As batidas na mesa

 

por Giovanni Angius, em 31/7/2026.

Antes mesmo de lembrar da conversa, lembro do som dos dedos de Carmem, impacientes, batendo no tampo de madeira da mesa da cozinha.

Dona Carmem é professora de biologia, uma mulher brilhante, conhecedora da complexidade da síntese proteica, da elegância do ciclo de Krebs, e de tantos outros assuntos. Mas, naquele dia, o desafio dela não era uma questão acadêmica. Era o seu filho de quinze anos, Leo.

— Leo, isso é lógico! — dizia ela, a voz subindo meio tom na escala da frustração. — Se você não organizar seu estudo, priorizar as tarefas pelo peso da nota, o tempo vai acabar justo na véspera das provas. Eu já te expliquei inúmeras vezes! É simples matemática de planejamento!

Leo estava sentado do outro lado da mesa. Os ombros curvados, as mãos afundadas nos bolsos do moletom. Ele não estava sendo rebelde; estava, sim, genuinamente perdido.

Eu acompanhava a cena da poltrona ao canto, tentando ler um livro da doutora Elizabeth Newton. Na cabeça de Carmem, imaginei, tocava uma sinfonia inteira — os prazos, as consequências, as notas do final do trimestre compondo uma partitura clara como o dia. Mas o que chegava a Leo era só o tamborilar dos dedos na madeira. O ritmo sem a melodia.

Em sala de aula, Carmem, impecável em explicar conceitos, diante do filho fracassava. Quanto mais ela dominava o assunto, mais incapaz parecia de descer até o degrau zero — aquele onde a dúvida dele realmente morava.

— Mãe, eu sei o que tenho que fazer — murmurou Leo, a voz carregada daquela apatia defensiva típica dos adolescentes. — Você quer que eu estude. Eu vou estudar. Pronto.

— Não é estudar e pronto, Leo! É como você estuda! — Carmem suspirou, esfregando as têmporas, convencida de que o problema do filho era preguiça ou falta de atenção.

A tensão na cozinha estava prestes a transbordar quando a campainha tocou. Era Bia, colega de turma do Leo, que tinha vindo ajudá-lo em um trabalho de história.

Bia entrou com a mochila pesada em um dos ombros, cumprimentou Carmem com um sorriso educado e percebeu a névoa pesada no ar. Era a válvula de escape que interrompeu o curto-circuito.

— Vamos lá pro quarto, Bia — disse Leo, levantando-se rápido para escapar do interrogatório da mãe.

Carmem me olhou, desolada, assim que os dois saíram da cozinha.

— Eu não sei mais como falar com ele — desabafou ela, servindo-se de um café. — Parece que falamos línguas diferentes.

Não respondi de imediato. Pouco depois, fui até o corredor buscar um copo d'água e passei pela porta entreaberta do quarto de Leo. Parei por um segundo, observando a cena lá dentro.

Bia estava sentada no chão, com o caderno aberto. Não havia sermões nem teorias.

— Ó, Leo — disse Bia, riscando um quadrado simples na folha. — A prova de história vale quatro. Matemática vale oito e é depois de amanhã. Bora nessa primeiro.

E completou:

— O que a gente precisa fazer nas próximas duas horas para não zerar na lista de exercícios?

Leo olhou para o papel. O olhar dele mudou. A névoa defensiva sumiu.

— Ah... se for só este tempo, a gente começa pelo exercício três, que é o que vai cair com certeza.

— Isso — disse Bia, simples assim. — Uma questão. Depois a gente vê as demais.

Sorri, sozinho, no corredor. Bia não era uma especialista em métodos de estudo; ela apenas estava no mesmo nível de aprendizado e de descoberta que o Leo. Para ela, o óbvio ainda não era óbvio, então ela precisava desenhar cada degrau.

Voltei para a cozinha. Carmem ainda olhava para a xícara do café, em silêncio. Não falei nada sobre o que tinha visto no corredor. Apenas me sentei de novo na poltrona e reabri o livro.

Ela ficou algum tempo ali, parada, como quem ouve um som que ainda não sabe nomear. Depois se levantou, foi até a pia, lavou a xícara devagar — e, antes de sair da cozinha, parou na porta do corredor, olhando na direção do quarto do filho, sem entrar.


Transformações importantes com Mercúrio em movimento

 

por Giovanni Angius, em 30/7/2026.

Dona Ester segurava a folha da revista pela ponta dos dedos, o papel oscilando no mesmo ritmo frágil da cortina da cozinha sob o vento da manhã. Óculos na ponta do nariz, testa vincada por dois sulcos verticais profundos.

“Este mês será marcado pela criatividade, comunicação e transformações importantes.”

Tirou os olhos do papel e encarou a vidraça. Lá fora, o mundo não parecia muito preocupado com transformações alinhadas pelas estrelas, mas na sala ao lado o caos era bem terreno: várias caixas de papelão abertas, o véu pendurado no espelho do corredor, e o telefone que não parava de tocar com a voz sobressaltada do responsável pelo buffet avisando que faltavam garçons para o sábado. A filha se casaria em sete dias.

Suspirou. Voltou à página amarelada e leu o rodapé em letras miúdas: “Lembre-se: a intensidade dessas energias depende da forma como interagem com o Mapa Astral de cada indivíduo.”

— Ah, sim... — murmurou para a xícara de café à sua frente. — Vai depender de como eu arrumar essa confusão.

Do outro lado do muro, Teresa, amiga de tantos anos que já nem se contavam mais, tinha a mesma revista aberta na mesma página, naquela mesma semana, as mesmas “transformações importantes”. Só que para ela aquilo não era buffet nem véu: era um exame crítico que o médico pedira, marcado justamente para aquela semana. Duas vizinhas, duas urgências completamente distintas, e a mesma frase servindo a ambas.

A tensão nos ombros de Dona Ester cedeu um milímetro. Como uma nuvem rápida que dá passagem ao sol, a testa desfranziu.

Eu olhava a cena de canto de olho, com o meu habitual ceticismo de estimação. É fácil, para quem está de fora, acusar o horóscopo de ingenuidade ou atalho lógico. Mas a verdade é que o cérebro humano tem horror ao vácuo e ao imponderável. Diante de um buffet atrasado, de uma filha que sai de casa ou da vida que corre rápido demais, a razão pura é um consolo muito frio.

