por Giovanni Angius, em 29/7/2026.
Reconheço os moradores da minha rua antes de os ver passar. Pela cadência dos passos nas calçadas estreitas, pelos barulhos que carregam, pelo horário em que o portão bate. Miguel eu conheço assim há anos — pelo arrastar de tênis contra o paralelepípedo, sempre no mesmo compasso, como quem pisa um chão que já decorou de olhos fechados. Dezesseis anos, testa baixa, polegar colado à tela do celular mesmo quando cumprimenta alguém. Um garoto de quem todo o condomínio de casas sabe o nome, as gírias, o jeito de andar — e do qual, eu suspeitava, ninguém sabia praticamente nada.
Foi a dona Célia, da casa da frente, quem comentou como se espantava de vê-lo a manhã inteira sem tirar os olhos da tela, nem para o café, nem para dar um bom-dia. Eu mesmo via, de minha varanda, aquele polegar deslizando com uma precisão que não tinha nada de distração — parecia antes um ofício, um trabalho sério e sem pausa. Uma vez perguntei, à toa, se ele tinha visto o jogo do dia anterior. Ele me olhou como quem acorda de um lugar muito distante e só depois de alguns segundos respondeu:
— Sim, claro que sim. Todo mundo viu.
Não sei quando comecei a notar o padrão: o humor de Miguel parecia depender menos do mundo ao redor do que aquilo que acontecia na tela. Eu me perguntava se Miguel ainda existia quando a tela apagava.
Da rua, também se ouvia o vocabulário da sua turma, gritado de esquina a esquina nas tardes de calor:
— Não vacila.
— Cadê tu, vacilão?
Uma gramática que não perdoava hesitação, e da qual Miguel parecia dependente como de um remédio, e ausentar-se dali, eu imaginava, devia ser como sumir do mundo.
Veio a crise, sem aviso, no quarto escuro, logo após um dia de engajamento impecável. O peito espremeu o ar, o teto pareceu descer alguns centímetros. Miguel estava apavorado.
Eu só soube de segunda mão, pela empregada que trabalha na casa ao lado da dele. Disse que ouviu, de madrugada, um som estranho vindo do quarto de Miguel — como se faltasse ar a alguém. Não houve ambulância, nem alarde. Na manhã seguinte, ele desceu como sempre, tênis arrastando no mesmo compasso, e eu não teria notado nada se não soubesse.
Soube também que a escola o mandou à sala da orientação, e que de lá saiu uma pergunta que ele repetiu, sem querer, para um amigo na calçada, que por sua vez comentou com a mãe, que comentou com dona Célia:
— Quando ninguém está olhando, o que você tem vontade de fazer?
— Às vezes eu queria ficar quieto... desenhar, escrever umas coisas que não são para postar. Só para mim. — respondeu quase sussurrando.
Talvez o diálogo não tenha sido exatamente este. Histórias de vizinhança se desgastam de boca em boca, como pedra de rio. Mas alguma coisa parecida deve ter sido dita, porque depois disso, havia algo diferente no andar de Miguel — não mais leve, não mais feliz, apenas diferente, como quem carrega uma carga nova e ainda não se conhece o seu tamanho.
Uma noite, já bem tarde, olhando da minha janela para o beco entre as casas, vi seu quarto aceso e, por um instante, um caderno de capa preta aberto sobre a mesa. Hesitava diante dele com uma caneta na mão. Rabiscou qualquer coisa, mas logo em seguida o fechou.
Sei que houve uma festa, semana passada, para a qual todo o grupo dele foi convocado por mensagens — soube porque as mesmas frases ecoaram pela rua a noite inteira, um coro de celulares vibrando em bolsos de adolescentes impacientes na calçada. Soube também, pela mesma cadeia de meias-verdades que me traz tudo sobre o condomínio, que Miguel não saiu.
Não vi o que houve dentro do quarto dele. Ninguém viu. Só sei que, quando finalmente apaguei minha luz, a dele continuava acesa — não com a claridade azulada e fria de sempre, mas com um brilho mais baixo, amarelado, o de um abajur de mesa. Fiquei sem saber, e ainda não sei, se aquilo era alívio ou apenas outra forma de vertigem. Ou será que o caderno de capa preta estava aberto à sua frente?
Há chãos que só parecem firmes enquanto ninguém repara neles de perto.
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