Uma noite de São João


 É junho, e o Brasil inteiro parece se render ao mesmo chamado: as fagulhas da fogueira se perdendo no céu, as bandeirinhas coloridas balançando no vento, a quadrilha se organizando no meio do salão, o aroma da comida quentinha espalhando-se no ar. Festas assim parecem parar o tempo por horas e nos devolver a um lugar mais simples, de infância e raiz.

Fico pensando, enquanto escrevo isso, o quanto essa festa que a gente vive hoje carrega séculos de história dentro dela. Tem quem diga que o nome vem simplesmente do mês de junho. Tem quem diga que vem de “joanina”, em homenagem a São João. E há uma origem ainda mais antiga, mesmo não sendo lá muito consensual na Europa, antes mesmo de a Igreja Católica entrar em cena, os celtas já celebravam o solstício de verão e a época da colheita com fogueiras e rituais, numa festa que os romanos chamavam de “junônia”, em homenagem à deusa Juno. Com o tempo, a Igreja foi incorporando esses costumes ao calendário religioso, e a celebração passou a girar em torno de São João.

Foram os portugueses que trouxeram tudo isso para o Brasil, e aqui a festa se misturou com os rituais indígenas ligados à agricultura e com influências de outros povos. A quadrilha, por exemplo, é filha da dança marcada que veio da França. Os fogos de artifício chegaram lá da China. E de Portugal e Espanha vieram a dança das fitas e boa parte dos elementos religiosos que ainda hoje fazem parte da festa.

É bonito pensar nisso: uma festa que atravessou continentes e séculos, e que hoje explode em proporções gigantescas em Caruaru e Campina Grande, que disputam o título de maior São João do mundo, ou ganha um tom mais rural e caseiro no Brasil caipira, entre Minas, São Paulo, Goiás e Paraná.

Mas ontem à noite, a minha festa junina não foi nada disso. Foi bem menor, bem mais recatada. Estive numa festança organizada por uma Loja Maçônica aqui em Vitória, minha cidade. Sem a euforia das grandes festas nordestinas, mas sem perder nem um pingo da alegria. Era gente da própria Ordem, famílias inteiras reunidas, e ali estavam praticamente todos os símbolos que a gente espera de uma festa dessas: comida e bebida típica, o sanfoneiro animando o salão, a decoração toda colorida, e ainda teve bingo, leilão e até correio do amor — aquela brincadeira antiga de mandar bilhetinhos anônimos que sempre arranca um sorriso de quem recebe.

Comi um pouco de tudo. O milho é a estrela de junho, e não tem como resistir: pamonha, canjica, cural, o próprio milho cozido, pipoca, arroz doce, cuscuz, bolo de milho, broa de fubá. E o inesquecível pé-de-moleque preparado pelo irmão Tesolini. Confesso: só ele já faria valer a festa. Houve maçã do amor e quentão a esquentar o corpo, porque o inverno por aqui também cobra seu tributo, mesmo que pequeno e passageiro.

Mas o que fica mesmo de uma noite dessas não é só a comida, nem a fogueira, nem a quadrilha. É o que ela desperta por dentro. Entre um gole de pinga e outro de cerveja, fui percebendo que a festa de verdade estava acontecendo em outro lugar: dentro de mim. Via minha família espalhada entre os irmãos da Loja, via amigos antigos, meus convidados naquela noite, e sentia aquela sensação boa, quase morna, de pertencimento.

Pensei em equilíbrio — Aristóteles sempre presente! — naquele costumeiro meio termo que a vida pede. Ri sozinho: a vida boa passa tanto pelos gestos de moderação quanto pelos escorregões etílicos de uma noite gostosa e pela gula sem culpa de comer pés‑de‑moleque até não poder mais.

A festa junina, no fim das contas, é isso: uma mistura de fé, história, cultura e afeto que atravessa gerações. Seja em Caruaru, no interior de Minas ou na modesta Orvalho do Hermon, ela continua acontecendo em nossa Loja, ano após ano. E ontem, mais uma vez, ela conseguiu o que sempre faz de melhor: reunir gente querida em torno de uma fogueira, ainda que essa fogueira, no fim da noite, estivesse acesa mesmo era dentro do peito.


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