O que o horóscopo vende não é astronomia; é um espelho sob medida. Suas frases são deliberadamente amplas, como roupas de tamanho único nas quais cada um acomoda a própria dor ou esperança. Dizer que o dia está difícil porque Mercúrio resolveu andar para trás não deixa de ser uma forma elegante de tirar a culpa do acaso e devolver uma ilusão de ordem ao universo. Não buscamos a verdade empírica na página do jornal; buscamos apenas a garantia de que o caos tem um roteiro.

A semana devorou os dias sem pedir licença. Chegou o sábado, o sim, o brinde, o bolo que afinal apareceu a tempo, os aplausos e os abraços apertados. A festa foi impecável.

No domingo, o silêncio da casa parecia maior do que a própria sala. Sobrou apenas o cheiro de flores murchas na jarra e a ressaca mansa do dever cumprido. O novel casal estava a caminho da lua de mel, já no aeroporto.

Dona Ester finalizou a arrumação da cozinha depois do café da manhã e sentou-se na poltrona da sala. Pegou a revista da semana anterior para jogá-la fora, não sem antes dar uma passada de olhos, relendo a previsão da semana do casamento.

— Viu só? — disse baixinho, satisfeita — disse que ia ter transformação.

Mas não se perguntou o que, naquela semana, não poderia ser chamado de transformação.

De repente, deu um estalo com a língua:

— Meu Pai do céu... preciso olhar a revista nova para ver como vai ser a vida daqueles dois agora!

Sorri em silêncio. E assim seguimos todos nós: uns com a régua da lógica, outros com o mapa do zodíaco, mas todos, sem exceção, tentando encontrar no céu uma desculpa bonita para a bagunça que é viver.


O Diretor na parede

 

por Giovanni Angius, em 29/7/2026.

A chuva escorria pelo vidro da janela desenhando caminhos tortos. Lá fora fazia frio. Lá dentro, cheiro de álcool, café requentado e cansaço. Eu estava sentado numa cadeira de plástico azul, dessas que parecem sempre um pouco menores do que a gente precisa, esperando minha vez de ser chamado.

Quem frequenta um pronto-socorro sabe que existe um tempo diferente ali. O relógio continua preso à parede, os ponteiros continuam girando, só que as horas parecem perder o compromisso com a pressa.

Foi nesse intervalo estranho que reparei numa senhora sentada algumas cadeiras adiante. O neto dormia em seu colo, ou tentava dormir. O rosto vermelho denunciava a febre, e ela passava um lenço úmido sobre a testa do menino como quem repetia um gesto aprendido muito antes de existirem os termômetros. Ela havia chegado horas antes de mim.

Enquanto observava a cena, meus olhos foram parar num cartaz pendurado na parede. Nele aparecia a fotografia sorridente do diretor do hospital. Terno impecável, gravata alinhada e um slogan otimista logo abaixo: “Gestão Presente, Eficiente e Humana.”

Fiquei olhando aquele retrato por alguns minutos. Engraçado como uma fotografia consegue parecer mais segura do que a realidade ao redor.

Sem perceber, minha cabeça começou a procurar uma explicação. Se o diretor conhecia aquela fila, sabia da febre do menino e tinha autoridade para mudar as coisas, por que tudo permanecia exatamente igual?

Logo descartei essa hipótese. Era dura demais.

Pouco depois, um senhor que também aguardava atendimento comentou que o diretor devia ser uma excelente pessoa. Disse que fazia o possível pelo hospital e que, se estivesse ali vendo aquela sala lotada, certamente daria um jeito.

Aquilo embaralhava completamente o cenário.

Quem sabe o problema fosse outro. O homem da fotografia vivia cercado de relatórios, planilhas e reuniões, enquanto a realidade seguia outro caminho, bem distante da sala onde assinava papéis. Entre o gabinete e a sala de espera havia uma distância maior do que a mostrada no elevador.

Não demorou muito para surgir outra versão. Uma enfermeira passou apressada pelo corredor e, conversando com outra funcionária, comentou que a direção conhecia perfeitamente a situação. O problema eram os médicos insuficientes, a falta de recursos e medicamentos, os equipamentos quebrados, os repasses atrasados. Ouvi aquilo sem querer, como acontece em qualquer sala de espera.

Pensei, então, que havia gente que enxergava o sofrimento, desejava resolvê-lo e, mesmo assim, esbarrava em obstáculos maiores do que a própria vontade.

Enquanto eu alinhava essas ideias na cabeça, um homem sentado perto da porta tomou o último gole de café e falou quase num sussurro, sem dirigir a palavra a ninguém em especial:

— O diretor existe. Só vive ocupado demais para descer aqui.

Sorri discretamente. A frase parecia brincadeira, mas carregava um peso inesperado.

Naquele instante percebi que todos nós construíamos explicações diferentes para suportar a mesma espera. Cada pessoa inventava uma história capaz de tornar aquele sofrimento um pouco mais compreensível.

A avó seguia refrescando a testa do menino. Uma criança brincava com um carrinho sem uma roda. Uma televisão ligada no volume baixo alternava notícias com receitas culinárias que ninguém assistia.

A chuva continuava caindo fria do lado de fora. E a vida seguia fazendo a sua parte ali dentro.

Naquele instante percebi que todos nós construíamos explicações diferentes para suportar a mesma espera. Quando alguma coisa dói, procuramos alguém que saiba o que está acontecendo, alguém que tenha condições de resolver ou, pelo menos, alguém que se importe. É um jeito de convencer o coração de que existe alguma lógica escondida por trás do caos.

Às vezes encontramos apenas uma fotografia sorridente numa parede descascada.

Quando finalmente chamaram o nome da Dona Maria, ela levantou devagar, ajeitou o menino nos braços e desapareceu pelo corredor.

Olhei a cadeira vazia que ela deixou para trás.

Pensei que, durante aquelas horas, quem realmente enfrentou a febre não foi o homem do cartaz. Foram as mãos enrugadas que seguraram o pano molhado, o abraço que embalou a criança e a paciência silenciosa de quem não tinha outra escolha.

Quando saí do hospital, levei comigo a impressão de que a fotografia na parede jamais responderia às perguntas que eu havia feito em silêncio. Quem respondeu, sem dizer uma palavra, foi Dona Maria, refrescando a testa do neto enquanto esperava.

