A equação incompleta

 

por Giovanni Angius, em 31/8/2026.

A sala de reuniões da diretoria tinha vista para as torres de destilação da planta petroquímica. O zumbido constante das turbinas lá fora parecia ditar o ritmo da respiração tensa dos presentes.

Clara, a diretora de operações, bateu de leve com a caneta na mesa de vidro. À esquerda dela, o Dr. Willian mantinha a postura impecável, os braços cruzados sobre o terno sob medida, o semblante de quem considerava aquela reunião uma interrupção incômoda em sua rotina científica. À direita, estava Roberto, o gerente operacional da pesquisa, com olheiras profundas e as mangas da camisa social dobradas até os cotovelos.

— Fomos claros no diagnóstico, Willian — disse Clara, com a voz calma. — Não estamos discutindo sua capacidade técnica. O seu currículo em Stanford e no MIT fala por si. O que estamos discutindo é que a nossa equipe parou de falar com você. E quando a engenharia para de falar com a coordenação, o projeto morre.

Willian descruzou os braços, inclinando-se para a frente. Um sorriso sutil, quase condescendente, surgiu em seus lábios.

— Clara, com todo o respeito, a equipe travou na fase de polimerização por meses. Se eles não conseguem acompanhar o estado da arte que estou propondo, o problema é a formação deles.

Roberto soltou uma risada seca, balançando a cabeça.

— Como é que é, Willian? A gente não está escrevendo um artigo para a Nature. A gente está tentando fazer o material passar por um reator de fluxo contínuo sem entupir a válvula de escape. A sua fórmula maravilhosa exige uma pressão que a nossa planta atual não suporta. Eu tentei te mostrar os relatórios de fadiga dos materiais na terça-feira, mas você nem abriu o arquivo. Disse que o engenheiro de produção só sabe olhar para o curto prazo.

— Vocês se assustam com qualquer variável que saia do manual — retrucou Willian, elevando o tom. — A ciência exige disrupção.

— Chega — Clara interveio, a voz cortante como uma lâmina. — Deixem-me desenhar o cenário real para vocês dois. Enquanto nós discutimos egos aqui dentro, um consórcio na Ásia acabou de patentear uma variação desse mesmo polímero condutor. Se não entregarmos o nosso protótipo comercialmente viável nos próximos três meses, a empresa cancela a divisão de plásticos inteligentes. Roberto volta para o refino de polietileno padrão e você, Willian... bem, você será o coordenador de um projeto bilionário que faliu antes de sair da bancada. O mercado corporativo não é uma universidade com estabilidade de cátedra. Se o projeto afundar, seu nome afunda junto.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Willian piscou, o argumento de negócio batendo direto em sua linha de flutuação. Pela primeira vez em anos, ele sentiu um frio na espinha que nenhuma fórmula matemática conseguia resolver.

— Amanhã, às oito da manhã — concluiu Clara, levantando-se. — Quero os dois na sala de controle. E desta vez, Willian, você vai ouvir.

Na manhã seguinte, o laboratório de testes da planta piloto cheirava a ozônio e plástico aquecido. Roberto e três engenheiros da equipe original estavam reunidos ao redor de uma bancada repleta de telas com gráficos de pressão e amostras de polímeros que pareciam borracha retorcida e queimada.

Willian entrou devagar. Sem o terno, vestindo o jaleco padrão e os óculos de proteção da empresa, ele parecia menor, despido da armadura acadêmica.

— Bom dia — disse ele. O tom era visivelmente ensaiado, mas desprovido da arrogância habitual.

Roberto olhou para ele, surpreso com a pontualidade.

— Bom dia, Doutor. Estamos analisando o lote 42-G-2026. A sua rota de síntese para o plástico condutor funciona perfeitamente na escala de gramas. Mas quando injetamos o catalisador no reator de fluxo contínuo, a reação exotérmica é rápida demais. O material solidifica antes de homogeneizar. Veja o gráfico.

Willian aproximou-se. Ele olhou para a tela e, por instinto, começou a formular uma resposta teórica sobre a cinética dos elétrons na cadeia de carbono. Mas antes de falar, viu no rosto cansado de Roberto uma frustração que nenhum cálculo conseguia resolver.

— Deixe-me ver o histórico de temperatura dos últimos minutos antes da solidificação — pediu Willian, a voz mais baixa, despida de julgamento.

Um dos engenheiros da equipe, um jovem chamado Lucas, acostumado a ser interrompido, hesitou antes de clicar na tela. Ao ver que Willian realmente esperava que ele mostrasse os dados, Lucas apontou para uma linha vermelha que subia verticalmente.

— O pico acontece aqui, Doutor. O polímero cria uma crosta isolante nas paredes do reator. A teoria diz que a troca térmica devia ser uniforme, mas na prática, o fluido industrial é viscoso demais para as palhetas de agitação que usamos.

Willian viu uma amostra de plástico queimado na bancada. Passou os dedos enluvados pela textura rugosa.

— Eu errei na taxa de cisalhamento — admitiu Willian, em voz alta. O ambiente na sala pareceu desanuviar instantaneamente com a confissão. — Eu calculei o modelo para um fluido ideal. Vocês têm razão. O tamanho da cadeia molecular que propus está gerando atrito excessivo na escala macro.

Roberto cruzou os braços, mas desta vez com um leve sorriso de aprovação.

