O formulário estava ali havia três dias, dobrado ao meio, num canto da mesa da cozinha, entre o pote de açúcar e uma conta de luz já paga. Marta, minha vizinha de porta, passava por ele todas as manhãs enquanto esperava a água ferver, e todas as manhãs vinha decidindo que decidiria depois.
Ela me disse que eram três escolas, e precisava escolher uma para o filho. Já sabia de cor os prós e os contras de cada uma delas, como quem já conhece os remédios de uma doença crônica. A da esquina, onde o menino podia ir sozinho, mas onde as salas viviam cheias e a diretora trocava a cada ano. A particular do outro lado da cidade, com jardim, quadra coberta e uma mensalidade que exigiria cortar coisas que ela ainda não sabia quais eram. E a do meio-termo, com bolsa parcial, ônibus escolar às seis e quarenta, onde o professor de matemática era descrito pelos outros pais com aquele é “dedicado” que tanto pode significar competente quanto apenas cansado.
Dona Zuleide, vizinha do andar mais abaixo, do 302, achava que Marta estava complicando demais.
— Escolhe a que dá para pagar sem passar aperto, minha filha. O resto Deus ajeita.
Ela dizia isso como quem repete uma receita de bolo — sem examinar os ingredientes, confiante de que a mistura, no forno certo, sempre cresce. Para Zuleide, se as coisas aconteciam de um jeito e não de outro, era porque aquele jeito, no fim das contas, servia a alguma ordem maior que ela não precisava enxergar inteira para acreditar que existia. Um filho que perdeu o ônibus está, talvez, sendo poupado de um acidente três quarteirões à frente. Uma escola mais simples pode ensinar a um menino uma resistência que o playground mais amplo e bem cuidado jamais ensinaria. Zuleide vivia como se soubesse, no corpo, que o mundo, mesmo capenga, era o melhor arranjo possível dentro do que era possível arranjar.
Já Ricardo, o marido, via a coisa de um jeito bem diferente — embora nunca tivesse posto isso em palavras tão diretas. Para ele, as escolhas eram uma aposta feita às cegas contra uma casa que sempre ganhava. Não que ele fosse um homem amargo; só tinha visto gente demais fazer a “escolha certa” e ainda assim sofrer do mesmo jeito, só que mais tarde. O menino ia se machucar de qualquer forma, em qualquer escola — um joelho ralado aqui, uma humilhação ali, um professor injusto adiante —, porque era assim que a vida cuidava dos meninos, indiferente ao capricho dos pais que ainda acreditavam estar no controle. Escolher bem, para Ricardo, não evitava a dor; só trocava o nome dela.
— Não existe escola sem sofrimento, Marta. Existe só o sofrimento que a gente escolhe pagar antes.
Ela ouvia os dois — a vizinha e o marido — como quem ouve duas rádios sintonizadas em estações diferentes ao mesmo tempo, sem conseguir desligar nenhuma.
Ainda naquela semana, numa tarde, o menino chegou da rua com o cotovelo ralado, sangue seco misturado a terra, contando animado como tinha aprendido a descer de skate na rampa da praça com o Diego, um menino que ela nunca tinha visto antes e que, segundo o filho, “sabe de tudo”. Enquanto ele falava sem parar e ela limpava o ferimento, percebeu que o menino parecia muito mais interessado na próxima descida da rampa do que no sangue que ainda secava no braço.
Era só um arranhão. Mas era, também, exatamente o tipo de coisa que ela temia importar para dentro dos próximos anos, multiplicada por mil, se escolhesse a escola errada. Ou talvez fosse o contrário: talvez fosse a prova de que o menino ia se virar bem em qualquer lugar, e que ela estava gastando noites de sono com uma decisão que o mundo, de um jeito ou de outro, iria resolver sozinho.
À noite, ela me contou, sentou de novo à mesa da cozinha. A água do chá esfriava ao lado do formulário. Não sei dizer o que se passou naquelas duas horas — só sei o que ela me contou depois, meio de passagem, como quem não quer dar importância demais ao assunto: que ficou olhando as três caixinhas em branco até elas pararem de parecer uma escolha e virarem só três palavras impressas num papel.
Pegou a caneta. Não me contou se chegou a marcar alguma das três. Só que, quando o chá já estava de todo frio, dobrou o formulário outra vez e guardou na bolsa — pronto, segundo ela mesma disse, rindo um pouco, “resolvo amanhã, se der”.
Até agora não sei dizer qual foi sua escolha naquela noite: se a de Zuleide, e por um instante o mundo lhe pareceu arrumado o bastante para se confiar nele; ou a de Ricardo, e ela resolveu assinar assim mesmo, sabendo que não ia escapar da dor, só escolher qual parte dela pagar primeiro. As duas possibilidades cabiam igualmente naquele gesto de dobrar outra vez o papel.
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