O que se faz com a dor

 

por Giovanni Angius, em 5/8/2026.

Às cinco da manhã, dona Marta já estava de pé. O café passava no coador enquanto a máquina de lavar trabalhava no canto da área de serviço, fazendo seus barulhos de coisa cansada. Seu Valdir, mestre de obras, ainda dormia alguns minutos antes de enfrentar mais um dia de cimento, areia e sol. Valdir era referência na profissão. Marta, costureira, trabalhava em casa. E os dois, juntos, tentavam erguer uma vida para os três filhos.

Moravam num bairro afastado de Cariacica, numa casa simples, mas completa, onde cada coisa tinha seu lugar e quase nada sobrava. Quase nada.

Na sala havia uma pequena estante lotada de livros. Eram de Leandro, o filho mais velho. Desde menino, ele gostava das letras. Enquanto Pedro e Sofia disputavam pelo espaço da mesa da cozinha para fazer os deveres, Leandro permanecia quieto, estudando, lendo, escrevendo. Lia tudo o que aparecesse. Livro emprestado, revista velha, apostila usada. Quando queria alguma coisa específica, os pais faziam as contas. E na maioria das vezes, contas difíceis.

Houve uma época em que Marta vendeu uma máquina que usava para costurar. Em outra, Valdir adiou a compra de uma ferramenta. O dinheiro precisava caber em algum lugar, e quase sempre esse lugar era a educação dos filhos, principalmente a do Leandro.

Quando conseguiu entrar na universidade pública para estudar História, os dois sentiram uma alegria que parecia maior do que a própria casa. Era como se todo aquele esforço finalmente tivesse encontrado um endereço.

Leandro, por sua vez, carregava aquilo como quem carrega uma dívida. Acordava cedo, ia para a universidade, pegava o Transcol, enfrentava o aquaviário, assistia às aulas, fazia fichamentos, dava aulas particulares e escrevia durante a noite. Dormia pouco. Lia muito. Vivia cansado.

Quando alguém dizia que ele precisava descansar, respondia com um sorriso, dando de ombros:

— Depois eu descanso.

O problema é que esse depois nunca chegava. Leandro acreditava que precisava vencer. Precisava publicar, ser reconhecido, ganhar dinheiro e tirar os pais do aperto. Vivia uma espécie de obsessão. Cada livro comprado com dificuldade parecia uma cobrança. Cada hora de sono perdida parecia uma prestação.

Só que a vida tem o péssimo hábito de não respeitar os nossos planos. Os primeiros textos publicados por Leandro passaram quase despercebidos. Vieram em pequenas edições independentes, pagas com o dinheiro das aulas particulares. Vendiam pouco. O dinheiro mal cobria o papel e a impressão.

A grande virada não aconteceu. Ainda não. Nenhum editor apareceu à sua porta. Nenhum prêmio resolveu a vida da família.

Pedro e Sofia continuavam crescendo. Havia contas, remédios, material escolar, comida. Na casa de Marta e Valdir, o mês continuava terminando antes do dinheiro.

Foi então que Leandro percebeu uma coisa. Durante muito tempo, ele havia confundido propósito com obrigação. Achava que precisava transformar o sacrifício dos pais, obrigatoriamente, em seu sucesso pessoal, mas o sacrifício deles já tinha produzido algo importante: havia lhe dado ferramentas.

E ferramentas servem para alguma coisa.

Foi quando decidiu criar, no próprio bairro, uma pequena oficina de leitura e escrita para adolescentes. Reuniu meia dúzia de jovens numa sala emprestada, juntou livros usados e começou a conversar sobre literatura, história e a vida que eles conheciam. No começo, vieram poucos. Depois, outros chegaram.

Leandro continuou pobre. Continuou pegando ônibus. Continuou dando aulas particulares. Continuou esperando que algum dia seu trabalho literário encontrasse leitores suficientes para lhe dar conforto.

Só que alguma coisa havia mudado. O sofrimento continuava ali. O sentido dele, porém, era outro.

Pensei nisso outro dia, lembrando de uma frase que ouvi certa vez: há dores que nos diminuem e há as que, quando encontram um propósito, acabam nos ensinando a carregar um pouco mais de nós mesmos.

É uma coisa das mais estranhas na vida. A gente passa boa parte do tempo querendo descobrir como evitar o sofrimento. Depois percebe que algumas das experiências que mais nos transformaram nasceram justamente de períodos que gostaríamos de ter pulado.

Leandro ainda queria ser escritor. Ainda queria ver os pais vivendo com mais tranquilidade. Ainda queria que seus livros encontrassem leitores.

Só que já não precisava esperar por essas coisas para sentir que sua vida tinha valor. Naquela pequena sala do bairro, diante de alguns adolescentes que descobriam o prazer de escrever, ele começou a compreender que o sacrifício de Marta e Valdir havia ganhado outro destino.

A prateleira de compensado continuava na sala de casa. Os livros continuavam ali. E, de certa maneira, já não pertenciam somente a Leandro. Tinham começado a circular como toda coisa que encontra um propósito.


O buda na beira da estrada

 

por Giovanni Angius, em 5/8/2026.

Saí de Colatina no sábado à tarde, com as orientações e conselhos que fui buscar junto a um velho irmão de Maçonaria para tratar de alguns encaminhamentos em minha Loja. Assuntos que exigiam equilíbrio, paciência e uma boa dose de compostura. A conversa foi esclarecedora e me ajudou bastante, claro, mas aconteceu um fato inesperado no meu retorno. Algo que me acertou em cheio, quase sem aviso, ali na beira da BR-101, diante do Buda de Ibiraçu.

Eu já tinha visitado o lugar outras vezes e sempre que é possível faço uma pequena parada, como uma pausa para enfrentar a estrada mais descansado. Estar ali é agradável. A estátua impressiona logo de cara. São 35 metros de altura e 350 toneladas de aço e concreto, uma presença que não passa despercebida nem por quem está só de passagem. Dizem que é o segundo maior Buda sentado do mundo, e está em estado de meditação sobre a flor de lótus, com uma expressão que parece dizer: sossegue. E eu, que vinha rodando por dentro durante todo o dia, entendi a mensagem.

