O café na padaria da esquina

 A padaria ficava logo ali, na esquina de sempre, mas parecia deslocada do restante do bairro — como se tivesse sido plantada de propósito naquele ponto exato para acolher pensamentos que não cabiam em casa. Era bonita, moderna, dessas com iluminação suave e mesas de madeira clara, onde o barulho das xícaras parece mais educado do que em qualquer outro lugar.

Foi ali que ele chegou primeiro.

Sentou-se perto da janela, pediu um café sem açúcar e ficou olhando para a rua com uma atenção que não era exatamente distração; também não era presença. Havia algo nele — um tipo de silêncio inquieto — que denunciava que o encontro não seria apenas um convite casual.

Quando o amigo chegou, foi recebido com um aceno discreto e um sorriso curto. Conversaram, como de praxe, sobre coisas leves: trabalho, rotina, alguma notícia recente. Mas não demorou muito para que a conversa escorregasse, quase naturalmente, para um terreno mais denso.

Ele começou sem cerimônia: disse que estava bem. Muito bem, aliás. Saúde em dia, carreira em ascensão, vida confortável. Nada faltava — pelo menos nada que pudesse ser listado em um inventário comum de felicidades. E, ainda assim, havia algo errado.

Não era tristeza, fez questão de esclarecer. Tampouco desespero. Era outra coisa. Uma espécie de desconforto silencioso, persistente. Como se estivesse vivendo corretamente uma equação que, no fundo, não levava a resultado algum.

Falou então de um incômodo que crescia nele: uma sensação de que buscava ordem, clareza, sentido — enquanto o mundo lhe respondia com um silêncio estranho, quase insolente. Uma quietude que não negava nem afirmava; apenas ignorava.

Chamou isso de um divórcio entre o que desejava e o que encontrava.

O amigo ouviu sem interromper. Tomou um gole do café, respirou fundo e respondeu com calma. Disse que aquela inquietação não era nova, nem exclusiva. Que havia um pensador que tratou disso com uma clareza quase desconcertante. Falou de Albert Camus.

Explicou que, para Camus, o absurdo nasce exatamente desse confronto: de um lado, o ser humano que deseja sentido, coerência, explicação; do outro, um mundo que não oferece resposta alguma. Não é que o mundo seja hostil — ele é apenas indiferente. E é nesse choque que surge o sentimento do absurdo.

O outro ouviu atentamente, apoiando os cotovelos na mesa, como se quisesse se aproximar mais da ideia.

— E o que se faz com isso? — perguntou.

O amigo sorriu de leve, mas não havia conforto naquele gesto.

— Camus diria que não há fuga honesta. Nem na religião, nem na ilusão, nem na negação. A lucidez está em encarar esse vazio sem disfarces. Mas não se trata de aceitar em silêncio, como quem se resigna. Há algo mais duro do que isso.

O outro franziu levemente a testa.

— Mais duro…?

— Sim. Permanecer. E, mais do que permanecer, recusar-se a ceder. Viver como quem sabe que não há resposta — e, ainda assim, não se cala diante disso.

Houve um breve silêncio. Daqueles que não oferecem repouso, mas aprofundam a tensão. Então veio a história de Sísifo.

O amigo contou que, na mitologia, Sísifo foi condenado a empurrar eternamente uma pedra montanha acima, apenas para vê-la rolar de volta ao ponto inicial. Um esforço inútil, repetido para sempre.

Mas, segundo Albert Camus, o momento mais importante não é quando Sísifo empurra a pedra. É quando ele desce a montanha para buscá-la novamente. Ali, consciente de sua condição, ele não se submete — ele confronta. Não há esperança, mas há recusa. Sua lucidez não o consola; ela o arma.

O amigo citou, quase de memória: “A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz”.

O outro ficou em silêncio por alguns segundos, como quem testa uma ideia que não oferece abrigo. Depois, soltou um leve riso — não de alívio, mas de reconhecimento.

— Então é isso? — disse. — A gente continua… mesmo sabendo que não há porquê?

— Continua — respondeu o amigo — mas não como antes. Não por hábito, nem por esperança. Continua como quem sabe e, por isso mesmo, não se rende. Há uma espécie de revolta nisso. Não barulhenta. Não heroica. Mas constante.

A conversa seguiu por mais algum tempo, agora menos confortável, mais exata. Já não havia o mesmo espaço para pequenas distrações. As palavras pareciam carregar um peso novo, como se cada uma exigisse responsabilidade.

O café esfriou mais rápido do que perceberam. O movimento da padaria aumentou. A luz do dia começou a ceder espaço a um céu mais escuro, tingido de tons indecisos.

Quando pediram a conta, não havia conclusões. Nenhuma resposta definitiva, nenhuma solução prática.

Havia, sim, algo diferente — e menos pacificador. Uma compreensão mais nítida de que viver com lucidez não apazigua: expõe. Uma consciência de que o conflito não se resolve, apenas se assume. E, talvez, uma disposição silenciosa de não recuar diante disso.

Saíram juntos, cada um carregando consigo sua própria pedra invisível. Não mais como quem aceita um fardo inevitável, mas como quem o reconhece — e, nesse reconhecimento, recusa-se a ser diminuído por ele.

E, no intervalo entre um passo e outro, havia algo novo, quase imperceptível: não paz, mas uma firmeza tensa — como se, diante do absurdo, ambos tivessem escolhido não se calar.


A lista

Não era exatamente um amigo — desses que a gente chama para um café demorado ou para dividir silêncios confortáveis. Também não era um estranho. Era um conhecido de rotina, desses que aparecem de tempos em tempos como se a vida fosse um corredor onde as pessoas se cruzam sem necessariamente caminhar juntas.