Às vezes, o mundo continua sem explicação. Ainda assim, alguém pega um pano molhado, oferece um colo e segue em frente, fazendo o que é possível.


Entre a tela e o caderno

 

por Giovanni Angius, em 29/7/2026.

Reconheço os moradores da minha rua antes de os ver passar. Pela cadência dos passos nas calçadas estreitas, pelos barulhos que carregam, pelo horário em que o portão bate. Miguel eu conheço assim há anos — pelo arrastar de tênis contra o paralelepípedo, sempre no mesmo compasso, como quem pisa um chão que já decorou de olhos fechados. Dezesseis anos, testa baixa, polegar colado à tela do celular mesmo quando cumprimenta alguém. Um garoto de quem todo o condomínio de casas sabe o nome, as gírias, o jeito de andar — e do qual, eu suspeitava, ninguém sabia praticamente nada.

Foi a dona Célia, da casa da frente, quem comentou como se espantava de vê-lo a manhã inteira sem tirar os olhos da tela, nem para o café, nem para dar um bom-dia. Eu mesmo via, de minha varanda, aquele polegar deslizando com uma precisão que não tinha nada de distração — parecia antes um ofício, um trabalho sério e sem pausa. Uma vez perguntei, à toa, se ele tinha visto o jogo do dia anterior. Ele me olhou como quem acorda de um lugar muito distante e só depois de alguns segundos respondeu:

— Sim, claro que sim. Todo mundo viu.

Não sei quando comecei a notar o padrão: o humor de Miguel parecia depender menos do mundo ao redor do que aquilo que acontecia na tela. Eu me perguntava se Miguel ainda existia quando a tela apagava.

Da rua, também se ouvia o vocabulário da sua turma, gritado de esquina a esquina nas tardes de calor:

— Não vacila.

— Cadê tu, vacilão?

Uma gramática que não perdoava hesitação, e da qual Miguel parecia dependente como de um remédio, e ausentar-se dali, eu imaginava, devia ser como sumir do mundo.

Veio a crise, sem aviso, no quarto escuro, logo após um dia de engajamento impecável. O peito espremeu o ar, o teto pareceu descer alguns centímetros. Miguel estava apavorado.

Eu só soube de segunda mão, pela empregada que trabalha na casa ao lado da dele. Disse que ouviu, de madrugada, um som estranho vindo do quarto de Miguel — como se faltasse ar a alguém. Não houve ambulância, nem alarde. Na manhã seguinte, ele desceu como sempre, tênis arrastando no mesmo compasso, e eu não teria notado nada se não soubesse.

Soube também que a escola o mandou à sala da orientação, e que de lá saiu uma pergunta que ele repetiu, sem querer, para um amigo na calçada, que por sua vez comentou com a mãe, que comentou com dona Célia:

— Quando ninguém está olhando, o que você tem vontade de fazer?

— Às vezes eu queria ficar quieto... desenhar, escrever umas coisas que não são para postar. Só para mim. — respondeu quase sussurrando.

Talvez o diálogo não tenha sido exatamente este. Histórias de vizinhança se desgastam de boca em boca, como pedra de rio. Mas alguma coisa parecida deve ter sido dita, porque depois disso, havia algo diferente no andar de Miguel — não mais leve, não mais feliz, apenas diferente, como quem carrega uma carga nova e ainda não se conhece o seu tamanho.

Uma noite, já bem tarde, olhando da minha janela para o beco entre as casas, vi seu quarto aceso e, por um instante, um caderno de capa preta aberto sobre a mesa. Hesitava diante dele com uma caneta na mão. Rabiscou qualquer coisa, mas logo em seguida o fechou.

Sei que houve uma festa, semana passada, para a qual todo o grupo dele foi convocado por mensagens — soube porque as mesmas frases ecoaram pela rua a noite inteira, um coro de celulares vibrando em bolsos de adolescentes impacientes na calçada. Soube também, pela mesma cadeia de meias-verdades que me traz tudo sobre o condomínio, que Miguel não saiu.

Não vi o que houve dentro do quarto dele. Ninguém viu. Só sei que, quando finalmente apaguei minha luz, a dele continuava acesa — não com a claridade azulada e fria de sempre, mas com um brilho mais baixo, amarelado, o de um abajur de mesa. Fiquei sem saber, e ainda não sei, se aquilo era alívio ou apenas outra forma de vertigem. Ou será que o caderno de capa preta estava aberto à sua frente?

Há chãos que só parecem firmes enquanto ninguém repara neles de perto.


Reparando bem…

 

por Giovanni Angius, em 28/7/2026.

Dia desses, junto com alguns amigos, a conversa seguia alegre e sem compromisso. Falávamos de tudo um pouco: saúde, família, notícias da cidade.

Um dos amigos, que passou boa parte da vida na área de Inteligência da Polícia Militar — função que exige atenção irrestrita —, resumiu a coisa sem qualquer solenidade:

— Observar, memorizar e saber descrever.

Disse aquilo para ilustrar como algumas pessoas são observadoras e como cobram dos outros detalhes que às vezes parecem impossíveis de resgatar da memória. A frase ficou no ar por alguns segundos. Ele contava, rindo, que costuma brincar com sua esposa — uma mulher capaz de enxergar o invisível: a cor exata da camisa de um estranho, a moldura trocada na parede, a marca do carro dobrando a esquina. Enquanto ela nota o mundo, muitos atravessam a rua de olhos semicerrados.

Voltei para casa pensando naquela sequência de três verbos. Observar. Memorizar. Descrever.

É curioso como uma frase criada para o trabalho policial acabou encontrando morada dentro de mim por um motivo completamente diferente. Quem escreve vive disso.

Percebi que, sem saber, passo boa parte dos meus dias fazendo exatamente esse exercício. Observo pessoas esperando o sinal abrir. Reparo na senhora que dobra cuidadosamente a sacola do mercado antes de guardá-la na bolsa. Escuto um vendedor ambulante repetindo a mesma piada para clientes diferentes. Vejo um menino equilibrando um sorvete enorme, compenetrado na missão de fazê-lo chegar inteiro à próxima esquina.

Quase ninguém presta atenção nessas cenas. Elas acontecem, desaparecem e cedem lugar às próximas, como pequenas ondas que quebram na praia sem deixar vestígios.

