A lista

Não era exatamente um amigo — desses que a gente chama para um café demorado ou para dividir silêncios confortáveis. Também não era um estranho. Era um conhecido de rotina, desses que aparecem de tempos em tempos como se a vida fosse um corredor onde as pessoas se cruzam sem necessariamente caminhar juntas.

Quando soube do colapso nervoso, a notícia veio como vêm essas coisas hoje em dia: rápida, seca, quase sem contexto. Hospital, atendimento a tempo, recuperação em casa. Um susto. Mais um entre tantos que andam acontecendo por aí, como se o mundo tivesse decidido testar os limites de todo mundo ao mesmo tempo.

O encontro aconteceu por acaso. Ele parecia fisicamente melhor — mais magro, talvez, ou apenas mais quieto. Havia uma espécie de pausa nele, como se alguém tivesse finalmente apertado um botão que ele mesmo ignorava há anos. Conversaram.

Falava com uma lucidez que impressionava. Sabia exatamente o que precisava mudar: o ritmo de trabalho, a forma como dizia sim para tudo, o modo como deixava o dia ser consumido por urgências alheias. Sabia. Mas não fazia.

— Eu sei o que tem que ser feito — disse, com um meio sorriso cansado —, mas não consigo fazer.

Era como assistir a alguém descrevendo perfeitamente a saída de um labirinto enquanto permanecia parado no centro dele.

Disse que já havia tentado listas. Muitas listas. Listas de tarefas, de metas, de prioridades. Comprou agendas, baixou aplicativos, organizou horários. Nada durava. No começo, funcionava por alguns dias, talvez semanas. Depois, a vida voltava a engolir tudo.

Foi aí que, sem muita cerimônia, surgiu Sêneca na conversa. Não ficou claro quem trouxe o nome primeiro, mas se encaixou como uma peça antiga que ainda faz sentido.

Ele mencionou, meio de memória, a ideia central de Sobre a brevidade da vida: não é que a vida seja curta — nós é que a desperdiçamos.

Houve um silêncio breve depois disso.

— Eu acho que desperdicei bastante — disse ele, olhando para um ponto qualquer.

A resposta veio quase automática, mas sem tom de lição:

— A gente só tem o presente. O passado não muda, o futuro não garante nada.

Ele assentiu, como quem já sabia disso também. Sabia de tudo, aliás. Esse era o problema.

Porque saber, como ficou evidente naquela conversa, não é o mesmo que viver de acordo com o que se sabe.

Sêneca, em seus textos, criticava justamente essa ilusão de abundância de tempo. Dizia que as pessoas protegem seus bens com zelo, mas entregam o tempo — o único recurso verdadeiramente insubstituível — a qualquer distração, a qualquer exigência externa. Não por maldade, mas por descuido.

Aquele homem parecia um exemplo vivo disso.

Sua vida, pelo que contou, era uma sucessão de demandas que não eram exatamente dele. Expectativas de outros, prazos de outros, urgências de outros. Ele havia se tornado, aos poucos, um gestor da vida alheia, enquanto a própria existência ficava em segundo plano.

— No fim — disse ele —, acho que eu existi mais do que vivi.

A frase ficou no ar, pesada, porque não era dramática. Era simples. E talvez por isso mesmo, mais verdadeira.

Ele não parecia alguém em busca de grandes mudanças revolucionárias. Não falava em largar tudo, viajar o mundo ou reinventar a própria identidade. Falava de coisas menores — e, paradoxalmente, mais difíceis: organizar o tempo, escolher melhor o que merece atenção, aprender a dizer não.

Coisas simples. Mas nada fáceis.

A tal da lista, que dava título à conversa quase sem querer, reapareceu no fim.

— Talvez eu precise de uma lista diferente.

— Diferente como?

Ele pensou um pouco antes de responder.

— Menos coisas. E mais verdadeiras.

Não era exatamente uma inovação metodológica. Não havia ali nenhuma técnica inédita de produtividade. Mas havia algo mais raro: uma tentativa honesta de alinhar o que se faz com o que se sabe.

