No tempo das barracas

 A benção mãe natureza, aqui estou eu de novo

Vivendo esta beleza, milagre que sempre louvo

Sentir o pé na terra e na relva fria do orvalho

Ouvir o canto dos pássaros

Ver a dança inocente dos galhos.

Carlos Bona

Os cheiros da beira mar têm memória. Toda vez que o sinto — churrasco na grelha, maresia — sou transportado para a Praia da Barra do Sahy, em Aracruz, onde barracas enfileiradas vibravam com risos, violões, e a alegria de viver ao ar livre.

Não sei quando parei de acampar; não houve um “chega” pronunciado, só uma luz que foi se apagando, devagar, sem ninguém perceber o exato instante em que a sala ficou escura. Um ano não deu pra ir. No outro, os filhos já não queriam mais. Depois veio o trailer, que substituiu a barraca, e depois nem ele mais saiu da garagem. E pronto: aquela vida virou lembrança.

Mas que lembrança boa, gente…

Eu converso bastante com Dedé sobre isso. A gente se conhece há mais de quarenta anos — pensa nisso, quarenta anos! Mais tempo do que muita gente vive inteiro. Conheci ele e a Rose ainda na época das barracas de lona fina, daquelas que vazavam quando chovia mais forte. Nossos filhos praticamente cresceram juntos no camping, os dele e os meus, brincando na areia enquanto a gente bebia uma cerveja gelada e ficava de olho disfarçado, sem parecer que estava de olho.

Tinha um ritual que eu adorava: o sopão comunitário. Cada família levava um ingrediente, ninguém combinava nada direito, e o resultado era sempre uma surpresa — às vezes uma delícia, às vezes uma coisa estranha que a gente comia rindo, fingindo que estava ótimo. Hoje eu acho que aquilo era uma metáfora sem a gente saber: cada um entrava com o que tinha, e o que saía dali era melhor do que qualquer prato pensado sozinho.

Outro dia eu estava pensando nisso, sentado na varanda de casa, e me lembrei de um trecho que li sobre Cícero. O cara escreveu, lá pelos seus tantos anos antes de Cristo, um texto sobre a velhice colocando na boca de um personagem, Catão, uma ideia que me pegou de jeito: que a velhice não precisa ser vista como decadência, mas como colheita. Como se a vida toda fosse um plantio, e só na maturidade a gente consegue colher o que valeu a pena.

Fiquei pensando: pois é, é exatamente isso. Eu não tenho mais a disposição física para montar barracas debaixo de sol quente, nem a paciência pra dormir num colchão inflável que sei que irá murchar de madrugada. Mas tenho uma coisa que aquela época não conseguiu me dar de bandeja: o significado do que vivi. E isso, ao contrário do colchão, não murcha.

Cícero, ao tratar da amizade, trazia uma ideia simples, mas profunda: amizade de verdade não é aliança por interesse, é coisa que se constrói com o tempo, com memória compartilhada. Não é nostalgia de sofá lamentando o passado — é o contrário, é usar essas lembranças pra manter um vínculo vivo, hoje, agora.

É exatamente isso que eu vivo com Dedé e Rose. A gente não acampa mais junto, claro. Mas de vez em quando eles vêm aqui em casa, ou eu e a Tileza vamos até sua casa na Praia Formosa, bem próxima à Barra do Sahy, visitá-los. E quando isso acontece, vira festa. Eu fico horas conversando com Dedé sobre besteira nenhuma e sobre tudo ao mesmo tempo, e a Tileza some pra cozinha com Rose, as duas rindo de algo que eu nunca vou saber o que é. É sempre como se tivesse novidade entre a gente, mesmo depois de décadas — sei lá como isso é possível, mas é.

E no meio disso tudo tem o WhatsApp, claro, porque ninguém escapa dele. Mensagem quase todo dia, um “bom dia” aqui, uma foto do neto ali, um telefonema de vez em quando só pra ouvir a voz.

Acho que é isso que deixarei para os meus filhos e netos. Não uma barraca, nem um trailer guardado na garagem. Mas o exemplo de que amizade se cultiva, se mantém, se atravessa o tempo sem precisar de aventura nenhuma — só de presença, mesmo que rara.

Hoje já não sonho com campings. Meu lugar é a calma da escrivaninha, meus textos e meus livros. Descobri que algumas viagens continuam acontecendo sem que a gente saia da cadeira. Basta abrir uma lembrança.


Aprender a flanar


 Conheci João do Rio tarde: o dândi observador das esquinas como era conhecido em sua época. Há autores que a gente lamenta não ter encontrado antes, porque parece que sempre estiveram nos esperando. Foi exatamente essa a sensação que tive ao ler A alma encantadora das ruas. Não era apenas uma obra escrita. Era como se ele me tomasse pelo braço e me convidasse a caminhar pela cidade com outros olhos.

Em determinado momento, escreve que “a rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo”. Logo depois acrescenta que há “suor humano na argamassa do seu calçamento”. Parei a leitura por alguns instantes. Nunca havia pensado a rua dessa maneira. Sempre a enxerguei como passagem, nunca como personagem.

Esse é um privilégio dos grandes escritores: eles não nos mostram coisas novas; mostram de forma nova aquilo que esteve diante dos nossos olhos a vida inteira.

Desde então, passei a reparar mais nas ruas. Não apenas no asfalto, nas calçadas ou nas fachadas, mas nas pessoas que lhes dão vida. Quem são? Para onde vão? O que carregam além das mochilas, bolsas e sacolas? Quantas alegrias caminham apressadas? Quantas preocupações atravessam um sinal de trânsito? Quantos sonhos dobram a esquina todos os dias sem que ninguém perceba?

Enquanto fazia essas perguntas, lembrei-me de outra passagem de João do Rio. Ele diz que “flanar é a distinção de perambular com inteligência”.

