Sabedoria quase revelada

 

por Giovanni Angius, em 24 de setembro de 2026.

Não fosse a iluminação artificial, a luz esmaecida da tarde nublada teria deixado o salão envidraçado da Cervejaria Três Santas, no Circuito Caravaggio, em completa penumbra. Era uma sexta-feira e o frio clima da montanha convidava à pausa e ao recolhimento. Mas a ansiedade humana insistia em correr.

Romeu ocupava a cabeceira. Seu Porsche estava no estacionamento. O relógio importado no pulso brilhava a cada movimento nervoso, alternando entre a tela do celular e uma planilha de investimentos. Estava exausto do dia corrido, mas tomado por uma euforia quase febril: acabara de arrematar uma cota em um empreendimento de alto padrão em Santa Teresa e falava com a voracidade de quem acredita que a vida é um placar a ser preenchido.

À sua frente, Tarcísio. Um velho professor aposentado, camisa de linho amarrotada e mangas arregaçadas. Tinha um olhar pesado, antigo, e bebia sua cerveja junto com uma dose de pinga com a calma insolente de quem não deve satisfações ao calendário. Viera arrastado por Romeu, seu antigo aluno na faculdade, que o procurara como quem busca uma consultoria rápida: queria entender por que, com a conta transbordando e a agenda cheia, sentia ao deitar uma vertigem oca, uma náusea que nenhuma aquisição aplacava.

Na ponta da mesa, eu, silencioso diante daquela conversa toda, o amigo comum entre eles. Observava o garçom recolher copos e o vaivém de turistas apressados em registrar vídeos brindando contra o fundo das montanhas, rindo alto para a câmera e silenciando no segundo seguinte para conferir notificações.

— O problema de vocês, intelectuais, é a inércia — disse Romeu, gesticulando com a caneca de cerveja artesanal. — O mundo anda rápido.

— Lembre-se, foi você que queria a minha opinião — disse Tarcísio, seco.

Romeu continuou, como se não tivesse ouvido a intervenção de Tarcísio:

— Eu construo, compro, garanto o futuro, viajo. Há um universo a ser construído. Como pode dizer que isso é uma corrida sem sentido? A vida é movimento, Tarcísio. Se parar, você morre.

Tarcísio não respondeu de imediato. Apoiou os cotovelos na mesa, as mãos grossas repousando sobre o tampo. Olhou para Romeu com uma ponta de escárnio, mas sem raiva — apenas a frieza de quem já viu o mesmo teatro se repetir muitas vezes.

— Você não quer comer o bolo, rapaz. Você quer a fome — murmurou o velho, voz rouca. — Corre porque o silêncio da sua sala apavora. Comprar tralhas, cercar-se de ruído, trocar de carro todo ano, inventar metas… para levá-lo aonde?

Romeu franziu a testa, desconfortável, apoiando o queixo nas mãos.

— Então me diga. Você que passou a vida lendo livros e ensinando a alunos desinteressados a sua filosofia. Já que sabe tanto sobre o desespero humano, qual seria a resposta? O que sobra se tirarmos o trabalho, a conquista e os prazeres?

O velho deu uma risada curta, seca, que quase se perdeu no vozerio indistinto do ambiente. Encarou o jovem empresário fixamente.

Como Sileno diante de Midas, Tarcísio respondeu:

— O melhor de tudo, meu caro, você já perdeu irrevogavelmente: não ter nascido. Não ter que sentir a carne doer, não carregar essa máquina de desejos que nunca se sacia, não passar a vida tecendo ilusões para disfarçar o nada. E o segundo melhor... bem, o segundo melhor é que tudo isso acaba logo.

A frase caiu na mesa como chumbo. Romeu interrompeu o caminho da bebida até a boca, o riso congelado nos lábios. Olhou em volta, como se procurasse cumplicidade, esperando que alguém risse daquele absurdo.

— Isso é loucura — rebateu Romeu, voz mais áspera, tentando recompor a postura de homem prático. — Isso é ressentimento de quem desistiu. Uma filosofia doentia. Se pensássemos assim, a humanidade nem teria saído das cavernas.

Foi então que me meti na conversa. Olhei para as montanhas lá fora, onde uma garoa fina começava a borrar o verde, depois pousei os olhos sobre os dois.

— Vocês dois estão olhando para a mesma coisa de lados opostos, e talvez por isso ambos pareçam tão desesperados — disse com a tranquilidade de quem compara pesos desiguais.

— Como assim?

— Romeu, você usa a aceleração como anestesia. Converteu a vida em vitrine, mas sabe que, no instante em que as luzes se apagam, o chão é frágil; tudo vai ficar por aqui quando você se for. Tarcísio tocou no seu nervo exposto, e você sabe disso.

Romeu baixou os olhos para o celular, que piscava com mais uma mensagem, mas não respondeu.

Continuei, virando para o velho.

— Mas você, Tarcísio, senta-se aí do alto do seu pessimismo como se a dor anulasse o mistério. Sua verdade tem o peso de uma laje, mas também é um esconderijo. Dizer que o melhor era o nada exime qualquer um do trabalho diário de dar sentido àquilo que, de fato, já começou. Nós estamos aqui, querendo ou não. Dizer a um homem que o melhor era ele não ter nascido não o salva da noite de hoje.

Tarcísio deu de ombros, bebericou mais um gole e olhou para o relógio em seu pulso, cujos ponteiros pareciam caminhar mais devagar do que deveriam.

— Pode ser — disse o velho, com indiferença. — Mas a pedra não chora quando rola ribanceira abaixo. O homem chora, e ainda acha que a queda é um acidente.

O silêncio instalou-se na mesa, contrastando com as risadas estridentes de um grupo na mesa vizinha, que levantava os copos para mais um brinde efêmero, comemorando algo que esqueceriam na manhã seguinte.