Quando soube do colapso nervoso, a notícia veio como vêm essas coisas hoje em dia: rápida, seca, quase sem contexto. Hospital, atendimento a tempo, recuperação em casa. Um susto. Mais um entre tantos que andam acontecendo por aí, como se o mundo tivesse decidido testar os limites de todo mundo ao mesmo tempo.

O encontro aconteceu por acaso. Ele parecia fisicamente melhor — mais magro, talvez, ou apenas mais quieto. Havia uma espécie de pausa nele, como se alguém tivesse finalmente apertado um botão que ele mesmo ignorava há anos. Conversaram.

Falava com uma lucidez que impressionava. Sabia exatamente o que precisava mudar: o ritmo de trabalho, a forma como dizia sim para tudo, o modo como deixava o dia ser consumido por urgências alheias. Sabia. Mas não fazia.

— Eu sei o que tem que ser feito — disse, com um meio sorriso cansado —, mas não consigo fazer.

Era como assistir a alguém descrevendo perfeitamente a saída de um labirinto enquanto permanecia parado no centro dele.

Disse que já havia tentado listas. Muitas listas. Listas de tarefas, de metas, de prioridades. Comprou agendas, baixou aplicativos, organizou horários. Nada durava. No começo, funcionava por alguns dias, talvez semanas. Depois, a vida voltava a engolir tudo.

Foi aí que, sem muita cerimônia, surgiu Sêneca na conversa. Não ficou claro quem trouxe o nome primeiro, mas se encaixou como uma peça antiga que ainda faz sentido.

Ele mencionou, meio de memória, a ideia central de Sobre a brevidade da vida: não é que a vida seja curta — nós é que a desperdiçamos.

Houve um silêncio breve depois disso.

— Eu acho que desperdicei bastante — disse ele, olhando para um ponto qualquer.

A resposta veio quase automática, mas sem tom de lição:

— A gente só tem o presente. O passado não muda, o futuro não garante nada.

Ele assentiu, como quem já sabia disso também. Sabia de tudo, aliás. Esse era o problema.

Porque saber, como ficou evidente naquela conversa, não é o mesmo que viver de acordo com o que se sabe.

Sêneca, em seus textos, criticava justamente essa ilusão de abundância de tempo. Dizia que as pessoas protegem seus bens com zelo, mas entregam o tempo — o único recurso verdadeiramente insubstituível — a qualquer distração, a qualquer exigência externa. Não por maldade, mas por descuido.

Aquele homem parecia um exemplo vivo disso.

Sua vida, pelo que contou, era uma sucessão de demandas que não eram exatamente dele. Expectativas de outros, prazos de outros, urgências de outros. Ele havia se tornado, aos poucos, um gestor da vida alheia, enquanto a própria existência ficava em segundo plano.

— No fim — disse ele —, acho que eu existi mais do que vivi.

A frase ficou no ar, pesada, porque não era dramática. Era simples. E talvez por isso mesmo, mais verdadeira.

Ele não parecia alguém em busca de grandes mudanças revolucionárias. Não falava em largar tudo, viajar o mundo ou reinventar a própria identidade. Falava de coisas menores — e, paradoxalmente, mais difíceis: organizar o tempo, escolher melhor o que merece atenção, aprender a dizer não.

Coisas simples. Mas nada fáceis.

A tal da lista, que dava título à conversa quase sem querer, reapareceu no fim.

— Talvez eu precise de uma lista diferente.

— Diferente como?

Ele pensou um pouco antes de responder.

— Menos coisas. E mais verdadeiras.

Não era exatamente uma inovação metodológica. Não havia ali nenhuma técnica inédita de produtividade. Mas havia algo mais raro: uma tentativa honesta de alinhar o que se faz com o que se sabe.

Sêneca também alertava sobre isso: não basta acumular ensinamentos como quem coleciona objetos. É preciso incorporá-los, vivê-los, transformá-los em prática. Caso contrário, o conhecimento vira apenas mais uma forma de ilusão.

Despediram-se sem promessas.

Ele seguiu seu caminho, ainda em recuperação — o corpo respondendo melhor, a mente tentando acompanhar. Havia dúvidas, claro. Sobre se conseguiria, de fato, romper com o padrão que o levou até ali. Sobre se a lucidez resistiria ao retorno das pressões cotidianas.

Mas havia também algo novo, ainda que discreto.

Uma consciência mais nítida de que o tempo não falta — é mal distribuído. E de que viver não é apenas continuar, dia após dia, cumprindo tarefas, mas escolher, com algum cuidado, quais delas realmente merecem ocupar o espaço limitado da existência.

Talvez sua nova lista nunca fique pronta. Talvez seja reescrita muitas vezes.

Mas, se houver algum progresso, não estará na quantidade de itens riscados — e sim na coragem de deixar de lado aquilo que, por muito tempo, ocupou espaço sem nunca ter merecido.


A melancolia das oito horas

 

Houve um tempo em que o domingo tinha relógio próprio. Não precisava olhar para ponteiro nenhum. Bastava ouvir certos sons da casa: o prato sendo guardado mais cedo, a sandália arrastando no corredor, o banho tomado sem pressa, a toalha pendurada na porta, o cheiro de café requentado vindo da cozinha. E, principalmente, bastava esperar chegar a noite.

Às oito horas, em muitas casas brasileiras, acontecia uma pequena cerimônia involuntária. A televisão, instalada como altar doméstico da época, anunciava com trombetas modernas:

— É fantástico… tchan…!

Pronto. Estava decretado. O domingo acabara.

