O avesso da inspiração


 O dia amanheceu e o sol se mostrou luminoso na beirada do horizonte. Céu claro, apenas umas nuvens esparsas e eu ali… sem saber o que fazer.

Se você acha que essa abertura tem o tom clássico de quem está prestes a derramar poesia sobre o papel, sinto desapontar. Essa única frase foi tudo o que consegui produzir após quase duas horas encarando a tela fria do computador. Olhava para o cursor piscando — aquele tique-taque visual que parece zombar da nossa mudez — e a frase continuava lá, solitária, como um monumento à minha própria incapacidade matinal.

A verdade nua e crua é que não dormi bem esta noite. Pior: dormi pouco. E o cérebro, esse operário que exige suas oito horas de descanso para bater o ponto com dignidade, entrou em greve. Levantei-me às sete, fiz o café, sentei-me diante da escrivaninha com a firme intenção de criar algo vivo, mas a cabeça só devolvia o eco do cansaço. Quando a privação de sono cobra a conta, a atenção se dissipa, a memória de trabalho falha e o pensamento ordenado vira fumaça. A mente fica lenta, o raciocínio perde a agilidade e a criatividade, que costuma ser uma fonte generosa, parece um poço seco.

Fiquei ali, sentado, como quem espera uma visita que já mandou avisar que não vem. O dia avançava do lado de fora, a luz mudava de posição no piso da sala, mas dentro de mim tudo parecia estagnado, ainda emaranhado nos lençóis de uma noite mal aproveitada. O cenário estava completo com três forças em conflito naquela sala: a manhã radiante lá fora, o meu corpo exausto do lado de dentro e a frustração de não conseguir produzir. Um atrito puro entre a vontade e a exaustão.

Pensei: e se eu transformasse o próprio cansaço em matéria-prima? Afinal, quando o sono falha, até observar o céu exige esforço. Talvez a crônica não devesse ser sobre um grande tema, mas sobre essa gritante dificuldade de habitar o dia estando acordado. A falta de descanso altera o estado mental, muda a forma como percebemos o mundo e desorganiza as ideias: a memória, essa arquivista distraída, começa a perder os papéis. Há uma honestidade quase dolorosa em admitir que a manhã está clara, mas a mente continua enevoada.

Tentei forçar a barra. No desespero de quem tenta salvar o dia útil, me lancei num surto verborrágico e digitei alguns parágrafos tentando falar sobre o sono e a criação. Reli. Achei péssimo. Uma coisa pesada, sem ritmo, que parecia mais um manual de neurobiologia barato do que literatura.

Depois de muito fritar os miolos, apelei para os deuses da energia instantânea. Levantei-me, devorei uma barrinha de chocolate e, em seguida, engoli um café expresso, forte e amargo, como quem aplica um desfibrilador na própria alma. Voltei para o computador armado com uma vontade compulsória de superar aquele desânimo. Escrevi mais um bocado. Apaguei tudo. Pensei no leitor do blog. Não seria justo fazê-lo perder tempo com um texto que não leva a nenhum aprendizado ou que não ofereça, no mínimo, um tiquinho de diversão. Publicar o “nada” por pura obrigação seria uma heresia.

Mais aborrecido do que quando acordei, fechei a tampa do notebook. Decidi que precisava arejar. Saí de casa e fui dar um pequeno giro no calçadão de Camburi. O mar estava lá, imponente, as pessoas caminhavam ritmadas, as bicicletas sempre velozes, um cachorro puxando o dono e o vento batendo no rosto... e não adiantou absolutamente nada. A praia estava linda, mas a minha cabeça continuava implorando por um travesseiro.

Às vezes, a maior sabedoria não está em insistir, mas em aceitar a derrota temporária da carne. Olhei para o horizonte mais uma vez e me rendi. Hoje não vai ter crônica, nem ensaio profundo, nem grandes reflexões sobre a existência humana. O diagnóstico é mundano, o remédio é simples e a urgência é real: o que eu preciso mesmo, antes de qualquer outra linha escrita, é dormir um pouco.


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