por Giovanni Angius, em 24 de setembro de 2026.
Não fosse a iluminação artificial, a luz esmaecida da tarde nublada teria deixado o salão envidraçado da Cervejaria Três Santas, no Circuito Caravaggio, em completa penumbra. Era uma sexta-feira e o frio clima da montanha convidava à pausa e ao recolhimento. Mas a ansiedade humana insistia em correr.
Romeu ocupava a cabeceira. Seu Porsche estava no estacionamento. O relógio importado no pulso brilhava a cada movimento nervoso, alternando entre a tela do celular e uma planilha de investimentos. Estava exausto do dia corrido, mas tomado por uma euforia quase febril: acabara de arrematar uma cota em um empreendimento de alto padrão em Santa Teresa e falava com a voracidade de quem acredita que a vida é um placar a ser preenchido.
À sua frente, Tarcísio. Um velho professor aposentado, camisa de linho amarrotada e mangas arregaçadas. Tinha um olhar pesado, antigo, e bebia sua cerveja junto com uma dose de pinga com a calma insolente de quem não deve satisfações ao calendário. Viera arrastado por Romeu, seu antigo aluno na faculdade, que o procurara como quem busca uma consultoria rápida: queria entender por que, com a conta transbordando e a agenda cheia, sentia ao deitar uma vertigem oca, uma náusea que nenhuma aquisição aplacava.
Na ponta da mesa, eu, silencioso diante daquela conversa toda, o amigo comum entre eles. Observava o garçom recolher copos e o vaivém de turistas apressados em registrar vídeos brindando contra o fundo das montanhas, rindo alto para a câmera e silenciando no segundo seguinte para conferir notificações.
— O problema de vocês, intelectuais, é a inércia — disse Romeu, gesticulando com a caneca de cerveja artesanal. — O mundo anda rápido.
— Lembre-se, foi você que queria a minha opinião — disse Tarcísio, seco.
Romeu continuou, como se não tivesse ouvido a intervenção de Tarcísio:
— Eu construo, compro, garanto o futuro, viajo. Há um universo a ser construído. Como pode dizer que isso é uma corrida sem sentido? A vida é movimento, Tarcísio. Se parar, você morre.
Tarcísio não respondeu de imediato. Apoiou os cotovelos na mesa, as mãos grossas repousando sobre o tampo. Olhou para Romeu com uma ponta de escárnio, mas sem raiva — apenas a frieza de quem já viu o mesmo teatro se repetir muitas vezes.
— Você não quer comer o bolo, rapaz. Você quer a fome — murmurou o velho, voz rouca. — Corre porque o silêncio da sua sala apavora. Comprar tralhas, cercar-se de ruído, trocar de carro todo ano, inventar metas… para levá-lo aonde?
Romeu franziu a testa, desconfortável, apoiando o queixo nas mãos.
— Então me diga. Você que passou a vida lendo livros e ensinando a alunos desinteressados a sua filosofia. Já que sabe tanto sobre o desespero humano, qual seria a resposta? O que sobra se tirarmos o trabalho, a conquista e os prazeres?
O velho deu uma risada curta, seca, que quase se perdeu no vozerio indistinto do ambiente. Encarou o jovem empresário fixamente.
Como Sileno diante de Midas, Tarcísio respondeu:
— O melhor de tudo, meu caro, você já perdeu irrevogavelmente: não ter nascido. Não ter que sentir a carne doer, não carregar essa máquina de desejos que nunca se sacia, não passar a vida tecendo ilusões para disfarçar o nada. E o segundo melhor... bem, o segundo melhor é que tudo isso acaba logo.
A frase caiu na mesa como chumbo. Romeu interrompeu o caminho da bebida até a boca, o riso congelado nos lábios. Olhou em volta, como se procurasse cumplicidade, esperando que alguém risse daquele absurdo.
— Isso é loucura — rebateu Romeu, voz mais áspera, tentando recompor a postura de homem prático. — Isso é ressentimento de quem desistiu. Uma filosofia doentia. Se pensássemos assim, a humanidade nem teria saído das cavernas.
Foi então que me meti na conversa. Olhei para as montanhas lá fora, onde uma garoa fina começava a borrar o verde, depois pousei os olhos sobre os dois.
— Vocês dois estão olhando para a mesma coisa de lados opostos, e talvez por isso ambos pareçam tão desesperados — disse com a tranquilidade de quem compara pesos desiguais.
— Como assim?
— Romeu, você usa a aceleração como anestesia. Converteu a vida em vitrine, mas sabe que, no instante em que as luzes se apagam, o chão é frágil; tudo vai ficar por aqui quando você se for. Tarcísio tocou no seu nervo exposto, e você sabe disso.
Romeu baixou os olhos para o celular, que piscava com mais uma mensagem, mas não respondeu.
Continuei, virando para o velho.
— Mas você, Tarcísio, senta-se aí do alto do seu pessimismo como se a dor anulasse o mistério. Sua verdade tem o peso de uma laje, mas também é um esconderijo. Dizer que o melhor era o nada exime qualquer um do trabalho diário de dar sentido àquilo que, de fato, já começou. Nós estamos aqui, querendo ou não. Dizer a um homem que o melhor era ele não ter nascido não o salva da noite de hoje.
Tarcísio deu de ombros, bebericou mais um gole e olhou para o relógio em seu pulso, cujos ponteiros pareciam caminhar mais devagar do que deveriam.
— Pode ser — disse o velho, com indiferença. — Mas a pedra não chora quando rola ribanceira abaixo. O homem chora, e ainda acha que a queda é um acidente.
O silêncio instalou-se na mesa, contrastando com as risadas estridentes de um grupo na mesa vizinha, que levantava os copos para mais um brinde efêmero, comemorando algo que esqueceriam na manhã seguinte.
Romeu guardou o celular no bolso, subitamente desinteressado pelas notificações. Olhou para as próprias mãos, que tantas coisas haviam comprado, e depois fitou a paisagem das montanhas sob a chuva que engrossava.
Pedimos ao garçom mais uma rodada de cerveja. E outra pinga para Tarcísio.