Calibrando a consciência


 Demorei para entender: a cooperativa não tinha uma falha — tinha duas verdades convivendo sem se olhar.

Conheci Artur antes de saber o que ele fazia. Lembro de admirar sua meticulosidade, a forma como ele parecia enxergar cada parafuso daquele mecanismo bem lubrificado que era a cooperativa. Só depois entendi que ver os parafusos tão de perto também é uma forma de saber exatamente qual deles afrouxar sem que ninguém perceba. A margem de 0,5% na pesagem, aquele detalhe técnico que qualquer um tomaria por um dado inofensivo do ofício, virou para ele uma porta lateral. E o que mais me perturba, olhando agora, é que ele nunca precisou mentir. Bastava manter-se dentro da norma. A conformidade era o próprio disfarce.

Beatriz eu conheci de outro jeito — pela admiração que todos tínhamos por ela. E confesso que também fui, por um tempo, capturado por essa admiração. Como duvidar de quem cuida dos cooperados idosos, de quem se desgasta pelos outros? Só mais tarde percebi que o sacrifício dela, verdadeiro ou apenas cuidadosamente cultivado, havia se transformado em moeda. Uma moeda que comprava silêncio. Não era preciso que mentisse, nem que defendesse Artur. Bastava que, nas assembleias, lembrasse a todos do quanto os colegas se esforçavam e das dificuldades enfrentadas por cada um. Pronto: a pergunta técnica que alguém estava prestes a fazer sobre a calibração da balança morria antes mesmo de nascer, engolida por um constrangimento difuso. Aprendi ali algo que ainda me acompanha: existe um tipo de poder que não precisa argumentar, porque já ocupou o lugar onde os argumentos nasceriam.

E, ainda assim, não houve conluio. Artur e Beatriz nunca combinaram nada, não houve encontros secretos, nem promessas sussurradas, nem um pacto selado entre quatro paredes. É essa ausência de conspiração que me faz desconfiar das explicações fáceis sobre a corrupção — aquelas que exigem vilões conscientes e planos meticulosamente arquitetados. Ali havia apenas dois interesses que se encaixavam como engrenagens: o sigilo de um encontrando abrigo no silêncio que o outro sabia produzir. Desde então, volta e meia me pergunto quantas vezes participei, sem perceber, desse mesmo mecanismo. Quantas perguntas deixei de fazer porque pareciam indelicadas diante de alguém reconhecido como exemplo de dedicação? Quantas vezes confundi respeito com renúncia ao senso crítico?

Calibramos máquinas; esquecemos de calibrar a atenção.

Foi um empregado novo, sem vínculo afetivo com ninguém dali, quem quebrou o feitiço. E isso também me ensinou alguma coisa. A isenção, tantas vezes confundida com frieza, pode ser justamente a condição necessária para enxergar aquilo que os afetos insistem em esconder. Ele não tinha dívida de gratidão com Beatriz, nem reverência histórica por Artur. Tinha apenas números que não fechavam. Enquanto nós víamos pessoas, ele via fatos. E foram os fatos que acabaram revelando quem as pessoas realmente eram.

O auditor Dirceu comentou: “a moral é questão de ponto de vista” — frase que me parecia cinismo e virou pergunta permanente. Sempre imaginei a moral como o conjunto de valores que aprendemos desde cedo, aquilo que uma comunidade considera digno, correto ou honrado. Só que, pensando melhor, percebi que por serem compartilhados esses valores também podem ser utilizados como escudo. A boa reputação de Artur e a dedicação de Beatriz funcionavam como um patrimônio de confiança acumulado ao longo dos anos. Não impediam perguntas; faziam com que ninguém tivesse coragem de formulá-las.

Foi então que comecei a suspeitar de outra diferença, mais sutil. Talvez a ética não esteja apenas em possuir valores, mas na disposição permanente de examiná-los, inclusive quando isso nos obriga a desconfiar das pessoas que mais admiramos — e, em certas ocasiões, de nós mesmos. A moral costuma oferecer respostas confortáveis sobre quem é bom e quem merece confiança. A ética, ao contrário, parece sussurrar que nenhuma virtude está dispensada de ser confrontada pelos fatos. Ela não destrói a confiança; apenas nos lembra que confiança e vigilância não são inimigas.

Fico pensando, agora, no que a cooperativa aprendeu depois de tudo aquilo: auditorias externas, canais anônimos de denúncia, calibrações redundantes, controles mais rigorosos. Tudo isso era necessário e provavelmente evitou que novos desvios acontecessem. Mas a lição que levo comigo é outra, muito menos suscetível de virar regulamento. Descobri que a autoridade moral legítima e a autoridade que apenas parece legítima se assemelham demais quando observadas de perto. Que o sacrifício verdadeiro e o sacrifício cuidadosamente narrado produzem o mesmo silêncio ao redor de quem os invoca. E que talvez a única defesa realmente eficaz não seja institucional, mas pessoal: conservar a coragem de perguntar, mesmo quando perguntar pareça, naquele instante, um gesto de ingratidão.

Não sei se teria sido o empregado novo, isento e sem laços, capaz de notar o que todos nós, tão próximos daquela realidade, preferíamos não enxergar. Talvez a distância lhe tenha devolvido um olhar que havíamos perdido. Ou talvez fôssemos nós que, embalados pela confiança e pelos afetos, deixamos de exercitar a única vigilância que realmente importa: aquela que não se deixa adormecer pela aparência das virtudes. É essa dúvida, mais do que qualquer manchete ou condenação, que continua caminhando ao meu lado.


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