Só que algumas permanecem comigo. Não porque sejam extraordinárias. Pelo contrário. Permanecem justamente porque pertencem ao território das pequenas coisas.

Gosto muito da ideia de cultivar a capacidade de enxergar significado onde quase todos veem banalidade. Acredito que o espírito de uma época se revela muito mais nos gestos discretos do cotidiano do que nos grandes discursos, como se a verdade morasse nas margens, escondida em detalhes que passam depressa diante dos nossos olhos.

Quanto mais penso nisso, mais percebo que viver é a arte da atenção. O problema é que andamos ocupados demais. Entramos na padaria com os olhos no celular. Almoçamos pensando na reunião da tarde. Caminhamos pela rua totalmente absortos. Quando percebemos, o dia inteiro passou sem que estivéssemos presentes em nenhum momento.

Depois reclamamos da velocidade do tempo, quando, na verdade, quem estava acelerado éramos nós mesmos.

Há dias em que volto para casa tentando reconstruir mentalmente o caminho que fiz. Quem encontrei? Que cheiro havia na rua ou no café na esquina? O céu estava limpo ou carregado? Em algumas ocasiões descubro, com certo constrangimento, que não consigo responder à maioria dessas perguntas. Passei por tudo aquilo sem realmente ver. Essa constatação costuma me incomodar.

Escrever acabou se tornando uma espécie de antídoto contra essa distração permanente. Quando sei que uma cena pode virar crônica, meu olhar muda. O mundo deixa de ser pano de fundo e passa a ocupar o centro da experiência. Um banco de praça, uma conversa no elevador ou uma criança tentando equilibrar uma bola nos pés adquirem uma importância inesperada.

Cada detalhe parece dizer alguma coisa, mas nem sempre consigo entender a mensagem. Ainda assim, gosto de registrá-la. Existe uma melancolia discreta nesse hábito: as pessoas falam como se as palavras fossem durar no tempo. Fazem gestos que imaginam inesquecíveis. Riem, discutem, abraçam-se, despedem-se. Depois a vida segue seu curso silencioso. Algumas horas bastam para que quase tudo seja apagado da memória coletiva.

O planeta continua girando com indiferença.

É estranho pensar que muitas cenas desapareceriam completamente se ninguém resolvesse guardá-las dentro de uma lembrança ou de um texto. Talvez seja essa uma das funções mais bonitas da literatura. Ela recolhe aquilo que o tempo costuma abandonar pelo caminho.

No fim das contas, aquela frase do amigo ainda continua ecoando na minha cabeça. Observar, memorizar e saber descrever.

Para um profissional de Inteligência, isso pode significar segurança, precisão e responsabilidade. Para mim, significa um jeito de caminhar pelo mundo tentando não desperdiçar a vida. E quem sabe seja aí, escondida entre gestos esquecidos, conversas banais e pequenos instantes, que a existência deixe suas pistas mais sinceras.


Às quatro e dezessete

 

por Giovanni Angius, em 27/7/2026.

O ar no porão estava estagnado e tinha o cheiro de poeira antiga. Os sons abafados que vinham do exterior aumentavam a sensação do tempo parado e da vida suspensa.

Lá fora, o sol das duas da tarde esquentava o telhado da velha casa de madeira, mas ali embaixo, alguns degraus abaixo do nível do solo, a luz entrava por uma janelinha quadrada, alta, ao rés do chão da rua, meio suja dos respingos, e desenhava um recorte pálido no chão.

Alessandro ajoelhou-se sobre o cimento frio. Tinha os joelhos marcados pela poeira cinzenta e as palmas das mãos sujas de fuligem. Havia passado as últimas duas horas arrastando caixas de papelão deformadas pelo tempo, separando o que seria doado do que iria para o lixo. Seu pai falecera há quatro meses, mas só agora reunira a coragem necessária para descer os dezesseis degraus de madeira rangente.

No fundo do porão, sob a sombra projetada por um armário de metal enferrujado, repousava uma caixa de madeira pesada, com dobradiças de ferro escurecido. Alessandro a conhecia. Era a caixa de ferramentas do pai. Na infância, aquela caixa parecia inviolável, um artefato sagrado que apenas as mãos grossas e calejadas do velho podiam abrir.

Antes de abri-la, Alessandro teve um instante de hesitação física. Sua mão parou no ar, paralisada pela rápida lembrança de ser repreendido por mexer naquela caixa. Quando criança, teria que enfrentar o medo que hoje está ausente.

Ele aproximou-se devagar, hesitante. A tampa de madeira rangeu ao ser levantada, libertando um sopro concentrado de óleo de máquina, graxa e ferrugem.

Dentro, entre chaves de boca, alicates e martelos com cabos gastos pelo uso contínuo, algo no fundo chamou sua atenção. Embrulhado num pedaço de flanela xadrez desbotada, havia um objeto menor. Alessandro o pegou e desenrolou o pano.

Era um relógio de bolso antigo, dourado, com o vidro do mostrador trincado. Os ponteiros estavam parados exatamente às 4h17.

Alessandro congelou. Lembrava-se daquele relógio. O pai o guardou a vida inteira, mas nunca o usou. Era o relógio que pertenceu ao avô — um homem rígido, distante, que o pai raramente mencionava e de quem herdara a mesma severidade silenciosa no olhar.

Lentamente, Alessandro passou o polegar pelo vidro trincado. O frio do metal pareceu atravessar sua pele. Naquele instante, o silêncio do porão pesou sobre seus ombros.

Ele não estava apenas segurando um relógio quebrado numa sala escura. Ele estava diante da herança invisível que o pai lhe deixara: a incapacidade de expressar afeto, as palavras engolidas durante as refeições em família e os silêncios profundos formavam a armadura de dureza que o próprio Alessandro, sem perceber, começara a vestir no seu próprio casamento e na relação com o filho pequeno.

O tempo do pai havia parado. O tempo do avô também.

Alessandro sentou-se no chão de cimento, encostando as costas na parede fria. Fechou os olhos e apertou o relógio na palma da mão. Uma lágrima quente abriu um rastro limpo na poeira de seu rosto, seguida por um soluço abafado que ecoou suavemente entre as paredes do porão.

Naquele momento de profunda solidão, os batimentos do coração eram pesados: o som de fora sumindo por um instante, a poeira parada no feixe de luz e as lembranças dolorosas.