— E se nós fracionarmos a adição do catalisador em três etapas, Willian? Diminuímos a velocidade da reação, sacrificamos 2% da condutividade inicial, mas mantemos o plástico fluido o suficiente para ser moldado industrialmente. O departamento comercial aceita essa perda se o custo de produção cair.

Willian olhou para Roberto, os olhos brilhando com uma faísca diferente. Não era a vaidade de ter a resposta, mas o entusiasmo da descoberta que só acontece quando uma ideia encontra outra.

— Se fizermos isso, Roberto... podemos usar o calor da própria reação para estabilizar a condutividade na segunda etapa. Mas para isso, preciso que seus operadores controlem a válvula manualmente no momento exato da transição de fase. Vocês conseguem essa precisão?

— Meu pessoal faz essa máquina cantar se for preciso, Doutor — respondeu Roberto, estendendo a mão para o teclado. — Vamos rodar a simulação com os seus novos parâmetros?

— Vamos. — disse Willian, puxando uma cadeira e sentando-se ao lado de Roberto. — Mostrem-me como essa fábrica funciona.

Duas semanas depois, o silêncio hostil já não habitava mais o laboratório da planta piloto, embora o cansaço sim. Willian estava sentado em uma mesa lateral, os óculos protetores empurrados para a testa, observando uma nova planilha de custos logísticos que Clara havia enviado. Ele ainda sentia o peso de não dominar o jargão comercial, e o sentimento de não estar totalmente no controle ainda o desconfortava.

Do outro lado da sala, Roberto limpava as mãos em uma estopa suja de graxa, conversando com Lucas em tom baixo sobre o desgaste de uma das válvulas. O gráfico na tela central mostrava uma curva de condutividade razoável, estável, mas ainda distante da perfeição que Willian havia desenhado em seus cadernos.

Roberto caminhou até a mesa e deixou um copo de café de plástico descartável ao lado do computador de Willian. Os dois homens se olharam por alguns segundos. Não houve um aperto de mãos solene, nem discursos sobre o sucesso da parceria. Willian apenas assentiu com a cabeça, um gesto simples de agradecimento. Roberto puxou a cadeira ao lado e sentou-se, soltando um suspiro longo.

Ali, sob a luz fria das lâmpadas fluorescentes, dividindo o cansaço do fim do turno, os dois permaneceram diante da máquina. Willian voltou para o gráfico, depois para Roberto.

— Amanhã a gente continua?

Roberto sorriu.

— Amanhã a gente continua.

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Balanço não auditado

 

por Giovanni Angius, em 30/8/2026.

O gelo derretia devagar no copo de Angelina, diluindo o âmbar do uísque que ela mal havia tocado. Naquela sexta-feira, o silêncio do apartamento ecoava o zumbido das lâmpadas fluorescentes do escritório — o mesmo zumbido que a acompanhava desde que fundara a consultoria do zero, há dez anos. Aos 40, cercada por relatórios de metas batidas e contratos renovados, ela carregava o peso de uma contabilidade que nenhuma planilha aceitava: o balanço das próprias escolhas.

Do outro lado da mesa de vidro e resina, Ana Beatriz, sua amiga desde sempre, a observava em silêncio. O notebook corporativo de Angelina estava fechado, mas parecia emitir uma gravidade própria, um buraco negro que engolira finais de semana, jantares desmarcados, mensagens não respondidas.

— Olhei para o calendário, Ana — disse Angelina, com os olhos fixos na linha do horizonte que sumia além da varanda na penumbra do nono andar. — Mais três empresas na carteira. Equipe consolidada. Mas quando me deram parabéns, senti um vazio físico. Não escolhi estar sozinha. O mercado exigiu. Eu precisava firmar a marca. Só que agora… olhar para trás e ver o que deixei passar me dá uma paralisia.

Ana Beatriz serviu mais vinho para si mesma, medindo as palavras com a calma de quem conhece os labirintos da amiga.

— Paralisia — repetiu, baixo, quase para si. — Isso seria medo?

Angelina esboçou um breve sorriso, sem graça.

Ana Beatriz olhou para o notebook fechado sobre a mesa, depois para a amiga, e não disse nada sobre ele. Girou o copo de vinho devagar.

— Quando foi a última vez que você tomou uma decisão que não pudesse justificar numa reunião de diretoria?

— E qual seria a alternativa? — rebateu Angelina, a voz subindo um tom, armada na defensiva, justificando a própria rotina. — Largar tudo e viver de idealismo?

Parou por um instante, pensativa, e continuou:

— Sinto as cobranças e o peso de não ter cumprido esse papel. Parece que quebrei um pacto invisível.

Ana Beatriz não respondeu de imediato. Deixou o silêncio correr um pouco antes de dizer:

— Pacto com quem, Angê?

Angelina não respondeu. O silêncio denso e sem respostas voltou a ocupar o ambiente, tocado pela brisa suave vinda do mar em frente. Não houve lágrimas nem decisões antes do fim da noite. A conversa encerrou-se em reticências, com o peso da angústia flutuando no ar como a fumaça de um incenso que se apaga.

Na segunda-feira, o sol cortava as persianas do escritório de maneira idêntica a todas as outras semanas. Angelina puxou a cadeira de couro, sentou-se diante da mesa de madeira maciça e respirou fundo antes de pressionar o botão de ligar do computador.