Romeu guardou o celular no bolso, subitamente desinteressado pelas notificações. Olhou para as próprias mãos, que tantas coisas haviam comprado, e depois fitou a paisagem das montanhas sob a chuva que engrossava.

Pedimos ao garçom mais uma rodada de cerveja. E outra pinga para Tarcísio.


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A viagem do conhecimento

 

por Giovanni Angius, em 23 de setembro de 2026.

Envelhecia; o vigor físico diminuía a cada dia. Sua mente, porém, estava mais ativa que nunca. Percebia com clareza as coisas ao seu redor, entendia mais rapidamente as entrelinhas, captava as expressões, as palavras não ditas, as intenções do olhar.

Seu círculo de relacionamentos, incluindo dois ou três amigos, era cada vez menor. Ou porque morriam, ou porque ficavam para trás, sem acompanhar.

Estava sozinho a passeio na Itália. Fora visitar uns parentes com quem ainda mantinha contato, e depois de alguns dias, os deixou, partindo para o Sul do país. Fazia aquela viagem cumprindo um roteiro que privilegiava as cidades menores, longe do deslumbramento turístico. Em cada uma delas permanecia dois, três dias. Às vezes, descobria alguma que não estava no roteiro e ali permanecia mais tempo, explorando ruas, vielas, templos e paisagens.

Aquela viagem era como um símbolo do ápice de sua vida intelectual. Um pensamento recorrente naquela solitária peregrinação de regresso a si mesmo era “Envelheço sempre aprendendo muitas coisas”, do sábio ateniense Sólon.

Enquanto a paisagem explodia em cores e luz, ele dava corpo ao seu projeto de escrever um livro, mais um em sua carreira, com o olhar de quem já acumulou chão suficiente para não ter pressa e consegue enxergar o que está por trás da pedra gasta, do vento quente e do murmúrio das praças. Ele voltava o seu olhar para as pessoas e seu cotidiano, para os objetos de uso banal, para os encontros nas ruas. 

Pacientemente, sentado em uma mesa na calçada, descrevia a sensação de estranheza e familiaridade simultâneas. O que havia naquela terra que fosse diferente de sua cidade? Basicamente nada, mas sua presença solitária aguçava a percepção de como a poeira daquelas ruelas ajudava a decifrar a postura, as manias ou os silêncios de quem ali vivia: o senhor que passa duas horas observando o nada num banco de pedra; a conversa indistinta em dialeto que chega pela janela aberta; as roupas penduradas entre becos estreitos como bandeiras de uma rotina persistente; o contraste entre a juventude que emigra e a velhice que guarda as cidades.

Em seu projeto, o livro seria destinado a decifrar a herança dos traços de caráter, hábitos cotidianos e maneiras de ver o mundo, refletindo e explicitando de onde vinha o homem que ele se tornara. Serviria também como um manifesto da maturidade contemplativa, da dignidade do trabalho simples, do peso de uma palavra honrada, do valor da pausa e da coragem de encarar a própria finitude sem amargura. Além disso, um testamento ético e afetivo em forma de crônicas.

Certo dia, em sua jornada, conheceu Ravello, na Costa Amalfitana, e se encantou. Deixou-se ficar naquela cidade que silencia quando as excursões descem a montanha em direção a Amalfi, deixando para trás o eco dos passos apressados e o falatório geral.

Ali, percebeu que Ravello é um lugar vertical, de pedra cinzenta e esforço físico contínuo. Enquanto o litoral lá embaixo vive da pesca, do porto e da agitação do mar, Ravello se mostrou uma sentinela camponesa, virada tanto para a montanha quanto para o abismo. Viver ali era como carregar o peso do terreno nas pernas: as compras da semana que sobem degraus medievais que nenhum carro alcança, o carrinho de mão que transporta objetos para cima e para baixo, fazendo o trabalho que os motores não conseguem.

O ritmo íntimo da vila é medido pela terra e pelas estações. O nativo reconhece os seus pelas mãos manchadas na colheita dos limões nos socalcos — onde cada metro quadrado de solo fértil foi arrancado da rocha calcária ao longo de séculos por muros de pedra seca.

Através de contatos do pessoal onde estava hospedado, conheceu alguns moradores mais antigos, e constatou que suas conversas à mesa — quase sempre acompanhadas por um delicioso e rústico vinho tinto da encosta e pelo aroma de tomate seco, manjericão e feijão cozido em fogo brando —, giravam em torno do mar, uma presença discreta, quase um vizinho distante que se avista lá embaixo, mas com o qual mantinham certo respeito solene.

Via naquelas pessoas de vida simples a sabedoria de usufruir de cada momento, sem finalidade grandiosa, como se tudo se resumisse em apenas estar presente no dia, no instante.

Naquele dia, escreveu em seu notebook:

“A juventude corre contra o tempo acreditando que a sabedoria é uma conquista a ser alcançada no fim da subida. Ravello me ensinou o contrário: a sabedoria não está no cume, mas na familiaridade com os degraus.

Envelhecer não é estreitar os horizontes, mas limpar o campo de visão. Os passos pesam mais, os amigos rareiam, a terra exige seu tributo das pernas; no entanto, nunca vi o mundo com tanta nitidez. O mar continua lá embaixo, imenso e mudo, mas a vida real acontece aqui na pedra seca, nas mãos que guardam o cheiro áspero dos limões, no silêncio que sucede o alarido dos que apenas passam.

Amanhã de manhã, vou me sentar à mesa com Beppe, o dono da trattoria e, sem pressa, saborear o pão que a terra nos concedeu e aceitar que o sentido das coisas não está em decifrá-las com urgência, mas em suportar com elegância o peso da própria existência e a generosidade de apenas contemplar”.


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O último pedido

 

por Giovanni Angius, em 21/9/2026.