Parei para tomar um caldo de cana e comer um pastel de palmito. A coisa mais simples do mundo, e justamente por isso tão boa. É tradição. Necessito disso para ajudar a retomar o rumo de meus pensamentos. Na praça, sentei, respirei, olhei em volta, e vi pessoas espalhadas pelo espaço, cada uma no seu ritmo, cada uma com sua pressa íntima, sua sede, seu cansaço, seu pequeno destino de fim de semana.

Na lanchonete, reparei num casal que me pareceu simpático. Tinham ali seus 60 e poucos anos, talvez 65, e carregavam a calma que surge em quem já atravessou muitas estações juntos. Cumprimentei os dois, fiz meu pedido no balcão e fiquei observando de canto, com discrição. Havia entre eles uma delicadeza singela, que não fazia alarde. Não era afetação, nem encenação de felicidade. Era outra coisa. Era convivência trabalhada com o tempo.

Enquanto mordia o pastel, fiquei olhando para eles. Havia ali uma intimidade tranquila que não precisa se anunciar. Pensei que talvez fosse isso que tantos anos juntos fazem com duas pessoas: ensinam uma a conhecer os silêncios da outra. A expressão ganhava corpo. Havia uma paz sem pose, sem propaganda, sem necessidade de convencer ninguém.

Mais tarde, na lojinha da escola de cerâmica mantida pelo mosteiro, voltei a encontrá-los. E foi aí que a impressão se adensou. Eles pareciam ainda mais alinhados com o lugar, como se a serenidade do ambiente também tivesse lhes caído sobre os ombros. Pensei, com a simplicidade que essas cenas costumam impor, que estar juntos por muito tempo talvez seja aprender a cuidar do outro sem transformar esse cuidado em cobrança. É uma lição dura, porque a gente costuma querer segurar a pessoa como quem segura uma certeza. Só que gente não é pedra, nem objeto de coleção. Gente muda, envelhece, ganha rugas, novas manias, silêncios diferentes.

O tempo, nesses casos, ensina uma coisa que a juventude costuma ignorar: ninguém permanece igual por décadas. E ainda bem. Se o amor quiser sobreviver, precisa reconhecer essa metamorfose cotidiana. Amar, com os anos, tem muito de reaprender o rosto amado. Há uma beleza nisso. A pessoa que está ao nosso lado hoje não é exatamente a mesma de ontem, e nem precisa ser. O vínculo que dura aprende a respirar junto com a mudança.

Restou uma ideia meio teimosa que fica rodando depois da estrada acabar. Um presente que alguém pode dar a quem ama é a presença consciente. Um casal longevo, pensei, lembra dois bambus crescendo lado a lado: as raízes se apoiam embaixo, mas acima há espaço suficiente para o vento circular.

De volta a Vitória, a rotina retomou seu compasso na segunda-feira. Os impasses, antes tão pesados, já não tinham o mesmo tamanho. Consegui resolver tudo e segui a vida.

Ainda assim, permaneceu comigo aquela imagem improvável: um Buda enorme à margem da estrada, um pastel de palmito, um caldo de cana, e um casal anônimo me ensinando, sem discurso nenhum, que o tempo não destrói. Às vezes, ele só depura. E há momentos em que uma parada rápida na estrada esclarece mais do que uma viagem inteira de pensamentos.


O voo 842

 

por Giovanni Angius, em 2/8/2026.

O sinal luminoso de “aperte os cintos” se apagou enquanto o Boeing 777 atingia a altitude de cruzeiro rumo a Tóquio. Seriam doze horas de travessia sobre o Pacífico. Menos de uma hora após a decolagem, os alto-falantes chiaram. A voz do piloto anunciou, com um tom de formal polidez, que o sistema central de entretenimento havia sofrido uma pane irreparável. Não haveria telas individuais, nem filmes, nem sinal de internet a bordo.

Da poltrona logo atrás, era impossível não perceber como a notícia atingiu aqueles dois passageiros de maneiras completamente diferentes.

Daniel, vou chamá-lo assim, encarou a tela preta à sua frente como quem olha para um abismo. O reflexo do seu próprio rosto no monitor desligado parecia ridicularizá-lo. Ele apalpou os bolsos: o celular estava sem bateria e a tomada da poltrona não funcionava.

Em pouco tempo, o silêncio da cabine começou a serpentejar por sua espinha. Sem o feed das redes sociais para rolar, sem mensagens para responder e sem notificações para validar sua existência, o ambiente ao seu redor pareceu encolher.

Para escapar daquela quietude sufocante, ele tentou conversar com o passageiro ao lado, que respondeu apenas com um aceno cortês antes de se voltar para a paisagem noturna. Inquieto, chamou a comissária para pedir um copo d’água que não queria, levantou-se inúmeras vezes para ir ao banheiro sem necessidade e passou a checar o relógio a cada quatro minutos.

Sem nada para ocupar as mãos, Daniel acabou encontrando aquilo que passara anos evitando: a própria companhia. E ela lhe pareceu pesada demais. Ele abriu o bolso da mochila várias vezes, embora soubesse exatamente o que havia dentro. Tirou o cartão de embarque, dobrou-o, desdobrou-o, olhou outra vez para o relógio. Nenhum daqueles gestos resolvia coisa alguma.

Muito tempo depois o sossego o alcançou sob a forma de cansaço. Dormiu.

Em outra poltrona, próxima de Daniel, Elisa, assim vou chamá-la, ouviu o anúncio do piloto e soltou um suspiro quase imperceptível.

Ela ajustou a pequena almofada atrás do pescoço, fechou os olhos e deixou o corpo afundar na poltrona. Para ela, aquele blecaute tecnológico não era uma privação, mas uma trégua. Uma ilha de tempo no meio de uma vida agitada.

Enquanto o avião cortava a escuridão, aos poucos seu romance voltou a ocupar os pensamentos. Sem as interrupções do mundo digital, ela usou as horas seguintes para revisitar mentalmente a estrutura que estava planejando. Fez anotações em seu caderno, lapidou diálogos e cenários, buscou soluções para a dinâmica e fluidez do seu texto. Mais tarde, resgatou a lembrança de uma sinfonia que gostava muito, reconstruindo os acordes em sua mente.