Não era um choro apenas de dor pela perda. Era também carregado com um certo alívio e reconhecimento. Ali, na escuridão do submundo da casa paterna, Alessandro olhou para a sombra da sua linhagem — a dor não resolvida dos homens que o precederam.

Momentos depois, deu um respiro a mais antes da virada para o renascimento de si mesmo.

Com a mão livre, ele puxou a coroinha do relógio e girou-a com cuidado. O mecanismo rangeu, hesitou, e então o tic-tac baixo, seco e ritmado voltou a soar no silêncio do porão.

Os ponteiros voltaram a andar.

Ele sorriu sem alegria e sem tristeza, só com aquela serenidade estranha de quem encontra uma fresta. Guardou o relógio no bolso da camisa, bem perto do peito, levantou-se e limpou as mãos na calça. Subiu os degraus lentamente. Lá em cima, o dia continuava quente e os passarinhos seguiam a sua cantoria.

A vida, sem alarde, pedia passagem. Alessandro retornou a ela com um passo mais leve.


O ego e o tempo


por Giovanni Angius, em 26/7/2026

Há um ditado que ouvi tanto a vida inteira que já nem lembro de quem primeiro me contou: quem caminha sozinho chega mais rápido, quem caminha acompanhado chega mais longe. Sempre achei bonito e um tanto óbvio, uma frase que a gente concorda sem pensar direito. Foi revendo umas fotos antigas guardadas no computador que entendi de verdade o que ela queria dizer. E entendi por que me lembrei de Gustavo e Giulia.

Fui estagiário do escritório dos dois, lá no começo, quando ainda cabíamos todos em uma sala só, e o café era feito na mesma cafeteira velha que vivia pifando. Gustavo chegava cedo. Desenhava rápido, decidia rápido e parecia sempre medir o tempo por prazos que só ele enxergava. Giulia era o oposto: chegava suada de tanto andar pelos bairros, conversando com gente que a maioria das pessoas nem cumprimenta. Ela dizia que um prédio só existe de verdade depois que alguém aprende a amá-lo, e Gustavo revirava os olhos toda vez que ouvia isso.

Quando surgiu o concurso da reurbanização, era possível sentir a tensão no ar da sala, quase palpável. Gustavo queria desenhar a solução perfeita e entregar antes do fim do prazo. Giulia queria ouvir o bairro inteiro primeiro. Eu me limitava a fazer cópias, organizar e carregar plantas de um lado para o outro. Via os dois se afastando um pouquinho a cada dia, como duas pessoas que caminham lado a lado numa calçada e, sem perceber, vão abrindo distância até virarem duas calçadas diferentes.

Giulia saiu antes do fim. Lembro do silêncio dela guardando as coisas numa caixa de papelão, sem drama, apenas cansaço. Gustavo terminou o projeto sozinho, dormindo pouco, vivendo de café, e venceu o concurso. Todo mundo comemorou. Eu também comemorei, porque tinha vinte e poucos anos e achava que vencer era a coisa que importava.

Não trabalhei mais com nenhum dos dois depois disso, mas fui acompanhando de longe, como a gente acompanha gente que marcou a nossa formação. Gustavo virou nome grande, prêmio atrás de prêmio, revista atrás de revista. Só que o próprio edifício que o consagrou nunca colou direito com a cidade. Ficou bonito, ficou frio, ficou meio vazio até nos dias de sol. Giulia sumiu do circuito das premiações, foi trabalhando devagar, junto de conselhos de bairro e comunidades, construindo uma reputação que demorou quinze anos para aparecer numa manchete.

Alguns anos atrás, os caminhos deles se cruzaram outra vez, num projeto de requalificação de um centro histórico, grande demais para qualquer um tocar sozinho. Gustavo entrou como arquiteto principal. Giulia entrou como responsável pela parte de preservação e escuta social. Fui a uma das reuniões públicas, mais por curiosidade do que por trabalho, e reconheci os dois na mesma sala depois de tanto tempo, num silêncio que dava para cortar com faca.

O que me marcou foi ver Gustavo, ali, escutando. Escutando de verdade, sem aquele jeito de quem espera a vez de falar. Alguém da plateia perguntou por que o projeto estava demorando tanto para sair do papel, e foi Giulia quem respondeu, calma, dizendo que a cidade não se constrói no ritmo de quem tem pressa, e sim no ritmo de quem vai morar nela depois. Gustavo concordou com a cabeça. Fiquei olhando aquela cena pensando em como o tempo trabalha estranho: ele tinha vencido rápido demais lá atrás, e isso o condenou a repetir a mesma solidão em cada obra nova. Ela tinha perdido tempo, reconhecimento, talvez até um pouco de si mesma nesse processo, mas o que construiu ficou de pé, ficou vivo, ficou habitado.

Ao final da reunião, saí pensando no ditado de novo. Achei que ele estava incompleto. Porque não é só uma questão de chegar mais rápido ou mais longe. É que existe um tipo de obra que só nasce do atrito entre duas pessoas que discordam e continuam ali, teimosamente, uma do lado da outra. Pela primeira vez, tive a impressão de que Gustavo já não precisava controlar todas as respostas. Também me pareceu que Giulia aprendera que apenas ouvir a todos nem sempre bastava para erguer algo sólido.

Não sei se aquele centro histórico vai durar cem ou duzentos anos. Quem há de saber? Mas sei que agora os vi juntos construindo a mesma coisa, no mesmo ritmo, e isso já parece uma vitória maior do que qualquer troféu numa prateleira.


Anestesia moral


 Aconteceu há alguns anos, virou caso de polícia e saiu no jornal. Naquela época, fiquei vários dias com aquilo na cabeça. Quando li a notícia, guardei a história no bolso do casaco — uma pedrinha pequena, mas pesada demais para carregar em silêncio. É o tipo de situação que começou em um desvio miúdo e terminou despertando uma pergunta insistente: o que faz uma pessoa boa tropeçar tanto, a ponto de virar outra diante dos olhos dos outros?

