por Giovanni Angius, em 29/7/2026.
A chuva escorria pelo vidro da janela desenhando caminhos tortos. Lá fora fazia frio. Lá dentro, cheiro de álcool, café requentado e cansaço. Eu estava sentado numa cadeira de plástico azul, dessas que parecem sempre um pouco menores do que a gente precisa, esperando minha vez de ser chamado.
Quem frequenta um pronto-socorro sabe que existe um tempo diferente ali. O relógio continua preso à parede, os ponteiros continuam girando, só que as horas parecem perder o compromisso com a pressa.
Foi nesse intervalo estranho que reparei numa senhora sentada algumas cadeiras adiante. O neto dormia em seu colo, ou tentava dormir. O rosto vermelho denunciava a febre, e ela passava um lenço úmido sobre a testa do menino como quem repetia um gesto aprendido muito antes de existirem os termômetros. Ela havia chegado horas antes de mim.
Enquanto observava a cena, meus olhos foram parar num cartaz pendurado na parede. Nele aparecia a fotografia sorridente do diretor do hospital. Terno impecável, gravata alinhada e um slogan otimista logo abaixo: “Gestão Presente, Eficiente e Humana.”
Fiquei olhando aquele retrato por alguns minutos. Engraçado como uma fotografia consegue parecer mais segura do que a realidade ao redor.
Sem perceber, minha cabeça começou a procurar uma explicação. Se o diretor conhecia aquela fila, sabia da febre do menino e tinha autoridade para mudar as coisas, por que tudo permanecia exatamente igual?
Logo descartei essa hipótese. Era dura demais.
Pouco depois, um senhor que também aguardava atendimento comentou que o diretor devia ser uma excelente pessoa. Disse que fazia o possível pelo hospital e que, se estivesse ali vendo aquela sala lotada, certamente daria um jeito.
Aquilo embaralhava completamente o cenário.
Quem sabe o problema fosse outro. O homem da fotografia vivia cercado de relatórios, planilhas e reuniões, enquanto a realidade seguia outro caminho, bem distante da sala onde assinava papéis. Entre o gabinete e a sala de espera havia uma distância maior do que a mostrada no elevador.
Não demorou muito para surgir outra versão. Uma enfermeira passou apressada pelo corredor e, conversando com outra funcionária, comentou que a direção conhecia perfeitamente a situação. O problema eram os médicos insuficientes, a falta de recursos e medicamentos, os equipamentos quebrados, os repasses atrasados. Ouvi aquilo sem querer, como acontece em qualquer sala de espera.
Pensei, então, que havia gente que enxergava o sofrimento, desejava resolvê-lo e, mesmo assim, esbarrava em obstáculos maiores do que a própria vontade.
Enquanto eu alinhava essas ideias na cabeça, um homem sentado perto da porta tomou o último gole de café e falou quase num sussurro, sem dirigir a palavra a ninguém em especial:
— O diretor existe. Só vive ocupado demais para descer aqui.
Sorri discretamente. A frase parecia brincadeira, mas carregava um peso inesperado.
Naquele instante percebi que todos nós construíamos explicações diferentes para suportar a mesma espera. Cada pessoa inventava uma história capaz de tornar aquele sofrimento um pouco mais compreensível.
A avó seguia refrescando a testa do menino. Uma criança brincava com um carrinho sem uma roda. Uma televisão ligada no volume baixo alternava notícias com receitas culinárias que ninguém assistia.
A chuva continuava caindo fria do lado de fora. E a vida seguia fazendo a sua parte ali dentro.
Naquele instante percebi que todos nós construíamos explicações diferentes para suportar a mesma espera. Quando alguma coisa dói, procuramos alguém que saiba o que está acontecendo, alguém que tenha condições de resolver ou, pelo menos, alguém que se importe. É um jeito de convencer o coração de que existe alguma lógica escondida por trás do caos.
Às vezes encontramos apenas uma fotografia sorridente numa parede descascada.
Quando finalmente chamaram o nome da Dona Maria, ela levantou devagar, ajeitou o menino nos braços e desapareceu pelo corredor.
Olhei a cadeira vazia que ela deixou para trás.
Pensei que, durante aquelas horas, quem realmente enfrentou a febre não foi o homem do cartaz. Foram as mãos enrugadas que seguraram o pano molhado, o abraço que embalou a criança e a paciência silenciosa de quem não tinha outra escolha.
Quando saí do hospital, levei comigo a impressão de que a fotografia na parede jamais responderia às perguntas que eu havia feito em silêncio. Quem respondeu, sem dizer uma palavra, foi Dona Maria, refrescando a testa do neto enquanto esperava.
Às vezes, o mundo continua sem explicação. Ainda assim, alguém pega um pano molhado, oferece um colo e segue em frente, fazendo o que é possível.
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