O calor das três da tarde descia pesado sobre o calçamento da Rua da Lama, em Jardim da Penha. Dentro do bar, o ventilador de teto girava com um zumbido cansado, cortando o ar empapado do mormaço e do cheiro de café passado com pastel de queijo.

Atrás do balcão de fórmica verde, Tião equilibrava a vida com uma precisão disciplinada, quase militar. Ninguém por ali sabia o sobrenome dele, nem de onde tinha vindo antes de fincar pé ali há quase vinte anos. Para a vizinhança — para os estudantes da Ufes que pediam cerveja fiado, para os aposentados da mesa de dominó da calçada e para o dono do bar —, ele não era um homem com noites em claro ou remorsos guardados no fundo da gaveta: ele era o Tião Garçom.

E Tião fazia questão absoluta de ser isso. Mais do que qualquer um.

Quando entrava alguém no bar, o corpo dele reagia antes mesmo do pensamento. Dava um passo mais rápido em direção à ponta do balcão. O pano de prato, engomado e surrado de tantas lavagens, voava do ombro para a mão esquerda num movimento calculado, limpando um círculo invisível sobre a mesa. A cabeça inclinava exatamente no ângulo da deferência cordata:

— Pois não, doutor. Saindo aquela gelada trincando. É pra já.

O tom era cantante, prestativo, afiado. Tião não atendia: ele encenava um garçom. Se a comanda atrasava na cozinha, ele não praguejava como gente de carne e osso; abria os braços numa mímica ensaiada de desculpas, sorria e dizia que “a casa pede um pouco de paciência”. Ele andava entre as mesas como se os pés corressem sobre trilhos já parafusados no chão de caquinhos vermelhos.

Tudo nele era função. Um copo vazio chamava a mão dele como o ímã chama a limalha de ferro. Tião parecia ter sido feito em série numa fábrica de boteco: sem passado para lamentar, sem futuro para temer, pronto para servir.

O problema começou em um dia comum, de pouco movimento.

Não tinha vento na rua. O dominó tinha acabado cedo por causa do sol forte, e só havia um cliente sentado no fundo, folheando A Tribuna, sem pressa. Tião estava de pé, encostado na estufa de salgados, com a bandeja redonda debaixo do braço.

Olhou para as mãos e percebeu um leve tremor. Depois olhou para a porta de ferro do bar, aberta para a calçada onde a luz do sol brilhava branca e cegante.

Ali, a poucos metros, passava o ônibus da linha 124 roncando em direção à praia. Pessoas cruzavam a rua carregando sacolas, adolescentes voltavam do Darwin, um sujeito de chinelo puxava conversa com o jornaleiro na esquina. O mundo lá fora estava escancarado, imenso, sem roteiro, sem dono para mandar bater o ponto e sem cliente para exigir cerveja no ponto.

Sentiu uma espécie de arrepio pela espinha, mesmo naquele mormaço.

Tião percebeu algo diferente: se quisesse, podia simplesmente largar aquela bandeja de inox no balcão. Podia desamarrar o avental encardido, jogar o pano por cima da estufa, virar as costas para o patrão e sair andando rumo à orla de Camburi sem olhar para trás. Ninguém no universo o impedia. Nenhuma corrente invisível o prendia àquela fórmica. O patrão ficaria atônito, claro; os velhos do dominó ficariam sem o tira-gosto; as contas do aluguel viriam no fim do mês. Mas eram consequências, não correntes.

Ele não era um garçom da mesma forma que o balcão era de madeira ou o copo americano era de vidro. O copo não podia escolher quebrar a si mesmo ou voar pela janela; ele, Tião, podia. Ele estava garçom porque escolhia assim.

A sensação foi bem esquisita: Uma vertigem, como um buraco abrindo debaixo do peito. A liberdade parecia uma onda no mar revolto que dá um caldo, derrubando o cara. Não ter desculpa doía. Não poder botar a culpa na sina, na falta de estudo ou na vida ingrata dava medo — um medo sem cara nem forma.

De repente, entrou Seu Osvaldo, morador antigo do prédio ao lado, arrastando as pernas e suando sob a camisa polo listrada:

— Tião, meu filho! Hoje o calor tá de matar. Pelo amor de Deus, me traz uma água com gás e duas pedras de gelo.

O som da voz bateu nos ouvidos de Tião como um bote salva-vidas atirado em mar aberto.

Num reflexo quase desesperado de socorro, Tião agarrou a bandeja com força, colou os cotovelos junto ao corpo e recompôs a máscara. Os olhos dele faiscaram com a rapidez usual, e a cabeça inclinou no ângulo exato:

— É pra já, Seu Osvaldo! Gelo com limãozinho ou só o gelo puro?


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O eco do silêncio

 

por Giovanni Angius, em 18 de setembro de 2026.

A expectativa do final de semana na empresa sempre tinha um ritmo diferente, embalada pelo som de fones de ouvido e o burburinho do café. Foi justamente ali, perto da máquina de espresso, que algumas palavras soltas começaram a circular — e a vida de Bento tomaria um rumo que ninguém naquela manhã poderia imaginar.

Bento estava com os olhos fundos, reflexo das noites mal dormidas por conta de um divórcio litigioso que parecia não ter fim. Desabafava com um colega de TI, quase num sussurro:

— Cara, precisei vender o carro e ainda pedir um adiantamento de bônus no RH. Essa situação com a minha ex está limpando a minha conta. Se eu não resolver já esse rombo, vou quebrar.

Mariana, da equipe de marketing, passou tuitando no celular. Pegou apenas os fragmentos: “adiantamento no RH”, “limpando a conta”, “rombo”. Logo depois, na mesa do almoço, ela disparou para uma amiga:

— Menina, babado. Acho que o Bento está com problemas financeiros sérios. Ouvi ele falando de dinheiro, de um rombo e de alguma coisa que conseguiu no RH.

