Dias atrás, encontrei no Instagram um vídeo com um sobrevoo pela orla de Vitória. Começava na Praia de Camburi, deslizava sobre o morro do Sacré-Cœur, seguia em direção ao Iate Clube, passava pela Ilha do Frade, pela Guarderia, pela Curva da Jurema, contornava a Ilha do Boi e terminava com uma imagem que parecia cuidadosamente composta: um navio cruzando sob a Terceira Ponte, enquanto o Convento da Penha permanecia ao fundo, silencioso, como alguém que observa gerações inteiras passarem sem jamais abandonar o mesmo lugar.
Assisti ao vídeo mais de uma vez. Não apenas porque era bonito, mas porque, de algum modo, ele despertava uma cidade que existe dentro de mim há muito mais tempo do que qualquer fotografia ou filmagem poderia registrar.
Demorei a perceber que eu não estava vendo apenas uma cidade. Estava reencontrando uma parte de mim.
Vitória sempre me pareceu uma obra inacabada. Uma cidade que nunca deixou de se reinventar. Cresceu sobre aterros, mudou de contornos, empurrou o mar para mais longe, abriu avenidas, redesenhou bairros. Ao olhar aquele voo sobre a orla, percebi que eu também havia acompanhado parte dessa transformação — primeiro como menino curioso, depois como jovem e, finalmente, como alguém que aprendeu a medir o tempo pelas mudanças da paisagem.
Lembrei-me dos anos 1970, quando eu pedalava minha Monareta pelas proximidades do aterro da Comdusa. Os montes de terra vermelha espalhados sobre as novas áreas abertas sobre a areia recém drenada do mar me pareciam um espetáculo quase fantástico. Para um adolescente, era como assistir ao nascimento de um território. Onde havia água, surgia chão. Onde antes terminava a cidade, outra começava a existir.
Naquela época, eu não tinha palavras para explicar o que via. Apenas sentia que as cidades também eram organismos vivos. Cresciam, mudavam de forma e carregavam consigo as marcas das escolhas de cada geração.
Com o tempo, descobri que Vitória sempre fora assim. Desde os antigos aterros, passando pelas sucessivas ampliações de seu território, a cidade nunca permaneceu exatamente igual. Talvez sua própria identidade esteja nessa capacidade de transformar-se sem perder completamente a alma.
Mas minhas primeiras lembranças de Vitória são ainda mais antigas e muito menores em escala. Antes das bicicletas, havia as caminhadas.
Vejo-me novamente menino, uniformizado para as aulas no antigo Grupo Escolar Padre Anchieta. Saía da casa de minha avó Malvina, na avenida Paulino Müller, e seguia até a avenida Vitória. Cada quarteirão parecia uma descoberta. O estádio do Rio Branco surgia diante dos meus olhos como uma construção gigantesca. As árvores, as calçadas, as esquinas e até os pequenos comércios participavam daquela geografia afetiva que eu começava a construir sem perceber.
Hoje compreendo que aprendemos uma cidade antes de conhecermos seus mapas. Aprendemos pelos cheiros depois da chuva, pelo barulho dos ônibus, pelas sombras das árvores, pelas padarias da esquina, pelos caminhos repetidos diariamente. Antes de ser um conjunto de ruas, uma cidade se torna uma coleção de experiências.
Talvez seja por isso que as mudanças urbanas nunca sejam apenas arquitetônicas. Quando um lugar desaparece, não perdemos somente uma paisagem; reorganizamos silenciosamente parte da nossa própria memória. A antiga Praia do Canto foi se transformando até virar a Praça dos Namorados, e ruas tranquilas passaram a ter outro ritmo. Nada disso, porém, apagou minhas lembranças. Apenas fez com que elas passassem a coexistir com uma cidade diferente daquela em que nasceram.
Foi lendo Henri Bergson que encontrei uma ideia capaz de explicar esse sentimento. Para o pensador francês, o passado não fica armazenado como algo morto; ele permanece vivo dentro de nós e participa continuamente daquilo que somos. A memória não é um depósito de imagens antigas, mas uma presença que acompanha cada novo olhar lançado sobre o mundo.
Percebo que é exatamente isso o que acontece quando volto a observar Vitória. Não comparo simplesmente duas cidades — a de ontem e a de hoje. O que encontro é o diálogo entre a pessoa que fui e aquela que continuo tentando ser.
Durante muito tempo, pensei que a nostalgia fosse apenas saudade. Hoje acredito que ela possa ser também uma forma de reconhecimento. Não volto ao passado para morar nele, mas para compreender melhor o caminho percorrido. As lembranças deixam de ser um abrigo contra o presente e passam a funcionar como raízes. Elas não impedem o crescimento; ao contrário, sustentam-no.
Ao rever aquele vídeo, percebi que Vitória está mais bonita do que jamais esteve. A vista aérea revela uma cidade harmoniosa, cercada pelo mar e pelas montanhas, resultado de séculos de transformações. A beleza que hoje enxergo, porém, não elimina a cidade que trago comigo. As duas convivem sem conflito. Uma existe diante dos meus olhos; a outra continua habitando minha memória.
Talvez seja esse o verdadeiro privilégio de envelhecer numa mesma cidade: descobrir que ela também envelhece conosco. Ambos mudamos de contorno, acumulamos marcas, perdemos algumas paisagens e ganhamos outras. Ainda assim, permanecemos reconhecíveis.
Fechei o vídeo com um sorriso tranquilo. Vitória continua avançando, como sempre fez. E eu também. Porque percebi que as cidades não vivem apenas sobre a terra que conquistam do mar; vivem igualmente no território invisível das lembranças. É ali, afinal, que elas continuam ajudando cada um de nós a entender quem foi, quem é e quem ainda deseja se tornar.
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