Ela parecia não sentir falta de nada. Escreveu durante algum tempo, fechou o caderno, permaneceu longos minutos apenas olhando a escuridão do lado de fora. Havia quem olhasse aquela janela e visse apenas ausência. Ela parecia enxergar alguma coisa ali.

O voo ia bem avançado quando conseguiu dormir.

Quando as rodas do avião finalmente tocaram o solo do aeroporto de Narita, cerca de doze horas depois, um homem e uma mulher saíram diferentes daquela aeronave — mas não da maneira que a moralidade convencional gostaria.

Daniel desembarcou exausto, irritado e mentalmente dilapidado, sentindo-se enjaulado por um tempo que lhe pareceu uma eternidade. No saguão do aeroporto, enquanto aguardava na fila do passaporte, ele pegou o celular, conectou-se ao Wi‑Fi gratuito e, em segundos, já estava rolando o feed, respondendo mensagens antigas, buscando validação imediata. O tédio o esperava em casa, no trabalho, no espelho do banheiro. Naquela situação, ele não sabia nomear o que sentia, só que precisava de barulho para não ouvir o próprio silêncio.

Logo em seguida, Elisa desembarcava revigorada, serena e com a mente clara. Mas, ao sair do aeroporto, olhou para o céu nublado e percebeu algo incômodo: a clareza que trouxera do voo já começava a se dissipar diante das notificações, dos compromissos, das demandas do mundo. Ela sabia que, em breve, a sinfonia reconstruída na memória seria substituída por prazos, reuniões, conversas superficiais. A solidão que a libertara no avião seria, em terra, um luxo difícil de sustentar.

No saguão, seguiram em direções opostas. Daniel caminhava depressa, já ao telefone. Elisa diminuiu o passo antes de desaparecer entre os demais passageiros.

Nenhum dos dois encontrou a redenção definitiva. Ambos apenas foram devolvidos a si mesmos, nua e cruamente. Ele, com seu vazio; ela, com sua riqueza interior — mas também com a consciência de que essa riqueza exige vigilância constante.

No pátio, o avião estava vazio e seguindo para as inspeções e manutenções de rotina. O próximo voo partiria em breve, com novos passageiros, novas telas, novos silêncios.

Por doze horas, Elisa não sentiu falta de nada — nem tédio, nem dor, nem do resto do mundo. Daniel, nem por um instante.

Esperei os demais passageiros deixarem o saguão antes de seguir meu caminho. Durante todo o voo pensei que estivesse apenas assistindo à história daqueles dois, mas não, eu percebi que a pergunta era outra: quando todas as telas se apagam, quem sobra em mim?


Ao emitir a própria luz

 

por Giovanni Angius, em 1/8/2026.

Pensando em

Clóvis de Barros Filho, explicador.

Antes de ser o professor de história da escola do bairro, Antônio era um observador muito atento do mundo, sobretudo das pessoas. Reparava os comportamentos, na forma como a luz do fim de tarde atravessava as frestas de uma janela, no ritmo acelerado dos passos dos transeuntes na calçada e na geometria simples dos livros empilhados sobre a sua escrivaninha.

Quando os primeiros sinais da Doença de Behçet surgiram — as lesões dolorosas na boca que tornavam o ato de falar um suplício e a neblina densa que começou a cobrir seu olho esquerdo —, o diagnóstico veio como um divisor de águas. Não havia grandes holofotes ou plateias para testemunhar sua dor; havia apenas a sala de aula de paredes descascadas, o giz entre os dedos e o peso das manhãs em que o corpo parecia recusar o movimento.

A medicina recomendou o repouso, a contenção, o recolhimento. Prescreveram-lhe o silêncio e o isolamento como forma de preservar o pouco de visão que lhe restava e evitar os surtos de inflamação.

Por uns tempos, Antônio tentou a vida sob a redoma. Fechou as cortinas de casa, pediu licença do trabalho e limitou-se ao espaço seguro do seu quarto. Descobriu, contudo, que sua mera duração biológica não preenchia as horas. A vida desprovida do encontro, do movimento e do trabalho tornava-se uma espera estéril. Nas noites de insônia, ouvia gravações antigas de um pensador de quem gostava, e uma frase voltava sempre, como um refrão que ele não sabia se era consolo ou acusação: não é o tempo que se dura, mas o que se faz dele.

Em uma certa manhã no meio da semana, contra o conselho prudente dos médicos e o olhar preocupado da família, o professor Antônio ajustou os óculos de lentes espessas, pegou a sua surrada pasta de couro e caminhou de volta à escola.

Voltar não é cura, mas somente uma escolha.

Na sala de aula, cada palavra pronunciada exigia um esforço físico real devido às aftas recorrentes. Enxergar o rosto dos alunos na última fileira tornara-se impossível — via apenas vultos, sombras e expressões borradas. Mas Antônio compensava a visão com a escuta afiada e a paixão no tom de voz. Quando explicava as transformações do mundo, ele não precisava do quadro negro; a história fluía de sua memória com uma vivacidade que se espalhava entre os adolescentes.

Ele assumiu os riscos. Sabia que o cansaço excessivo e a exposição diária poderiam desencadear novos episódios inflamatórios. Mas, para Antônio, estar ali — diante de tantos jovens, provocando neles o estalo da curiosidade — era a sua verdadeira razão de ser.

“Existir é gastar-se naquilo que se ama,” pensava ele ao cruzar o pátio nos intervalos.

Antônio nunca deu entrevistas, não publicou livros de sucesso nem lotou teatros. Permaneceu em sua modesta arena: o trajeto de ônibus, sua serena vida em família, a sala de aula, as conversas com amigos diletos no balcão da padaria ao lado de casa.

No entanto, a coragem com que encarou o seu destino transformou a vida daqueles que o cercavam. Os alunos aprendiam história, mas aprendiam, sobretudo, uma lição silenciosa sobre a dignidade de viver plenamente, mesmo quando o corpo conspira pelo recuo.

Ao fim de cada dia, no retorno para casa, cansado e com os olhos ardendo pela penumbra que avançava sobre sua visão, Antônio sentava-se em sua poltrona. Não havia aplausos ao fechar da cortina, apenas o silêncio da noite e a paz profunda de quem, todos os dias, escolhia sair de casa. Porque havia descoberto que algumas pessoas não atravessam o mundo apenas procurando luz. Vivem para emitir a sua.