Nas semanas seguintes, a história ganhou asas no telefone sem fio corporativo. Da mesa do marketing para o financeiro, o “dinheiro por fora” virou desvio de verba. Do financeiro para a gerência de operações, virou fraude no sistema para cobrir dívida de jogo.

O ápice do desastre aconteceu semanas depois, na festa da empresa. O diretor subiu ao palco, entusiasmado.

— E o prêmio de Desenvolvedor do Ano vai para... Bento Silva!

Bento, pego de surpresa, sorriu meio incrédulo. Caminhou até o palco sob aplausos protocolares, mas, conforme subia os degraus, percebeu que o clima na sala estava estranho. Olhares de soslaio, sorrisos de deboche. Quando pegou o microfone, um silêncio constrangedor tomou conta do salão.

Do fundo, um dos analistas mais novos, visivelmente alterado pelo espumante, gritou:

— Vai pagar o rombo do sistema com o bônus, Bento?!

Uma onda de risadinhas ecoou. O sangue de Bento sumiu do rosto. Ele olhou para os diretores na mesa principal; nenhum deles sorria. Olhavam para ele com desconfiança e decepção. Bento não conseguiu falar. Devolveu o microfone ao pedestal, desceu do palco e saiu pelos fundos, com o estômago revirado. Alguns dias depois, foi formalmente afastado do projeto internacional que disputava havia dois anos, sob a justificativa de “compliance interno”.

César, gerente de projetos e melhor amigo de Bento desde a faculdade, não engolia aquela história. No dia seguinte ao afastamento, ele encontrou Bento depois do expediente, encarando um copo de cerveja intocado.

— Eles estão me olhando como se eu fosse um criminoso, César — desabafou Bento, a voz embargada. — Minha carreira de dez anos acabou por causa de uma piada de bêbado que todo mundo aceitou como verdade.

— Eu conheço você, Bento. Sei o cara que você é — disse, firme. — Eu vou descobrir de onde saiu essa palhaçada.

Então, César começou a fazer perguntas para encontrar o fio da meada. No escritório, cada vez que alguém vinha comentar o assunto, ele aplicava o mesmo filtro que mudaria o rumo das coisas. Abordou o supervisor de TI no refeitório:

— Você está dizendo que o Bento fraudou o sistema. Você viu o relatório da auditoria? Viu o log de acessos dele? É uma informação puramente verdadeira ou você está só repetindo o que ouviu?

— Bem... o pessoal do financeiro comentou... — gaguejou o supervisor.

— Então você não sabe se é verdade — cortou César. — E me diz uma coisa: espalhar isso ajuda a equipe em quê? Qual é a utilidade de queimar o cara que passa as madrugadas corrigindo os bugs que a sua equipe deixa passar? E você acha que isso é justo com ele?

E assim fez: rastreando os boatos de orelha em orelha, ele chegou ao grupo de mensagens do marketing. O print inicial era claro: a mensagem de Mariana.

No final da tarde, César trancou a porta da sala de reuniões com ela lá dentro. Jogou os prints na mesa de vidro.

— Foi você, não foi?

— César, o que é isso? Eu não tive intenção nenhuma! — defendeu-se Mariana, o rosto ruborizando. — Foi só um comentário bobo no almoço, todo mundo aqui fala da vida de todo mundo…

— Um comentário bobo? — Bateu com a mão na mesa, a voz baixa, mas carregada de fúria. — O Bento perdeu o projeto de Nova York, Mariana. O cara está à base de remédio porque não consegue entrar no elevador sem ser encarado. Você inventou que ele roubou a empresa porque ouviu uma conversa pela metade no café! Você tem noção do que provocou? Um comentário irresponsável destruiu a reputação de um homem.

— Pelo amor de Deus, César, não fala com a diretoria... eu... eu posso falar com o RH, esclarecer que foi um mal-entendido... — ela começou a chorar, o desespero tomando conta.

— Com a diretoria eu resolvo depois. Agora, você vai levantar dessa cadeira, vai até a sala do Bento e vai olhar na cara dele.

Minutos depois, Mariana entrou na sala de Bento. Ela tremia. Bento continuava digitando, sem olhar para cima.

— Bento... — ela começou, a voz trêmula. — Eu vim te pedir desculpas. Fui eu que... eu entendi errado o que você falou no café sobre o adiantamento. Eu comentei com as meninas e virou essa bola de neve. Eu sinto muito, de verdade. Eu fui irresponsável.

Bento parou de digitar. Olhou para Mariana por longos segundos. O choro dela tinha o peso do desespero, motivado pelo remorso e pelo medo das consequências.

— Você destruiu minha honestidade por um capricho, Mariana — disse Bento, com uma calma que doeu mais do que um grito. — Suas desculpas resolvem a sua culpa, mas não limpam a minha mesa. Pode sair, por favor.

Mariana saiu, limpando as lágrimas.

No fim das apurações, a empresa preferiu abafar o caso para evitar um escândalo jurídico e proteger a imagem da marca. Mariana recebeu uma séria advertência formal, em segredo, mas nenhuma nota de retratação foi publicada. A verdade havia sido restabelecida apenas nos bastidores.

Naquela sexta-feira, Bento e César voltaram ao bar de esquina.

— O diretor me pediu desculpas hoje cedo em particular — contou Bento, girando o gelo no copo. — Disse que meu nome está limpo no sistema.

— É um recomeço, cara — disse César, tentando animá-lo.

— É... no papel — Bento suspirou, olhando para a rua movimentada. — Mas e o diretor que mudou de empresa mês passado levando essa história na cabeça? E o pessoal que ainda desvia o olhar quando eu passo no corredor? A Mariana pediu demissão e aprendeu a lição dela.

— E você?

— Dói muito, cara. Eu também não sei se ainda quero continuar na empresa. Estou estudando uma nova proposta.

