Dez horas


 Segunda‑feira, pouco depois das seis da manhã, o celular vibrou antes mesmo de eu decidir se já estava acordado. Não era mensagem nem ligação; era o relatório semanal, discreto e quase educado, como quem pede licença antes de dar uma notícia: “Você passou dez horas a mais na tela esta semana.”

Fiquei olhando para o número durante alguns segundos. Dez horas. Não parecia possível. A primeira reação foi procurar um engano como quem confere uma conta bancária, esperando descobrir um erro do sistema. Mas não havia erro nenhum. Aquelas dez horas eram minhas. Ou melhor, tinham sido minhas.

Levantei, fiz a higiene da manhã e fui preparar o café. Enquanto a água esquentava, fiquei pensando em como alguém consegue gastar dez horas sem perceber. Não foi uma maratona de filmes. Não foi uma viagem. Não foi um curso. Foram minutos espalhados pelo dia, recolhidos aqui e ali, uma espiada rápida numa notícia, outra num vídeo, mais uma mensagem, uma curiosidade qualquer que puxava a próxima, e assim por diante. Quando vi, a semana tinha ido embora carregando dez horas no bolso.

Mais tarde, comentei o assunto com meu filho, Bruno. Ele deu uma risadinha.

— Pai, isso acontece com todo mundo — disse, dando de ombros.

Falou como quem diz que a chuva molha ou que o café esfria. E ele tinha razão. Acontece com todo mundo. Mas o fato de acontecer com todo mundo não faz desaparecer o espanto. Passei o resto do dia com aquele número rondando a cabeça.

O curioso é que, sem o relatório, aquelas dez horas simplesmente não existiriam para mim. Eu não sentiria falta delas. Não lembraria de nenhuma em especial. Teriam escorrido silenciosamente entre uma tarefa e outra, dissolvidas naquela impressão confortável de que o dia passou voando.

Foi o celular que mediu meu tempo. O julgamento veio depois, feito por mim mesmo. Achei curioso depender justamente da máquina para descobrir o que eu havia feito diante dela. Olhei novamente para o relatório mais tarde, quase desconfiado de que tivesse lido errado. Continuava lá.

Dez horas.

Fui até a janela. A rua seguia seu movimento habitual. Um rapaz atravessava a calçada olhando para o telefone. Uma senhora esperava o ônibus deslizando o dedo pela tela. Um casal caminhava junto, mas cada um parecia conversar com alguém que não estava ali. Não havia nada de extraordinário naquela cena, mas justamente por isso ela chamava tanta atenção. Ninguém parecia descansar nem mesmo enquanto esperava. Era como se todos estivessem sempre ocupados com alguma urgência invisível.

Pensei, por um instante, que bastaria abandonar as redes sociais. Acabaria o problema. Logo percebi que essa ideia tinha alguma coisa de ingênua.

Se eu fechasse todas as minhas contas hoje, amanhã o mundo continuaria exatamente igual. Os aplicativos continuariam funcionando, os algoritmos seguiriam aprendendo, as notificações encontrariam outros bolsos para vibrar. Meu gesto passaria despercebido.

Foi então que outras perguntas apareceram: será que o problema era o telefone? Ou seria aquela facilidade enorme que nós temos de entregar pequenos pedaços da vida sem perceber?

Não encontrei respostas.

À tarde, fui resolver umas coisas em Vila Velha; após estacionar o carro, caminhei devagar, sem pressa. As vitrines refletiam pessoas indo e vindo, carros, bicicletas, vendedores ambulantes. De vez em quando alguém levantava os olhos por um segundo, só para atravessar a rua, e logo voltava para a tela, como se o mundo físico fosse apenas um intervalo entre duas notificações.

Pensei num tempo em que esperar numa fila significava observar as pessoas. Hoje significa verificar mensagens. Esperar um ônibus era olhar a cidade. Agora é atualizar a página para ver se apareceu alguma novidade desde os últimos trinta segundos. Talvez toda geração ache que a seguinte viverá pior. Não sei.

Também não acredito que exista um botão capaz de devolver um passado que provavelmente era melhor apenas porque ficou distante.

Mesmo assim, enquanto voltava para casa, fiquei pensando que dez horas representam muita coisa. É suficiente para ler um bom livro, conversar demoradamente com um amigo, passear sem destino. Ou, simplesmente, sentar na varanda sem fazer absolutamente nada.

À noite, antes de dormir, peguei novamente o celular. Sorri sozinho diante da ironia. Bloqueei a tela quase imediatamente.

O visor apagou e vislumbrei o meu próprio reflexo no vidro escuro. O quarto ficou quieto e pude ouvir o ruído do ventilador. Vi uma minúscula aranha perto do teto e, pela primeira vez no dia, acompanhei um pensamento até o fim. Aquele instante era apenas meu.


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