A tela iluminou seu rosto, exibindo instantaneamente centenas de novos e-mails na caixa de entrada. Ela olhou para o reflexo apagado de si mesma no monitor por alguns segundos. A angústia da sexta-feira ainda estava ali, aninhada no fundo do peito, intocada, sem nenhuma resposta definitiva ou epifania transformadora.

Então, veio um pensamento rápido que atravessou sua mente: “Tenho uma empresa para tocar e pessoas dependem de mim”.

Imediatamente, a porta de vidro se abriu. Sua secretária entrou trazendo uma xícara de café e um copo d’água numa pequena bandeja e, debaixo do braço, uma pasta de relatórios, seguida de perto por um de seus consultores associados mais antigos, que já gesticulava apontando para um gráfico impresso.

— Bom dia, Angelina. Temos um problema com a transição daquela multinacional e precisamos da sua palavra final — disse ele.

Angelina ajeitou a postura, aceitou a xícara de café, ajustou o foco dos olhos na tela e respondeu:

— Bom dia. Vamos dar uma olhada nisso juntos.

As engrenagens começaram a girar. O abismo existencial continuava lá fora, mas a vida, com sua urgência prática e cotidiana, seguiu o seu curso. Só que, agora, Angelina notou que o gelo do copo d’água sobre a mesa derretia mais rápido do que o habitual.

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O espelho quebrado

 

por Giovanni Angius, em 28/8/2026.

O deusito da terra está na mesma: parvo como ab initio.

Melhor fora (digo eu cá) não lhe teres infundido o raio dessa luz,

que lá se chama Razão,

e que na prática só presta para o tornar mais bruto que os mais brutos.

Mefistófeles, em Fausto — Goethe.

O feed exibe uma mulher intocável. Dayara — arquétipo do luxo contemporâneo — brilha sob tetos afrescados de palacetes em Milão, janta em iates na costa de Miami e desfila alta-costura pelas avenidas mais caras de São Paulo. Mas nos bastidores, trancada no quarto de hotel, diante do espelho, despojada das caras perucas e das camadas de maquiagem que cobrem sua palidez, vive Odete — consumida pela paranoia, dependente de ansiolíticos e assombrada pelos dias que passou encarcerada em uma cela fria antes que uma liminar de habeas corpus a devolvesse ao asfalto.

— Você vai postar agora — diz Pietro, sem levantar a voz. — O ângulo é três quartos, luz de janela, nada de filtro pesado. O público quer autenticidade, não perfeição.

Odete segura o celular como quem segura uma arma apontada para si mesma.

— Autenticidade? — ela ri, um som seco. — Eles querem o espetáculo. Eu sou o espetáculo.

— Você é o que o algoritmo deixar você ser — responde Pietro, ajustando o terno sob medida. — E o algoritmo, hoje, recompensa a desfaçatez, o escândalo, a ostentação desenfreada. Culpa e empatia são fraquezas que matam o engajamento.

Ele não veste capa nem carrega contratos em pergaminho; seu discurso de mentalidade inabalável basta como o arquiteto do pacto. Ele não apenas dita o ângulo exato das joias alugadas e a cadência da voz nos pronunciamentos ensaiados, mas a alimenta diariamente com o Livro Amarelo moderno: a obsessão pelas métricas cruéis do Algoritmo, a cartilha invisível que ensina a transformar a vida em performance.

— E se eu não quiser mais? — pergunta Odete, olhando para as próprias mãos trêmulas.

— Não é sobre querer — diz Pietro. — É sobre sustentar o avatar. Enquanto os promotores públicos fecham o cerco contra o esquema internacional de lavagem de dinheiro que financiava sua rotina nababesca, você não tem escolha. Recuar é desaparecer.

Em vez de recuar, ela dobra a aposta sob a tutela cínica de Pietro: vitimiza-se publicamente, monetiza a própria desgraça como um acessório a mais em sua rotina e manipula a devoção cega de milhões de seguidores, transformando o crime em mero espetáculo de superação e poder.

— Olha só — diz ela, mostrando a tela. — Hoje, minha liberdade tornou-se o meu item mais caro. Cada notificação, um lembrete de que sou forte.

Pietro sorri, sem calor.

— Perfeito.

O colapso atinge o ápice durante uma live em uma milionária cobertura em Paris. Confrontada em tempo real com o vazamento de áudios que revelam sua cumplicidade explícita com o crime organizado e o desprezo nojento que nutre pelo próprio público, a máscara se estilhaça.

— Odete, desliga — ordena Pietro, já de pé, já se afastando.

— Não consigo — ela responde, os olhos fixos no reflexo da tela. — Eles estão vendo. Eles precisam ver.

— Eles já viram o suficiente — diz ele.

Pietro sai do apartamento, sem pressa, sem pânico, indiferente, pegando o casaco, conferindo o próprio celular para contatar o outro cliente no Brasil, deixando-a iluminada apenas pelo brilho azulado e impiedoso da tela.

Sem conseguir desligar a câmera, Odete entra em um delírio narcísico ao vivo; o filtro digital oscila e falha, revelando não uma deusa intocável, mas seu rosto real, uma mulher desfigurada.

— Eu sou Dayara — sussurra ela, como quem reza.

Mas o espelho não responde.

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O refúgio do meio-dia

 

por Giovanni Angius, em 27/8/2026.

Action is consolatory.

It is the enemy of thought

and the friend of flattering illusions.

Joseph Conrad.