Para aquele homem, então menino, aquilo nunca foi apenas a abertura de um programa. Era o som do portão fechando. O aviso de que a liberdade breve do fim de semana recolhia suas asas e partia sem se despedir. No dia seguinte haveria escola, depois trabalho, obrigações, filas, horários, cobranças, despertador. A semana vinha vindo como trem em trilho reto: impossível de impedir.

Ele percebia um aperto estranho no peito, embora ainda não soubesse dar nome ao que sentia. Não era exatamente tristeza. Também não era medo, mas uma mistura de tédio antecipado com saudade do que ainda nem tinha acabado. Uma sensação de vazio, dessas que entram sem bater e sentam no sofá da sala.

Curioso como certas vinhetas conseguem dizer mais sobre a existência humana do que muitos discursos.

Anos depois, já adulto, ao ler Blaise Pascal, encontrou palavras antigas para explicar aquele mal-estar dominical. O pensador francês do século XVII dizia que grande parte da infelicidade humana nasce da incapacidade de permanecer em repouso, sozinho, num quarto. Quando cessam as distrações, o homem se vê diante de si mesmo. E isso nem sempre é agradável.

Pascal chamava de divertissement o conjunto de distrações que usamos para fugir dessa confrontação interior. O termo não significa apenas “diversão”, no sentido moderno e leve da palavra. Trata-se de tudo aquilo que nos desvia de pensar na própria condição: jogos, conversas vazias, ambições incessantes, ruídos, tarefas sem necessidade, agitação constante. Não buscamos necessariamente a coisa em si, dizia ele, mas o movimento que ela produz.

Em outras palavras: às vezes a pessoa não quer a festa; quer não ficar sozinha consigo mesma. Não quer a viagem; quer o intervalo entre uma angústia e outra. Não quer a televisão; quer o barulho dela ocupando a casa e impedindo o silêncio de falar.

Talvez por isso o domingo à noite fosse tão desconfortável. Durante o dia ainda havia distrações disponíveis: almoço em família, futebol, visita, cochilo, rua, conversa jogada fora, crianças correndo, sorvete, rádio ligado. Mas quando chegava a noite, as atividades começavam a se recolher como pássaros voltando ao ninho. Restava uma espécie de clareza. E a clareza, às vezes, assusta.

Aquela vinheta dominical não criava o vazio; apenas o revelava. Funcionava como sino de mosteiro ao contrário: em vez de chamar para Deus, chamava para a rotina. Em vez de elevar a alma, lembrava obrigações futuras, cadernos por arrumar, uniformes por passar, metas por cumprir. O mundo recomeçaria em poucas horas, indiferente aos desejos individuais.

O menino não conhecia Pascal, claro. Não sabia nada sobre sua obra Pensamentos. Mas intuía algo essencial: havia momentos em que a vida fazia menos barulho, e justamente por isso ficava mais nítida. O domingo à noite era um desses momentos.

Foi também ali que começou sua antipatia por certos programas de variedades. Não por desprezo cultural, nem por pose intelectual. Era mais simples. Ele percebia, mesmo sem formular, que muita coisa servia apenas para preencher o tempo sem tocar a alma. Luzes, risadas, auditórios, celebridades e falatório — tudo isso parecia espuma cobrindo um poço fundo.

Enquanto outros assistiam com alegria genuína, ele sentia cansaço. Havia ruídos demais para pouca substância.

Com o passar dos anos, descobriu que aquela sensação não era só dele. Muita gente conheceu a chamada “melancolia de domingo”, esse vazio coletivo que visitava bairros inteiros no mesmo horário. Cada um sofria à sua maneira: alguns comiam mais, outros discutiam por bobagem, outros ligavam para alguém sem assunto, outros aumentavam o volume da TV.

Hoje, o divertissement continua vivo, apenas mudou de roupa. Hoje talvez não entre pela vinheta da televisão, mas pela rolagem infinita do celular, pelos vídeos curtos, pelas notificações, pela necessidade de estar sempre ocupado. O mecanismo é antigo: se o silêncio ameaça surgir, corre-se para qualquer barulho. Pascal diria que nada mudou no coração humano.

Quanto àquele homem, ainda hoje, quando escuta certas músicas de abertura ou sons de programas antigos, sente um eco distante no peito. Não chega a ser tristeza. Tampouco nostalgia. É outra coisa: é a lembrança de que existiu um tempo em que, aos domingos, às oito da noite, o universo parecia suspirar fundo e dizer:

— Agora encare a si mesmo.


Silêncio no elevador

 

Todo prédio tem seus ruídos oficiais: o portão que range, a moto que chega tarde, o cachorro do terceiro andar que late para existências invisíveis, a descarga apressada de algum vizinho e o arrastar de cadeiras em horários impróprios. O salto alto que não para de andar pela casa toda, uma jornada sem fim. Mas havia também o silêncio do elevador, e esse ninguém costumava notar.

Era uma mudez particular. Não o silêncio puro, impossível nas cidades, mas em suspensão. Assim que a porta metálica se fechava, parecia que o mundo lá fora ficava em pausa por alguns segundos. O elevador subia ou descia carregando sacolas, pressas, perfumes, problemas existencais e pequenas tragédias domésticas, tudo em absoluto constrangimento.

Naquela manhã de terça-feira, entrou primeiro o morador do 702. Terno azul, pasta preta, olhar de quem já estava atrasado desde 1998. Apertou o térreo e ficou examinando os números vermelhos no painel como se fossem ações da bolsa. No quarto andar entrou a senhora do 403, trazendo uma planta no colo e um cheiro de café recém-passado. No sexto, juntou-se o rapaz do 601, fones no ouvido, roupa de academia, expressão neutra de estátua moderna.