Gostei da definição. Perambular qualquer um consegue. Basta ter pernas e seguir. Flanar exige outra disposição. Exige tempo, curiosidade e, principalmente, disponibilidade para deixar que a cidade também nos atravesse.

Acho que faz muito tempo que desaprendi a flanar. Ou nunca tenha aprendido.

Quase sempre caminho para chegar. Vou ao banco, ao mercado, ao trabalho, à farmácia. Meus passos têm destino, horário e alguma urgência. Raramente saio apenas para permitir que a rua me conte alguma coisa.

Foi então que, sem saber bem por quê, lembrei de Diógenes de Sínope, o filósofo do cinismo e mendigo provocador da ágora. Imagino que ele teria gostado de caminhar por essas mesmas ruas, embora provavelmente estranhasse muita coisa. Talvez olhasse as vitrines cheias de novidades, os automóveis cada vez mais numerosos, os celulares cada vez mais sofisticados e perguntasse, com aquele humor provocador que lhe era próprio, quantas daquelas coisas realmente fazem falta.

Enquanto João do Rio me ensinava a olhar melhor o teatro das ruas, Diógenes parecia cochichar que talvez eu também devesse diminuir o teatro das minhas próprias necessidades.

Aquelas questões ficaram comigo. Percebi que boa parte do meu esforço diário não é para viver melhor, mas para sustentar as vaidades que aprendi a considerar indispensáveis. Comprar objetos que uso tão pouco, guardar roupas para ocasiões improváveis, ocupar a casa com coisas que um dia pareceram importantes e hoje apenas acumulam poeira.

Não há nada de errado em desejar conforto. O problema começa quando o conforto passa a exigir um preço maior do que ele vale.

Diógenes dizia isso vivendo quase sem nada, dentro de uma barrica. Eu não conseguiria imitá-lo. Gosto dos meus livros, da minha parafernália eletrônica, do café da manhã sem pressa, da poltrona onde costumo ler e da mesa onde escrevo estas linhas.

Ele não estava nos convidando à pobreza, e sim à liberdade. Liberdade para distinguir o necessário do supérfluo. Liberdade para não medir a própria vida pela vitrine dos outros. Liberdade para descobrir que nem tudo o que pesa ocupa lugar nas mãos.

Enquanto essas ideias iam e vinham, continuei caminhando. Um menino corria atrás de uma bola completamente alheio às notícias do mundo. Um casal de idosos seguia de braços dados num ritmo que parecia desafiar a pressa da cidade. Um gari empurrava sua vassoura com a tranquilidade de quem conhece intimamente cada metro daquela rua.

Pensei que todos, de algum modo, também escreviam a cidade. Não com palavras, mas com passos. João observou isso muito bem em sua crônica. A rua não é feita apenas de pedras, postes e esquinas. Ela é feita de gente. Das histórias que se cruzam sem se conhecer. Das vidas que se tocam por um segundo e seguem adiante. Dos encontros que acontecem e, principalmente, dos que deixam de acontecer.

Então compreendi por que aquele texto continuava ecoando dentro de mim. No final das contas, não são apenas as pessoas que passam pelas ruas. As ruas também passam por nós.

E talvez seja por isso que ele tenha escrito que “nós pensamos sempre na rua. Desde os mais tenros anos ela resume para o homem todos os ideais, os mais confusos, os mais antagônicos, os mais estranhos”.

Fechei o livro e saí para flanar. Não aprendi a viver com menos e me deixo seduzir por algumas inutilidades; continuo confundindo necessidade com desejo mais vezes do que gostaria de admitir. Mas agora, caminhando sem tanta pressa, tenho a impressão de que a rua está discretamente me ensinando aquilo que os livros apenas começaram a dizer. E quem sabe, insistindo nesse exercício de flanar, eu acabe encontrando um caminho próprio pela cidade, um caminho para dentro de mim.


A travessia


 A cidade amanhecia sob um céu claro, daqueles que parecem ter sido lavados durante a madrugada. Uma brisa calma e ainda meio fria mantinha os poucos passantes encolhidos dentro das roupas de inverno, como se o frio fosse menos um fato do clima e mais um convite ao recolhimento, à intimidade dos próprios pensamentos.

Sobre o calçadão, defronte à praia de Camburi, havia uma paz que não se explicava — talvez porque não precisasse. Era a paz de quem já atravessou o pior e aprendeu a reconhecer, nas pequenas coisas, o tamanho exato de uma vitória.

Bem próximo à La Bambina — aquele restaurante de  toalhas axadrezadas e luzes amarelas acendendo antes da hora —, os dois esperavam. Homem e mulher, parados na beira do asfalto, observando o trânsito como quem calcula a distância entre uma calçada e outra, e o tempo de uma travessia que, para ela, exigia uma confiança ainda recente.

— Vamos. Agora! — disse ele, com a firmeza de quem já decidiu por dois.

Deram uma pequena corrida. O som dos passos sobre a avenida durou só um instante, mas foi suficiente para que, do outro lado, um sorriso se abrisse no rosto dela. Pura satisfação. Pequena vitória pessoal, dessas que ninguém aplaude, mas que pesam como conquistas inteiras: atravessar uma rua correndo, ainda que poucos metros, depois de meses em que isso era impensável.

— Você está bem? A perna doeu? — e havia nisso o eco de tantas outras vezes em que repetira aquela mesma pergunta.

— Não doeu. Estou bem.

Ele a olhou mais um segundo do que o necessário. Era um hábito que tinha adquirido sem perceber: olhar um pouco além da resposta, porque as palavras dela nunca bastavam; havia sempre algo mais a ser visto, não apenas ouvido.