Às doze e quinze, a praça de alimentação do centro empresarial atinge a sua cadência mecânica. O som das bandejas de inox batendo contra os trilhos, o tilintar frenético dos talheres e o zumbido uniforme do ar-condicionado compõem a trilha sonora da engrenagem. Ninguém ali anda devagar; a pressa confere dignidade ao passo, como se a lentidão fosse uma confissão pública de irrelevância.

Sentamos em uma das infinitas mesas redondas de fórmica: Carlos, Nelson e eu.

Carlos não tira os olhos da tela do celular. Entre uma garfada de arroz e outra de frango grelhado, seus polegares disparam respostas curtas, quase telegráficas. Ele ajusta planilhas, confere notificações vermelhas e suspira com um peso teatral.

— Se eu não despachar essas pendências agora, o fechamento da tarde vira um inferno. — Murmura, mastigando sem saborear.

Não há raiva na sua voz, apenas uma entrega devota ao dever imediato do dia. Para Carlos, o fluxo ininterrupto de tarefas é o ar que respira; responder a cada chamado urgente é a âncora que o impede de se perguntar por que acorda todos os dias às seis da manhã. A rotina não o escraviza: ela o protege.

Do outro lado da mesa, Nelson, nosso supervisor, opera em outro registro. Ele gesticula, empolgado, com o guardanapo de papel ainda enrolado nos dedos. Fala da reestruturação do departamento, dos novos indicadores e do legado que a equipe deixará ao final do trimestre. Constrói para si e para quem quiser ouvir a imagem de um protagonista essencial, alguém cujo sacrifício move o mecanismo rumo ao progresso. Cada pequeno ajuste num processo burocrático ganha contornos de épico moral. Nelson precisa dessa narrativa heroica; sem a fantasia de que cumpre um papel grandioso, o peso dos relatórios descartáveis seria insuportável.

Eu, por descuido, deixei o telefone no bolso da calça.

Sem uma tela para fixar a vista e sem o ímpeto de intervir na conversa, olho o vapor suave que sobe do prato de comida. Naquele hiato involuntário, o ruído ao redor parece diminuir de volume. Uma clareza incômoda e gélida se instala em minha mente. Olho para os lados e vejo dezenas de homens e mulheres engolindo calorias às pressas para abastecer a tarde de trabalho, todos convencidos de que a próxima reunião decidirá os rumos do mundo. A coreografia perde o encanto; revela-se apenas o mecanismo nu de corpos cumprindo funções provisórias num edifício de vidro espelhado. A sensação não é de superioridade, mas de um desamparo vertiginoso. Por alguns segundos, vejo aquela movimentação sem a justificativa que costumamos lhe dar, sem o filtro da pressa ou da vaidade, pesa como chumbo no peito.

O silêncio começa a me sufocar.

Antes que o peso da constatação me paralise de vez, enfio a mão no bolso. Puxo o celular, desbloqueio o aparelho e abro o aplicativo de mensagens. Procuro por qualquer coisa não lida, qualquer urgência artificial que exija resposta rápida. Digito algumas palavras apressadas sobre um arquivo em anexo.

O coração desacelera, a respiração volta ao normal. Volto a ser um homem ocupado. Penso então que não há consolo mais eficaz contra a vertigem da existência do que uma tarefa para terminar com urgência antes das duas.

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O homem que sempre atrasava

 

por Giovanni Angius, em 26/8/2026.

Quando Mauro chegou atrasado à reunião, ninguém disse nada.

A reunião começou às oito, mas ele entrou às oito e dezessete, carregando uma pasta amassada e respirando com dificuldade. Pediu desculpas, sentou-se no último lugar e permaneceu calado.

O corpo falou antes de qualquer palavra: Norma, a diretora, olhou rapidamente para o relógio. Foi um gesto breve, mas suficiente para denunciar seu desagrado.

— Ele nunca foi muito comprometido — comentou Cláudio, no corredor.

Norma não respondeu. Conhecia Mauro havia apenas seis meses, desde que ele fora transferido para o setor financeiro. Sabia que trabalhava bem, mas ainda não conhecia bem os seus hábitos. Mesmo assim, a frase de Cláudio oferecia uma explicação pronta para o atraso: Mauro não chegara tarde por uma razão circunstancial; chegara tarde porque era, no fundo, um homem pouco comprometido.

A explicação transformou-se rapidamente em rótulo. Mauro passou a ser “o atrasado”.

Na semana seguinte, chegou antes de todos. Abriu o computador, organizou os relatórios e preparou café para os colegas. Ninguém comentou sua pontualidade. O fato não combinava com a imagem que começava a se formar e, por isso, não encontrou lugar na memória de ninguém.

Duas semanas depois, entretanto, Mauro atrasou-se novamente. Dessa vez, foram oito minutos.

— Eu sabia — disse Cláudio, sem levantar os olhos da tela.

A partir daquele dia, qualquer episódio relacionado a Mauro passou a ser filtrado pelo mesmo julgamento. Se entregava um relatório antes do prazo, diziam que tivera sorte ou que o trabalho fora fácil. Se solicitava mais tempo para uma tarefa, era porque estava se organizando mal.

Mauro percebia a maneira como o tratavam.

Antes, Norma perguntava sua opinião sobre os projetos. Depois, passou a pedir que ele apenas executasse as tarefas. Antes, os colegas o incluíam nas conversas do café. Depois, trocavam informações entre si e lhe transmitiam somente o indispensável.

