemos completamente.

A diferença estava em outro lugar. Ele podia deixar de exigir que tudo fosse explicado antes de ser vivido. Podia aceitar que algumas perguntas permaneceriam abertas e, ainda assim, continuar caminhando.

Confessou que, enquanto passava anos interrogando o futuro, a vida ia acontecendo no silêncio da casa: no cheiro do alho fritando na cozinha, na esposa cuidando dos canteiros, nas risadas fora de hora dos netos. E isso valia muito.

Naquela tarde, o Orlando não encontrou a resposta que buscava há tantos anos. Descobriu apenas que viver, às vezes, pede menos explicações e mais presença. E isso, surpreendentemente, já era suficiente.


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