Fazia meses desde o acidente — aquela viagem de fim de semana que terminara com o estalo seco de um osso e o silêncio assustado que se segue a uma queda. Desde então, ele se tornara, sem jamais ter sido perguntado se queria, seu guardião. Levava-a ao hospital, à fisioterapia, cozinhava, limpava a casa, organizava remédios e horários como quem organiza um pequeno mundo só para que ela pudesse, dentro dele, simplesmente descansar.

Mas havia algo que ele nunca contara a ela — talvez porque não houvesse palavras exatas, ou talvez porque algumas descobertas só servem se forem guardadas, como quem guarda um objeto frágil demais para ser exibido.

Foi ainda ali, na trilha de barro e poeira, a bicicleta toda torta, com ela caída e ele ajoelhado ao seu lado, que viu, pela primeira vez, o verdadeiro rosto dela. Não o rosto bonito que conhecia, não o rosto sorridente das fotografias, mas um rosto nu de qualquer composição, exposto à dor e ao medo — e justamente por isso, irredutível. Não era mais a mulher que ele namorava há alguns meses, nem a soma das qualidades que ele teria sabido descrever a um amigo. Era, simplesmente, ela. Inteira, única, impossível de ser substituída por qualquer outra coisa no universo.

Depois, na maca, e mais tarde na cama do hospital, sob a luz branca que tudo torna mais cru, aquele rosto continuou a falar com ele antes de qualquer palavra. Dizia algo que nenhuma frase poderia dizer melhor: não me reduzas a uma lembrança, não me deixes, eu existo por mim mesma — e agora também por você.

Foi ali que ele compreendeu, sem nomear o que compreendia, que cuidar dela não era um gesto generoso que ele escolhia repetir todos os dias. Era algo anterior à escolha. Uma dívida que havia contraído, e que, no entanto, sentia inteira, urgente, sem medida possível. Não fazia as coisas por ela esperando alguma recompensa, nem por obrigação de namorado dedicado. Fazia porque, de algum modo que escapava à razão, a vida dela se tornara mais importante do que qualquer cálculo sobre a própria vida.

Foi por isso que, naquela manhã, ao vê-la sorrir depois da travessia, ele sentiu o peito apertar de um jeito que não era mais só ternura — era reconhecimento.

E ela, que durante meses fora cuidada, vigiada, levada e trazida por braços que nunca pareciam cansar, também aprendera algo que não dissera em voz alta: aprendera a ver, naquele homem que a erguia das macas e organizava remédios com a paciência de quem nunca contava o tempo gasto, um rosto igualmente irredutível. Não era mais apenas o namorado atencioso. Era alguém que escolhera, todos os dias, sem reciprocidade garantida, permanecer.

Pararam no meio do calçadão, o vento ainda frio passando entre os dois. Ele esticou a mão; ela a recebeu sem pressa, como quem já não precisa de gestos grandes para dizer o que sente. Caminharam em silêncio até o quiosque 2, próximo dali, sabendo — sem necessidade de dizer — que tinham, um para o outro, deixado de ser dois corpos que se acompanham, e se tornado dois rostos que se escolhem, todos os dias, de novo.


O ônibus das sete e meia


Dona Lurdes chega ao ponto sempre dez minutos antes do necessário. Não porque tenha pressa — pelo contrário, sobra-lhe tempo até demais —, mas porque chegar adiantada é, para ela, uma forma de provar que ainda controla alguma coisa na vida. O ônibus, esse, vem quando quer.

Seu Nelson já está lá, sentado no frio banco metálico, com o jornal de ontem dobrado debaixo do braço como se fosse de hoje. Os dois se conhecem do jeito que se conhece quem mora no mesmo bairro há décadas: pelo rosto, pelo horário, por um cumprimento que nunca virou conversa de verdade.

— Atrasado outra vez — diz Dona Lurdes, olhando para a rua vazia.

— Sempre atrasado — responde Seu Nelson, sem tirar os olhos do nada.

Ficam ali, lado a lado, dois corpos esperando um ônibus que, segundo a tabela afixada no poste, deveria ter passado havia sete minutos. Carros passam. Um cachorro caramelo atravessa a rua sem pressa nenhuma, como se também tivesse onde não chegar. O sol bate de lado, do jeito que bate só de manhã, antes de decidir esquentar de verdade.

É nesses minutos mortos, esses intervalos que a vida insiste em encaixar entre uma obrigação e outra, que as coisas mais estranhas costumam aparecer. Dona Lurdes, sem motivo algum, começa a pensar no número de vezes que já esperou naquele mesmo ponto. Não consegue calcular, é claro — seria preciso multiplicar dias por anos, e isso já passa de qualquer conta que valha a pena fazer —, mas a sensação de repetição lhe cai em cima de uma vez, pesada, como se alguém tivesse acabado de lhe mostrar uma fotografia do próprio tédio.

— Seu Nelson, o senhor já parou pra pensar quanto tempo da gente passa esperando coisas?

Ele olha para ela, meio surpreso. Não é o tipo de pergunta que se faz num ponto de ônibus.

— Esperando o quê?

— Sei não. Ônibus. Fila do banco. Resultado de exame. A gente espera a vida inteira.

Seu Nelson pensa por um tempo, o suficiente para que um carro passe e o silêncio entre os dois ganhe um peso diferente.

— E o que tem isso?

— Nada. Só que parece bobagem, né? A gente nasce, cresce, trabalha, cria os filhos, e no meio disso tudo fica esperando ônibus.

— Bobagem só é bobagem se a gente esperar alguma coisa melhor no fim — diz ele, dobrando o jornal de um jeito mais apertado, talvez só para ter o que fazer com as mãos. — Eu já não espero nada do ônibus. Só quero sentar.

Dona Lurdes ri, baixinho, sem saber bem por quê. Tem alguma coisa ali, naquela frase simples, que parece maior do que ela mesma. Talvez seja isso: ninguém promete que o ônibus vai chegar na hora, ninguém promete sentido pra essa espera toda. A gente só fica ali, no ponto, esperando, porque é isso que se faz quando se está vivo — esperar a próxima coisa, sem garantia nenhuma de que ela vai valer o tempo gasto.