César não rebateu. Apenas brindou em silêncio, desejando boa sorte ao amigo.


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A justa medida

 

por Giovanni Angius, em 17 de setembro de 2026.

Uma parábola aristotélica

Há muito tempo, na encosta pedregosa de Estagira, vivia Licas, um homem forte a quem a cidade confiava o ofício de oleiro. Licas passava as manhãs diante de blocos informes de barro cinzento, observando a matéria bruta que repousava fria sobre a bancada. Ele sabia que aquele barro continha, em potência, a ânfora que guardaria o azeite novo ou o cântaro destinado à água fresca da fonte; no entanto, enquanto suas mãos não entrassem em ação, nada daquilo existiria em ato.

O movimento de dar forma à argila nunca dependia apenas da vontade cega, mas daquilo que os antigos chamavam de causa final. Licas não moldava pelo simples capricho de girar o torno: o formato largo da boca de um vaso, a espessura de suas paredes e a firmeza de sua base eram ditados pelo propósito da peça. Se a ânfora não suportasse o peso do líquido ou se rompesse ao primeiro toque, faltaria a ela sua excelência própria, — a virtude de sua forma — e sua finalidade estaria perdida.

Certa tarde, seu jovem aprendiz, Calias, quebrou a borda de uma terrina ao aplicar força desmedida no barro em movimento. Impaciente e exasperado, o rapaz empurrou o torno com os pés e gritou que a argila zombava de sua dedicação.

— Não confunda ímpeto com coragem, nem desânimo com paciência — disse Licas, limpando o pó das mãos em seu avental de linho. — A virtude não se esconde nos extremos. O homem que ataca o barro com fúria estilhaça a peça antes que ela nasça; aquele que o toca com covardia e hesitação jamais o arranca de sua inércia. A justa medida é uma escolha constante, talhada pelo hábito.

— Então como devo fazer?

— Você deve tocar o barro com cuidado e firmeza.

— E como saberei o quanto é suficiente?

Licas sorriu.

— Eis a parte difícil. Se houvesse uma medida gravada na bancada, qualquer homem poderia ser oleiro.

Calias olhou para as próprias mãos, ainda cobertas de barro.

— Às vezes parece que quanto mais força faço, pior fica.

— Porque você está tentando obrigar a matéria a obedecer antes de compreender o que ela pode se tornar.

— E como se compreende isso?

— Observando. Tentando. Errando. Recomeçando. Depois de algum tempo, suas mãos saberão o que sua cabeça ainda precisa pensar.

O rapaz voltou os olhos para o pedaço de terrina quebrado.

— Então o senhor também já estragou muitas peças?

— Mais do que gostaria de admitir.

Calias riu, iluminado pela luz oblíqua do sol da tarde.

— E nunca teve vontade de desistir?

— Muitas vezes. Só não confunda a vontade de desistir com a decisão de desistir. Uma vem e vai. A outra depende de você.

O rapaz permaneceu em silêncio por alguns instantes, fitando o barro destruído.

— Mestre, se fazemos tudo isso para trabalhar bem, para aprender e para nos aperfeiçoar, onde fica a felicidade? — perguntou. — Ela está no fim do trabalho? No dia em que já não precisarmos mais nos esforçar?

Licas fez uma pausa. Levantou o olhar para o horizonte, onde o calor do dia começava a ceder, e só então respondeu, com voz serena:

— O descanso é alívio para o corpo cansado, não a finalidade da vida humana. A plenitude de um homem, sua eudaimonia, não é um estado inerte de repouso nem um prazer passageiro. Ela é uma atividade da alma que age conforme a melhor razão.

— Então a felicidade está em agir?

— Em agir bem.

— Mesmo quando é difícil?

— Sobretudo quando exige esforço.

Calias franziu a testa.

— E como alguém aprende a agir bem?

— Da mesma maneira que aprende qualquer ofício. Pela prática. Ninguém se torna justo apenas ouvindo falar de justiça. Nós nos tornamos justos praticando a justiça, assim como nos tornamos oleiros moldando o barro dia após dia.

— Então não basta saber o que é certo?

— Saber ajuda. Escolher é necessário. Praticar é o que transforma a escolha em caráter.

Calias ficou algum tempo em silêncio. Depois recolheu com as mãos o pedaço quebrado, uniu-o novamente à massa e colocou a roda a girar.

— E se eu errar outra vez?

Licas voltou ao seu lugar diante da bancada.

— Você vai errar.

— O senhor tem tanta certeza?

— Tenho. E, se trabalhar com atenção, errará de maneira diferente da próxima vez.

Calias sorriu e tornou a concentrar-se no barro.

O torno rangeu em cadência suave, encontrando, entre o excesso e a falta, o centro exato da forma. Seu gesto já não era impulso, mas ofício; menos ímpeto, mais hábito.


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Vida que segue

 

por Giovanni Angius, em 16/9/2026.

O vento nordeste trazia para a varanda da casa de praia o cheiro de sal e o som abafado das ondas. No grande quintal gramado de frente para o mar de Jacaraípe, a festa da família se espalhava em risadas, tilintar de copos e música ambiente. Tudo parecia acontecer em uma frequência diferente daquela em que Antenor se encontrava. Ele consultou o relógio do celular, retirou um comprimido da cartela e o engoliu com um gole de água.

Alice, que observava de longe os gestos comedidos do tio, aproximou-se com duas fatias de bolo em pratos de papel. Sentou-se na cadeira de vime ao lado dele.

— Tio, nunca tinha ouvido você falar sobre esse problema. Você ficou muito reservado — disse ela, a voz mansa, mas carregada daquela curiosidade clínica que começava a moldar sua postura como futura psiquiatra.

Antenor olhou para o horizonte, onde o mar de Jacaraípe encontrava o céu escurecido pelo cair da noite.