Certa manhã, Norma lhe entregou um relatório urgente.

— Preciso disso até o meio-dia — disse ela.

— É bastante material. Posso entregar às duas?

Norma apertou os lábios.

— Se você se organizasse melhor, conseguiria.

Mauro olhou para os documentos. Quis explicar que havia recebido os dados incompletos e que precisava conferi-los. Mas a explicação pareceu-lhe inútil. Se dissesse que o prazo era curto, pareceria estar inventando uma desculpa. Se insistisse, confirmaria a fama de difícil. Limitou-se a dizer:

— Vou tentar.

Ao meio-dia, entregou o relatório incompleto. Norma examinou as páginas e encontrou dois erros.

— Mauro, isso é exatamente o que eu estava dizendo.

Ele tentou corrigir os dados, mas já trabalhava sob uma espécie de medo. Conferia cada número muitas vezes, apagava frases, recomeçava parágrafos. O cuidado excessivo fazia com que demorasse ainda mais.

Naquela tarde, Cláudio comentou com outro colega:

— Além de atrasado, agora está ficando desorganizado.

Mauro ouviu.

No dia seguinte, chegou atrasado novamente. Ficara acordado até quase três da manhã, tentando concluir uma tarefa que poderia ter terminado em duas horas se não tivesse trabalhado sob a vigilância imaginária de todos. Entrou na sala com olheiras e uma expressão fechada.

— Vejam só — disse Cláudio. — A pessoa não muda.

A partir de então, cada reação sua era absorvida pelo rótulo: quando se irritava, demonstrava imaturidade; quando se calava, confirmava sua indiferença; quando evitava os colegas, revelava que não sabia trabalhar em equipe.

Ninguém percebeu que ele os evitava porque se sentia permanentemente examinado.

A situação se consolidou e permaneceu assim até que, certa manhã, o RH encaminhou a Norma os comprovantes de comparecimento médico que Mauro apresentara para justificar saídas recentes. Entre as guias, uma data anterior chamou sua atenção: coincidia exatamente com a manhã do primeiro atraso.

Logo em seguida, chamou Mauro em sua sala.

— Quero fazer uma pergunta, mas você não é obrigado a responder. Eu vi os seus atestados. Naquela primeira reunião em que você se atrasou... aconteceu alguma coisa?

Mauro permaneceu de pé.

— Minha mãe teve um AVC. Eu não contei porque achei que pareceria uma desculpa.

Norma sentiu uma espécie de constrangimento, mas ainda tentou proteger-se:

— Você poderia ter avisado.

— Poderia. Mas, depois do segundo atraso, achei que ninguém acreditaria.

A frase ficou entre os dois.

Norma compreendeu então que no primeiro atraso acontecera um fato ambíguo: Cláudio dera uma explicação. Ela não havia inventado o rótulo, mas o aceitara. Depois, passara a enxergar Mauro através dele. Mais grave: modificara seu comportamento em relação a ele e o colocara numa situação em que qualquer reação poderia ser interpretada como confirmação.

— Eu me precipitei quando tirei conclusões antes de conversar com você diretamente — disse.

Mauro olhou para a janela.

— O problema é que, depois de um tempo, a gente começa a agir como os outros esperam.

Norma não respondeu imediatamente. Sabia que um pedido de desculpas não poderia apagar seis meses de desconfiança.

Na reunião seguinte, Norma falou antes de iniciar a pauta.

— Quero corrigir uma coisa que aconteceu em nosso setor. Em algum momento, Mauro passou a ser tratado como irresponsável. Não havia base suficiente para essa conclusão, e eu participei desse erro.

Ninguém se mexeu. Cláudio olhou para ela, depois para Mauro.

— Mas ele se atrasou várias vezes.

— Sim — respondeu Norma. — Isso aconteceu de fato. Mas daí a classificar de irresponsabilidade…

Cláudio pareceu contrariado.

— Então agora não se pode mais dizer nada?

— Pode-se dizer o que aconteceu. Nós transformamos um imprevisto em perfil profissional e passamos a procurar defeito em tudo o que ele fazia. Isso, a meu ver, é um erro de gestão, e começou justamente por mim.

Mauro não falou. Norma lhe devolveu a responsabilidade pelos projetos que antes lhe retirara, mas combinou procedimentos objetivos: aviso prévio em caso de atraso, prazos definidos por escrito e revisão dos relatórios. Não pediu à equipe que confiasse cegamente nele. Pediu que o avaliasse por critérios verificáveis.

Nas semanas seguintes Mauro chegava ainda mais cedo. Era o primeiro a entrar no escritório e o último a sair.  Norma percebeu que aquele comportamento era movido, em grande parte, pelo medo. Disse-lhe que não precisava compensar indefinidamente uma reputação que já estava sendo revista.

Cláudio continuou fazendo comentários, até que certa tarde também se atrasou para uma apresentação. Entrou na sala nervoso, com o celular na mão.

Mauro poderia ter sorrido. Poderia ter dito: “Eu sabia.”

Em vez disso, apenas afastou uma cadeira.

— Sente-se. Ainda não começaram.

Cláudio acenou com a cabeça e dirigiu um brevíssimo olhar para Mauro. No rosto um meio sorriso sem graça. Não disse nada, mas, pela primeira vez, pareceu enxergar o atraso como um fato — não como uma identidade.

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O pacote dentro da bolsa

 

por Giovanni Angius, em 23/8/2026.