O ônibus enfim aparece na curva, balançando, lento, indiferente ao atraso que causou. Os dois se levantam ao mesmo tempo, num gesto automático, treinado por anos de mesma rotina.

— Lá vem ele — diz Seu Nelson.

— Lá vem — repete Dona Lurdes, e por um instante aquilo parece quase uma piada entre os dois, embora nenhum saiba exatamente do que riem.

Sobem. Pagam a passagem. Sentam em bancos separados, como sempre. O ônibus segue pela rua de sempre, parando nos pontos de sempre, levando gente que, como eles, está apenas indo para algum lugar que não promete nada além de ser o próximo lugar.

Dona Lurdes olha pela janela. Não pensa mais em nada de especial. O dia segue seu curso banal, sem revelação alguma, sem resposta para a pergunta que fez minutos atrás. E talvez seja justamente isso — a ausência de resposta, a simplicidade do percurso repetido — o que faz da espera, no fundo, algo que se pode até aceitar com uma certa paz.

Amanhã ela vai estar de novo naquele ponto, dez minutos adiantada, o ônibus vai atrasar de novo, e vai esperar, sem exigir mais do que isso. Um olhar para a rua, outro para o relógio, e um bom-dia para Seu Nelson.

Depois, a espera. Como tantas outras. Como quase tudo na vida.


Até amanhã


 Ele morde a ponta do pão ainda quente, sentindo o sabor simples e exato do sal e do trigo. O pão não significa nada além de si mesmo. Dentro de algumas horas, será apenas lembrança; amanhã, a fome voltará, como voltou ontem e voltará depois. Nada se completa. Nada permanece.

Não há grande plano. Não há destino manifesto. Não existe resposta escondida atrás das nuvens, nem propósito aguardando pacientemente para ser descoberto. Há apenas corpos que comem, trabalham, envelhecem e desaparecem, enquanto o sol, absolutamente indiferente às esperanças humanas, continua a nascer sobre vivos e mortos com a mesma impassível regularidade.

Seu Joaquim sorri de leve. Não porque tenha encontrado um sentido, mas porque compreendeu que talvez jamais houvesse um. Ajeita a sacola debaixo do braço e já se vira para a porta quando Dona Alzira, distraída, repete o gesto de sempre:

— Até amanhã, seu Joaquim.

— Até amanhã — responde ele. E a frase, dita milhares de vezes, pesa hoje de um jeito diferente.

— O senhor vem sempre, não é? Há quantos anos é isso? — pergunta ela, rindo, apenas para preencher o silêncio.

— Trinta e dois.

A resposta vem sem hesitação, como quem recita um número que já deixou de exigir cálculo.

— E nunca enjoou do mesmo pão?

Joaquim demora um instante para responder. Não está pensando no pão.

— Enjoar é desejar outra coisa. Eu só continuo vindo.

Dona Alzira sorri, sem compreender inteiramente, e volta a atender o cliente seguinte. Joaquim sai. Caminha entre pessoas ocupadas em repetir gestos que também não explicam nada. Amanhã voltará à padaria. Comprará o mesmo pão, ouvirá a mesma despedida, entregará as mesmas moedas, constatando que a vida não havia revelado nenhum significado oculto diante de um universo que nada promete e nada explica. Ele havia escolhido, mais uma vez, continuar caminhando até que amanhecesse outra vez.


O mata-burros e o retrovisor quebrado


Era uma sexta-feira de sol tímido e Dona Dirce decidiu que era dia de fugir da rotina. Moradora de Jardim Camburi, em Vitória, ela conseguiu convencer o filho Enzo e a vizinha Ivone a subirem a serra. O destino era o interior de Domingos Martins, mais especificamente uma vendinha de comida caseira escondida em uma estrada de terra, cercada por plantações de café — aquele tipo de lugar que tem rede na varanda e cachorro que late só por educação.

No carro, o rádio cantava um samba suave, as janelas iam abertas para deixar entrar o ar que esfriava à medida que subiam a rodovia, inspirando todos com aquele dia tão bonito. Ivone trouxe uma sacola cheia de quitutes para o caminho: sanduíches de presunto e queijo, suco de laranja e um potinho de pimenta artesanal que ela jurava ser “suave, pode confiar”. Enzo, sempre atento às questões práticas, monitorava o trajeto no GPS do celular e avisou a mãe: 

— Mãe, nada de inventar de cortar caminho por estrada de chão desconhecida hoje, tá? Quero o almoço inteiro.

Dona Dirce riu e respondeu com aquele olhar de quem já acumulou quilometragem de vida:

— Já dirigi em estradas muito piores, filho. Sei muito bem por onde ando.

O restaurante era uma casinha de madeira pintada de azul, com mesas dispostas no terreiro e mudas de flores protegidas do sol nas floreiras sob telas finas. Havia um senhor de chapéu de palha que cuidava do fogão a lenha, uma moça que anotava os pedidos em um bloco já amarelado e um menino que corria entre os canteiros com um sorriso que só criança tem — uma energia leve que parecia dissolver qualquer pressa. Sentaram-se à sombra de uma frondosa araucária e logo a conversa virou memória: velhas histórias de família, o tempo das colheitas e quem ali tinha mais cara de avó — que, no caso, era Dona Dirce, sem dúvida alguma.

O almoço veio rápido: arroz soltinho, feijão com caldo gordo, frango caipira com quiabo e uma polenta frita que derretia na boca. Tinha também uma salada crua de tomates, pepino, abobrinha verde, cenoura e repolho. Enzo, tentando impressionar Ivone, ergueu o potinho de pimenta e disse:

— Só uma gotinha para provar que tenho coragem.

