O navio do Eurico


 Outro dia marquei um café com o Eurico. É um amigo antigo que a vida leva para longe e, de tempos em tempos, devolve ao nosso caminho, como se nunca tivesse ido embora. Fazia anos que não nos víamos, mas bastaram um aperto de mão e um sorriso para a conversa encontrar o rumo.

Sentamos perto da janela. Enquanto o café esfriava, ele girava a colher num movimento quase hipnótico, como quem remexe a própria memória.

Quem conheceu o Eurico dos vinte e poucos anos perceberia imediatamente o contraste. Na juventude, ele era incapaz de deixar passar uma provocação. Bastava uma palavra atravessada para que transformasse um mal-entendido numa batalha. Lembro-me de uma confraternização em que uma brincadeira sem importância terminou numa discussão acalorada. Quase nunca havia ofensa; ele é que enxergava ataques onde havia apenas descuidos. Generoso, mas escravo dos impulsos. Essa forma de agir o fazia sofrer muito e, sem querer, fazia os outros sofrerem também.

Foi ele quem rompeu o silêncio.

— Você conhece a história do Navio de Teseu?

Balancei a cabeça.

— Acho que não.

Ele sorriu discretamente.

— Dizem que o navio foi preservado durante muitos anos. Sempre que uma tábua apodrecia, ela era substituída por outra. Aos poucos trocaram uma, depois outra, depois mais outra, até que nenhuma peça original permaneceu. A pergunta é simples: quando todas as tábuas foram substituídas, aquele ainda era o mesmo navio?

Fiquei alguns segundos pensando.

— É, de fato, uma pergunta instigante.

— Pois é... — respondeu. — Outro dia percebi que passei a vida fazendo exatamente isso.

Olhei para ele, esperando que continuasse.

— As perdas foram arrancando algumas tábuas de mim. Os erros trocaram outras. Vieram decepções, mudanças de trabalho, gente que partiu cedo demais, sonhos que não aconteceram. Nada disso pediu licença. Simplesmente foi substituindo quem eu era.

Não havia amargura em sua voz. Apenas a serenidade de quem já fez as pazes com a própria vida.

— Eu olho para aquele rapaz da faculdade e quase não o reconheço — continuou, sorrindo outra vez, agora com um certo humor. — Ainda bem.

Rimos juntos. Depois ele acrescentou:

— Sabe aquela mania que eu tinha de explodir por qualquer coisa?

— Como esquecer?

— Pois é. Ainda sinto a raiva chegando. Ela não desapareceu. A diferença é que hoje eu a vejo chegar antes que ela assuma o comando. Outro dia um motorista me fechou no trânsito. Há alguns anos eu teria buzinado, gritado, seguido o sujeito por dois quarteirões. Dessa vez, respirei fundo e pensei: “Isso vai mudar alguma coisa na minha vida?” A resposta era não. Então deixei ir.

Tomou um gole de café antes de continuar.

— Descobri que nem todos os problemas precisam morar dentro de mim. Há coisas que pertencem aos outros. Se eu as carrego, acabam virando minhas também. Cansei desse tipo de bagagem pesada.

Observei as marcas discretas ao redor de seus olhos. Eram rugas comuns que o tempo instala sem consultar ninguém. Mas havia nelas algo diferente: não denunciavam apenas idade; revelavam travessias. Era o rosto de alguém que perdera algumas batalhas e, justamente por isso, aprendera a escolher melhor as guerras que ainda valiam a pena.

Conversamos por mais de uma hora. Falamos dos filhos, do casamento, de livros, dos inevitáveis exames médicos que passam a frequentar qualquer roda de amigos depois de certa idade. Rimos de histórias antigas que, na época, pareciam enormes e hoje cabiam confortavelmente dentro de uma lembrança.

Quando nos despedimos, fiquei observando o Eurico desaparecer entre as pessoas que caminhavam pela calçada. A imagem do navio continuou navegando comigo durante todo o caminho de volta para casa.

Será que aquele homem ainda era o mesmo que conheci no passado? Se as tábuas da impaciência haviam sido substituídas pela prudência, se o orgulho dera lugar à serenidade, ainda era o mesmo Eurico?

Não sei responder direito. Só sei que, se troquei uma amizade impulsiva por essa versão mais tranquila do Eurico, ainda reconheço nele algo que não mudou — um jeito de olhar pra mim antes de responder, um certo cuidado nas palavras que já estava lá há vinte anos. Talvez seja isso o fio que segura tudo: não o que sobrou igual, mas o que continua escolhendo prestar atenção.

Fui pra casa pensando que ainda dá tempo de trocar minhas próprias tábuas. E que, no fim, continuar navegando — mesmo mudando de casco pelo caminho — já é uma forma de seguir sendo o mesmo navio.


Nenhum comentário:

Postar um comentário