por Giovanni Angius, em 30/7/2026.
Dona Ester segurava a folha da revista pela ponta dos dedos, o papel oscilando no mesmo ritmo frágil da cortina da cozinha sob o vento da manhã. Óculos na ponta do nariz, testa vincada por dois sulcos verticais profundos.
“Este mês será marcado pela criatividade, comunicação e transformações importantes.”
Tirou os olhos do papel e encarou a vidraça. Lá fora, o mundo não parecia muito preocupado com transformações alinhadas pelas estrelas, mas na sala ao lado o caos era bem terreno: várias caixas de papelão abertas, o véu pendurado no espelho do corredor, e o telefone que não parava de tocar com a voz sobressaltada do responsável pelo buffet avisando que faltavam garçons para o sábado. A filha se casaria em sete dias.
Suspirou. Voltou à página amarelada e leu o rodapé em letras miúdas: “Lembre-se: a intensidade dessas energias depende da forma como interagem com o Mapa Astral de cada indivíduo.”
— Ah, sim... — murmurou para a xícara de café à sua frente. — Vai depender de como eu arrumar essa confusão.
Do outro lado do muro, Teresa, amiga de tantos anos que já nem se contavam mais, tinha a mesma revista aberta na mesma página, naquela mesma semana, as mesmas “transformações importantes”. Só que para ela aquilo não era buffet nem véu: era um exame crítico que o médico pedira, marcado justamente para aquela semana. Duas vizinhas, duas urgências completamente distintas, e a mesma frase servindo a ambas.
A tensão nos ombros de Dona Ester cedeu um milímetro. Como uma nuvem rápida que dá passagem ao sol, a testa desfranziu.
Eu olhava a cena de canto de olho, com o meu habitual ceticismo de estimação. É fácil, para quem está de fora, acusar o horóscopo de ingenuidade ou atalho lógico. Mas a verdade é que o cérebro humano tem horror ao vácuo e ao imponderável. Diante de um buffet atrasado, de uma filha que sai de casa ou da vida que corre rápido demais, a razão pura é um consolo muito frio.
O que o horóscopo vende não é astronomia; é um espelho sob medida. Suas frases são deliberadamente amplas, como roupas de tamanho único nas quais cada um acomoda a própria dor ou esperança. Dizer que o dia está difícil porque Mercúrio resolveu andar para trás não deixa de ser uma forma elegante de tirar a culpa do acaso e devolver uma ilusão de ordem ao universo. Não buscamos a verdade empírica na página do jornal; buscamos apenas a garantia de que o caos tem um roteiro.
A semana devorou os dias sem pedir licença. Chegou o sábado, o sim, o brinde, o bolo que afinal apareceu a tempo, os aplausos e os abraços apertados. A festa foi impecável.
No domingo, o silêncio da casa parecia maior do que a própria sala. Sobrou apenas o cheiro de flores murchas na jarra e a ressaca mansa do dever cumprido. O novel casal estava a caminho da lua de mel, já no aeroporto.
Dona Ester finalizou a arrumação da cozinha depois do café da manhã e sentou-se na poltrona da sala. Pegou a revista da semana anterior para jogá-la fora, não sem antes dar uma passada de olhos, relendo a previsão da semana do casamento.
— Viu só? — disse baixinho, satisfeita — disse que ia ter transformação.
Mas não se perguntou o que, naquela semana, não poderia ser chamado de transformação.
De repente, deu um estalo com a língua:
— Meu Pai do céu... preciso olhar a revista nova para ver como vai ser a vida daqueles dois agora!
Sorri em silêncio. E assim seguimos todos nós: uns com a régua da lógica, outros com o mapa do zodíaco, mas todos, sem exceção, tentando encontrar no céu uma desculpa bonita para a bagunça que é viver.
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