Há um pensamento antigo, de séculos, que veio à tona, que todo vício e toda virtude nascem da mesma raiz, do mesmo impulso de amar alguma coisa. Pensando bem, é dessas ideias que cabem no mundo inteiro. O amor pode ser zelo, cuidado, compaixão, presença. Mas pode ser também apego torto, interesse disfarçado, vaidade com roupa limpa. O mesmo impulso que leva alguém a servir uma sopa quente num prato fundo pode empurrá-lo, em silêncio, para um gesto pequeno e errado, desses que se tenta chamar de “só desta vez” para ver se a consciência aceita a desculpa.

O Seu João, assim como vou chamá-lo, era homem de confiança. Voluntário numa casa de idosos, encarregado das compras e do estoque, um sujeito que ninguém imaginaria no centro de uma confusão. E é justamente isso que mais assusta: o fato de o mal, muitas vezes, não chegar com cara de monstro. Ele entra de chinelo macio, fala baixo, obedece ao horário do café, sabe onde ficam as chaves e onde a fiscalização não alcança.

Tudo começou com um boleto. Um boleto particular, uma dificuldade pontual, uma quantia retirada com a promessa íntima de devolver depois. Quem nunca viu a mente fazer esse tipo de manobra, reduzindo um erro a uma exceção provisória? A promessa de reposição funciona quase como um curativo moral. A pessoa pensa que vai acertar a conta em poucos dias, e a consciência aceita o acordo, meio cansada, meio enganada.

Só que o dinheiro não volta sozinho para o lugar. O que volta, com frequência, é o hábito. E o hábito tem uma voz tranquila, quase doméstica. Ele vai dizendo que ninguém notou, que dá para esperar mais um pouco, que a situação está apertada, que a instituição vive de escassez, que falta tanta coisa ali que um pouco a menos não vai fazer diferença. Quando a falta vira rotina, o erro perde a aparência de escândalo e ganha ar de costume.

Foi aí que a história parece ter atravessado uma linha invisível, o verdadeiro horror da fragilidade humana: a constatação de que esta linha, entre a integridade e a ruína moral, é muito mais fina do que gostaríamos de acreditar. No começo havia remorso, incômodo e algum resto de vergonha. Depois, com o tempo e sem o olhar de ninguém por perto, o próprio desgaste da consciência foi abrindo espaço para uma espécie de anestesia moral. O sujeito já não precisava esconder direito. De tudo, essa foi a parte mais triste. Quando alguém deixa de se preocupar em ocultar o que faz de errado, é sinal de que o mal ganhou certa naturalidade dentro de casa.

E a casa, nesse caso, era um asilo. Um lugar de gente frágil, doente, dependente, muitas vezes sem voz, sem defesa, sem energia até para reclamar. O alimento minguava. A qualidade caía. Faltava remédio, faltava limpeza, faltava higiene, faltava o mínimo. E o mínimo, em certos lugares, é o nome mais bonito que a dignidade consegue receber. Fico imaginando o estrago que um desvio desses produz no cotidiano: a comida rala, a fralda trocada tarde demais, a sala sem asseio, o remédio que não vem, o cuidado que some. A crueldade, nessas situações, não costuma fazer barulho. Ela vai tirando pedaços.

O mais duro é pensar que ninguém suspeitava. João parecia ser um homem honesto, prestativo, conhecido, confiável. A venda só caiu dos olhos da diretoria quando um doador experiente fez a pergunta que ninguém queria formular. Bastou esse único estalo para que uma auditoria revelasse o que esteve o tempo todo escondido da luz do dia. As provas apareceram, a polícia chegou, e o que era sombra virou indiciamento, prisão, processo.

Para mim, ainda restaram perguntas. Como alguém muda tanto? Ou como alguém revela tanto? Porque eu desconfio que nem sempre a mudança é uma transformação completa. Às vezes, o que acontece é a retirada dos freios. Sem controle, sem vigilância, sem o constrangimento de ser visto, certos impulsos crescem feito mato em terreno abandonado. O que parecia bondade pode ser só aparência bem cuidada. O que parecia caráter pode estar apenas esperando uma oportunidade menor para se mostrar inteiro.

E eu fico pensando que talvez o caráter não seja um dom que a gente já nasce tendo, guardado e pronto para uso dentro do peito. Talvez seja uma construção miúda, diária, quase silenciosa, feita de pequenas escolhas que ninguém aplaude, como um músculo do corpo que só se fortalece porque foi exercitado todo dia, sem plateia. Quando a pessoa escolhe o atalho com frequência, o atalho vira estrada. Quando escolhe esconder o desvio, o desvio ganha endereço. E quando escolhe ferir os mais frágeis, ainda que devagar, o coração vai desaprendendo o peso da culpa.

No fim, eu não consigo olhar para esse caso só como crime. Vejo ali um retrato incômodo da fragilidade humana. A gente gosta de acreditar que o bem mora pronto dentro de nós, arrumado, esperando ocasião. Mas o bem, como o amor, precisa de cuidado, disciplina e presença. Sem isso, até o homem que começou querendo ajudar pode acabar servindo ao pior de si. E é aí, nesse exato ponto, que a história continua me perseguindo, porque o verdadeiro horror talvez seja perceber que o abismo começa bem perto de onde a gente pisa, num espaço pequeno, quase invisível, exatamente onde a consciência baixa a guarda. É ali que o coração, distraído, deixa de vigiar o próprio passo.


O formulário sobre a mesa


 O formulário estava ali havia três dias, dobrado ao meio, num canto da mesa da cozinha, entre o pote de açúcar e uma conta de luz já paga. Marta, minha vizinha de porta, passava por ele todas as manhãs enquanto esperava a água ferver, e todas as manhãs vinha decidindo que decidiria depois.

Ela me disse que eram três escolas, e precisava escolher uma para o filho. Já sabia de cor os prós e os contras de cada uma delas, como quem já conhece os remédios de uma doença crônica. A da esquina, onde o menino podia ir sozinho, mas onde as salas viviam cheias e a diretora trocava a cada ano. A particular do outro lado da cidade, com jardim, quadra coberta e uma mensalidade que exigiria cortar coisas que ela ainda não sabia quais eram. E a do meio-termo, com bolsa parcial, ônibus escolar às seis e quarenta, onde o professor de matemática era descrito pelos outros pais com aquele é “dedicado” que tanto pode significar competente quanto apenas cansado.

Dona Zuleide, vizinha do andar mais abaixo, do 302, achava que Marta estava complicando demais.

— Escolhe a que dá para pagar sem passar aperto, minha filha. O resto Deus ajeita.