— Você tem razão. Foi um processo muito doído. O sofrimento é muito grande, mas não vale a pena ficar se lamentando.

Ali, entre o barulho dos parentes e o isolamento que a doença costuma impor, Antenor começou a desatar os nós de um silêncio de três anos. Em um tom mais baixo, quase uma confidência, falou da surpresa do PSA alterado, da frieza do resultado da biópsia, do peso da palavra prostatectomia radical e do cansaço das sessões de radioterapia. Hoje, o PSA estava zerado, monitorado rigorosamente a cada quatro meses. Mas o corpo carrega marcas que o laboratório não quantifica.

Conforme a conversa se aprofundava, Alice conduziu o diálogo para além das funções biológicas. Perguntou como ele tinha lidado com o medo da finitude, com o silêncio do quarto de hospital e com sua relação com o espiritual.

Antenor hesitou. Ele nunca foi homem de frequentar igrejas ou de recitar orações. Revelou à sobrinha que no período mais difícil da doença sentiu algo. Não um Deus como uma pessoa, de barba branca, sentado em um trono pronto para barganhar milagres em troca de rezas e promessas. Para Antenor, Deus era outra coisa, uma espécie de energia vasta, uma corrente invisível que costurava todo o universo e que, de alguma forma, também habitava dentro dele. Mas também não tinha certeza disso.

— Eu não sabia o que fazer com isso, Alice — confessou ele, as mãos calosas cruzadas sobre o joelho. — Eu não tinha uma definição. Como eu ia pedir ajuda para algo que eu nem sabia explicar? Então, não pedi nada. Passei por tudo sem rezar, porque simplesmente não sabia como pedir.

Alice sorriu discretamente. Por um instante, deixou de pensar como estudante de psiquiatria e ouviu o tio apenas como sobrinha.

— Tio, o seu silêncio não mudou nada para essa energia — disse ela, inclinando-se para frente. — Seja lá o que for, chamado ou não chamado, Deus estará presente.

Antenor franziu a testa, tentando entender aquelas palavras.

— Chamado ou não chamado? — repetiu.

— Sim. Essa força que você chama de energia, ou de Deus, ou que seja o seu próprio inconsciente, não depende da nossa autorização ou da nossa capacidade de formular uma prece para agir.

— Como assim?

— Provavelmente você achou que estava sozinho porque não sabia como chamar aquilo. Mas, mesmo sem nome, alguma coisa continuou te sustentando. Pode chamar de Deus, de energia… não importa.

Antenor permaneceu em silêncio por alguns instantes. O som do mar parecia agora mais nítido. Ele não teve uma epifania mística, não sentiu arrepios e nem experimentou um milagre redentor que apagaria as sequelas ou a angústia dos exames periódicos que ainda viriam. O câncer continuava fazendo parte de sua biografia, e o medo residual da recidiva ainda morava em algum canto de seu peito.

No entanto, algo mudou na engrenagem de seus pensamentos, amenizando a sensação de isolamento. Ainda não sabia se sua incapacidade de rezar o havia deixado à margem de alguma coisa. Também não tinha certeza de que aquela energia, talvez parte dele, dispensasse um vocabulário religioso. Mas a dúvida já não lhe parecia tão solitária.

Dona Dirce apareceu na porta da varanda, avisando que o carro já estava pronto e que era hora de voltar para casa. Os parentes começaram a se despedir, recolhendo bolsas e sacolas.

Alice levantou-se e estendeu a mão para o tio, ajudando-o a se erguer da cadeira de vime. Diante do portão da casa de praia, sob a luz fria do poste e o sopro constante do vento de Jacaraípe, os dois se olharam. Antenor não disse nenhuma palavra de agradecimento, mas seus olhos expressavam uma gratidão profunda.

Ele puxou a sobrinha para um abraço terno, apertado e demorado. Separaram-se com um aceno mútuo.

Antenor acomodou-se no carro e ajustou o cinto de segurança enquanto Dirce ligava o motor. O cansaço ainda pesava nos ombros. Olhou para a estrada à frente e murmurou:

— Vida que segue.


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A busca e a posse

 

por Giovanni Angius, em 15/9/2026.

Houve um tempo em que eu investia o meu tempo com visitas aos guichês de selos comemorativos nas agências dos Correios. Nos anos 1980, colecionar selos postais não era um passatempo estático; naquela época, não havia Internet; era uma atividade intensamente viva, ritualística e analógica.

Eu passava horas vendo, revendo e organizando os classificadores. Frequentava encontros de filatelia, trocando peças e impressões com outros entusiastas. No balcão dos Correios, os funcionários já me conheciam pelo nome. Conversávamos sobre lançamentos e desenterrávamos histórias de carimbos raros. Cada novo selo trazia o gosto indizível de uma conquista. Cada peça tinha uma aura, uma importância ímpar e uma narrativa própria.

Até que o destino fez cruzar o meu caminho com o de Seu Hélio.

Eu já tinha ouvido falar da sua coleção, uma beleza de acervo, daquelas de fazer os olhos de qualquer filatelista brilharem. Era uma coleção vasta, composta de selos nacionais e estrangeiros, e bem organizada. O que eu não sabia ainda era que ele havia enjoado de guardar coisas.

Quando conheci o Seu Hélio pessoalmente, ele me recebeu em casa com a tranquilidade de quem já havia tomado uma decisão. A coleção estava distribuída em classificadores, caixas e envelopes, mas havia ordem naquele aparente excesso. Ele sabia onde cada coisa estava.

— Então você é o rapaz dos selos? — perguntou, sorrindo.

— Sou eu. Disseram-me que o senhor tem uma coleção muito bonita.

— Bonita e trabalhosa — respondeu. — A gente começa querendo guardar alguns selos e, quando percebe, já está guardando o mundo inteiro.

