por Giovanni Angius, em 31/7/2026.
Antes mesmo de lembrar da conversa, lembro do som dos dedos de Carmem, impacientes, batendo no tampo de madeira da mesa da cozinha.
Dona Carmem é professora de biologia, uma mulher brilhante, conhecedora da complexidade da síntese proteica, da elegância do ciclo de Krebs, e de tantos outros assuntos. Mas, naquele dia, o desafio dela não era uma questão acadêmica. Era o seu filho de quinze anos, Leo.
— Leo, isso é lógico! — dizia ela, a voz subindo meio tom na escala da frustração. — Se você não organizar seu estudo, priorizar as tarefas pelo peso da nota, o tempo vai acabar justo na véspera das provas. Eu já te expliquei inúmeras vezes! É simples matemática de planejamento!
Leo estava sentado do outro lado da mesa. Os ombros curvados, as mãos afundadas nos bolsos do moletom. Ele não estava sendo rebelde; estava, sim, genuinamente perdido.
Eu acompanhava a cena da poltrona ao canto, tentando ler um livro da doutora Elizabeth Newton. Na cabeça de Carmem, imaginei, tocava uma sinfonia inteira — os prazos, as consequências, as notas do final do trimestre compondo uma partitura clara como o dia. Mas o que chegava a Leo era só o tamborilar dos dedos na madeira. O ritmo sem a melodia.
Em sala de aula, Carmem, impecável em explicar conceitos, diante do filho fracassava. Quanto mais ela dominava o assunto, mais incapaz parecia de descer até o degrau zero — aquele onde a dúvida dele realmente morava.
— Mãe, eu sei o que tenho que fazer — murmurou Leo, a voz carregada daquela apatia defensiva típica dos adolescentes. — Você quer que eu estude. Eu vou estudar. Pronto.
— Não é estudar e pronto, Leo! É como você estuda! — Carmem suspirou, esfregando as têmporas, convencida de que o problema do filho era preguiça ou falta de atenção.
A tensão na cozinha estava prestes a transbordar quando a campainha tocou. Era Bia, colega de turma do Leo, que tinha vindo ajudá-lo em um trabalho de história.
Bia entrou com a mochila pesada em um dos ombros, cumprimentou Carmem com um sorriso educado e percebeu a névoa pesada no ar. Era a válvula de escape que interrompeu o curto-circuito.
— Vamos lá pro quarto, Bia — disse Leo, levantando-se rápido para escapar do interrogatório da mãe.
Carmem me olhou, desolada, assim que os dois saíram da cozinha.
— Eu não sei mais como falar com ele — desabafou ela, servindo-se de um café. — Parece que falamos línguas diferentes.
Não respondi de imediato. Pouco depois, fui até o corredor buscar um copo d'água e passei pela porta entreaberta do quarto de Leo. Parei por um segundo, observando a cena lá dentro.
Bia estava sentada no chão, com o caderno aberto. Não havia sermões nem teorias.
— Ó, Leo — disse Bia, riscando um quadrado simples na folha. — A prova de história vale quatro. Matemática vale oito e é depois de amanhã. Bora nessa primeiro.
E completou:
— O que a gente precisa fazer nas próximas duas horas para não zerar na lista de exercícios?
Leo olhou para o papel. O olhar dele mudou. A névoa defensiva sumiu.
— Ah... se for só este tempo, a gente começa pelo exercício três, que é o que vai cair com certeza.
— Isso — disse Bia, simples assim. — Uma questão. Depois a gente vê as demais.
Sorri, sozinho, no corredor. Bia não era uma especialista em métodos de estudo; ela apenas estava no mesmo nível de aprendizado e de descoberta que o Leo. Para ela, o óbvio ainda não era óbvio, então ela precisava desenhar cada degrau.
Voltei para a cozinha. Carmem ainda olhava para a xícara do café, em silêncio. Não falei nada sobre o que tinha visto no corredor. Apenas me sentei de novo na poltrona e reabri o livro.
Ela ficou algum tempo ali, parada, como quem ouve um som que ainda não sabe nomear. Depois se levantou, foi até a pia, lavou a xícara devagar — e, antes de sair da cozinha, parou na porta do corredor, olhando na direção do quarto do filho, sem entrar.