O que se faz com a dor

 

por Giovanni Angius, em 5/8/2026.

Às cinco da manhã, dona Marta já estava de pé. O café passava no coador enquanto a máquina de lavar trabalhava no canto da área de serviço, fazendo seus barulhos de coisa cansada. Seu Valdir, mestre de obras, ainda dormia alguns minutos antes de enfrentar mais um dia de cimento, areia e sol. Valdir era referência na profissão. Marta, costureira, trabalhava em casa. E os dois, juntos, tentavam erguer uma vida para os três filhos.

Moravam num bairro afastado de Cariacica, numa casa simples, mas completa, onde cada coisa tinha seu lugar e quase nada sobrava. Quase nada.

Na sala havia uma pequena estante lotada de livros. Eram de Leandro, o filho mais velho. Desde menino, ele gostava das letras. Enquanto Pedro e Sofia disputavam pelo espaço da mesa da cozinha para fazer os deveres, Leandro permanecia quieto, estudando, lendo, escrevendo. Lia tudo o que aparecesse. Livro emprestado, revista velha, apostila usada. Quando queria alguma coisa específica, os pais faziam as contas. E na maioria das vezes, contas difíceis.

Houve uma época em que Marta vendeu uma máquina que usava para costurar. Em outra, Valdir adiou a compra de uma ferramenta. O dinheiro precisava caber em algum lugar, e quase sempre esse lugar era a educação dos filhos, principalmente a do Leandro.

Quando conseguiu entrar na universidade pública para estudar História, os dois sentiram uma alegria que parecia maior do que a própria casa. Era como se todo aquele esforço finalmente tivesse encontrado um endereço.

Leandro, por sua vez, carregava aquilo como quem carrega uma dívida. Acordava cedo, ia para a universidade, pegava o Transcol, enfrentava o aquaviário, assistia às aulas, fazia fichamentos, dava aulas particulares e escrevia durante a noite. Dormia pouco. Lia muito. Vivia cansado.

Quando alguém dizia que ele precisava descansar, respondia com um sorriso, dando de ombros:

— Depois eu descanso.

O problema é que esse depois nunca chegava. Leandro acreditava que precisava vencer. Precisava publicar, ser reconhecido, ganhar dinheiro e tirar os pais do aperto. Vivia uma espécie de obsessão. Cada livro comprado com dificuldade parecia uma cobrança. Cada hora de sono perdida parecia uma prestação.

Só que a vida tem o péssimo hábito de não respeitar os nossos planos. Os primeiros textos publicados por Leandro passaram quase despercebidos. Vieram em pequenas edições independentes, pagas com o dinheiro das aulas particulares. Vendiam pouco. O dinheiro mal cobria o papel e a impressão.

A grande virada não aconteceu. Ainda não. Nenhum editor apareceu à sua porta. Nenhum prêmio resolveu a vida da família.

Pedro e Sofia continuavam crescendo. Havia contas, remédios, material escolar, comida. Na casa de Marta e Valdir, o mês continuava terminando antes do dinheiro.

Foi então que Leandro percebeu uma coisa. Durante muito tempo, ele havia confundido propósito com obrigação. Achava que precisava transformar o sacrifício dos pais, obrigatoriamente, em seu sucesso pessoal, mas o sacrifício deles já tinha produzido algo importante: havia lhe dado ferramentas.

E ferramentas servem para alguma coisa.

Foi quando decidiu criar, no próprio bairro, uma pequena oficina de leitura e escrita para adolescentes. Reuniu meia dúzia de jovens numa sala emprestada, juntou livros usados e começou a conversar sobre literatura, história e a vida que eles conheciam. No começo, vieram poucos. Depois, outros chegaram.

Leandro continuou pobre. Continuou pegando ônibus. Continuou dando aulas particulares. Continuou esperando que algum dia seu trabalho literário encontrasse leitores suficientes para lhe dar conforto.

Só que alguma coisa havia mudado. O sofrimento continuava ali. O sentido dele, porém, era outro.

Pensei nisso outro dia, lembrando de uma frase que ouvi certa vez: há dores que nos diminuem e há as que, quando encontram um propósito, acabam nos ensinando a carregar um pouco mais de nós mesmos.

É uma coisa das mais estranhas na vida. A gente passa boa parte do tempo querendo descobrir como evitar o sofrimento. Depois percebe que algumas das experiências que mais nos transformaram nasceram justamente de períodos que gostaríamos de ter pulado.

Leandro ainda queria ser escritor. Ainda queria ver os pais vivendo com mais tranquilidade. Ainda queria que seus livros encontrassem leitores.

