A recaída


 Poucos lugares revelam tanto sobre o ser humano quanto uma fila de supermercado em horário de pico. O ar-condicionado parece não dar vazão, o bipe dos caixas registradores soa como uma tortura em código Morse e a impaciência coletiva é quase palpável. Dias atrás, eu estava exatamente nesse cenário, segurando minhas compras, quando um estardalhaço rompeu o murmúrio do lugar. Alguns caixas adiante, um senhor irado gesticulava, berrando com a operadora e, logo em seguida, com o gerente. O motivo? Uma bobagem qualquer: a lentidão do sistema, o cartão que não passava, o mundo que teimava em não funcionar no ritmo dele.

Contive a respiração e, por um hábito antigo, quase automático, contei até três antes de deixar qualquer julgamento se formar.

Olhei com mais atenção. Sob as rugas profundas e o cabelo totalmente branco, reconheci o homem. Ele foi meu vizinho no bairro de Jucutuquara, quando eu ainda era uma criança. Na época, ele já era um adulto feito; hoje, devia estar raspando na casa dos oitenta anos, ou mais. Evitei o contato visual. Naquele instante de fúria, o melhor era passar despercebido. Chegou a minha vez, paguei minhas coisas e saí de mansinho, deixando para trás os gritos que ainda ecoavam até o estacionamento.

Naquela mesma noite, comentei o episódio com meu irmão, Sérgio, enquanto tomávamos um café na casa dele.

— Sabe quem eu vi hoje no supermercado? Nosso antigo vizinho de Jucutuquara. Cara, o homem estava possesso, armando o maior barraco no caixa. E pelo que eu lembrava, ele era todo paz e amor, chegado às coisas de meditação transcendental, incenso...

Sérgio deu um sorriso de canto de boca, daqueles de quem sabe de algo mais.

— Pois é... hoje ele anda metido num grupo de estudos de estoicismo.

Engasguei com o café.

— Como assim, estoicismo? Mas o homem parecia uma panela de pressão explodindo!

— Vai saber... — respondeu Sérgio, dando de ombros.

Ri, mas por dentro senti um desconforto esquisito, quase um reconhecimento — como quem vê, de longe, um espelho rachado.

Aquilo me acompanhou de volta para casa e grudou nos meus pensamentos. Fiquei pensando na ironia da vida. Como alguém que dedica anos a buscar uma mente ordenada e uma vida emocionalmente serena se deixa levar por uma explosão de ira tão mundana? A fila lenta, o cartão recusado ou a incompetência do sistema são o que os pensadores chamam de indiferentes. Não pertencem à nossa jurisdição moral. Estão fora do nosso controle.

O velho vizinho devia saber disso, ao menos na teoria. Mas ali, no calor do momento, o intervalo precioso entre estímulo e reação simplesmente sumiu. Ele foi engolido pela paixão, que na filosofia antiga nada mais é do que o assentimento precipitado a uma impressão errada. Ele olhou para a máquina travada e decretou internamente: “Isso é um mal terrível contra a minha pessoa!”. Sêneca dizia que a raiva nasce do orgulho ferido, da ilusão de que fomos injustiçados ou desprezados. Talvez o gatilho real não tenha sido o atraso em si, mas a humilhação sutil de parecer incompetente ou vulnerável diante de um monte de estranhos nos observando.

Mas quem sou eu para apontar o dedo? No fundo, a maior lição daquela cena não foi o erro dele, mas o meu. Julguei um homem inteiro por um instantâneo de trinta segundos. Rotulei o idoso de estressado e mal-educado, esquecendo que o que eu testemunhei não foi o fracasso de uma filosofia, mas a exaustão de um corpo. Epicteto já alertava que a vigilância constante sobre os nossos julgamentos cansa. Vai saber se ele não estava simplesmente exausto.

Ninguém está imune à recaída. A prática de uma filosofia, de uma terapia ou de uma fé não funciona como uma armadura definitiva que nos torna invulneráveis; é mais como um treino diário e reversível. O deslize dele me lembrou, com uma boa dose de humildade, que todos nós temos o nosso próprio “caixa de supermercado” particular — aquele pequeno evento banal que, num dia ruim, expõe a rachadura do nosso autocontrole.

Já em casa, a cozinha estava silenciosa. Sentei-me à mesa, ainda de casaco, com o peso do que acabara de presenciar. Servi um copo d’água, mas nem bebi. Peguei meu velho caderno surrado de capa preta, aquele onde, há mais de vinte anos, tento anotar meus próprios tropeços antes de dormir, numa tentativa solitária de buscar na filosofia antiga as respostas que a pressa moderna não dá.

Abri a página e, com a escrita um pouco trêmula, registrei o ocorrido. Sorri sozinho, sem alegria, apenas com a ironia de quem reconhece a própria pequenez.

Amanhã, bem cedo, contarei a história de forma leve numa crônica: “vi um homem descontrolado no caixa…”.

Mas, nas linhas do meu caderno e no fundo do meu coração, sei que testemunhei a prova mais honesta de que necessito da filosofia justamente porque todos somos tragicamente frágeis, mas ainda capazes, às vezes, de falar sobre isso: o velho no seu grupo estoico, eu na minha crônica solitária.


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