por Giovanni Angius, em 26/7/2026
Há um ditado que ouvi tanto a vida inteira que já nem lembro de quem primeiro me contou: quem caminha sozinho chega mais rápido, quem caminha acompanhado chega mais longe. Sempre achei bonito e um tanto óbvio, uma frase que a gente concorda sem pensar direito. Foi revendo umas fotos antigas guardadas no computador que entendi de verdade o que ela queria dizer. E entendi por que me lembrei de Gustavo e Giulia.
Fui estagiário do escritório dos dois, lá no começo, quando ainda cabíamos todos em uma sala só, e o café era feito na mesma cafeteira velha que vivia pifando. Gustavo chegava cedo. Desenhava rápido, decidia rápido e parecia sempre medir o tempo por prazos que só ele enxergava. Giulia era o oposto: chegava suada de tanto andar pelos bairros, conversando com gente que a maioria das pessoas nem cumprimenta. Ela dizia que um prédio só existe de verdade depois que alguém aprende a amá-lo, e Gustavo revirava os olhos toda vez que ouvia isso.
Quando surgiu o concurso da reurbanização, era possível sentir a tensão no ar da sala, quase palpável. Gustavo queria desenhar a solução perfeita e entregar antes do fim do prazo. Giulia queria ouvir o bairro inteiro primeiro. Eu me limitava a fazer cópias, organizar e carregar plantas de um lado para o outro. Via os dois se afastando um pouquinho a cada dia, como duas pessoas que caminham lado a lado numa calçada e, sem perceber, vão abrindo distância até virarem duas calçadas diferentes.
Giulia saiu antes do fim. Lembro do silêncio dela guardando as coisas numa caixa de papelão, sem drama, apenas cansaço. Gustavo terminou o projeto sozinho, dormindo pouco, vivendo de café, e venceu o concurso. Todo mundo comemorou. Eu também comemorei, porque tinha vinte e poucos anos e achava que vencer era a coisa que importava.
Não trabalhei mais com nenhum dos dois depois disso, mas fui acompanhando de longe, como a gente acompanha gente que marcou a nossa formação. Gustavo virou nome grande, prêmio atrás de prêmio, revista atrás de revista. Só que o próprio edifício que o consagrou nunca colou direito com a cidade. Ficou bonito, ficou frio, ficou meio vazio até nos dias de sol. Giulia sumiu do circuito das premiações, foi trabalhando devagar, junto de conselhos de bairro e comunidades, construindo uma reputação que demorou quinze anos para aparecer numa manchete.
Alguns anos atrás, os caminhos deles se cruzaram outra vez, num projeto de requalificação de um centro histórico, grande demais para qualquer um tocar sozinho. Gustavo entrou como arquiteto principal. Giulia entrou como responsável pela parte de preservação e escuta social. Fui a uma das reuniões públicas, mais por curiosidade do que por trabalho, e reconheci os dois na mesma sala depois de tanto tempo, num silêncio que dava para cortar com faca.
O que me marcou foi ver Gustavo, ali, escutando. Escutando de verdade, sem aquele jeito de quem espera a vez de falar. Alguém da plateia perguntou por que o projeto estava demorando tanto para sair do papel, e foi Giulia quem respondeu, calma, dizendo que a cidade não se constrói no ritmo de quem tem pressa, e sim no ritmo de quem vai morar nela depois. Gustavo concordou com a cabeça. Fiquei olhando aquela cena pensando em como o tempo trabalha estranho: ele tinha vencido rápido demais lá atrás, e isso o condenou a repetir a mesma solidão em cada obra nova. Ela tinha perdido tempo, reconhecimento, talvez até um pouco de si mesma nesse processo, mas o que construiu ficou de pé, ficou vivo, ficou habitado.
Ao final da reunião, saí pensando no ditado de novo. Achei que ele estava incompleto. Porque não é só uma questão de chegar mais rápido ou mais longe. É que existe um tipo de obra que só nasce do atrito entre duas pessoas que discordam e continuam ali, teimosamente, uma do lado da outra. Pela primeira vez, tive a impressão de que Gustavo já não precisava controlar todas as respostas. Também me pareceu que Giulia aprendera que apenas ouvir a todos nem sempre bastava para erguer algo sólido.
Não sei se aquele centro histórico vai durar cem ou duzentos anos. Quem há de saber? Mas sei que agora os vi juntos construindo a mesma coisa, no mesmo ritmo, e isso já parece uma vitória maior do que qualquer troféu numa prateleira.
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