Os três desciam juntos, unidos apenas pelo cabo de aço e pela inconveniência da proximidade.

Ninguém se olhava. Cada um mantinha a antiga liturgia dos elevadores: fixar os olhos num ponto inexistente, tossir discretamente, conferir o celular sem necessidade ou estudar o teto como se houvesse ali afrescos renascentistas.

O narrador daquela cena — se existisse um narrador escondido na luminária — talvez lembrasse de Martin Heidegger, filósofo alemão que observou como o ser humano vive lançado no mundo, mergulhado em tarefas, hábitos e expectativas. Para ele, grande parte da vida corre sob o domínio do impessoal, aquilo que ele chamou de das Man, o “se”. “Se faz assim”, “se diz isso”, “se evita conversa no elevador”.

E como o “se” mandava, ninguém falava.

A senhora da planta até ensaiou um “bom dia”, mas o 702 consultava o relógio com severidade, e o 601 balançava levemente a cabeça ao ritmo de alguma música privada. O cumprimento morreu antes de nascer, como tantos projetos humanos.

No quinto andar, o elevador deu um pequeno tranco.

Nada grave. Apenas um soluço mecânico. Mas bastou para romper o encanto da impessoalidade. O homem do terno levantou os olhos. A senhora apertou a planta contra o peito. O rapaz tirou um dos fones.

— Ih — disse ele.

Foi a primeira palavra real daquele encontro.

O elevador seguiu normalmente, porém algo já havia mudado. O susto mínimo lembrou aos três que estavam ali juntos, de carne, osso e vulnerabilidade. Não eram apartamentos empilhados em caixas numeradas; eram pessoas dividindo a mesma caixa menor.

— Esses elevadores andam estranhos — comentou a senhora.

— Verdade — respondeu o homem do terno, com voz surpreendentemente gentil. — Semana passada travou no oitavo.

— Sério? — perguntou o rapaz, agora completamente sem fones.

E pronto. O mundo se abriu em conversa de trinta segundos.

Descobriu-se que a planta era uma jiboia teimosa, resistente à falta de luz; que o rapaz trabalhava à noite e treinava cedo para espantar o cansaço; e que o homem do terno era contador e tinha medo secreto de lugares fechados, ironia que a vida lhe cobrava diariamente.

Quando chegaram ao térreo, já não eram estranhos absolutos. Também não eram amigos, claro. Ninguém sairia dali para jantar junto ou fundar uma república comunitária. Mas havia surgido algo raro nas cidades: o reconhecimento mútuo.

Heidegger talvez sorrisse, se os filósofos sorrirem dessas coisas. Porque ele dizia que o cotidiano tende a nos dissolver no anonimato das rotinas. A gente acorda, trabalha, responde mensagens, paga contas, repete opiniões prontas e circula entre outros como quem desvia de postes. Vive-se muito, presencia-se pouco.

No elevador daquele prédio, por alguns segundos, a engrenagem falhou — e ainda bem.

O 702 segurou a porta para a senhora sair com a planta. O rapaz desejou bom treino para si mesmo, num gesto confuso que fez os outros rirem. Cada um seguiu seu rumo pela calçada, novamente engolido pela agenda, pelo trânsito, pelas notificações.

Mas agora o prédio tinha menos paredes invisíveis.

Nos dias seguintes, passaram a se cumprimentar. Coisa simples. Um “bom dia”, um “vai chover”, um “como vai a planta?”. Nada que mude a história universal, embora talvez mude a história miúda de uma terça-feira qualquer.

Porque às vezes o sentido da existência não aparece em grandes revelações, e sim no instante em que a porta se fecha, o elevador range, e alguém resolve quebrar o silêncio herdado.

No fundo, o ser-no-mundo também mora em condomínio.


A arte de procrastinar com consciência


por Giovanni Angius, em 25/4/2026.

Aquela mulher sempre teve excelentes motivos para adiar. Não estabelecia desculpas baratas, dessas que se desmontam ao primeiro vento. Motivos sólidos, bem acabados, quase elegantes. Na juventude, faltava tempo. Na fase adulta, faltava estabilidade. Depois, vieram as contas, os filhos, os compromissos, a fadiga, o barulho do mundo. Mais tarde, surgiu um argumento ainda mais sofisticado: agora faltava energia.

E assim foi levando a vida com uma habilidade rara: a de postergar com inteligência.

Entre os muitos projetos guardados em gavetas mentais, havia um que nunca morria. Um romance. A ideia lhe surgira cedo, quase pronta, como certas visitas inesperadas que entram sem bater. A história da família que deixava sua terra natal no início do século XX, atravessava o oceano em busca de um futuro melhor e, aos poucos, perdia o vínculo com aqueles que permaneceram na terra. Cartas rareando, sobrenomes deformados pela língua estrangeira, fotografias sem legenda, memórias desbotadas. Havia fatos reais misturados à invenção, o que lhe dava ainda mais valor. Não seria apenas um livro; seria uma espécie de resgate. Mas resgates também podem esperar.

De vez em quando, ela abria um caderno novo. Comprava boas canetas. Organizava pastas no computador. Lia sobre técnicas narrativas. Assistia a entrevistas de escritores. Fazia listas de capítulos. Pesquisava navios da época, portos antigos, mapas de imigração. Trabalhava bastante no entorno sem tocar a obra em si. Era uma pessoa produtiva nas margens.

Se alguém perguntasse por que ainda não começara, sempre tinha respostas prontas. Queria maturidade suficiente para fazer jus ao tema. Precisava de mais dados históricos. Um romance exige disciplina, e disciplina requer uma fase mais calma da vida. Além disso, não se deve escrever apressadamente algo tão importante. Tudo muito sensato. Tudo muito razoável. Tudo muito eficiente — para não escrever uma linha.

