O véu sobre a avenida


 Outro dia, parei alguns minutos diante do semáforo na Avenida Central, em Laranjeiras. O sinal demorava mais do que o costume e eu acabei observando a travessia: dezenas de pessoas cruzando a avenida em todas as direções. Havia quem apressasse o passo, quem consultasse o celular como se procurasse uma confirmação, uma senhora com duas sacolas que puxavam o corpo para baixo, um rapaz que falava alto com alguém invisível no fone, e uma criança que teimava em pular sobre as faixas brancas. Ninguém conhecia ninguém. Pelo menos parecia assim.

Fiquei imaginando para onde todos iam com tanta pressa. Trabalho, faculdade, banco, supermercado, consulta médica — compromissos que se repetem como estações de uma viagem. Cada um carregava seus projetos: um queria comprar um carro; outro, a casa própria; alguém contava os dias para as férias; outro desejava só chegar ao fim do mês sem sustos. Vi, em pequenos gestos, leituras e contas, a mesma arquitetura de vida se desenhando.

Lembrei então de duas pessoas que nunca conheci de verdade: Cláudio e Luciana. Ele em Vitória, ela em Cariacica; rotinas paralelas que não se cruzaram por anos. Cláudio acordava cedo, estudava quando dava, trabalhava e sonhava melhorar a vida dos pais. Luciana economizava, fazia contas, planejava uma família e algum sossego. Se lhe perguntassem o que buscavam, diriam coisas diferentes; no fundo, procuravam a mesma coisa: a sensação de que, depois da próxima conquista, enfim poderiam descansar.

O curioso é que esse descanso não chegava. Cada meta gerava outra — diploma, emprego melhor, carro, casa, reforma — e a chegada de uma apenas anunciava o próximo desejo. Luciana sentia alegria ao realizar algo, mas a alegria era breve; logo um novo espaço se abria dentro dela, pronto para ser preenchido. Talvez seja assim com todos. Vivemos acreditando numa linha de chegada escondida, convencidos de que falta apenas mais um passo. Só que o “mais um” parece nunca terminar.

Alguém já disse, no passado, que a vida oscila entre a dor de desejar e o vazio de quem conseguiu o desejo. Às vezes penso: e se não houver linha de chegada? A cena diante do semáforo me oferece uma resposta modesta. A cidade inteira parece impulsionada por uma corrente invisível: vitrines mudam de coleção, celulares trocam de modelo, prédios crescem, anúncios prometem uma existência melhor. E nós, apressados, seguimos.

Olhei de novo para os transeuntes. Os rostos guardavam uma história única; ao mesmo tempo, havia algo que os alinhava. Era como se um mesmo impulso vestisse mil rostos diferentes. Foi aí que me veio a imagem do Véu de Maya: não como um objeto místico, mas como uma cortina fina que nos faz acreditar na separação. Por baixo dela, pode ser que compartilhemos a mesma inquietação, os mesmos medos e a mesma incapacidade de ficar satisfeitos por muito tempo. Na avenida, esse véu se manifesta no costume de evitar olhar nos olhos do outro, como se ver fosse reconhecer que o próximo desejo também é nosso.

Tempos depois, Cláudio e Luciana finalmente se conheceram numa festa de fim de ano. Conversaram e descobriram afinidades. Vieram filhos, contas maiores, noites mais curtas e alegrias que cresciam na mesma medida das responsabilidades. Alguns sonhos se realizaram; outros nasceram na esteira dos primeiros. Alguns adiados ou enterrados. A vida seguiu, alternando dias claros e dias pesados, como acontece em qualquer casa.

Volto de vez em quando ao cruzamento e observo. Não sei os nomes das pessoas que passam, nem elas o meu. Mesmo assim, tenho a sensação de que nos reconhecemos há muito tempo. Todos continuamos atravessando a mesma avenida, cada qual com seus desejos, sustentados pela mesma esperança de encontrar logo adiante aquilo que nos fará parar. E o sinal, como a própria vida, raramente permanece verde por muito tempo.


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