Só que já não precisava esperar por essas coisas para sentir que sua vida tinha valor. Naquela pequena sala do bairro, diante de alguns adolescentes que descobriam o prazer de escrever, ele começou a compreender que o sacrifício de Marta e Valdir havia ganhado outro destino.

A prateleira de compensado continuava na sala de casa. Os livros continuavam ali. E, de certa maneira, já não pertenciam somente a Leandro. Tinham começado a circular como toda coisa que encontra um propósito.


O buda na beira da estrada

 

por Giovanni Angius, em 5/8/2026.

Saí de Colatina no sábado à tarde, com as orientações e conselhos que fui buscar junto a um velho irmão de Maçonaria para tratar de alguns encaminhamentos em minha Loja. Assuntos que exigiam equilíbrio, paciência e uma boa dose de compostura. A conversa foi esclarecedora e me ajudou bastante, claro, mas aconteceu um fato inesperado no meu retorno. Algo que me acertou em cheio, quase sem aviso, ali na beira da BR-101, diante do Buda de Ibiraçu.

Eu já tinha visitado o lugar outras vezes e sempre que é possível faço uma pequena parada, como uma pausa para enfrentar a estrada mais descansado. Estar ali é agradável. A estátua impressiona logo de cara. São 35 metros de altura e 350 toneladas de aço e concreto, uma presença que não passa despercebida nem por quem está só de passagem. Dizem que é o segundo maior Buda sentado do mundo, e está em estado de meditação sobre a flor de lótus, com uma expressão que parece dizer: sossegue. E eu, que vinha rodando por dentro durante todo o dia, entendi a mensagem.

Parei para tomar um caldo de cana e comer um pastel de palmito. A coisa mais simples do mundo, e justamente por isso tão boa. É tradição. Necessito disso para ajudar a retomar o rumo de meus pensamentos. Na praça, sentei, respirei, olhei em volta, e vi pessoas espalhadas pelo espaço, cada uma no seu ritmo, cada uma com sua pressa íntima, sua sede, seu cansaço, seu pequeno destino de fim de semana.

Na lanchonete, reparei num casal que me pareceu simpático. Tinham ali seus 60 e poucos anos, talvez 65, e carregavam a calma que surge em quem já atravessou muitas estações juntos. Cumprimentei os dois, fiz meu pedido no balcão e fiquei observando de canto, com discrição. Havia entre eles uma delicadeza singela, que não fazia alarde. Não era afetação, nem encenação de felicidade. Era outra coisa. Era convivência trabalhada com o tempo.

Enquanto mordia o pastel, fiquei olhando para eles. Havia ali uma intimidade tranquila que não precisa se anunciar. Pensei que talvez fosse isso que tantos anos juntos fazem com duas pessoas: ensinam uma a conhecer os silêncios da outra. A expressão ganhava corpo. Havia uma paz sem pose, sem propaganda, sem necessidade de convencer ninguém.

Mais tarde, na lojinha da escola de cerâmica mantida pelo mosteiro, voltei a encontrá-los. E foi aí que a impressão se adensou. Eles pareciam ainda mais alinhados com o lugar, como se a serenidade do ambiente também tivesse lhes caído sobre os ombros. Pensei, com a simplicidade que essas cenas costumam impor, que estar juntos por muito tempo talvez seja aprender a cuidar do outro sem transformar esse cuidado em cobrança. É uma lição dura, porque a gente costuma querer segurar a pessoa como quem segura uma certeza. Só que gente não é pedra, nem objeto de coleção. Gente muda, envelhece, ganha rugas, novas manias, silêncios diferentes.

O tempo, nesses casos, ensina uma coisa que a juventude costuma ignorar: ninguém permanece igual por décadas. E ainda bem. Se o amor quiser sobreviver, precisa reconhecer essa metamorfose cotidiana. Amar, com os anos, tem muito de reaprender o rosto amado. Há uma beleza nisso. A pessoa que está ao nosso lado hoje não é exatamente a mesma de ontem, e nem precisa ser. O vínculo que dura aprende a respirar junto com a mudança.

Restou uma ideia meio teimosa que fica rodando depois da estrada acabar. Um presente que alguém pode dar a quem ama é a presença consciente. Um casal longevo, pensei, lembra dois bambus crescendo lado a lado: as raízes se apoiam embaixo, mas acima há espaço suficiente para o vento circular.

De volta a Vitória, a rotina retomou seu compasso na segunda-feira. Os impasses, antes tão pesados, já não tinham o mesmo tamanho. Consegui resolver tudo e segui a vida.

Ainda assim, permaneceu comigo aquela imagem improvável: um Buda enorme à margem da estrada, um pastel de palmito, um caldo de cana, e um casal anônimo me ensinando, sem discurso nenhum, que o tempo não destrói. Às vezes, ele só depura. E há momentos em que uma parada rápida na estrada esclarece mais do que uma viagem inteira de pensamentos.