No fundo, desconfiava do mecanismo, mas não o desmontava. Há aqueles que preferem conviver com a poeira a mover os móveis e, muitas vezes, fingir que não se é livre é mais confortável.

Foi então que, certa noite, ao arrumar uma estante, encontrou um papel antigo. Nele, sua própria letra jovem descrevia a primeira cena do romance: “... uma mala fechada às pressas, uma mãe olhando para trás, um menino sem entender a despedida…”. Leu aquilo e sentiu um desconforto estranho, como quem recebe uma carta enviada por si mesma décadas antes. Não era saudade. Era flagrante.

Jean-Paul Sartre chamava de má-fé essa curiosa capacidade humana de mentir para si mesmo sem perder a pose. Não se trata de enganar os outros, o que já daria trabalho suficiente. Trata-se de agir como se a própria vida estivesse sendo conduzida por forças externas inevitáveis. O sujeito diz: “não posso”, quando talvez o mais honesto fosse dizer: “não quero pagar o preço”.

Percebeu, assim, sentada no chão, entre livros empoeirados, que jamais lhe faltara tempo absoluto. Faltara escolha assumida. Escrever exigiria sacrificar outras coisas: conforto, distrações, a imagem romântica de “autor em potência”. Enquanto o romance permanecia apenas possível, era perfeito. Nenhum capítulo ruim, nenhuma crítica, nenhum fracasso. No reino do adiamento, tudo nasce genial. Começar seria arriscá-lo ao mundo.

Por isso procrastinar pode ser tão sedutor. Não é mera preguiça; às vezes é estratégia de autopreservação. Quem adia indefinidamente conserva intacta a fantasia de que poderia ter sido extraordinário. Quem faz, ao contrário, corre o risco de descobrir seus limites. E há quem prefira o brilho imaginário à luz imperfeita do real.

Nos dias seguintes, observou sua rotina como um investigador observa um suspeito conhecido. Reparou na facilidade com que surgiam tarefas urgentes justamente quando pensava em escrever. A lâmpada da cozinha precisava ser trocada. O armário merecia reorganização. Notícias importantíssimas exigiam leitura imediata. Até a vontade súbita de aprender marcenaria apareceu. A mente, quando quer fugir, é inventiva.

Mas algo mudara. Já não conseguia acreditar completamente nas próprias justificativas. E quando a desculpa perde a fé de quem a produz, ela envelhece rápido.

Numa manhã comum, sentou-se à mesa sem solenidade. Não comprou caderno novo. Não esperou inspiração. Não reorganizou arquivos. Apenas abriu um documento em branco e escreveu a cena da mala, da mãe e do menino. Ficou ruim. Naturalmente ficou ruim. Releu e viu excessos, frases tortas, emoção demais num trecho, de menos noutro. Sorriu.

Era a primeira imperfeição concreta de um projeto que passara anos sendo uma perfeição imaginária.

Talvez tenha entendido, enfim, que liberdade não é fazer tudo no momento ideal. É responder pelo que se faz — e pelo que se evita fazer. A vida inteira terceirizara suas escolhas ao calendário, ao cansaço, às circunstâncias. Agora via que até a omissão carrega assinatura. Tomou consciência de que cada gesto é uma afirmação de quem decidira ser.

Escreveu mais duas páginas naquele dia.

A mudança de vida não foi imediata. Continuou adiando pequenas coisas, perdeu tempo com banalidades, inventou pretextos menores. Ninguém se transforma por decreto. Mas havia uma diferença essencial: já não procrastinava inocentemente.

E isso, embora pareça pouco, era o começo de alguma honestidade consigo mesma. 

 O espelho do banheiro às seis da manhã

por Giovanni Angius, em 24/4/2026.

Às seis da manhã, a casa ainda parecia dormir por dentro. O relógio da cozinha marcava a hora com uma insistência burocrática, e a luz fria do banheiro fazia tudo parecer mais sincero do que deveria. Ali estava ele, diante do espelho, espuma no rosto, navalha na mão, uma toalha no ombro e uma lista inteira de obrigações esperando do lado de fora da porta.

O casamento da filha seria naquela tarde.

Havia flores para conferir, parentes para receber, atraso de fornecedor para resolver, terno para buscar, motorista para coordenar, discurso para improvisar e, como sempre, pequenos incêndios emocionais para apagar sem alarde. Desde cedo, o telefone vibrava sobre a pia como se o mundo inteiro dependesse dele para funcionar.

Mas naquele instante, por dois ou três minutos, o mundo precisaria esperar. Porque havia um homem tentando acertar a linha da barba enquanto olhava para alguém que conhecia há décadas e, ainda assim, mal compreendia.

O espelho tem esse talento desagradável: mostra o rosto e insinua perguntas.

Ele esticou a pele da bochecha esquerda. Reparou nos fios grisalhos perto da orelha. Surgira também uma ruga nova, discreta, porém ambiciosa, instalada entre as sobrancelhas. A juventude não avisa quando vai embora; apenas passa a delegar funções.

Pensou na filha de vestido branco e sentiu aquele orgulho que vem misturado com uma leve perda. Não uma perda triste, exatamente. Algo mais sofisticado. Uma espécie de despedida feliz. Criou, cuidou, protegeu, ensinou a andar de bicicleta, a atravessar a rua, a desconfiar de promessas fáceis. Agora ela pisaria sozinha numa vida que não caberia mais em seus conselhos.

Sorriu sozinho. Depois parou de sorrir. Uma pergunta entrou sem pedir licença: e ele?