Ivone revirou os olhos:

— Não exagere. Você não tem costume.

Riram, provaram, e o mundo parecia pequeno e perfeito. O almoço estava ótimo e o clima maravilhoso.

Foi então que, do lado de fora, ouviu-se um estrondo metálico, seguido de um xingamento contido e passos apressados. Todos se levantaram. Na estrada de terra, bem à frente do restaurante, dois carros — um popular vermelho e uma caminhonete velha carregando sacos de café — estavam enroscados um no outro. Uma batida leve, mas suficiente para estraçalhar um retrovisor e espalhar vidros que faiscavam sob a luz mansa do meio-dia. O motorista do carro vermelho, um rapaz de camiseta, saltou com o rosto vermelho e bem nervoso; o da caminhonete, um senhor de boina e feições coloniais, cuspia imprecações no ar com as mãos calejadas.

A cena quebrava por completo a tranquilidade do lugar. O cozinheiro parou com a escumadeira na mão, o menino que corria entre as mesas ficou de boca aberta, e Ivone, sempre pragmática, já segurava a bolsa como se preparasse sair correndo. Dona Dirce notou que o rapaz tremia mais de vergonha do que qualquer outra coisa, enquanto o senhor de boina reclamava em voz irritada:

— Na minha vida inteira nunca bati! — com um sotaque carregado de origem alemã.

Enzo foi o primeiro a se aproximar para ajudar a recolher os pedaços de plástico e vidro que pudessem machucar quem passasse por ali.

Ninguém havia se ferido — esse foi o primeiro alívio, mas o clima estava tenso. Um morador local, sem perder o humor característico da região, comentou em voz alta:

— É o que dá querer passar reto no mata-burros.

Alguns clientes riram sem graça. O dono do restaurante, limpando as mãos no avental já encardido, sugeriu um copo d'água para os envolvidos e ofereceu uma mesa nos fundos para que conversassem longe dos olhares curiosos.

— Nada de polícia nessa história… —  comentou assustada a moça do bloco de pedidos.

Trocaram documentos, desabafaram o restinho de raiva e, como quase sempre acontece no interior, descobriram que eram parentes distantes por parte de um casamento de duas gerações atrás — uma ironia que fez todo mundo suspirar aliviado.

O almoço terminou num meio-riso, meio-susto. Antes de ir embora, o rapaz pediu desculpas aos presentes pelo transtorno e, com a voz mais mansa, ofereceu-se para arcar com os reparos da caminhonete. O senhor de boina, após um silêncio que pareceu uma sentença, bateu no ombro do jovem e disse:

— Pois então vamos tomar um cafezinho com broa e resolver isso como gente grande.

E foram, ambos com passos meio curvados, como se tivessem desatado um nó de orgulho.

No retorno para Vitória, o carro vinha mais quieto. O rádio agora tocava um bolero. Cada um ia calado, mastigando as imagens do dia. Dona Dirce, que costumava comentar tudo, ficou pensativa fitando as curvas da estrada, e disse:

— Sabe, quando a gente acha que só vai almoçar e rir, a vida lembra que tem outras ideias.

O restante da viagem transcorreu em silêncio. Cada um parecia ocupado demais com os próprios pensamentos enquanto a BR-262 descia em direção ao mar. Chegaram em casa com o sol já mais baixo.

Naquela noite, quando alguém perguntou como havia sido o passeio, Dona Dirce respondeu apenas:

— A comida estava ótima. Mas o melhor foi o cafezinho com broa depois da batida.

O canário do Braga


 Por volta das sete da manhã, o sol já desenhava linhas douradas sobre o asfalto de Jardim da Penha. Era um daqueles dias luminosos, de céu lavado e ar fresco, que pareciam carregar um convite silencioso para se viver devagar. Enquanto os feirantes finalizavam a arrumação das barracas — descarregando caixas, ajeitando as frutas e preparando o tradicional milho verde cozido —, eu caminhava calmamente em direção ao laboratório.

Era dia de exames de rotina, um ritual que repito a cada quatro meses. Acordei com uma disposição leve, daquelas que fazem a mente flutuar em busca de palavras. Como cronista do cotidiano, a beleza daquela manhã já operava na minha cabeça: pensava em tecer um paralelo entre a luz física do amanhecer e a luz do conhecimento, talvez buscar uma metáfora que traduzisse o frescor das primeiras horas. Mas resolvi não ter pressa. Primeiro, haveria de cumprir o pequeno tributo à agulha e ao tubo de ensaio no laboratório de análises clínicas. Silêncio e paciência.

Minutos depois, com o pequeno curativo no braço e o dever cumprido, voltei à rua. Sentia-me preenchido por um bem-estar genuíno. Ao caminhar em direção ao carro, a sensação de uma vida satisfeita e harmoniosa era tão palpável que cheguei a cogitar, por um instante, a eudaimonia aristotélica. Sorri sozinho. Pensei que, talvez, batizar aquele momento com um conceito grego tão imponente fosse exagero para uma simples manhã de quarta-feira no bairro. Não precisava de tanto. O sentimento bastava por si só.

Foi quando, perto da barraca de milho verde, algo capturou meu olhar: um canarinho ciscava calmamente no chão. Mas não era um desses passarinhos da terra, de tons discretos e acinzentados. Era de um amarelo vivo, solar, quase inacreditável no meio do burburinho da montagem da feira. Aquela visão singela operou um milagre instantâneo na minha memória, transportando-me imediatamente para as páginas de Rubem Braga. O mestre capixaba da crônica também tinha os seus canários. Mais tarde, já em casa, eu consultaria seus livros para redescobrir que o pássaro da minha lembrança era o cobiçado Harzer Roller, imortalizado na crônica “Apareceu um canário”, escrita no longínquo maio de 1960.