Ela dizia isso como quem repete uma receita de bolo — sem examinar os ingredientes, confiante de que a mistura, no forno certo, sempre cresce. Para Zuleide, se as coisas aconteciam de um jeito e não de outro, era porque aquele jeito, no fim das contas, servia a alguma ordem maior que ela não precisava enxergar inteira para acreditar que existia. Um filho que perdeu o ônibus está, talvez, sendo poupado de um acidente três quarteirões à frente. Uma escola mais simples pode ensinar a um menino uma resistência que o playground mais amplo e bem cuidado jamais ensinaria. Zuleide vivia como se soubesse, no corpo, que o mundo, mesmo capenga, era o melhor arranjo possível dentro do que era possível arranjar.

Já Ricardo, o marido, via a coisa de um jeito bem diferente — embora nunca tivesse posto isso em palavras tão diretas. Para ele, as escolhas eram uma aposta feita às cegas contra uma casa que sempre ganhava. Não que ele fosse um homem amargo; só tinha visto gente demais fazer a “escolha certa” e ainda assim sofrer do mesmo jeito, só que mais tarde. O menino ia se machucar de qualquer forma, em qualquer escola — um joelho ralado aqui, uma humilhação ali, um professor injusto adiante —, porque era assim que a vida cuidava dos meninos, indiferente ao capricho dos pais que ainda acreditavam estar no controle. Escolher bem, para Ricardo, não evitava a dor; só trocava o nome dela.

— Não existe escola sem sofrimento, Marta. Existe só o sofrimento que a gente escolhe pagar antes.

Ela ouvia os dois — a vizinha e o marido — como quem ouve duas rádios sintonizadas em estações diferentes ao mesmo tempo, sem conseguir desligar nenhuma.

Ainda naquela semana, numa tarde, o menino chegou da rua com o cotovelo ralado, sangue seco misturado a terra, contando animado como tinha aprendido a descer de skate na rampa da praça com o Diego, um menino que ela nunca tinha visto antes e que, segundo o filho, “sabe de tudo”. Enquanto ele falava sem parar e ela limpava o ferimento, percebeu que o menino parecia muito mais interessado na próxima descida da rampa do que no sangue que ainda secava no braço.

Era só um arranhão. Mas era, também, exatamente o tipo de coisa que ela temia importar para dentro dos próximos anos, multiplicada por mil, se escolhesse a escola errada. Ou talvez fosse o contrário: talvez fosse a prova de que o menino ia se virar bem em qualquer lugar, e que ela estava gastando noites de sono com uma decisão que o mundo, de um jeito ou de outro, iria resolver sozinho.

À noite, ela me contou, sentou de novo à mesa da cozinha. A água do chá esfriava ao lado do formulário. Não sei dizer o que se passou naquelas duas horas — só sei o que ela me contou depois, meio de passagem, como quem não quer dar importância demais ao assunto: que ficou olhando as três caixinhas em branco até elas pararem de parecer uma escolha e virarem só três palavras impressas num papel.

Pegou a caneta. Não me contou se chegou a marcar alguma das três. Só que, quando o chá já estava de todo frio, dobrou o formulário outra vez e guardou na bolsa — pronto, segundo ela mesma disse, rindo um pouco, “resolvo amanhã, se der”.

Até agora não sei dizer qual foi sua escolha naquela noite: se a de Zuleide, e por um instante o mundo lhe pareceu arrumado o bastante para se confiar nele; ou a de Ricardo, e ela resolveu assinar assim mesmo, sabendo que não ia escapar da dor, só escolher qual parte dela pagar primeiro. As duas possibilidades cabiam igualmente naquele gesto de dobrar outra vez o papel.


Beco das Pulgas


 Hoje acordei decidido a caminhar pela Cidade Alta, no centro de Vitória. Aos sessenta e nove anos, a gente se acostuma com a ilusão de conhecer cada esquina da sua própria cidade. Puro engano. Peguei o carro, estacionei perto do Palácio Anchieta e segui a pé até a continuidade da Rua Duque de Caxias. Logo depois do ponto onde funcionava a antiga banca de jornais, abre-se o Beco das Pulgas. Acredite ou não, até hoje eu não conhecia aquele lugar.

Meu destino certo era um sebo localizado no prédio de arquitetura marcante da antiga Typographia Samorini, com sua fachada exibindo, em letras garrafais de alto-relevo, sua fundação no longínquo ano de 1915. Ao cruzar a porta, fui engolido por um mar de discos de vinil, CDs e livros amarelados; prateleiras formavam um labirinto que só parecia desordenado. No centro desse caos tranquilo estava Marcos — artista plástico, formado pela Ufes — o único senhor da lógica secreta do lugar. A um gesto seu, cada peça parecia reaparecer no exato lugar onde deveria repousar.

Fui logo puxando prosa, explicando as razões da minha visita matinal. A primeira era uma curiosidade irresistível: fiquei fascinado em descobrir a existência de um beco comercialmente ativo no coração da capital, pulsando vida e resistindo às inconstâncias do tempo. O Marcos concordou comigo e me disse que a prefeitura tem planos para o beco. Segundo contou, eles vão revitalizar o espaço, restaurar o charmoso piso de pedra portuguesa e incentivar a vinda de novos passantes, dando o merecido valor ao comércio local.

Minha segunda motivação era específica. Eu procurava o romance O Egípcio, escrito por Mika Waltari. Tive o privilégio de ler essa obra na década de mil novecentos e oitenta. Naquela época, ao terminar a leitura, decidi presentear o meu exemplar para uma colega de trabalho. Bastou mencionar o título para testemunhar o domínio que o livreiro tinha sobre o próprio acervo, em meio ao caos.

— Cara, esse título exato eu estou em falta, mas vendi há poucos dias o último exemplar de O Etrusco, do mesmo autor. — disse, apontando para uma prateleira empoeirada.

A nossa conversa fluiu de forma tão natural e animada que parecíamos dois amigos de longa data botando o papo em dia. Esquecemos a formalidade de duas pessoas recém-apresentadas. Um cliente novo entrou na loja interessado em explorar uma pilha de LPs clássicos, abrindo brecha para o Marcos me guiar através das prateleiras do estabelecimento.