Daniel, trinta e oito anos, dá aulas de História numa escola pública de Vitória e lê filosofia por conta própria. Clara, quatro anos mais nova, é advogada trabalhista. Estão casados há sete anos, têm uma filha pequena e levam uma vida que cabe em milhões de apartamentos brasileiros: boletos, escola, supermercado, reuniões, cansaço e alguma tentativa de jantar juntos antes que alguém precise acordar cedo.

Daniel costuma dizer que as pessoas não nascem ruins. Clara costuma responder que isso é uma bonita teoria para quem ainda não foi passado para trás.

Num fim de semana, os dois foram a uma cidade na região serrana do Espírito Santo para um congresso importante para a carreira deles. Cada um tinha sua inscrição, seu crachá e sua programação. O hotel, porém, conseguiu fazer uma confusão admirável: fez coincidir a reserva deles em apenas um quarto para os dois.

— Pelo menos não vamos brigar por quem fica com a cama melhor — disse Daniel.

Clara riu.

Naquela noite, veio uma chuvarada muito forte. A energia caiu. A internet desapareceu. O celular de Daniel morreu por falta de bateria e o de Clara estava nos últimos suspiros. Lá fora, a chuva batia nas janelas com força.

Foi quando Clara abriu o armário. Havia um embrulho escondido no fundo, atrás de algumas toalhas. Dentro dele, um maço de notas novas, numeradas em série, rígidas, quase artificiais ao toque. Era muito dinheiro. Havia também um bilhete manuscrito: o dinheiro deveria ser entregue ao organizador do evento na manhã seguinte.

Clara olhou para Daniel. Daniel olhou para o dinheiro.

Foi perceptível como a quantidade de cédulas mudou a temperatura de um quarto.

— Ninguém vai saber se a gente pegar uma parte — disse Clara, quase sem pensar.

Daniel permaneceu calado.

— Veja bem. Esse dinheiro pode desaparecer de qualquer jeito. E quem garante que o sujeito que vai receber isso é honesto?

Daniel se sentou na beira da cama.

— A gente entrega.

— Você confia demais nas pessoas.

— E você desconfia demais.

Ela cruzou os braços.

— Eu aprendi.

Durante a madrugada, o pacote voltou para o armário. Daniel insistiu que deveria permanecer intacto.

Em determinado momento, porém, depois de uma discussão mais áspera, passou pela cabeça dele uma ideia bastante inconveniente: poderia ficar com uma parte. Trabalhava muito, ganhava pouco e ninguém descobriria.

O pensamento durou alguns segundos, mas foram suficientes para deixá-lo desconfortável.

Ele, que gostava de falar para a filha sobre honestidade, descobrira dentro de si uma pequena sala onde agora ela dividia espaço com a vantagem.

Clara teve sua própria batalha. Separou mentalmente uma quantia. Pensou em guardar aquilo como uma espécie de seguro. Depois olhou para Daniel, que permanecia decidido a devolver tudo.

Sentiu vergonha. Foi até o embrulho e olhou para ele mais uma vez naquela noite.

— Eu não quero que nossa filha ache que a mãe dela é desse tipo — disse baixinho.

Daniel ouviu. Não respondeu.

Na manhã seguinte, a energia voltou e o hotel despertou. Os dois combinaram entregar o dinheiro na recepção.

Quando chegaram lá, encontraram uma confusão. Havia policiais, funcionários nervosos e hóspedes tentando entender o que acontecia. O organizador do congresso havia sido demitido na noite anterior, sob suspeita de desvio de dinheiro.

Daniel e Clara se entreolharam. O pacote continuava na bolsa. Agora tudo havia ficado mais complicado.

Entregar o dinheiro poderia significar colocá-lo nas mãos erradas. Guardá-lo poderia ser um roubo. Procurar a polícia poderia envolver os dois numa história que sequer compreendiam. Saíram do hotel sem dizer nada.

Mais tarde, sentaram-se num bar. O embrulho estava dentro da bolsa de Clara, entre a carteira, um carregador e alguns papéis. Daniel tomou um gole de cerveja.

— E agora?

Clara mexeu a bolsa com o pé.

— Eu não sei.

Ficaram algum tempo em silêncio.

Daniel pensava na filha, nas aulas de segunda-feira e naquilo que gostaria de continuar acreditando. Clara pensava nos clientes que já havia atendido, nas vezes em que mentiram para ela e no preço alto que sempre pagou por confiar.

O casamento tem dessas coisas: depois de anos dividindo o mesmo teto, já não há muito disfarce para as virtudes nem para as fraquezas miúdas. Quando as testemunhas desaparecem, sobra cada um diante da própria consciência.

— O que resta de bom em nós, ninguém sabe.

— Nem o que somos capazes de fazer no escuro. — ela rebateu.

Daniel e Clara ainda não sabiam. E, sobre a cadeira do bar, a resposta continuava fechada dentro da bolsa, encostada na perna de Clara.

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Alerta da Defesa Civil: convite ao destino


por Giovanni Angius, em 21/8/2026.

Amanheci com o sobressalto metálico do celular: Defesa Civil (ES) ALERTA de CHUVA PERSISTENTE na GRANDE VITÓRIA nas próximas horas. Risco de alagamentos.