As batidas na mesa

 

por Giovanni Angius, em 31/7/2026.

Antes mesmo de lembrar da conversa, lembro do som dos dedos de Carmem, impacientes, batendo no tampo de madeira da mesa da cozinha.

Dona Carmem é professora de biologia, uma mulher brilhante, conhecedora da complexidade da síntese proteica, da elegância do ciclo de Krebs, e de tantos outros assuntos. Mas, naquele dia, o desafio dela não era uma questão acadêmica. Era o seu filho de quinze anos, Leo.

— Leo, isso é lógico! — dizia ela, a voz subindo meio tom na escala da frustração. — Se você não organizar seu estudo, priorizar as tarefas pelo peso da nota, o tempo vai acabar justo na véspera das provas. Eu já te expliquei inúmeras vezes! É simples matemática de planejamento!

Leo estava sentado do outro lado da mesa. Os ombros curvados, as mãos afundadas nos bolsos do moletom. Ele não estava sendo rebelde; estava, sim, genuinamente perdido.

Eu acompanhava a cena da poltrona ao canto, tentando ler um livro da doutora Elizabeth Newton. Na cabeça de Carmem, imaginei, tocava uma sinfonia inteira — os prazos, as consequências, as notas do final do trimestre compondo uma partitura clara como o dia. Mas o que chegava a Leo era só o tamborilar dos dedos na madeira. O ritmo sem a melodia.

Em sala de aula, Carmem, impecável em explicar conceitos, diante do filho fracassava. Quanto mais ela dominava o assunto, mais incapaz parecia de descer até o degrau zero — aquele onde a dúvida dele realmente morava.

— Mãe, eu sei o que tenho que fazer — murmurou Leo, a voz carregada daquela apatia defensiva típica dos adolescentes. — Você quer que eu estude. Eu vou estudar. Pronto.

— Não é estudar e pronto, Leo! É como você estuda! — Carmem suspirou, esfregando as têmporas, convencida de que o problema do filho era preguiça ou falta de atenção.

A tensão na cozinha estava prestes a transbordar quando a campainha tocou. Era Bia, colega de turma do Leo, que tinha vindo ajudá-lo em um trabalho de história.

Bia entrou com a mochila pesada em um dos ombros, cumprimentou Carmem com um sorriso educado e percebeu a névoa pesada no ar. Era a válvula de escape que interrompeu o curto-circuito.

— Vamos lá pro quarto, Bia — disse Leo, levantando-se rápido para escapar do interrogatório da mãe.

Carmem me olhou, desolada, assim que os dois saíram da cozinha.

— Eu não sei mais como falar com ele — desabafou ela, servindo-se de um café. — Parece que falamos línguas diferentes.

Não respondi de imediato. Pouco depois, fui até o corredor buscar um copo d'água e passei pela porta entreaberta do quarto de Leo. Parei por um segundo, observando a cena lá dentro.

Bia estava sentada no chão, com o caderno aberto. Não havia sermões nem teorias.

— Ó, Leo — disse Bia, riscando um quadrado simples na folha. — A prova de história vale quatro. Matemática vale oito e é depois de amanhã. Bora nessa primeiro.

E completou:

— O que a gente precisa fazer nas próximas duas horas para não zerar na lista de exercícios?

Leo olhou para o papel. O olhar dele mudou. A névoa defensiva sumiu.

— Ah... se for só este tempo, a gente começa pelo exercício três, que é o que vai cair com certeza.

— Isso — disse Bia, simples assim. — Uma questão. Depois a gente vê as demais.

Sorri, sozinho, no corredor. Bia não era uma especialista em métodos de estudo; ela apenas estava no mesmo nível de aprendizado e de descoberta que o Leo. Para ela, o óbvio ainda não era óbvio, então ela precisava desenhar cada degrau.

Voltei para a cozinha. Carmem ainda olhava para a xícara do café, em silêncio. Não falei nada sobre o que tinha visto no corredor. Apenas me sentei de novo na poltrona e reabri o livro.

Ela ficou algum tempo ali, parada, como quem ouve um som que ainda não sabe nomear. Depois se levantou, foi até a pia, lavou a xícara devagar — e, antes de sair da cozinha, parou na porta do corredor, olhando na direção do quarto do filho, sem entrar.


Transformações importantes com Mercúrio em movimento

 

por Giovanni Angius, em 30/7/2026.

Dona Ester segurava a folha da revista pela ponta dos dedos, o papel oscilando no mesmo ritmo frágil da cortina da cozinha sob o vento da manhã. Óculos na ponta do nariz, testa vincada por dois sulcos verticais profundos.

“Este mês será marcado pela criatividade, comunicação e transformações importantes.”

Tirou os olhos do papel e encarou a vidraça. Lá fora, o mundo não parecia muito preocupado com transformações alinhadas pelas estrelas, mas na sala ao lado o caos era bem terreno: várias caixas de papelão abertas, o véu pendurado no espelho do corredor, e o telefone que não parava de tocar com a voz sobressaltada do responsável pelo buffet avisando que faltavam garçons para o sábado. A filha se casaria em sete dias.

Suspirou. Voltou à página amarelada e leu o rodapé em letras miúdas: “Lembre-se: a intensidade dessas energias depende da forma como interagem com o Mapa Astral de cada indivíduo.”

— Ah, sim... — murmurou para a xícara de café à sua frente. — Vai depender de como eu arrumar essa confusão.

Do outro lado do muro, Teresa, amiga de tantos anos que já nem se contavam mais, tinha a mesma revista aberta na mesma página, naquela mesma semana, as mesmas “transformações importantes”. Só que para ela aquilo não era buffet nem véu: era um exame crítico que o médico pedira, marcado justamente para aquela semana. Duas vizinhas, duas urgências completamente distintas, e a mesma frase servindo a ambas.

A tensão nos ombros de Dona Ester cedeu um milímetro. Como uma nuvem rápida que dá passagem ao sol, a testa desfranziu.