Ali, parado na calçada, percebi que tinha um punhado precioso de assuntos nas mãos: a luz da manhã, o exame cumprido, a paz no peito e o canário do Braga. Faltava apenas costurar os fiapos, os retalhos e dar um sentido ao texto.

No entanto, o cotidiano é um bicho arisco. Bastou eu entrar no carro e girar a chave para que a harmonia do mundo rachasse ao meio. A poucos metros dali, estourou um bate-boca violento. Três ou quatro homens, provavelmente comerciantes tomados pelo estresse da jornada, iniciaram uma discussão ruidosa, com empurrões e um vozerio carregado de raiva. O meu instinto de preservação — alimentado pelo desejo de proteger o próprio estado de graça — gritou para que eu desse a partida e saísse dali o mais rápido possível.

Mas a rua já havia sido engolida por curiosos. Cercado pela aglomeração, fui obrigado a assistir àquela coreografia hostil de perto. Demorou alguns minutos até que a turma do “deixa disso” aparecesse para apartar a briga e liberar a via. O trânsito fluiu e segui o meu caminho.

Mas o encanto havia quebrado. O volante parecia mais pesado; o azul do céu, um pouco menos nítido. A crônica leve, feliz e solar que se desenhava na minha mente desfez-se no ar como fumaça, atropelada pela crueza de um instante de fúria alheia. “Fica para a próxima”, pensei, conformado.

Ganhando a avenida principal, restou-me apenas o eco de algo precioso que se perdeu pelo caminho. Não era apenas a crônica que não seria escrita, mas aquela pureza inaugural das sete da manhã, uma calmaria que parecia eterna e que, no entanto, durou menos que o tempo de uma discussão na feira. Ficou a lembrança miúda daquele segundo exato em que um canarinho amarelo bastava para fazer o mundo parecer perfeito. Talvez a paz seja isso: um pássaro que pousa por um instante diante de nós e desaparece ao primeiro grito dos homens.


Un pacchetto di sigari


 O maço de charutos Toscano Classico ainda está lacrado no papel celofane, bem ao lado do meu notebook. Olho para ele e, de certa forma, vejo o tempo materializado ali, repousando no tampo da mesa. Foi um mimo do Almir, um querido amigo que acaba de retornar de uma longa jornada pela Itália e pela Grécia, onde celebrou com a esposa trinta e cinco anos de uma vida somada. Ele me trouxe duas coisas: um chaveiro singelo com a inicial do meu nome, a letra G, e esses charutos. Contou-me passagens engraçadas da viagem, alguns sobressaltos e aqueles inevitáveis perrengues que, quando acontecem em solo estrangeiro, parecem tragédias, mas depois viram piada na mesa de bar.

Agradeci o gesto, mas o que o Almir não sabia é que, ao me entregar aqueles charutos, ele me deu também uma chave para o passado. Sempre que penso na Itália, minhas memórias costumam caminhar quase automaticamente pelas colinas e ruelas da Toscana, um território que fiz um pouco meu pelas tantas vezes que lá estive. Mas hoje, o destino do meu pensamento foi outro. Desviei a rota habitual. Fui parar no deck, sobre o mar, de um hotel na ponta mais afastada da Marina Grande, em Sorrento.

Fecho os olhos por um segundo e quase posso sentir o vento. À minha frente, o Golfo de Nápoles se espalhava imenso e, distante, a silhueta imponente do Vesúvio desenhava o horizonte. Eu não estava sozinho. Viajava com minha mulher e outro casal de amigos. Era um final de tarde particularmente frio de um fim de março, daqueles em que o inverno se recusa a ir embora, num ano qualquer que a memória já permitiu que se perdesse no tempo.

Estávamos ali, suspensos na beleza quase acintosa do lugar, um cenário tantas vezes cantado por poetas e retratado por pintores desde que o mundo é mundo. E nós, meros viajantes, éramos as testemunhas daquela magia ordinária. Havia uma garrafa de limoncello sobre a mesa e um charuto aceso entre os meus dedos. Lembro perfeitamente da nossa conversa. Falávamos, com uma ponta de melancolia antecipada, sobre como o presente é uma matéria gasosa, que nos escapa por entre os dedos. Dissemos, quase como um pacto ou uma profecia: "Um dia, vamos sentir uma saudade absurda disso tudo aqui". Perguntamo-nos se haveria uma oportunidade de retornar, de repetir exatamente o mesmo roteiro, de congelar o instante.

Há uma beleza dolorosa no cotidiano quando ele se dá conta de si mesmo. O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard dizia que a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente. Naquele deck em Sorrento, tentamos fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Capturamos o instante sabendo que ele já nascia com vocação de lembrança. Queríamos a eternidade em um fim de tarde frio.

Hoje, o amigo que dividia o limoncello e as risadas conosco já se foi. Morreu. Não o verei mais. A vida seguiu seu fluxo natural e implacável, me deixando por aqui, sobrevivente e guardião daquela tarde de março. Não tenho perspectivas de retornar à Marina Grande. O cenário continua exatamente lá, o Vesúvio ainda guarda o golfo com sua imponência silenciosa, mas a engrenagem humana que tornou aquele dia único foi desmontada pelo tempo. A impermanência é a única certeza que carregamos na bagagem da existência. Mudamos nós, mudam os amigos, mudam as circunstâncias. As escolhas invisíveis do destino nos moldam e nos afastam dos portos onde fomos felizes.

Olho novamente para os charutos sobre a mesa. O presente do Almir acabou por reabrir uma gaveta que eu achava trancada. Talvez a grande sabedoria da experiência humana não esteja em tentar repetir as viagens ou em buscar o retorno impossível aos lugares que nos marcaram. Talvez a mágica esteja, simplesmente, na capacidade de acolher o que resta, transformando a ausência em presença viva através da escrita.