A filha começaria um novo ciclo. Mas e o pai? Em que ponto da estrada havia deixado certas vontades largadas no acostamento? Onde estavam aquele curso que nunca fez, a viagem adiada, o violão que comprou e mal tocou, o livro começado em três janeiros diferentes, a coragem de mudar o trabalho que apenas suportava?

Passou a lâmina devagar no queixo. Há dias em que a espuma da barba parece esconder mais que o rosto.

Lembrou-se de Søren Kierkegaard, que dizia ser a angústia uma vertigem da liberdade. Não medo de cair, exatamente, mas o espanto de perceber que se pode saltar. O abismo não assusta só pela profundidade; assusta porque revela a possibilidade.

Talvez fosse aquilo.

Não estava angustiado apenas com o casamento, os gastos, os parentes inconvenientes ou a chuva ameaçando estragar as fotos. Estava angustiado porque, ao ver a filha seguir a própria vida, percebia que ele também continuava livre para refazer a dele. E isso, para um adulto ocupado, é uma notícia quase inconveniente.

É mais fácil reclamar da rotina do que admitir que ainda se pode mudá-la.

A pia tinha duas torneiras antigas que nunca fechavam direito. Pingavam em intervalos irregulares, como pensamentos insistentes. Ele enxaguou a lâmina, olhou de novo para o espelho e teve a impressão de que o homem refletido parecia cansado, sim, mas não derrotado. Havia diferença.

Cansaço é o peso do caminho. Derrota é desistência. A maior parte das pessoas confunde uma coisa com a outra.

Do quarto veio o som de gavetas abrindo. A esposa já acordara. Em algum lugar da casa, alguém procurava uma extensão elétrica ou uma gravata desaparecida. O grande espetáculo social do casamento começava seus ensaios finais. E ele ali, discutindo metafísica com o azulejo.

Secou o rosto.

Pensou então que talvez liberdade não fosse largar tudo e comprar uma passagem só de ida para lugar nenhum, como sonham os cansados nas segundas-feiras. Talvez liberdade fosse algo menos cinematográfico e mais difícil: reorganizar a própria vida sem precisar destruí-la inteira.

Telefonar menos para o trabalho aos domingos. Voltar a estudar. Dizer alguns nãos atrasados. Cuidar do corpo com menos promessas e mais constância. Convidar a esposa para viajar sem esperar bodas redondas. Retomar o violão desafinado. Escrever a primeira página sem exigir a última pronta.

Talvez a liberdade more em pequenas desobediências contra a inércia.

Vestiu a camisa. Abotoou devagar, como quem fecha um raciocínio. Antes de sair, lançou ao espelho um último olhar. Não buscava juventude, nem respostas definitivas, nem reconciliação completa com o tempo. Buscava apenas reconhecer-se.

Conseguiu o suficiente.

Abriu a porta do banheiro e entrou no corredor já tomado pelo movimento da casa. A filha ria em algum cômodo. Alguém chamava seu nome. O dia corria para cima dele com todas as suas urgências.

Mas agora havia algo diferente. O homem que saiu dali ainda tinha compromissos, contas, responsabilidades e pressa. Continuava o mesmo pai, o mesmo marido, o mesmo profissional. Só carregava uma novidade discreta: a suspeita de que sua vida ainda não estava pronta.

E às vezes, às seis da manhã, diante do espelho do banheiro, isso já basta para começar de novo.


Absurdo


por Giovanni Angius, em 22/2/2013.

Era uma quarta-feira qualquer. Dessas que começam com despertador, café apressado e a sensação de que o dia já nasce devendo alguma coisa. Ele estava no ônibus, espremido entre gente, mochilas e pensamentos, quando abriu no celular uma imagem que um amigo havia enviado na noite anterior: a famosa fotografia feita pela sonda Voyager I, em 14 de fevereiro de 1990 — o “Pálido Ponto Azul”, como batizou Carl Sagan.

A imagem mostrava um risco de luz e, nele, um ponto quase invisível. Ali estava tudo: guerras e amores, impérios e aniversários, boletos pagos e boletos vencidos. Ali estava ele, inclusive, apertado no ônibus, indo trabalhar.

Sentiu um pequeno abalo. Não era tristeza. Era algo mais silencioso, como quando a gente percebe que a casa é menor do que imaginava — e, ao mesmo tempo, suficiente. Mas naquela manhã, o suficiente parecia pouco. Se a Terra era só um ponto perdido na imensidão, o que dizer de um homem comum, funcionário dedicado, pagador de contas, que raramente tinha tempo para olhar para dentro?

A mente dele lembrou-se de uma frase lida anos antes em um livro de Albert Camus. No O Mito de Sísifo, Camus falava do absurdo — esse confronto entre o desejo humano de sentido e o silêncio do universo. O mundo não responde. O céu estrelado não explica nada. A imensidão não envia recados personalizados. E, no entanto, ali estava ele, esperando que o universo justificasse a sua vida.

Camus diria que esse incômodo é legítimo. É o momento em que o homem percebe que vive repetindo gestos como Sísifo empurrando a pedra montanha acima. Trabalho, contas, supermercado, notícias, sono. E depois tudo de novo. A pergunta que se infiltra é simples, mas desconfortável: “Para quê?”

Camus não aconselhava o desespero. Ao contrário. Ele propunha uma revolta lúcida — viver apesar da ausência de respostas definitivas. Criar sentido onde não há manual de instruções.

Aquele sujeito no ônibus não era filósofo. Não tinha tempo para teses existenciais. Mas, naquela manhã, algo mudou de lugar. Ele percebeu que sua rotina não era o problema. O problema era atravessá-la sem presença.

