Absurdo


por Giovanni Angius, em 22/2/2013.

Era uma quarta-feira qualquer. Dessas que começam com despertador, café apressado e a sensação de que o dia já nasce devendo alguma coisa. Ele estava no ônibus, espremido entre gente, mochilas e pensamentos, quando abriu no celular uma imagem que um amigo havia enviado na noite anterior: a famosa fotografia feita pela sonda Voyager I, em 14 de fevereiro de 1990 — o “Pálido Ponto Azul”, como batizou Carl Sagan.

A imagem mostrava um risco de luz e, nele, um ponto quase invisível. Ali estava tudo: guerras e amores, impérios e aniversários, boletos pagos e boletos vencidos. Ali estava ele, inclusive, apertado no ônibus, indo trabalhar.

Sentiu um pequeno abalo. Não era tristeza. Era algo mais silencioso, como quando a gente percebe que a casa é menor do que imaginava — e, ao mesmo tempo, suficiente. Mas naquela manhã, o suficiente parecia pouco. Se a Terra era só um ponto perdido na imensidão, o que dizer de um homem comum, funcionário dedicado, pagador de contas, que raramente tinha tempo para olhar para dentro?

A mente dele lembrou-se de uma frase lida anos antes em um livro de Albert Camus. No O Mito de Sísifo, Camus falava do absurdo — esse confronto entre o desejo humano de sentido e o silêncio do universo. O mundo não responde. O céu estrelado não explica nada. A imensidão não envia recados personalizados. E, no entanto, ali estava ele, esperando que o universo justificasse a sua vida.

Camus diria que esse incômodo é legítimo. É o momento em que o homem percebe que vive repetindo gestos como Sísifo empurrando a pedra montanha acima. Trabalho, contas, supermercado, notícias, sono. E depois tudo de novo. A pergunta que se infiltra é simples, mas desconfortável: “Para quê?”

Camus não aconselhava o desespero. Ao contrário. Ele propunha uma revolta lúcida — viver apesar da ausência de respostas definitivas. Criar sentido onde não há manual de instruções.

Aquele sujeito no ônibus não era filósofo. Não tinha tempo para teses existenciais. Mas, naquela manhã, algo mudou de lugar. Ele percebeu que sua rotina não era o problema. O problema era atravessá-la sem presença.

Nos dias seguintes, não pediu demissão nem vendeu tudo para viajar o mundo. Não fez nada espetacular nem radical. Apenas começou a introduzir pequenas rupturas. No intervalo do almoço, em vez de rolar a tela infinitamente, caminhava alguns minutos sem fones de ouvido. No trajeto para casa, observava as pessoas com mais curiosidade do que julgamento. Aos poucos, passou a reservar quinze minutos antes de dormir para escrever — não sobre grandes teorias, mas sobre o que sentiu ao longo do dia.

Descobriu aos poucos que havia vida entre os boletos.

Percebeu também que propósito não é algo que se encontra como um objeto esquecido na gaveta. É algo que se constrói em camadas finas, quase invisíveis. Como aquele ponto azul perdido no espaço, que só ganha significado porque alguém olha para ele.

O absurdo não desapareceu. O universo continuava silencioso e gelado. As estrelas não piscavam em código Morse. Mas ele começou a suspeitar que o silêncio não era hostilidade — era apenas silêncio. E que a tarefa humana talvez não seja arrancar respostas do cosmos, mas responder à própria consciência.

Dias depois, visitou os pais sem pressa. Sentou-se à mesa e ouviu histórias antigas com atenção renovada. Notou que a mãe repetia certos detalhes, e em vez de impaciência, sentiu ternura. Ali havia algo concreto, quase palpável: o sentido que nasce do cuidado.

Camus falava de imaginar Sísifo feliz. Não porque a pedra seja leve, mas porque a consciência transforma o esforço. Então, ele entendeu isso à sua maneira. A sua pedra não deixaria de existir — trabalho, contas, compromissos. Mas poderia ser empurrada com outra disposição. Criar propósito real, percebeu, talvez não seja mudar de vida, mas mudar a forma de habitá-la.

Ele passou a escolher pequenos compromissos consigo mesmo: ler algumas páginas de um livro por semana, aprender algo novo, cultivar uma amizade com mais constância. Descobriu que sentido não vem do tamanho do gesto, mas da qualidade da atenção.

Certo dia, voltou à imagem do Pálido Ponto Azul. Observou o ponto minúsculo e, em vez de sentir-se esmagado, experimentou algo diferente: responsabilidade. Se tudo o que ama está ali, comprimido naquela poeira cósmica, então cada gesto importa. Não para o universo inteiro, talvez, mas para aquele ponto específico. E isso bastava.