O voo 842

 

por Giovanni Angius, em 2/8/2026.

O sinal luminoso de “aperte os cintos” se apagou enquanto o Boeing 777 atingia a altitude de cruzeiro rumo a Tóquio. Seriam doze horas de travessia sobre o Pacífico. Menos de uma hora após a decolagem, os alto-falantes chiaram. A voz do piloto anunciou, com um tom de formal polidez, que o sistema central de entretenimento havia sofrido uma pane irreparável. Não haveria telas individuais, nem filmes, nem sinal de internet a bordo.

Da poltrona logo atrás, era impossível não perceber como a notícia atingiu aqueles dois passageiros de maneiras completamente diferentes.

Daniel, vou chamá-lo assim, encarou a tela preta à sua frente como quem olha para um abismo. O reflexo do seu próprio rosto no monitor desligado parecia ridicularizá-lo. Ele apalpou os bolsos: o celular estava sem bateria e a tomada da poltrona não funcionava.

Em pouco tempo, o silêncio da cabine começou a serpentejar por sua espinha. Sem o feed das redes sociais para rolar, sem mensagens para responder e sem notificações para validar sua existência, o ambiente ao seu redor pareceu encolher.

Para escapar daquela quietude sufocante, ele tentou conversar com o passageiro ao lado, que respondeu apenas com um aceno cortês antes de se voltar para a paisagem noturna. Inquieto, chamou a comissária para pedir um copo d’água que não queria, levantou-se inúmeras vezes para ir ao banheiro sem necessidade e passou a checar o relógio a cada quatro minutos.

Sem nada para ocupar as mãos, Daniel acabou encontrando aquilo que passara anos evitando: a própria companhia. E ela lhe pareceu pesada demais. Ele abriu o bolso da mochila várias vezes, embora soubesse exatamente o que havia dentro. Tirou o cartão de embarque, dobrou-o, desdobrou-o, olhou outra vez para o relógio. Nenhum daqueles gestos resolvia coisa alguma.

Muito tempo depois o sossego o alcançou sob a forma de cansaço. Dormiu.

Em outra poltrona, próxima de Daniel, Elisa, assim vou chamá-la, ouviu o anúncio do piloto e soltou um suspiro quase imperceptível.

Ela ajustou a pequena almofada atrás do pescoço, fechou os olhos e deixou o corpo afundar na poltrona. Para ela, aquele blecaute tecnológico não era uma privação, mas uma trégua. Uma ilha de tempo no meio de uma vida agitada.

Enquanto o avião cortava a escuridão, aos poucos seu romance voltou a ocupar os pensamentos. Sem as interrupções do mundo digital, ela usou as horas seguintes para revisitar mentalmente a estrutura que estava planejando. Fez anotações em seu caderno, lapidou diálogos e cenários, buscou soluções para a dinâmica e fluidez do seu texto. Mais tarde, resgatou a lembrança de uma sinfonia que gostava muito, reconstruindo os acordes em sua mente.

Ela parecia não sentir falta de nada. Escreveu durante algum tempo, fechou o caderno, permaneceu longos minutos apenas olhando a escuridão do lado de fora. Havia quem olhasse aquela janela e visse apenas ausência. Ela parecia enxergar alguma coisa ali.

O voo ia bem avançado quando conseguiu dormir.

Quando as rodas do avião finalmente tocaram o solo do aeroporto de Narita, cerca de doze horas depois, um homem e uma mulher saíram diferentes daquela aeronave — mas não da maneira que a moralidade convencional gostaria.

Daniel desembarcou exausto, irritado e mentalmente dilapidado, sentindo-se enjaulado por um tempo que lhe pareceu uma eternidade. No saguão do aeroporto, enquanto aguardava na fila do passaporte, ele pegou o celular, conectou-se ao Wi‑Fi gratuito e, em segundos, já estava rolando o feed, respondendo mensagens antigas, buscando validação imediata. O tédio o esperava em casa, no trabalho, no espelho do banheiro. Naquela situação, ele não sabia nomear o que sentia, só que precisava de barulho para não ouvir o próprio silêncio.

Logo em seguida, Elisa desembarcava revigorada, serena e com a mente clara. Mas, ao sair do aeroporto, olhou para o céu nublado e percebeu algo incômodo: a clareza que trouxera do voo já começava a se dissipar diante das notificações, dos compromissos, das demandas do mundo. Ela sabia que, em breve, a sinfonia reconstruída na memória seria substituída por prazos, reuniões, conversas superficiais. A solidão que a libertara no avião seria, em terra, um luxo difícil de sustentar.