Ele abriu alguns dos classificadores sobre a mesa. Havia selos brasileiros e estrangeiros, séries completas, peças repetidas, envelopes, carimbos que eu só conhecia dos catálogos. Passei os olhos por aquilo tentando não demonstrar entusiasmo demais.

— O senhor está pensando em vender tudo? — perguntei.

— Tudo. Não quero separar. Se eu separar, vou acabar ficando com uma parte. E a minha intenção é parar.

— Parar de colecionar?

— De guardar coisas — corrigiu. — Estou com outra ideia agora.

Levantou-se, foi até um cômodo ao lado e voltou com uma folha de papel dobrada.

— Quero montar uma bancada de eletrônica. Um laboratório pequeno, aqui em casa. Nada profissional, mas com o necessário para fazer minhas experiências.

— O senhor não trabalha com eletricidade?

— Trabalho. Justamente por isso. Passei a vida mexendo nos equipamentos dos outros. Está na hora de mexer nos meus.

Abri a folha. Havia uma lista escrita à mão: multímetro, osciloscópio, central de solda, fonte de alimentação e outras miudezas que eu conhecia apenas de nome.

— O senhor quer dinheiro ou prefere os equipamentos?

— Os equipamentos. Dinheiro desaparece. Uma ferramenta fica.

— E o senhor entrega a coleção inteira?

Ele me olhou por alguns segundos, como se quisesse ter certeza de que eu havia entendido.

— A coleção inteira. Os classificadores, as caixas, os selos soltos, tudo.

— Seu Hélio, isso vale bem mais do que esses aparelhos.

— Para você, talvez. Para mim, agora, esses aparelhos valem mais.

Ainda tentei argumentar:

— O senhor não quer ao menos guardar algumas séries?

— Não. Se eu guardar algumas, continuarei colecionando por procuração. E já estou velho demais para começar outra coleção dentro da antiga.

A frase me fez rir, e ele também riu. Mas percebi que não havia hesitação em sua decisão.

Peguei a lista e fui até a Eletrônica Gorza, na Avenida Princesa Isabel, no Centro de Vitória. Voltei alguns dias depois com o material. O Seu Hélio conferiu item por item, examinando os aparelhos com a atenção de quem reconhece velhos companheiros.

— Está tudo aqui — disse ele.

— Está. E os selos?

— Estão ali. Só falta você levar.

Olhei para os classificadores empilhados. Naquele momento, aquilo me pareceu uma oportunidade extraordinária. Eu sairia dali com uma coleção muitas vezes maior do que a minha, e ele começaria a montar o laboratório que desejava.

— Então fechamos? — perguntei.

Seu Hélio estendeu a mão.

— Fechamos.

Apertei a mão dele. Naquele mesmo dia, fiz duas viagens entre o IBES, em Vila Velha, e Jardim da Penha, em Vitória, para transportar caixas e mais caixas de papelão no banco traseiro do meu Fusca 1982, bege Jamaica.

O carro rodava pesado, carregado de história alheia. E foi exatamente ali, naquele trajeto, que o feitiço começou a quebrar.

Quando descarreguei todo o material em casa, fui confrontado por uma nova e estranha realidade. Eu havia mais que quintuplicado o meu acervo num piscar de olhos, mas aqueles milhares de selos chegaram mudos. Não vinham com uma história de conquista minha, folha por folha, peça por peça. Não carregavam as minhas memórias. Eu não sabia por onde começar.

Era um material com valor sentimental e simbólico menor do que a pequena coleção que eu possuía antes. Na prática, ao tentar transformar uma paixão feita de espera, descoberta e conquista numa simples oportunidade de volume, eu havia retirado dela justamente o que a sustentava. O excesso sufocou o mistério. A busca havia terminado de forma artificial; acabei zerando o jogo por atacado.

Sem o valor interior atribuído, comecei a desanimar nas atividades de reclassificar tudo ao meu jeito. Era uma montanha imensa a ser superada. Não demorou muito para que todo aquele universo ficasse esquecido nas gavetas, nos classificadores e nos armários. Ao longo dos meses seguintes, o colecionador motivado que habitava em mim simplesmente desapareceu, sufocado pelo próprio tesouro. Com o tempo, o acervo começou a se dispersar de formas bem humanas. Andei doando algumas partes para outros colecionadores, devolvendo a eles a alegria da busca que eu havia perdido. Minha esposa, em certa ocasião, usou uma quantidade enorme de selos para fazer colagens em seus trabalhos artesanais; uma bela ironia que arrancou os papéis do limbo escuro das gavetas para lhes dar uma utilidade visual e artística na nossa casa.

Olhando para trás hoje, mais de quarenta anos depois, restam as perguntas inevitáveis sobre aquela virada de chave na minha juventude. Guardaria eu algum remorso por ter comprado a coleção do Seu Hélio? Nenhum. Não sinto um pingo de arrependimento, porque compreendo que tudo isso faz parte da minha própria história. Foi o processo natural de um amadurecimento, a descoberta prática de que o ser humano muitas vezes deseja mais a busca do que a própria posse.


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Uma mesa para dois

 

por Giovanni Angius, em 14/9/2026.

Antônio Roque é engenheiro eletricista. Passa os dias imerso em diagramas de redes inteligentes e algoritmos de automação predial em seu escritório na Praia do Canto. Ganha a vida ensinando máquinas a funcionarem sozinhas para que os humanos não precisem trabalhar. Em um certo dia abafado de setembro, enquanto ajustava os parâmetros de um sistema de inteligência artificial generativa em seu tablet, foi assaltado pelo vazio.

A IA gerava códigos perfeitos a uma velocidade sobre-humana. Olhando para a tela, Antônio sentiu que sua própria mente se tornara obsoleta, um circuito redundante. As notificações do celular vibravam com curtidas, e-mails de trabalho e lembretes de saúde, mas tudo soava como ruído de fundo. Uma apatia cinzenta e pesada se instalou. Era o tédio, repaginado pelo excesso de telas.