Eu olhava a cena de canto de olho, com o meu habitual ceticismo de estimação. É fácil, para quem está de fora, acusar o horóscopo de ingenuidade ou atalho lógico. Mas a verdade é que o cérebro humano tem horror ao vácuo e ao imponderável. Diante de um buffet atrasado, de uma filha que sai de casa ou da vida que corre rápido demais, a razão pura é um consolo muito frio.

O que o horóscopo vende não é astronomia; é um espelho sob medida. Suas frases são deliberadamente amplas, como roupas de tamanho único nas quais cada um acomoda a própria dor ou esperança. Dizer que o dia está difícil porque Mercúrio resolveu andar para trás não deixa de ser uma forma elegante de tirar a culpa do acaso e devolver uma ilusão de ordem ao universo. Não buscamos a verdade empírica na página do jornal; buscamos apenas a garantia de que o caos tem um roteiro.

A semana devorou os dias sem pedir licença. Chegou o sábado, o sim, o brinde, o bolo que afinal apareceu a tempo, os aplausos e os abraços apertados. A festa foi impecável.

No domingo, o silêncio da casa parecia maior do que a própria sala. Sobrou apenas o cheiro de flores murchas na jarra e a ressaca mansa do dever cumprido. O novel casal estava a caminho da lua de mel, já no aeroporto.

Dona Ester finalizou a arrumação da cozinha depois do café da manhã e sentou-se na poltrona da sala. Pegou a revista da semana anterior para jogá-la fora, não sem antes dar uma passada de olhos, relendo a previsão da semana do casamento.

— Viu só? — disse baixinho, satisfeita — disse que ia ter transformação.

Mas não se perguntou o que, naquela semana, não poderia ser chamado de transformação.

De repente, deu um estalo com a língua:

— Meu Pai do céu... preciso olhar a revista nova para ver como vai ser a vida daqueles dois agora!

Sorri em silêncio. E assim seguimos todos nós: uns com a régua da lógica, outros com o mapa do zodíaco, mas todos, sem exceção, tentando encontrar no céu uma desculpa bonita para a bagunça que é viver.


O Diretor na parede

 

por Giovanni Angius, em 29/7/2026.

A chuva escorria pelo vidro da janela desenhando caminhos tortos. Lá fora fazia frio. Lá dentro, cheiro de álcool, café requentado e cansaço. Eu estava sentado numa cadeira de plástico azul, dessas que parecem sempre um pouco menores do que a gente precisa, esperando minha vez de ser chamado.

Quem frequenta um pronto-socorro sabe que existe um tempo diferente ali. O relógio continua preso à parede, os ponteiros continuam girando, só que as horas parecem perder o compromisso com a pressa.

Foi nesse intervalo estranho que reparei numa senhora sentada algumas cadeiras adiante. O neto dormia em seu colo, ou tentava dormir. O rosto vermelho denunciava a febre, e ela passava um lenço úmido sobre a testa do menino como quem repetia um gesto aprendido muito antes de existirem os termômetros. Ela havia chegado horas antes de mim.

Enquanto observava a cena, meus olhos foram parar num cartaz pendurado na parede. Nele aparecia a fotografia sorridente do diretor do hospital. Terno impecável, gravata alinhada e um slogan otimista logo abaixo: “Gestão Presente, Eficiente e Humana.”

Fiquei olhando aquele retrato por alguns minutos. Engraçado como uma fotografia consegue parecer mais segura do que a realidade ao redor.

Sem perceber, minha cabeça começou a procurar uma explicação. Se o diretor conhecia aquela fila, sabia da febre do menino e tinha autoridade para mudar as coisas, por que tudo permanecia exatamente igual?

Logo descartei essa hipótese. Era dura demais.

Pouco depois, um senhor que também aguardava atendimento comentou que o diretor devia ser uma excelente pessoa. Disse que fazia o possível pelo hospital e que, se estivesse ali vendo aquela sala lotada, certamente daria um jeito.

Aquilo embaralhava completamente o cenário.

Quem sabe o problema fosse outro. O homem da fotografia vivia cercado de relatórios, planilhas e reuniões, enquanto a realidade seguia outro caminho, bem distante da sala onde assinava papéis. Entre o gabinete e a sala de espera havia uma distância maior do que a mostrada no elevador.

Não demorou muito para surgir outra versão. Uma enfermeira passou apressada pelo corredor e, conversando com outra funcionária, comentou que a direção conhecia perfeitamente a situação. O problema eram os médicos insuficientes, a falta de recursos e medicamentos, os equipamentos quebrados, os repasses atrasados. Ouvi aquilo sem querer, como acontece em qualquer sala de espera.

Pensei, então, que havia gente que enxergava o sofrimento, desejava resolvê-lo e, mesmo assim, esbarrava em obstáculos maiores do que a própria vontade.

Enquanto eu alinhava essas ideias na cabeça, um homem sentado perto da porta tomou o último gole de café e falou quase num sussurro, sem dirigir a palavra a ninguém em especial:

— O diretor existe. Só vive ocupado demais para descer aqui.

Sorri discretamente. A frase parecia brincadeira, mas carregava um peso inesperado.

Naquele instante percebi que todos nós construíamos explicações diferentes para suportar a mesma espera. Cada pessoa inventava uma história capaz de tornar aquele sofrimento um pouco mais compreensível.

A avó seguia refrescando a testa do menino. Uma criança brincava com um carrinho sem uma roda. Uma televisão ligada no volume baixo alternava notícias com receitas culinárias que ninguém assistia.

A chuva continuava caindo fria do lado de fora. E a vida seguia fazendo a sua parte ali dentro.

Naquele instante percebi que todos nós construíamos explicações diferentes para suportar a mesma espera. Quando alguma coisa dói, procuramos alguém que saiba o que está acontecendo, alguém que tenha condições de resolver ou, pelo menos, alguém que se importe. É um jeito de convencer o coração de que existe alguma lógica escondida por trás do caos.

Às vezes encontramos apenas uma fotografia sorridente numa parede descascada.

Quando finalmente chamaram o nome da Dona Maria, ela levantou devagar, ajeitou o menino nos braços e desapareceu pelo corredor.

Olhei a cadeira vazia que ela deixou para trás.