No saguão, seguiram em direções opostas. Daniel caminhava depressa, já ao telefone. Elisa diminuiu o passo antes de desaparecer entre os demais passageiros.

Nenhum dos dois encontrou a redenção definitiva. Ambos apenas foram devolvidos a si mesmos, nua e cruamente. Ele, com seu vazio; ela, com sua riqueza interior — mas também com a consciência de que essa riqueza exige vigilância constante.

No pátio, o avião estava vazio e seguindo para as inspeções e manutenções de rotina. O próximo voo partiria em breve, com novos passageiros, novas telas, novos silêncios.

Por doze horas, Elisa não sentiu falta de nada — nem tédio, nem dor, nem do resto do mundo. Daniel, nem por um instante.

Esperei os demais passageiros deixarem o saguão antes de seguir meu caminho. Durante todo o voo pensei que estivesse apenas assistindo à história daqueles dois, mas não, eu percebi que a pergunta era outra: quando todas as telas se apagam, quem sobra em mim?


Ao emitir a própria luz

 

por Giovanni Angius, em 1/8/2026.

Pensando em

Clóvis de Barros Filho, explicador.

Antes de ser o professor de história da escola do bairro, Antônio era um observador muito atento do mundo, sobretudo das pessoas. Reparava os comportamentos, na forma como a luz do fim de tarde atravessava as frestas de uma janela, no ritmo acelerado dos passos dos transeuntes na calçada e na geometria simples dos livros empilhados sobre a sua escrivaninha.

Quando os primeiros sinais da Doença de Behçet surgiram — as lesões dolorosas na boca que tornavam o ato de falar um suplício e a neblina densa que começou a cobrir seu olho esquerdo —, o diagnóstico veio como um divisor de águas. Não havia grandes holofotes ou plateias para testemunhar sua dor; havia apenas a sala de aula de paredes descascadas, o giz entre os dedos e o peso das manhãs em que o corpo parecia recusar o movimento.

A medicina recomendou o repouso, a contenção, o recolhimento. Prescreveram-lhe o silêncio e o isolamento como forma de preservar o pouco de visão que lhe restava e evitar os surtos de inflamação.

Por uns tempos, Antônio tentou a vida sob a redoma. Fechou as cortinas de casa, pediu licença do trabalho e limitou-se ao espaço seguro do seu quarto. Descobriu, contudo, que sua mera duração biológica não preenchia as horas. A vida desprovida do encontro, do movimento e do trabalho tornava-se uma espera estéril. Nas noites de insônia, ouvia gravações antigas de um pensador de quem gostava, e uma frase voltava sempre, como um refrão que ele não sabia se era consolo ou acusação: não é o tempo que se dura, mas o que se faz dele.

Em uma certa manhã no meio da semana, contra o conselho prudente dos médicos e o olhar preocupado da família, o professor Antônio ajustou os óculos de lentes espessas, pegou a sua surrada pasta de couro e caminhou de volta à escola.

Voltar não é cura, mas somente uma escolha.

Na sala de aula, cada palavra pronunciada exigia um esforço físico real devido às aftas recorrentes. Enxergar o rosto dos alunos na última fileira tornara-se impossível — via apenas vultos, sombras e expressões borradas. Mas Antônio compensava a visão com a escuta afiada e a paixão no tom de voz. Quando explicava as transformações do mundo, ele não precisava do quadro negro; a história fluía de sua memória com uma vivacidade que se espalhava entre os adolescentes.

Ele assumiu os riscos. Sabia que o cansaço excessivo e a exposição diária poderiam desencadear novos episódios inflamatórios. Mas, para Antônio, estar ali — diante de tantos jovens, provocando neles o estalo da curiosidade — era a sua verdadeira razão de ser.

“Existir é gastar-se naquilo que se ama,” pensava ele ao cruzar o pátio nos intervalos.

Antônio nunca deu entrevistas, não publicou livros de sucesso nem lotou teatros. Permaneceu em sua modesta arena: o trajeto de ônibus, sua serena vida em família, a sala de aula, as conversas com amigos diletos no balcão da padaria ao lado de casa.

No entanto, a coragem com que encarou o seu destino transformou a vida daqueles que o cercavam. Os alunos aprendiam história, mas aprendiam, sobretudo, uma lição silenciosa sobre a dignidade de viver plenamente, mesmo quando o corpo conspira pelo recuo.

Ao fim de cada dia, no retorno para casa, cansado e com os olhos ardendo pela penumbra que avançava sobre sua visão, Antônio sentava-se em sua poltrona. Não havia aplausos ao fechar da cortina, apenas o silêncio da noite e a paz profunda de quem, todos os dias, escolhia sair de casa. Porque havia descoberto que algumas pessoas não atravessam o mundo apenas procurando luz. Vivem para emitir a sua.