Joana, sua namorada de vários anos, é microempresária prática e enérgica. Comanda uma loja de e-commerce que vende bugigangas eletrônicas importadas — de luminárias inteligentes a mini-caixas de som à prova d'água. Não tem tempo para crises existenciais. Diariamente, gerencia estoques, responde clientes pelo aplicativo e lida com a logística dos Correios. É a lucidez em pessoa.

No sábado pela manhã, desceram de seu apartamento, na Cidade Alta, para uma caminhada no Parque Moscoso. Foi quando o tédio de Antônio atingiu o seu ápice físico. Caminhavam sob a sombra das árvores centenárias, fugindo do calor. Enquanto Joana checava as métricas de vendas do dia no celular, Antônio travou diante do lago.

Olhou para as pequenas pontes de concreto, os peixes ornamentais e, finalmente, para a imensa raiz de uma árvore. O mundo digital e asséptico em que trabalha desabou.

— Olha para isso, Joana — disse Antônio, a voz arrastada, apontando para a raiz coberta de lodo. — Toda essa tecnologia que eu projeto... os seus aparelhos que as pessoas compram para acender a luz com a voz... Nada disso encobre o fato de que as coisas simplesmente estão aí. Essa raiz não precisa de um algoritmo. Ela é bruta, excessiva, pesada. E nós inventamos telas para não olhar para esse vazio.

Joana guardou o celular na bolsa, olhou para a raiz e depois nos olhos de Antônio com atenção. Não desdenhou.

— Antônio, a raiz está aí desde antes do wi-fi existir — respondeu, calma e firme. — Você está entediado porque acha que a tecnologia deveria dar um propósito para a sua vida, ou que a IA tirou o seu valor. Mas as máquinas só processam dados. Quem dá o sentido, ou a falta dele, é você. O vazio sempre esteve aí. A diferença é que agora você tem uma tela de 120Hz refletindo ele de volta para você.

Antônio permaneceu pensativo. O lago parecia mais denso, como se a água tivesse consciência de sua própria existência gratuita. As folhas das árvores não eram verdes; eram simplesmente folhas, insistindo em ser folhas. Ele sentiu uma náusea subir, não pelo cheiro do lodo, mas pela evidência crua de que nada ali precisava dele para existir. Retornaram silenciosos para casa.

No final da tarde, cruzaram a Terceira Ponte em direção a Vila Velha. Foram dar uma volta na orla da Praia de Itaparica, e mais tarde, jantar no Caranguejo do Assis. O vento do mar batia forte, e os prédios novos e espelhados refletiam os últimos raios de sol. Caminharam pelo calçadão, observando o vaivém de pessoas com fones de ouvido sem fio, relógios inteligentes contando passos e influenciadores gravando vídeos para as redes sociais.

Antônio sentiu um cansaço infinito: o tédio disfarçado de hiperconectividade. As pessoas corriam, mas pareciam fugitivas de si mesmas.

— É uma comédia de aparências, Joana — desabafou Antônio, parando um instante. O mar arrebentando barulhento na areia. — Olhe para as pessoas. Todos conectados, todos consumindo os produtos que você vende, todos automatizados pelos sistemas que eu crio. Mas se a rede cair por uma hora, ninguém sabe quem é. Nós nos tornamos extensões dos nossos aparelhos. Eu sinto que não escolho nada. O tédio me consome porque a vida virou um feed infinito que eu não consigo rolar para cima.

Joana sentou-se em um banco, olhando para o horizonte do mar de Itaparica, onde os navios esperavam para entrar no porto.

— Você está sendo dramático e injusto, senhor Antônio Roque — disse ela, enfatizando o senhor e usando o nome completo como faz quando fala sério. — Meus clientes não compram bugigangas porque são robôs alienados. Eles compram porque a vida é dura, a rotina é cansativa, e uma lâmpada que muda de cor traz um pequeno momento de conforto no fim do dia. A tecnologia não é um monstro que nos esvaziou. Ela só tornou o nosso vazio mais rápido.

Ela segurou a mão dele, fria pelo vento do mar, e o fez sentar-se ao seu lado.

— Você quer que o seu trabalho como engenheiro ou que a sociedade moderna te deem uma resposta definitiva para a existência. Isso não vai acontecer. Eu sei que o meu negócio vende ilusões descartáveis, mas é o meu trabalho, é como eu me movo no mundo. A lucidez é saber que o mundo não oferece uma resposta pronta e, ainda assim, escolher caminhar na praia comigo.

Ali, diante do mar, não houve uma música salvadora, nem uma revelação mística.

O sol se pôs e as luzes da orla de Itaparica se acenderam automaticamente — um sistema que o próprio Antônio poderia ter desenhado.

Antônio olhou para o mar escuro e depois para o celular no bolso, que vibrava discretamente, e pensou que o tédio que sentia não era um defeito do mundo moderno, nem falha da inteligência artificial. Talvez uma condição de liberdade das pessoas, envelopada em fibra óptica nos dias atuais.

Não tomou decisões radicais nem abandonou a engenharia. Não houve uma mudança mágica. Em vez disso, ocorreu uma espécie de aceitação.

Antônio respirou fundo o ar de maresia, sentiu o peso do próprio corpo na areia e aceitou o vazio. Na segunda-feira, continuaria a programar suas máquinas, mas agora sem a ilusão de que elas salvariam sua alma. A angústia continuou, mas a presença lúcida de Joana ao seu lado tornava o peso da existência perfeitamente suportável.

Tirou o celular do bolso, não para fugir do tédio, mas para reservar uma mesa para dois.

A moqueca de robalo do Assis é sempre uma delícia.


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