Pensei que, durante aquelas horas, quem realmente enfrentou a febre não foi o homem do cartaz. Foram as mãos enrugadas que seguraram o pano molhado, o abraço que embalou a criança e a paciência silenciosa de quem não tinha outra escolha.

Quando saí do hospital, levei comigo a impressão de que a fotografia na parede jamais responderia às perguntas que eu havia feito em silêncio. Quem respondeu, sem dizer uma palavra, foi Dona Maria, refrescando a testa do neto enquanto esperava.

Às vezes, o mundo continua sem explicação. Ainda assim, alguém pega um pano molhado, oferece um colo e segue em frente, fazendo o que é possível.


Entre a tela e o caderno

 

por Giovanni Angius, em 29/7/2026.

Reconheço os moradores da minha rua antes de os ver passar. Pela cadência dos passos nas calçadas estreitas, pelos barulhos que carregam, pelo horário em que o portão bate. Miguel eu conheço assim há anos — pelo arrastar de tênis contra o paralelepípedo, sempre no mesmo compasso, como quem pisa um chão que já decorou de olhos fechados. Dezesseis anos, testa baixa, polegar colado à tela do celular mesmo quando cumprimenta alguém. Um garoto de quem todo o condomínio de casas sabe o nome, as gírias, o jeito de andar — e do qual, eu suspeitava, ninguém sabia praticamente nada.

Foi a dona Célia, da casa da frente, quem comentou como se espantava de vê-lo a manhã inteira sem tirar os olhos da tela, nem para o café, nem para dar um bom-dia. Eu mesmo via, de minha varanda, aquele polegar deslizando com uma precisão que não tinha nada de distração — parecia antes um ofício, um trabalho sério e sem pausa. Uma vez perguntei, à toa, se ele tinha visto o jogo do dia anterior. Ele me olhou como quem acorda de um lugar muito distante e só depois de alguns segundos respondeu:

— Sim, claro que sim. Todo mundo viu.

Não sei quando comecei a notar o padrão: o humor de Miguel parecia depender menos do mundo ao redor do que aquilo que acontecia na tela. Eu me perguntava se Miguel ainda existia quando a tela apagava.

Da rua, também se ouvia o vocabulário da sua turma, gritado de esquina a esquina nas tardes de calor:

— Não vacila.

— Cadê tu, vacilão?

Uma gramática que não perdoava hesitação, e da qual Miguel parecia dependente como de um remédio, e ausentar-se dali, eu imaginava, devia ser como sumir do mundo.

Veio a crise, sem aviso, no quarto escuro, logo após um dia de engajamento impecável. O peito espremeu o ar, o teto pareceu descer alguns centímetros. Miguel estava apavorado.

Eu só soube de segunda mão, pela empregada que trabalha na casa ao lado da dele. Disse que ouviu, de madrugada, um som estranho vindo do quarto de Miguel — como se faltasse ar a alguém. Não houve ambulância, nem alarde. Na manhã seguinte, ele desceu como sempre, tênis arrastando no mesmo compasso, e eu não teria notado nada se não soubesse.

Soube também que a escola o mandou à sala da orientação, e que de lá saiu uma pergunta que ele repetiu, sem querer, para um amigo na calçada, que por sua vez comentou com a mãe, que comentou com dona Célia:

— Quando ninguém está olhando, o que você tem vontade de fazer?

— Às vezes eu queria ficar quieto... desenhar, escrever umas coisas que não são para postar. Só para mim. — respondeu quase sussurrando.

Talvez o diálogo não tenha sido exatamente este. Histórias de vizinhança se desgastam de boca em boca, como pedra de rio. Mas alguma coisa parecida deve ter sido dita, porque depois disso, havia algo diferente no andar de Miguel — não mais leve, não mais feliz, apenas diferente, como quem carrega uma carga nova e ainda não se conhece o seu tamanho.

Uma noite, já bem tarde, olhando da minha janela para o beco entre as casas, vi seu quarto aceso e, por um instante, um caderno de capa preta aberto sobre a mesa. Hesitava diante dele com uma caneta na mão. Rabiscou qualquer coisa, mas logo em seguida o fechou.

Sei que houve uma festa, semana passada, para a qual todo o grupo dele foi convocado por mensagens — soube porque as mesmas frases ecoaram pela rua a noite inteira, um coro de celulares vibrando em bolsos de adolescentes impacientes na calçada. Soube também, pela mesma cadeia de meias-verdades que me traz tudo sobre o condomínio, que Miguel não saiu.

Não vi o que houve dentro do quarto dele. Ninguém viu. Só sei que, quando finalmente apaguei minha luz, a dele continuava acesa — não com a claridade azulada e fria de sempre, mas com um brilho mais baixo, amarelado, o de um abajur de mesa. Fiquei sem saber, e ainda não sei, se aquilo era alívio ou apenas outra forma de vertigem. Ou será que o caderno de capa preta estava aberto à sua frente?

Há chãos que só parecem firmes enquanto ninguém repara neles de perto.


Reparando bem…

 

por Giovanni Angius, em 28/7/2026.

Dia desses, junto com alguns amigos, a conversa seguia alegre e sem compromisso. Falávamos de tudo um pouco: saúde, família, notícias da cidade.

Um dos amigos, que passou boa parte da vida na área de Inteligência da Polícia Militar — função que exige atenção irrestrita —, resumiu a coisa sem qualquer solenidade:

— Observar, memorizar e saber descrever.

Disse aquilo para ilustrar como algumas pessoas são observadoras e como cobram dos outros detalhes que às vezes parecem impossíveis de resgatar da memória. A frase ficou no ar por alguns segundos. Ele contava, rindo, que costuma brincar com sua esposa — uma mulher capaz de enxergar o invisível: a cor exata da camisa de um estranho, a moldura trocada na parede, a marca do carro dobrando a esquina. Enquanto ela nota o mundo, muitos atravessam a rua de olhos semicerrados.

Voltei para casa pensando naquela sequência de três verbos. Observar. Memorizar. Descrever.

É curioso como uma frase criada para o trabalho policial acabou encontrando morada dentro de mim por um motivo completamente diferente. Quem escreve vive disso.