Por enquanto, o que me resta é essa saudade bonita, que já não machuca, mas preenche com calor o silêncio da tarde. E, claro, os charutos que Almir me trouxe, o amigo que a vida ainda me permite abraçar. Quem sabe um dia eu os acenda? Un pacchetto di sigari. Chissà? Até lá, eles ficam aqui, ao lado do notebook, como um lembrete sutil de que a vida é feita dessas intersecções invisíveis entre o que fomos, o que perdemos e o carinho que insiste em bater à nossa porta no presente.


Roubaram o meu carro!


 O Edu tem aquele jeito dele, sabe? Uma ironia fina que descasca a realidade sem perder a piada, mesmo quando o assunto é meio trágico. Outro dia, no Elite, em Santa Teresa, enquanto mexia distraidamente o copo de para-tudo, ele me soltou:

— Meu amigo, a velhice é um assalto diário. A diferença é que o ladrão mora dentro da nossa própria cabeça.

Eu ri.

— E como é que você chegou a essa conclusão filosófica?

Ele suspirou.

— Por causa da minha irmã.

Quando o Edu fala “minha irmã”, já sei que vem história. Márcia completou 73 anos há poucos dias; nada fora do comum até aparecerem os esquecimentos que a família chamava de “coisinhas da idade”. Primeiro vieram os óculos desaparecidos, depois as chaves, o controle remoto, o celular.

Certa vez ela passou meia hora procurando os óculos que estavam sobre a cabeça. Noutra, procurou o celular enquanto conversava nele. Mas o sinal vermelho acendeu quando chegou a época de renovar o licenciamento anual do seu carro.

A filha acessou o site do Detran. Quando a tela carregou, ninguém acreditou. Parecia resultado de campeonato: multa por avanço de sinal, por conversão irregular, por estacionamento indevido.

Mas havia também o troféu de ouro: catorze multas por trafegar na contramão. Catorze!

— Catorze? — perguntei.

— Catorze — confirmou o Edu. — Minha teoria é que ela estava tentando implantar a mão inglesa em Santa Teresa sem consultar ninguém.

Fez uma pausa.

— Ou então achava que aquelas setas pintadas no asfalto eram apenas manifestações artísticas da prefeitura.

Diante da perspectiva de Márcia virar personagem fixa do noticiário policial, a família convocou uma reunião de emergência. Sentaram-se à mesa Edu, a filha da Márcia e o ex-marido dela.

O ex-marido, divorciado há anos, vivia aparecendo para ajudar.

— O homem já ganhou vaga no céu por antecipação — comentou Edu.

Depois de muita conversa, o veredito foi unânime: o carro precisava sair de circulação. Pela segurança de Márcia e dos pedestres, mas principalmente pela segurança dos postes.

A decisão foi comunicada. A reação de Márcia foi imediata.

— Vocês querem me prender dentro de casa!

— Não, Mãe — explicou a filha. — Queremos evitar que você transforme o bairro num circuito de rally.

— Eu dirijo há cinquenta anos!

— Justamente. E parece que nos últimos meses você resolveu dirigir os cinquenta ao mesmo tempo.

O Edu conseguiu vender o veículo para uma senhora conhecida. O preço foi acertado pela Tabela FIPE, com uma entrada generosa e mais duas parcelas em poucos dias.

A compradora explicou que precisava de um tempinho para realizar alguns “desinvestimentos”.

Quando me contou isso, o Edu caiu na gargalhada.

— Desinvestimento é uma palavra maravilhosa.

— Por quê?

— Porque ninguém nunca diz “estou sem dinheiro”. Diz que está fazendo desinvestimentos.

A venda se concretizou e, com o dinheiro na conta, a família respirou aliviada.

Pela primeira vez em meses, todos imaginaram que poderiam dormir sem receber uma ligação da polícia, dos bombeiros ou da associação dos fabricantes de placas de trânsito.

Mas a paz durou menos que promoção de supermercado. Na manhã seguinte, Márcia acordou, tomou café, pegou a bolsa e desceu para a garagem.

Quando chegou ao subsolo, diante da vaga, olhou para o espaço vazio. Paralisou.

Cinco segundos depois, pegou o telefone. A filha atendeu.

— Roubaram meu carro!

— Mãe, ninguém roubou o seu carro. A senhora vendeu.

— Eu vendi?

— Vendeu.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Estranho...

Cinco minutos depois, o telefone tocou novamente.

Era o Edu. Ou melhor, era Márcia ligando para Edu em tom choroso.

— Edu! Levaram meu carro!

— Márcia, você vendeu.

— Eu vendi?

— Vendeu.

— Quando?

— Há duas semanas.

— E por quê?

— Porque você acumulou catorze multas na contramão.

Silêncio.

— Ah...

Minutos depois, ela ligou para o ex-marido.

— Roubaram meu carro!

— Márcia, você vendeu.

— Eu vendi?

— Sim.

— Quem deixou?

— Você.

Aquela sequência repetiu-se no dia seguinte. E no outro. E no outro.

Segundo Edu, durante um período a rotina foi tão previsível que dava para acertar o relógio pelas ligações.

Às oito da manhã, telefonema para a filha. Às oito e cinco, telefonema para ele. Às oito e dez, telefonema para o ex-marido.

— Eu já estava pensando em gravar uma mensagem automática — contou Edu. — Algo como: “Olá, Márcia. Sim, você vendeu o carro. Não, ele não foi roubado. Sim, foram catorze contramãos. Tenha um bom dia.”

Hoje a situação está mais tranquila. O dinheiro entrou e o negócio foi concluído. O carro está longe.

Os pedestres voltaram a atravessar as ruas com mais confiança. Os postes vivem dias de serenidade. Mas Márcia continua inconformada. Se você sentar para tomar um café com ela, não demora cinco minutos para ouvir:

— Tiraram minha independência.

— Você era uma motorista perigosa — rebate Edu.