Olhei pela janela ainda meio sonolento, meio desperto. O céu cinzento sobre a praia parecia um teto de chumbo desabando. O primeiro impulso é sempre o mais mesquinho e humano: a raiva miúda. Por que justo hoje? Por que essa cidade insiste em virar mar a cada tempestade? O corpo tensiona como se a indignação de um sujeito de pijama pudesse empurrar as nuvens de volta para o oceano.

Por alguns minutos fiquei olhando a chuva engrossar. Na rua, os guarda-chuvas surgiam como pequenas manchas escuras caminhando apressadas pelas calçadas. Um entregador, encolhido sobre a motocicleta, esperava o sinal abrir. Uma senhora puxava pela mão uma criança que saltava sobre as poças, indiferente ao mau humor do céu. A cidade inteira parecia ter recebido o mesmo aviso que eu e, ainda assim, cada pessoa encontrava seu jeito de continuar.

Pensei nos estoicos. Um deles provavelmente diria para eu calçar as galochas e ocupar-me apenas daquilo que estava ao alcance das minhas mãos. Depois me lembrei de Nietzsche. Havia algo além da simples resignação: a ideia de desejar a própria realidade, inclusive aquilo que chega sem pedir licença. Amar o inevitável.

Tomei meu café e saí mais cedo. Calçado resistente, pastas protegidas em sacos plásticos, a rota mentalmente recalibrada para fugir dos pontos críticos. O asfalto brilhava como espelho negro e as bocas de lobo engoliam a enxurrada com um gorgolejo voraz.

No primeiro cruzamento, o trânsito já começava a engrossar. Um carro parou no meio da rua, e o motorista desceu para verificar a água que avançava sobre os pneus. Atrás dele, uma fila de veículos se formou. Algumas buzinas começaram a reclamar, como se o barulho pudesse acelerar o escoamento da água.

Mais adiante, um ônibus avançava devagar, levantando pequenas ondas junto ao meio-fio. Dentro dele, rostos sonolentos acompanhavam a chuva através dos vidros embaçados. Pensei que todos nós, de alguma maneira, estávamos sendo forçados a diminuir o passo. A chuva tinha feito aquilo que tantas vezes tentamos fazer sem conseguir: interromper a pressa.

De repente, a irritação cedeu espaço a um estranho vigor. Cada poça desviada, cada gota no vidro do carro, cada atraso e cada movimento cauteloso dos outros motoristas passaram a ter uma espécie de presença própria. O mundo não estava errado; o mundo estava apenas acontecendo, e eu estava dentro dele.

Cheguei ao destino com a barra da calça úmida e os sapatos salpicados de sujeira. Na recepção, encontrei apenas um colega. Ele me mostrou o celular: a reunião estava cancelada. Dois colegas estavam presos no trânsito; outro avisara que não conseguiria sair de casa. A agenda do dia, cuidadosamente organizada na véspera, havia sido desmontada em poucos minutos pela meteorologia.

Em outro tempo, o fel da frustração teria estragado a manhã. Naquele dia, porém, puxei a cadeira, servi um café e abri o caderno de anotações.

O colega riu e disse que tinha levado quarenta minutos para percorrer um caminho que normalmente fazia em quinze. Contou que, no meio do trajeto, ajudara uma mulher a empurrar o carro que parara numa área alagada. Enquanto falava, recebeu uma mensagem da mulher perguntando se ele havia chegado bem.

Fiquei pensando naquilo. A chuva que, para mim, começara como uma inconveniência particular havia se espalhado pela cidade e entrado na manhã de milhares de pessoas. Para cada um, ela tinha uma história diferente. Alguém perderia um compromisso. Outro chegaria atrasado para a consulta. Alguém encontraria uma pessoa desconhecida para ajudar. E há quem simplesmente dormiria mais uma hora.

O tempo que a chuva roubou virou o tempo que a chuva me deu.

Ao longo do dia, aquela ideia foi ficando comigo. Pensei no eterno retorno de Nietzsche. Se aquela manhã — o alerta ruidoso, o céu fechado, o trânsito parado, os sapatos molhados, a reunião cancelada — tivesse de se repetir infinitas vezes, eu seria capaz de recebê-la outra vez sem desejar que fosse diferente?

A pergunta parecia exagerada para uma sexta-feira chuvosa. Ainda assim, havia nela alguma coisa incômoda e verdadeira.

Quando o celular vibrou mais tarde anunciando o fim do alerta, o trânsito já começava a desatar seus nós e a água baixava pelas calçadas. Ao sair, encontrei a cidade cansada, brilhando sob as luzes da noite que começava. Pessoas voltavam a caminhar depressa. Os ônibus em ritmo frenético. As poças ainda guardavam pedaços do céu.

Olhei para os sapatos secando a um canto e pensei que aquele dia, com todos os seus inconvenientes, já fazia parte da minha história. Não havia como devolvê-lo, corrigir seus desvios ou refazer seus minutos.

Talvez fosse isso que Nietzsche quisesse perguntar ao nos convidar a imaginar a repetição eterna da própria existência: se tivéssemos de viver novamente o que vivemos, seríamos capazes de dizer sim?

Olhei mais uma vez para a chuva que ainda caía, agora mansa. Se a tempestade voltasse amanhã, exatamente assim, que venha.

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Arthur antes de Schopenhauer

 

por Giovanni Angius, em 20/8/2026.