Percebi que, sem saber, passo boa parte dos meus dias fazendo exatamente esse exercício. Observo pessoas esperando o sinal abrir. Reparo na senhora que dobra cuidadosamente a sacola do mercado antes de guardá-la na bolsa. Escuto um vendedor ambulante repetindo a mesma piada para clientes diferentes. Vejo um menino equilibrando um sorvete enorme, compenetrado na missão de fazê-lo chegar inteiro à próxima esquina.

Quase ninguém presta atenção nessas cenas. Elas acontecem, desaparecem e cedem lugar às próximas, como pequenas ondas que quebram na praia sem deixar vestígios.

Só que algumas permanecem comigo. Não porque sejam extraordinárias. Pelo contrário. Permanecem justamente porque pertencem ao território das pequenas coisas.

Gosto muito da ideia de cultivar a capacidade de enxergar significado onde quase todos veem banalidade. Acredito que o espírito de uma época se revela muito mais nos gestos discretos do cotidiano do que nos grandes discursos, como se a verdade morasse nas margens, escondida em detalhes que passam depressa diante dos nossos olhos.

Quanto mais penso nisso, mais percebo que viver é a arte da atenção. O problema é que andamos ocupados demais. Entramos na padaria com os olhos no celular. Almoçamos pensando na reunião da tarde. Caminhamos pela rua totalmente absortos. Quando percebemos, o dia inteiro passou sem que estivéssemos presentes em nenhum momento.

Depois reclamamos da velocidade do tempo, quando, na verdade, quem estava acelerado éramos nós mesmos.

Há dias em que volto para casa tentando reconstruir mentalmente o caminho que fiz. Quem encontrei? Que cheiro havia na rua ou no café na esquina? O céu estava limpo ou carregado? Em algumas ocasiões descubro, com certo constrangimento, que não consigo responder à maioria dessas perguntas. Passei por tudo aquilo sem realmente ver. Essa constatação costuma me incomodar.

Escrever acabou se tornando uma espécie de antídoto contra essa distração permanente. Quando sei que uma cena pode virar crônica, meu olhar muda. O mundo deixa de ser pano de fundo e passa a ocupar o centro da experiência. Um banco de praça, uma conversa no elevador ou uma criança tentando equilibrar uma bola nos pés adquirem uma importância inesperada.

Cada detalhe parece dizer alguma coisa, mas nem sempre consigo entender a mensagem. Ainda assim, gosto de registrá-la. Existe uma melancolia discreta nesse hábito: as pessoas falam como se as palavras fossem durar no tempo. Fazem gestos que imaginam inesquecíveis. Riem, discutem, abraçam-se, despedem-se. Depois a vida segue seu curso silencioso. Algumas horas bastam para que quase tudo seja apagado da memória coletiva.

O planeta continua girando com indiferença.

É estranho pensar que muitas cenas desapareceriam completamente se ninguém resolvesse guardá-las dentro de uma lembrança ou de um texto. Talvez seja essa uma das funções mais bonitas da literatura. Ela recolhe aquilo que o tempo costuma abandonar pelo caminho.

No fim das contas, aquela frase do amigo ainda continua ecoando na minha cabeça. Observar, memorizar e saber descrever.

Para um profissional de Inteligência, isso pode significar segurança, precisão e responsabilidade. Para mim, significa um jeito de caminhar pelo mundo tentando não desperdiçar a vida. E quem sabe seja aí, escondida entre gestos esquecidos, conversas banais e pequenos instantes, que a existência deixe suas pistas mais sinceras.


Às quatro e dezessete

 

por Giovanni Angius, em 27/7/2026.

O ar no porão estava estagnado e tinha o cheiro de poeira antiga. Os sons abafados que vinham do exterior aumentavam a sensação do tempo parado e da vida suspensa.

Lá fora, o sol das duas da tarde esquentava o telhado da velha casa de madeira, mas ali embaixo, alguns degraus abaixo do nível do solo, a luz entrava por uma janelinha quadrada, alta, ao rés do chão da rua, meio suja dos respingos, e desenhava um recorte pálido no chão.

Alessandro ajoelhou-se sobre o cimento frio. Tinha os joelhos marcados pela poeira cinzenta e as palmas das mãos sujas de fuligem. Havia passado as últimas duas horas arrastando caixas de papelão deformadas pelo tempo, separando o que seria doado do que iria para o lixo. Seu pai falecera há quatro meses, mas só agora reunira a coragem necessária para descer os dezesseis degraus de madeira rangente.

No fundo do porão, sob a sombra projetada por um armário de metal enferrujado, repousava uma caixa de madeira pesada, com dobradiças de ferro escurecido. Alessandro a conhecia. Era a caixa de ferramentas do pai. Na infância, aquela caixa parecia inviolável, um artefato sagrado que apenas as mãos grossas e calejadas do velho podiam abrir.

Antes de abri-la, Alessandro teve um instante de hesitação física. Sua mão parou no ar, paralisada pela rápida lembrança de ser repreendido por mexer naquela caixa. Quando criança, teria que enfrentar o medo que hoje está ausente.

Ele aproximou-se devagar, hesitante. A tampa de madeira rangeu ao ser levantada, libertando um sopro concentrado de óleo de máquina, graxa e ferrugem.

Dentro, entre chaves de boca, alicates e martelos com cabos gastos pelo uso contínuo, algo no fundo chamou sua atenção. Embrulhado num pedaço de flanela xadrez desbotada, havia um objeto menor. Alessandro o pegou e desenrolou o pano.

Era um relógio de bolso antigo, dourado, com o vidro do mostrador trincado. Os ponteiros estavam parados exatamente às 4h17.

Alessandro congelou. Lembrava-se daquele relógio. O pai o guardou a vida inteira, mas nunca o usou. Era o relógio que pertenceu ao avô — um homem rígido, distante, que o pai raramente mencionava e de quem herdara a mesma severidade silenciosa no olhar.

Lentamente, Alessandro passou o polegar pelo vidro trincado. O frio do metal pareceu atravessar sua pele. Naquele instante, o silêncio do porão pesou sobre seus ombros.