— Nunca bati em ninguém.

— Por milagre.

— Sempre dirigi muito bem.

— Márcia, você recebeu catorze multas por contramão…

— Catorze? como assim? Que exagero…

— Está vendo porque vendemos o carro?

Ele balança a cabeça, resignado. E então conclui:

— No fundo, ela tem razão em reclamar. A liberdade é boa demais. O problema é quando quem solta as rédeas não é a coragem, nem a rebeldia. É a memória.


O troco do Seu Zé


 O sol de outono já começava a desaparecer atrás dos prédios do bairro quando Maria entrou na antiga e pequena mercearia da esquina. Havia algo reconfortante naquele lugar. O chão de cimento gasto, as prateleiras de madeira escurecidas pelo tempo, o cheiro de café recém-passado que parecia morar ali permanentemente. Num mundo que mudava depressa, a mercearia do Seu Zé permanecia intocada, como uma fotografia antiga.

Atrás do balcão de vidro, Seu Zé anotava números em um caderno amarelado.

— Boa tarde, Seu Zé. Só vim buscar um pacote de café e um quilo de açúcar.

— Pois não, Dona Maria. O dia hoje voou. Nem vi o tempo passar.

Enquanto separava os produtos, Maria observou o pacote de café sobre o balcão. Por um instante, imaginou o aroma se espalhando pela cozinha de sua casa. Lembrou-se das tardes em que recebia algumas amigas para conversar sobre a vida, os filhos, as preocupações e também as alegrias simples que insistiam em sobreviver entre as dificuldades do cotidiano.

Seu Zé fez as contas rapidamente.

— Deu dezoito reais.

Maria entregou uma nota de vinte. Nesse momento, uma buzina soou na rua, chamando sua atenção. Distraído, ele abriu a gaveta, remexeu e entregou o troco sem conferir.

— Obrigado, Dona Maria. Deus abençoe.

E foi apressado atender a outro freguês.

Maria guardou o açúcar e o café na sacola e olhou para a mão. A princípio pensou ter visto errado. Mas não. Em vez de dois reais, havia recebido uma nota de cem. Por alguns segundos, o tempo pareceu desacelerar.

Cem reais. Não era uma fortuna, mas fazia diferença. O botijão de gás já dava sinais de despedida. A conta de luz venceria na semana seguinte. Havia despesas esperando por dinheiro que ainda não existia.

Ninguém tinha visto. Seu Zé dificilmente descobriria a origem do erro. Talvez passasse horas conferindo contas e notas no fechamento do caixa sem jamais encontrar a explicação.

Maria sentiu um aperto no peito. A tentação não surgiu como uma voz maldosa. Veio de maneira muito mais humana. Veio vestida de necessidade. Veio acompanhada da justificativa fácil de que a vida, afinal, também nunca tinha sido generosa demais com ela.

Ficou parada, olhando para a nota. Então pensou em Seu Zé. Pensou nas madrugadas em que ele levantava antes do amanhecer para abrir a mercearia. Pensou nas dores nas costas que ele comentava de vez em quando. Pensou nos anos que aquele homem passara atrás daquele balcão atendendo vizinhos, anotando fiado para quem precisava e ajudando muita gente sem fazer alarde.

De repente, a situação deixou de ser apenas sobre dinheiro. Passou a ser sobre quem ela queria ser.

Maria lembrou-se vagamente de algo que havia lido muitos anos antes, em um livro emprestado por uma professora: Viktor Frankl dizia que, entre aquilo que nos acontece e a forma como respondemos, existe um espaço de liberdade. Talvez fosse exatamente esse espaço que se apresentava agora.

Ela não escolhera receber aquele troco errado e não escolhera as contas acumuladas em casa. Não escolhera as dificuldades que enfrentava. Mas podia escolher o que faria diante delas. Acreditava que o ser humano encontra sentido justamente quando assume responsabilidade pelas próprias escolhas, mesmo em circunstâncias difíceis. A vida não pergunta apenas o que desejamos dela. Muitas vezes, é ela quem nos pergunta qual será a nossa resposta diante dos acontecimentos.

E, naquela tarde comum, a vida parecia fazer uma pergunta muito simples. Maria respirou fundo. Deu dois passos em direção à porta.

— Seu Zé! Olhe aqui.

O velho voltou, enxugando a testa com um lenço.

— O que foi, Dona Maria? Faltou alguma coisa?

Ela estendeu a nota. A mão de Seu Zé tremia ao pegá-la.

— O senhor se enganou no troco. Me deu cem reais em vez de dois.

Seu Zé arregalou os olhos. Olhou para a nota. Depois para o caixa. Depois novamente para Maria. E sorriu. Um sorriso sincero, daqueles que não aparecem por educação, mas por alívio.

— Menina do céu... Eu ia passar a noite inteira tentando encontrar esse erro. Muito obrigado. Muito obrigado mesmo.

Maria recebeu os dois reais corretos, despediu-se e retomou o caminho de casa. O vento da noite começava a percorrer a rua. As contas continuavam lá. O gás acabando. A conta de luz venceria na semana seguinte. Nada daquilo havia mudado. Mas algo dentro dela estava diferente. Enquanto caminhava, Maria percebeu que algumas escolhas produzem resultados invisíveis: não resolvem problemas financeiros e não trazem reconhecimento público. Não rendem aplausos, e ainda assim, possuem valor. Porque ajudam a construir silenciosamente aquilo que somos.

Naquela tarde, devolvendo uma nota de cem reais, Maria não mudou o mundo. Talvez nem tenha mudado a vida do Seu Zé. Mas respondeu com dignidade à pergunta que a vida lhe fizera.

E, às vezes, é justamente aí que o sentido se revela: não nos grandes acontecimentos, mas nas pequenas responsabilidades que assumimos quando ninguém está olhando.