Arthur não era antissocial. Essa informação precisa ser dada logo, antes que alguém o confunda com esses homens que tratam a humanidade como uma doença contagiosa e chamam de filosofia o prazer de não cumprimentar os vizinhos. Arthur frequentava a faculdade, assistia às aulas, convivia com os colegas e, de vez em quando, até aceitava um convite para sair. Sabia rir. Sabia contar uma história. Namorou. Teve amigos.

O problema não era conviver. O problema era que, depois de algum tempo convivendo, Arthur precisava voltar para casa.

Enquanto os colegas prolongavam a noite em bares, festas ou rodas de conversa, ele voltava para o quarto, acendia uma luminária, colocava música para tocar e abria um livro. Havia qualquer coisa naquela sucessão de páginas que lhe devolvia uma espécie de equilíbrio. Sozinho, não precisava representar entusiasmo, inventar opiniões, acompanhar risadas que não compreendia ou demonstrar interesse por assuntos que logo lhe pareciam esquecíveis.

Arthur gostava da própria companhia, mas ainda não sabia disso. Naquela idade, confundia a preferência pelo silêncio com algum defeito de fabricação. Perguntava a si mesmo por que não era como os outros. Por que não sentia a mesma necessidade de estar sempre acompanhado? Por que algumas conversas lhe pareciam exaustivas depois de cinco minutos? Por que, em certos fins de semana, a ausência de convites lhe provocava antes alívio do que decepção?

Ele não se considerava especial. Ao contrário: julgava-se incompleto.

Certo dia, numa mesa da biblioteca da faculdade, encontrou um volume de filosofia que alguém havia deixado aberto. Atraído pelo nome severo do autor, Schopenhauer, folheou algumas páginas.

Arthur estudava Medicina. Aprendia a arquitetura do organismo, seus mecanismos e as formas pelas quais o corpo se desviava de si mesmo. Aprendia também que a doença não era apenas uma alteração num órgão, mas uma ameaça que alcançava a vida inteira.

O filósofo lhe mostrou outra anatomia. Uma anatomia sem bisturi. Ao ler que a riqueza interior torna a solidão suportável, Arthur não pensou imediatamente: “Sou extraordinário”. Seria uma conclusão vaidosa demais. O que lhe ocorreu foi algo mais modesto e mais importante: “Então existe uma razão para eu me sentir assim”.

Arthur passou a observar a própria vida por aquela nova lente. Percebeu que, quando ficava sozinho, nem sempre sentia vazio. Muitas vezes, pensava melhor. Estudava com mais concentração. Lia durante horas. Caminhava sem pressa. Observava as pessoas nos bancos das praças, nos corredores da faculdade, nas filas dos hospitais. Gostava de conversas profundas e cansava-se das que pareciam existir apenas para preencher o silêncio.

Era como se tivesse colocado uma legenda sob uma fotografia que carregava dentro de si desde menino. A solidão, então, deixou de parecer uma sala vazia. Tornou-se uma sala ocupada por ele. Aos poucos, a ideia passou do livro para o comportamento. Arthur começou a recusar alguns convites. Reduziu certas amizades. Preferiu pequenos círculos às grandes rodas. Aprendeu a passar um domingo inteiro sem telefonar para ninguém e sem esperar que alguém telefonasse. Descobriu o prazer de caminhar sozinho depois das aulas, como se a cidade pudesse ser lida com mais atenção quando não precisava ser comentada.

Os colegas começaram a achar que ele se julgava superior. Talvez tivessem razão.

Arthur passou a considerar superficiais as pessoas que não liam os mesmos livros, que preferiam festas a conversas, que falavam de assuntos que ele não julgava dignos de uma existência humana. A filosofia, que antes lhe servira para compreender a si mesmo, começou a servir-lhe para condenar os outros.

Era uma tentação perigosa. Arthur ainda não sabia distinguir entre não depender da multidão e desprezar a multidão. Confundia autonomia com distância. Chamava de lucidez o que, às vezes, era apenas orgulho.

E essa conduta o fez sofrer quando percebeu que até uma ideia elevada podia ser deformada pelo ego de quem a adotava. Foi a própria Medicina, porém, que começou a desfazer o equívoco.

Certa tarde, durante o estágio, atendeu uma senhora que morava sozinha. Não era uma solidão escolhida que pudesse ser interrompida pela abertura voluntária de um livro ou pelo prazer de uma caminhada. Era uma solidão feita de portas fechadas, telefones que não tocavam e dias que se repetiam sem testemunhas.

A mulher falava devagar. Não tinha uma doença especialmente grave, mas demorou muito para concluir a consulta. Contou coisas que não diziam respeito diretamente aos sintomas: falou do marido morto, dos filhos distantes, de uma vizinha que havia se mudado. Quando finalmente se levantou, segurou a mão de Arthur por alguns segundos a mais do que seria necessário. Ele percebeu, então, que o sofrimento humano não obedecia inteiramente às suas teorias filosóficas.

Arthur voltou ao filósofo com menos entusiasmo e mais maturidade. Releu as passagens sobre o recolhimento. Talvez a reflexão não sugerisse que uma mente atenta devesse fechar-se aos outros com desdém. Talvez significasse apenas que uma vida interior rica não pode depender continuamente da aprovação alheia para existir.

Naquele momento, Arthur percebeu que havia dentro dele um homem que perguntava por que não era como os demais e outro que começava a compreender que não precisava ser igual a eles — nem superior. Precisava apenas aprender a permanecer consigo mesmo.

Esse último Arthur era menos brilhante, certamente. Era, porém, mais humano.

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