Ele não estava apenas segurando um relógio quebrado numa sala escura. Ele estava diante da herança invisível que o pai lhe deixara: a incapacidade de expressar afeto, as palavras engolidas durante as refeições em família e os silêncios profundos formavam a armadura de dureza que o próprio Alessandro, sem perceber, começara a vestir no seu próprio casamento e na relação com o filho pequeno.

O tempo do pai havia parado. O tempo do avô também.

Alessandro sentou-se no chão de cimento, encostando as costas na parede fria. Fechou os olhos e apertou o relógio na palma da mão. Uma lágrima quente abriu um rastro limpo na poeira de seu rosto, seguida por um soluço abafado que ecoou suavemente entre as paredes do porão.

Naquele momento de profunda solidão, os batimentos do coração eram pesados: o som de fora sumindo por um instante, a poeira parada no feixe de luz e as lembranças dolorosas.

Não era um choro apenas de dor pela perda. Era também carregado com um certo alívio e reconhecimento. Ali, na escuridão do submundo da casa paterna, Alessandro olhou para a sombra da sua linhagem — a dor não resolvida dos homens que o precederam.

Momentos depois, deu um respiro a mais antes da virada para o renascimento de si mesmo.

Com a mão livre, ele puxou a coroinha do relógio e girou-a com cuidado. O mecanismo rangeu, hesitou, e então o tic-tac baixo, seco e ritmado voltou a soar no silêncio do porão.

Os ponteiros voltaram a andar.

Ele sorriu sem alegria e sem tristeza, só com aquela serenidade estranha de quem encontra uma fresta. Guardou o relógio no bolso da camisa, bem perto do peito, levantou-se e limpou as mãos na calça. Subiu os degraus lentamente. Lá em cima, o dia continuava quente e os passarinhos seguiam a sua cantoria.

A vida, sem alarde, pedia passagem. Alessandro retornou a ela com um passo mais leve.


O ego e o tempo


por Giovanni Angius, em 26/7/2026

Há um ditado que ouvi tanto a vida inteira que já nem lembro de quem primeiro me contou: quem caminha sozinho chega mais rápido, quem caminha acompanhado chega mais longe. Sempre achei bonito e um tanto óbvio, uma frase que a gente concorda sem pensar direito. Foi revendo umas fotos antigas guardadas no computador que entendi de verdade o que ela queria dizer. E entendi por que me lembrei de Gustavo e Giulia.

Fui estagiário do escritório dos dois, lá no começo, quando ainda cabíamos todos em uma sala só, e o café era feito na mesma cafeteira velha que vivia pifando. Gustavo chegava cedo. Desenhava rápido, decidia rápido e parecia sempre medir o tempo por prazos que só ele enxergava. Giulia era o oposto: chegava suada de tanto andar pelos bairros, conversando com gente que a maioria das pessoas nem cumprimenta. Ela dizia que um prédio só existe de verdade depois que alguém aprende a amá-lo, e Gustavo revirava os olhos toda vez que ouvia isso.

Quando surgiu o concurso da reurbanização, era possível sentir a tensão no ar da sala, quase palpável. Gustavo queria desenhar a solução perfeita e entregar antes do fim do prazo. Giulia queria ouvir o bairro inteiro primeiro. Eu me limitava a fazer cópias, organizar e carregar plantas de um lado para o outro. Via os dois se afastando um pouquinho a cada dia, como duas pessoas que caminham lado a lado numa calçada e, sem perceber, vão abrindo distância até virarem duas calçadas diferentes.

Giulia saiu antes do fim. Lembro do silêncio dela guardando as coisas numa caixa de papelão, sem drama, apenas cansaço. Gustavo terminou o projeto sozinho, dormindo pouco, vivendo de café, e venceu o concurso. Todo mundo comemorou. Eu também comemorei, porque tinha vinte e poucos anos e achava que vencer era a coisa que importava.

Não trabalhei mais com nenhum dos dois depois disso, mas fui acompanhando de longe, como a gente acompanha gente que marcou a nossa formação. Gustavo virou nome grande, prêmio atrás de prêmio, revista atrás de revista. Só que o próprio edifício que o consagrou nunca colou direito com a cidade. Ficou bonito, ficou frio, ficou meio vazio até nos dias de sol. Giulia sumiu do circuito das premiações, foi trabalhando devagar, junto de conselhos de bairro e comunidades, construindo uma reputação que demorou quinze anos para aparecer numa manchete.

Alguns anos atrás, os caminhos deles se cruzaram outra vez, num projeto de requalificação de um centro histórico, grande demais para qualquer um tocar sozinho. Gustavo entrou como arquiteto principal. Giulia entrou como responsável pela parte de preservação e escuta social. Fui a uma das reuniões públicas, mais por curiosidade do que por trabalho, e reconheci os dois na mesma sala depois de tanto tempo, num silêncio que dava para cortar com faca.

O que me marcou foi ver Gustavo, ali, escutando. Escutando de verdade, sem aquele jeito de quem espera a vez de falar. Alguém da plateia perguntou por que o projeto estava demorando tanto para sair do papel, e foi Giulia quem respondeu, calma, dizendo que a cidade não se constrói no ritmo de quem tem pressa, e sim no ritmo de quem vai morar nela depois. Gustavo concordou com a cabeça. Fiquei olhando aquela cena pensando em como o tempo trabalha estranho: ele tinha vencido rápido demais lá atrás, e isso o condenou a repetir a mesma solidão em cada obra nova. Ela tinha perdido tempo, reconhecimento, talvez até um pouco de si mesma nesse processo, mas o que construiu ficou de pé, ficou vivo, ficou habitado.

Ao final da reunião, saí pensando no ditado de novo. Achei que ele estava incompleto. Porque não é só uma questão de chegar mais rápido ou mais longe. É que existe um tipo de obra que só nasce do atrito entre duas pessoas que discordam e continuam ali, teimosamente, uma do lado da outra. Pela primeira vez, tive a impressão de que Gustavo já não precisava controlar todas as respostas. Também me pareceu que Giulia aprendera que apenas ouvir a todos nem sempre bastava para erguer algo sólido.

Não sei se aquele centro histórico vai durar cem ou duzentos anos. Quem há de saber? Mas sei que agora os vi juntos construindo a mesma coisa, no mesmo ritmo, e isso já parece uma vitória maior do que qualquer troféu numa prateleira.