Nos dias seguintes, não pediu demissão nem vendeu tudo para viajar o mundo. Não fez nada espetacular nem radical. Apenas começou a introduzir pequenas rupturas. No intervalo do almoço, em vez de rolar a tela infinitamente, caminhava alguns minutos sem fones de ouvido. No trajeto para casa, observava as pessoas com mais curiosidade do que julgamento. Aos poucos, passou a reservar quinze minutos antes de dormir para escrever — não sobre grandes teorias, mas sobre o que sentiu ao longo do dia.

Descobriu aos poucos que havia vida entre os boletos.

Percebeu também que propósito não é algo que se encontra como um objeto esquecido na gaveta. É algo que se constrói em camadas finas, quase invisíveis. Como aquele ponto azul perdido no espaço, que só ganha significado porque alguém olha para ele.

O absurdo não desapareceu. O universo continuava silencioso e gelado. As estrelas não piscavam em código Morse. Mas ele começou a suspeitar que o silêncio não era hostilidade — era apenas silêncio. E que a tarefa humana talvez não seja arrancar respostas do cosmos, mas responder à própria consciência.

Dias depois, visitou os pais sem pressa. Sentou-se à mesa e ouviu histórias antigas com atenção renovada. Notou que a mãe repetia certos detalhes, e em vez de impaciência, sentiu ternura. Ali havia algo concreto, quase palpável: o sentido que nasce do cuidado.

Camus falava de imaginar Sísifo feliz. Não porque a pedra seja leve, mas porque a consciência transforma o esforço. Então, ele entendeu isso à sua maneira. A sua pedra não deixaria de existir — trabalho, contas, compromissos. Mas poderia ser empurrada com outra disposição. Criar propósito real, percebeu, talvez não seja mudar de vida, mas mudar a forma de habitá-la.

Ele passou a escolher pequenos compromissos consigo mesmo: ler algumas páginas de um livro por semana, aprender algo novo, cultivar uma amizade com mais constância. Descobriu que sentido não vem do tamanho do gesto, mas da qualidade da atenção.

Certo dia, voltou à imagem do Pálido Ponto Azul. Observou o ponto minúsculo e, em vez de sentir-se esmagado, experimentou algo diferente: responsabilidade. Se tudo o que ama está ali, comprimido naquela poeira cósmica, então cada gesto importa. Não para o universo inteiro, talvez, mas para aquele ponto específico. E isso bastava.

O homem comum não deixou de ser comum. Continuou pagando contas, acordando cedo e enfrentando filas. Mas agora havia brechas. Entre uma tarefa e outra, cultivava momentos de presença. Entre o silêncio do universo e o barulho da cidade, escolhia responder com lucidez.

Talvez o propósito não esteja nas estrelas. Talvez esteja na maneira como alguém segura a própria pedra — e decide, apesar de tudo, continuar empurrando-a com dignidade. No fim das contas, naquele minúsculo ponto azul, isso já é um gesto imenso.


Sem Internet


Sem Internet

Lá pelos anos 1980 apareceu o computador pessoal nos moldes que o conhecemos hoje. Antes disso, só as grandes corporações e universidades podiam bancar instalações com o porte necessário para abrigar os gigantescos equipamentos, como eram naquela época. Isso sem contar que a tecnologia era restrita a poucos países e muito pouco difundida entre os cidadãos. Poucos nesse mundo podiam imaginar o uso do computador pelas pessoas em seu cotidiano de maneira tão ampla, seja no trabalho, no lazer ou em aplicações domésticas.

Passados os anos, a tecnologia nesta área alcançou níveis de desenvolvimento inimagináveis para aquela época. O processamento de dados através dos chips estão presentes em praticamente todas as atividades humanas, e também naquelas onde não é possível sua presença. Houve época em que eu pensava que o limite para esse desenvolvimento seria o tamanho do dedo, imaginando simplesmente na miniaturização dos aparelhos, mas isso não impediu o seu controle através de comandos de voz e sabe-se que há em uso sistemas e máquinas movidas por impulsos do cérebro. Não há dúvida que o desenvolvimento nesta área foi fabuloso.

Com a produção em massa e o seu uso corrente, a parafernália tecnológica invadiu a vida do ser humano a ponto de, em inúmeros casos, criar uma dependência muitas vezes compulsiva a essas maquininhas. Isso no campo pessoal. Se for levado em consideração o uso comercial, há exemplos infinitos da necessidade absoluta de sua aplicação nos negócios. Dá para imaginar um estabelecimento comercial sem um equipamento para passar o cartão de crédito ou para emitir o cupom fiscal? Imagine um magazine emitindo notas fiscais na mão nos dias de hoje!

Na indústria, da mesma forma, o uso da tecnologia é imprescindível para garantir qualidade, competitividade e sua manutenção no mercado.

Qualquer pessoa deste planeta que esteja conectada à internet pode acessar praticamente tudo o que deseja. O limite para o aprofundamento de sua pesquisa está contido nela própria, ou seja, se a pessoa sabe o que quer encontrar, os mecanismos de busca na rede retornam informações em quantidades astronômicas em fração de segundo, permitindo o seu aprofundamento conforme sua necessidade.

Com tantas informações disponíveis, com tanta coisa entrando na mente das pessoas, a velocidade das ações rotineiras aumenta. A velocidade da vida aumenta. Daí a sensação de que o tempo passa mais depressa.

Com o passar dos dias e com o alto giro da vida, quem de nós é capaz de dar uma paradinha num fim de tarde e ir ali na beira da praia para ver a lua surgir no mar? Não é nem para estimular impulsos românticos, escrever poesia ou cantar sob sua luz prateada, mas simplesmente para relaxar da tensão após um dia infernal dentro do sistema.