O homem comum não deixou de ser comum. Continuou pagando contas, acordando cedo e enfrentando filas. Mas agora havia brechas. Entre uma tarefa e outra, cultivava momentos de presença. Entre o silêncio do universo e o barulho da cidade, escolhia responder com lucidez.

Talvez o propósito não esteja nas estrelas. Talvez esteja na maneira como alguém segura a própria pedra — e decide, apesar de tudo, continuar empurrando-a com dignidade. No fim das contas, naquele minúsculo ponto azul, isso já é um gesto imenso.


Sem Internet


Sem Internet

Lá pelos anos 1980 apareceu o computador pessoal nos moldes que o conhecemos hoje. Antes disso, só as grandes corporações e universidades podiam bancar instalações com o porte necessário para abrigar os gigantescos equipamentos, como eram naquela época. Isso sem contar que a tecnologia era restrita a poucos países e muito pouco difundida entre os cidadãos. Poucos nesse mundo podiam imaginar o uso do computador pelas pessoas em seu cotidiano de maneira tão ampla, seja no trabalho, no lazer ou em aplicações domésticas.

Passados os anos, a tecnologia nesta área alcançou níveis de desenvolvimento inimagináveis para aquela época. O processamento de dados através dos chips estão presentes em praticamente todas as atividades humanas, e também naquelas onde não é possível sua presença. Houve época em que eu pensava que o limite para esse desenvolvimento seria o tamanho do dedo, imaginando simplesmente na miniaturização dos aparelhos, mas isso não impediu o seu controle através de comandos de voz e sabe-se que há em uso sistemas e máquinas movidas por impulsos do cérebro. Não há dúvida que o desenvolvimento nesta área foi fabuloso.

Com a produção em massa e o seu uso corrente, a parafernália tecnológica invadiu a vida do ser humano a ponto de, em inúmeros casos, criar uma dependência muitas vezes compulsiva a essas maquininhas. Isso no campo pessoal. Se for levado em consideração o uso comercial, há exemplos infinitos da necessidade absoluta de sua aplicação nos negócios. Dá para imaginar um estabelecimento comercial sem um equipamento para passar o cartão de crédito ou para emitir o cupom fiscal? Imagine um magazine emitindo notas fiscais na mão nos dias de hoje!

Na indústria, da mesma forma, o uso da tecnologia é imprescindível para garantir qualidade, competitividade e sua manutenção no mercado.

Qualquer pessoa deste planeta que esteja conectada à internet pode acessar praticamente tudo o que deseja. O limite para o aprofundamento de sua pesquisa está contido nela própria, ou seja, se a pessoa sabe o que quer encontrar, os mecanismos de busca na rede retornam informações em quantidades astronômicas em fração de segundo, permitindo o seu aprofundamento conforme sua necessidade.

Com tantas informações disponíveis, com tanta coisa entrando na mente das pessoas, a velocidade das ações rotineiras aumenta. A velocidade da vida aumenta. Daí a sensação de que o tempo passa mais depressa.

Com o passar dos dias e com o alto giro da vida, quem de nós é capaz de dar uma paradinha num fim de tarde e ir ali na beira da praia para ver a lua surgir no mar? Não é nem para estimular impulsos românticos, escrever poesia ou cantar sob sua luz prateada, mas simplesmente para relaxar da tensão após um dia infernal dentro do sistema.

Com tamanha dependência do computador, quando a rede cai, num instante, vida fica vazia e o cidadão não sabe o que fazer. De repente, ele se vê no escritório sem saber para onde ir e percebe que tudo o que produz está dentro de seu notebook, e sem ele, não é possível fazer mais nada.

Agora mesmo, a internet saiu do ar. Soube que houve um acidente na rua e os cabos foram rompidos. Estou escrevendo esse texto porque não consigo fazer mais nada em meu trabalho. Preciso enviar emails, acessar o sistema, mas não consigo. Estou isolado do mundo.

caminhar ou pedalar

 Caminhar ou pedalar

por Giovanni Angius, em 20/2/2026.


O homem tinha lá suas manias. Não eram muitas, mas eram fiéis. Uma delas era caminhar pelo calçadão da Praia de Camburi, em Vitória. Ia quase todos os dias. Não porque acreditasse piamente que aquilo lhe daria um abdômen trincado ou acrescentaria anos heroicos à sua expectativa de vida. Ia mais para arejar a cabeça. Caminhava para desalojar pensamentos, como quem abre as janelas da alma para entrar um pouco de vento do mar.