O sebo virava um verdadeiro ateliê nas dependências mais ao fundo da loja. Encontrei mesas cheias de tubos e frascos de tinta, pincéis gastos, telas, papéis esboçados e muita tranqueira espalhada. No meio daquele ambiente que inspirava o trabalho do artista, repousava soberana sobre uma mesinha, algo inusitado: uma grelha elétrica com tampa de vidro. Ao perceber o meu estranhamento, ele abriu um sorriso sincero, explicando o propósito daquele eletrodoméstico:

— Isso aqui é para garantir uma carninha assada com os companheiros de arte que vêm me visitar.

Fiquei admirado pelo modo como ele conduz os próprios dias em uma frequência livre das amarras convencionais. A cena evocou minhas lembranças da história da arte. Imaginei logo os pintores franceses do impressionismo, sujeitos corajosos enfrentando dificuldades financeiras sem fim. Apesar dos tropeços da realidade, eles preenchiam suas telas com a luminosidade divina e a leveza essencial do ser humano.

O relógio avisou a chegada do meio-dia. Troquei um aperto de mão de despedida com o Marcos e comecei a caminhada de retorno até o carro. Um pouco mais adiante, subindo a Nestor Gomes, fui surpreendido pelo aroma irresistível vindo das portas do Exporão, tradicional restaurante do centro. O estabelecimento ocupa o mesmo subsolo do saudoso Porão, antigo bordel enraizado nas histórias e memórias dos frequentadores mais maduros da Ilha. Detalhar os contos noturnos daquele lugar renderia muitas outras conversas, aliás, um excelente pretexto para outra crônica.

O chamado do estômago tinha urgência. Desci os degraus de acesso e me entreguei à clássica feijoada das sextas-feiras. O prato estava farto e saboroso.

Finalizado o almoço, suspirei abraçado por uma satisfação absoluta. A mente divagou até os ensinamentos de Epicuro em seu Jardim. O sábio de Samos carrega a injusta fama de pregador dos luxos exagerados, mas sei que o seu verdadeiro ensinamento segue a direção oposta. Para ele, a genuína alegria da existência repousa nas experiências mais simples, como comer um pão fresco, bater um papo verdadeiro com um amigo, sentir o vento na pele ou afastar as ambições pesadas. O seu segredo de vida é buscar a ausência completa de perturbações na alma.

A energia daquele ateliê caótico continuou reverberando no meu peito ao longo da tarde, confirmando que a verdadeira riqueza das cidades — e da vida — costuma permanecer escondida nos lugares que atravessamos depressa demais.


Quando o último nome se cala


 Não te comportes como se tivesses dez mil anos de vida pela frente.

A necessidade imperiosa paira sobre ti.

Enquanto vives, enquanto é possível, torna-te homem de bem.

Marco Aurélio.

Começo com a impressão de que certas tardes cabem inteiras dentro de uma xícara de café.

Foi numa delas que fui visitar o Lucas. O apartamento dele parecia um retrato fiel da vida moderna: dois computadores ligados, papéis espalhados sobre a mesa, telefone vibrando sem descanso e uma televisão ligada sem que ninguém realmente a assistisse.

Conversávamos sobre assuntos sem importância quando veio à sua mente algo que o deixou irritado. Naquela manhã, alguém havia riscado a porta do seu carro novo. Mostrou fotografias, calculou o prejuízo, reclamou da falta de educação das pessoas. Quanto mais falava, maior parecia ficar aquele risco na lataria. Durante alguns minutos, era como se toda a sua semana tivesse sido arruinada por alguns centímetros de tinta arrancada. Eu o escutava sem muito o que dizer.

Foi então que Marlene, que também estava conosco, interrompeu a conversa. Sua mãe havia falecido há poucos meses. Desde então, ela falava pouco. Mas, quando falava, parecia escolher cada palavra, como que buscando interpretar com precisão cada momento. Disse apenas:

— Você já ouviu falar que todos nós morremos três vezes?

Lucas fez um gesto negativo com a cabeça. Ela continuou:

— A primeira é quando o coração para. A segunda acontece quando nosso corpo desaparece deste mundo. A terceira... bem, a terceira é quando alguém pronuncia nosso nome pela última vez.

Ninguém na sala respondeu. A frase não era especialmente original, mas carregava uma verdade que dispensava comentários. Durante alguns instantes, ninguém pareceu mais se lembrar do carro. Ficamos olhando as xícaras sobre a mesa.

É curioso como certas ideias mudam de tamanho conforme a ocasião em que aparecem. Eu já havia lido algo semelhante, mas nunca me causara impressão. Naquela sala silenciosa, porém, a frase adquiriu um peso diferente.

Se um dia nosso nome também será esquecido, por que fazemos tanto esforço para acumular o que não podemos reter?

Pensei em quantas vezes uma notícia banal é capaz de estragar um dia inteiro. Um atraso no trânsito, uma conta inesperada, um objeto quebrado, um comentário desagradável. Vivemos cercados por pequenas urgências que se apresentam como se fossem definitivas.

A lembrança da morte tem um efeito restaurador: não diminui a vida, mas a reordena, devolvendo às coisas a medida que lhes cabe.

O risco na pintura continua existindo. As contas continuarão chegando. O trabalho continuará exigindo. Mas já não deveriam ocupar o centro do universo.

Há perdas maiores. Há alegrias maiores. Há pessoas que gostaríamos de ter abraçado mais uma vez e não podemos.

Quando a conversa retomou, o semblante do Lucas havia mudado: ainda estava aborrecido, mas já sem lhe parecer a coisa mais importante da tarde.

Às vezes basta uma mudança de perspectiva para recolocar o mundo nos trilhos.

Quando fui embora, o sol já descia atrás dos prédios. Caminhei até o carro pensando naquela terceira morte. Parecia assustadora à primeira vista. Mas talvez não seja.

Poucos de nós permanecerão nos livros de história. Dentro de alguns séculos, quase todos os nossos nomes terão desaparecido da memória humana.

Mesmo assim, alguma coisa de nós continua. Um gesto aprendido de um pai ou uma palavra de coragem dita na hora certa. Um exemplo silencioso que alguém repete sem sequer lembrar de onde veio.

Assim atravessamos a vida: ninguém consegue vencer o inexorável esquecimento que traz o tempo, mas há modos de deixar um pouco de si na vida dos outros.

E, pensando bem, isso é o suficiente.