Com tamanha dependência do computador, quando a rede cai, num instante, vida fica vazia e o cidadão não sabe o que fazer. De repente, ele se vê no escritório sem saber para onde ir e percebe que tudo o que produz está dentro de seu notebook, e sem ele, não é possível fazer mais nada.

Agora mesmo, a internet saiu do ar. Soube que houve um acidente na rua e os cabos foram rompidos. Estou escrevendo esse texto porque não consigo fazer mais nada em meu trabalho. Preciso enviar emails, acessar o sistema, mas não consigo. Estou isolado do mundo.

caminhar ou pedalar

 Caminhar ou pedalar

por Giovanni Angius, em 20/2/2026.


O homem tinha lá suas manias. Não eram muitas, mas eram fiéis. Uma delas era caminhar pelo calçadão da Praia de Camburi, em Vitória. Ia quase todos os dias. Não porque acreditasse piamente que aquilo lhe daria um abdômen trincado ou acrescentaria anos heroicos à sua expectativa de vida. Ia mais para arejar a cabeça. Caminhava para desalojar pensamentos, como quem abre as janelas da alma para entrar um pouco de vento do mar.

Naquela manhã, o céu estava naquele tom indeciso entre azul e branco lavado. O mar seguia seu próprio ritmo, indiferente às inquietações humanas. Ele caminhava no piloto automático, repassando mentalmente pequenas pendências do trabalho, lembrando de uma conta a pagar, de um e-mail que precisava responder, quando cruzou com uma jovem família.

Pai, mãe, uma criança que andava aos pulinhos e um bebê instalado soberano no carrinho. Cena comum. Vida acontecendo. Ao passar por eles, sem intenção alguma de ouvir conversa alheia, pescou um pedaço de frase que ficou ecoando como música chiclete.

— Mas que situação, hein? Está cada vez mais difícil andar por aqui em paz e segurança. Você percebeu a quantidade dessas bicicletas elétricas? E a velocidade? Repara na ousadia deles, passando tão perto, quase atropelando a gente…

Ele seguiu andando, mas já não estava mais só com seus pensamentos antigos. A indignação da mulher agora caminhava ao lado dele.

E, para ser honesto consigo mesmo, ela tinha um ponto. De uns tempos para cá, aquelas bicicletas elétricas tinham brotado como cogumelos depois da chuva. Silenciosas, rápidas, decididas. Algumas respeitosas. Outras nem tanto. O problema não era exatamente a tecnologia. Era o modo como ela vinha sendo usada — ou ignorada — nas regras mais básicas de convivência.

Veio-lhe à memória um episódio recente, no próprio bairro. Ao dobrar uma esquina, quase deu de frente com uma dessas máquinas. A bicicleta vinha na contramão, em velocidade que não combinava com a rua estreita, e o rapaz — talvez confiante demais — sem capacete, sem sinalização, sem qualquer sinal de que considerava a possibilidade de encontrar alguém ali. Por pouco não houve acidente. E o “por pouco” às vezes é um abismo inteiro.

Ele imaginou o transtorno. O susto. O desgaste. E se tivesse acontecido algo mais grave? Como explicar? Como viver depois? A imprudência de um poderia se transformar na dor permanente de muitos.

Continuou andando. Observava agora com mais atenção. Algumas bicicletas passavam pela ciclovia, como manda o figurino. Outras, porém, invadiam o espaço dos pedestres com a naturalidade de quem acha que tudo é pista. No calçadão, crianças corriam, idosos caminhavam devagar, casais conversavam distraídos. Era um território de passos humanos, não de motores elétricos, ainda que silenciosos.

Ele pensou em soluções, como todo cidadão que, por alguns minutos, sente-se convocado a resolver os problemas do mundo. Mais fiscalização? Sinalização mais clara? Multas? Campanhas educativas? Barreiras físicas? Logo percebeu que suas ideias eram tantas quanto vagas. Nenhuma delas dependia dele. Nenhuma estaria ao alcance de suas mãos naquele momento.

E aí, quase como quem muda de trilha sonora, lembrou-se de um velho princípio estoico que lera certa vez: preocupar-se apenas com aquilo que está sob seu controle. O resto — o comportamento alheio, as decisões públicas, a imprudência dos desconhecidos — pertence a outra esfera. Insistir em dominá-la é receita certa para a frustração.

Ele podia, isso sim, cuidar da própria atenção ao dirigir. Podia atravessar com mais cautela. Podia escolher os horários menos movimentados. Podia, no máximo, dar um passo para o lado quando uma bicicleta viesse afoita demais. O restante era vento — e vento não se segura com as mãos.

Quando chegou em casa, ainda havia um resquício daquela indignação emprestada. Entrou no banho como quem entra num pequeno ritual de encerramento. A água caiu sobre os ombros, morna, constante. O barulho do chuveiro abafou as buzinas imaginárias, as reclamações, os “quase acidentes”. Enquanto o shampoo fazia espuma, ele pensou que talvez o estoicismo fosse um pouco como aquilo: deixar a água correr sobre o que não se pode controlar.

Aos poucos, a cena da família, a esquina perigosa, as bicicletas apressadas foram escorrendo pelo ralo, misturadas à espuma branca que desaparecia sem resistência. Não que o problema tivesse sido resolvido. Mas, dentro dele, estava em paz provisória.

E, naquele instante simples — água caindo, vapor subindo, pensamento serenado —, o mundo lá fora podia continuar acelerado. Ele, por ora, tinha reduzido a própria velocidade.