Naquela manhã, o céu estava naquele tom indeciso entre azul e branco lavado. O mar seguia seu próprio ritmo, indiferente às inquietações humanas. Ele caminhava no piloto automático, repassando mentalmente pequenas pendências do trabalho, lembrando de uma conta a pagar, de um e-mail que precisava responder, quando cruzou com uma jovem família.

Pai, mãe, uma criança que andava aos pulinhos e um bebê instalado soberano no carrinho. Cena comum. Vida acontecendo. Ao passar por eles, sem intenção alguma de ouvir conversa alheia, pescou um pedaço de frase que ficou ecoando como música chiclete.

— Mas que situação, hein? Está cada vez mais difícil andar por aqui em paz e segurança. Você percebeu a quantidade dessas bicicletas elétricas? E a velocidade? Repara na ousadia deles, passando tão perto, quase atropelando a gente…

Ele seguiu andando, mas já não estava mais só com seus pensamentos antigos. A indignação da mulher agora caminhava ao lado dele.

E, para ser honesto consigo mesmo, ela tinha um ponto. De uns tempos para cá, aquelas bicicletas elétricas tinham brotado como cogumelos depois da chuva. Silenciosas, rápidas, decididas. Algumas respeitosas. Outras nem tanto. O problema não era exatamente a tecnologia. Era o modo como ela vinha sendo usada — ou ignorada — nas regras mais básicas de convivência.

Veio-lhe à memória um episódio recente, no próprio bairro. Ao dobrar uma esquina, quase deu de frente com uma dessas máquinas. A bicicleta vinha na contramão, em velocidade que não combinava com a rua estreita, e o rapaz — talvez confiante demais — sem capacete, sem sinalização, sem qualquer sinal de que considerava a possibilidade de encontrar alguém ali. Por pouco não houve acidente. E o “por pouco” às vezes é um abismo inteiro.

Ele imaginou o transtorno. O susto. O desgaste. E se tivesse acontecido algo mais grave? Como explicar? Como viver depois? A imprudência de um poderia se transformar na dor permanente de muitos.

Continuou andando. Observava agora com mais atenção. Algumas bicicletas passavam pela ciclovia, como manda o figurino. Outras, porém, invadiam o espaço dos pedestres com a naturalidade de quem acha que tudo é pista. No calçadão, crianças corriam, idosos caminhavam devagar, casais conversavam distraídos. Era um território de passos humanos, não de motores elétricos, ainda que silenciosos.

Ele pensou em soluções, como todo cidadão que, por alguns minutos, sente-se convocado a resolver os problemas do mundo. Mais fiscalização? Sinalização mais clara? Multas? Campanhas educativas? Barreiras físicas? Logo percebeu que suas ideias eram tantas quanto vagas. Nenhuma delas dependia dele. Nenhuma estaria ao alcance de suas mãos naquele momento.

E aí, quase como quem muda de trilha sonora, lembrou-se de um velho princípio estoico que lera certa vez: preocupar-se apenas com aquilo que está sob seu controle. O resto — o comportamento alheio, as decisões públicas, a imprudência dos desconhecidos — pertence a outra esfera. Insistir em dominá-la é receita certa para a frustração.

Ele podia, isso sim, cuidar da própria atenção ao dirigir. Podia atravessar com mais cautela. Podia escolher os horários menos movimentados. Podia, no máximo, dar um passo para o lado quando uma bicicleta viesse afoita demais. O restante era vento — e vento não se segura com as mãos.

Quando chegou em casa, ainda havia um resquício daquela indignação emprestada. Entrou no banho como quem entra num pequeno ritual de encerramento. A água caiu sobre os ombros, morna, constante. O barulho do chuveiro abafou as buzinas imaginárias, as reclamações, os “quase acidentes”. Enquanto o shampoo fazia espuma, ele pensou que talvez o estoicismo fosse um pouco como aquilo: deixar a água correr sobre o que não se pode controlar.

Aos poucos, a cena da família, a esquina perigosa, as bicicletas apressadas foram escorrendo pelo ralo, misturadas à espuma branca que desaparecia sem resistência. Não que o problema tivesse sido resolvido. Mas, dentro dele, estava em paz provisória.

E, naquele instante simples — água caindo, vapor subindo, pensamento serenado —, o mundo lá fora podia continuar acelerado. Ele, por ora, tinha reduzido a própria velocidade.