Quando o último nome se cala


 Não te comportes como se tivesses dez mil anos de vida pela frente.

A necessidade imperiosa paira sobre ti.

Enquanto vives, enquanto é possível, torna-te homem de bem.

Marco Aurélio.

Começo com a impressão de que certas tardes cabem inteiras dentro de uma xícara de café.

Foi numa delas que fui visitar o Lucas. O apartamento dele parecia um retrato fiel da vida moderna: dois computadores ligados, papéis espalhados sobre a mesa, telefone vibrando sem descanso e uma televisão ligada sem que ninguém realmente a assistisse.

Conversávamos sobre assuntos sem importância quando veio à sua mente algo que o deixou irritado. Naquela manhã, alguém havia riscado a porta do seu carro novo. Mostrou fotografias, calculou o prejuízo, reclamou da falta de educação das pessoas. Quanto mais falava, maior parecia ficar aquele risco na lataria. Durante alguns minutos, era como se toda a sua semana tivesse sido arruinada por alguns centímetros de tinta arrancada. Eu o escutava sem muito o que dizer.

Foi então que Marlene, que também estava conosco, interrompeu a conversa. Sua mãe havia falecido há poucos meses. Desde então, ela falava pouco. Mas, quando falava, parecia escolher cada palavra, como que buscando interpretar com precisão cada momento. Disse apenas:

— Você já ouviu falar que todos nós morremos três vezes?

Lucas fez um gesto negativo com a cabeça. Ela continuou:

— A primeira é quando o coração para. A segunda acontece quando nosso corpo desaparece deste mundo. A terceira... bem, a terceira é quando alguém pronuncia nosso nome pela última vez.

Ninguém na sala respondeu. A frase não era especialmente original, mas carregava uma verdade que dispensava comentários. Durante alguns instantes, ninguém pareceu mais se lembrar do carro. Ficamos olhando as xícaras sobre a mesa.

É curioso como certas ideias mudam de tamanho conforme a ocasião em que aparecem. Eu já havia lido algo semelhante, mas nunca me causara impressão. Naquela sala silenciosa, porém, a frase adquiriu um peso diferente.

Se um dia nosso nome também será esquecido, por que fazemos tanto esforço para acumular o que não podemos reter?

Pensei em quantas vezes uma notícia banal é capaz de estragar um dia inteiro. Um atraso no trânsito, uma conta inesperada, um objeto quebrado, um comentário desagradável. Vivemos cercados por pequenas urgências que se apresentam como se fossem definitivas.

A lembrança da morte tem um efeito restaurador: não diminui a vida, mas a reordena, devolvendo às coisas a medida que lhes cabe.

O risco na pintura continua existindo. As contas continuarão chegando. O trabalho continuará exigindo. Mas já não deveriam ocupar o centro do universo.

Há perdas maiores. Há alegrias maiores. Há pessoas que gostaríamos de ter abraçado mais uma vez e não podemos.

Quando a conversa retomou, o semblante do Lucas havia mudado: ainda estava aborrecido, mas já sem lhe parecer a coisa mais importante da tarde.

Às vezes basta uma mudança de perspectiva para recolocar o mundo nos trilhos.

Quando fui embora, o sol já descia atrás dos prédios. Caminhei até o carro pensando naquela terceira morte. Parecia assustadora à primeira vista. Mas talvez não seja.

Poucos de nós permanecerão nos livros de história. Dentro de alguns séculos, quase todos os nossos nomes terão desaparecido da memória humana.

Mesmo assim, alguma coisa de nós continua. Um gesto aprendido de um pai ou uma palavra de coragem dita na hora certa. Um exemplo silencioso que alguém repete sem sequer lembrar de onde veio.

Assim atravessamos a vida: ninguém consegue vencer o inexorável esquecimento que traz o tempo, mas há modos de deixar um pouco de si na vida dos outros.

E, pensando bem, isso é o suficiente.


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