Sêneca também alertava sobre isso: não basta acumular ensinamentos como quem coleciona objetos. É preciso incorporá-los, vivê-los, transformá-los em prática. Caso contrário, o conhecimento vira apenas mais uma forma de ilusão.

Despediram-se sem promessas.

Ele seguiu seu caminho, ainda em recuperação — o corpo respondendo melhor, a mente tentando acompanhar. Havia dúvidas, claro. Sobre se conseguiria, de fato, romper com o padrão que o levou até ali. Sobre se a lucidez resistiria ao retorno das pressões cotidianas.

Mas havia também algo novo, ainda que discreto.

Uma consciência mais nítida de que o tempo não falta — é mal distribuído. E de que viver não é apenas continuar, dia após dia, cumprindo tarefas, mas escolher, com algum cuidado, quais delas realmente merecem ocupar o espaço limitado da existência.

Talvez sua nova lista nunca fique pronta. Talvez seja reescrita muitas vezes.

Mas, se houver algum progresso, não estará na quantidade de itens riscados — e sim na coragem de deixar de lado aquilo que, por muito tempo, ocupou espaço sem nunca ter merecido.


A melancolia das oito horas

 

Houve um tempo em que o domingo tinha relógio próprio. Não precisava olhar para ponteiro nenhum. Bastava ouvir certos sons da casa: o prato sendo guardado mais cedo, a sandália arrastando no corredor, o banho tomado sem pressa, a toalha pendurada na porta, o cheiro de café requentado vindo da cozinha. E, principalmente, bastava esperar chegar a noite.

Às oito horas, em muitas casas brasileiras, acontecia uma pequena cerimônia involuntária. A televisão, instalada como altar doméstico da época, anunciava com trombetas modernas:

— É fantástico… tchan…!

Pronto. Estava decretado. O domingo acabara.

Para aquele homem, então menino, aquilo nunca foi apenas a abertura de um programa. Era o som do portão fechando. O aviso de que a liberdade breve do fim de semana recolhia suas asas e partia sem se despedir. No dia seguinte haveria escola, depois trabalho, obrigações, filas, horários, cobranças, despertador. A semana vinha vindo como trem em trilho reto: impossível de impedir.

Ele percebia um aperto estranho no peito, embora ainda não soubesse dar nome ao que sentia. Não era exatamente tristeza. Também não era medo, mas uma mistura de tédio antecipado com saudade do que ainda nem tinha acabado. Uma sensação de vazio, dessas que entram sem bater e sentam no sofá da sala.

Curioso como certas vinhetas conseguem dizer mais sobre a existência humana do que muitos discursos.

Anos depois, já adulto, ao ler Blaise Pascal, encontrou palavras antigas para explicar aquele mal-estar dominical. O pensador francês do século XVII dizia que grande parte da infelicidade humana nasce da incapacidade de permanecer em repouso, sozinho, num quarto. Quando cessam as distrações, o homem se vê diante de si mesmo. E isso nem sempre é agradável.

Pascal chamava de divertissement o conjunto de distrações que usamos para fugir dessa confrontação interior. O termo não significa apenas “diversão”, no sentido moderno e leve da palavra. Trata-se de tudo aquilo que nos desvia de pensar na própria condição: jogos, conversas vazias, ambições incessantes, ruídos, tarefas sem necessidade, agitação constante. Não buscamos necessariamente a coisa em si, dizia ele, mas o movimento que ela produz.

Em outras palavras: às vezes a pessoa não quer a festa; quer não ficar sozinha consigo mesma. Não quer a viagem; quer o intervalo entre uma angústia e outra. Não quer a televisão; quer o barulho dela ocupando a casa e impedindo o silêncio de falar.

Talvez por isso o domingo à noite fosse tão desconfortável. Durante o dia ainda havia distrações disponíveis: almoço em família, futebol, visita, cochilo, rua, conversa jogada fora, crianças correndo, sorvete, rádio ligado. Mas quando chegava a noite, as atividades começavam a se recolher como pássaros voltando ao ninho. Restava uma espécie de clareza. E a clareza, às vezes, assusta.

Aquela vinheta dominical não criava o vazio; apenas o revelava. Funcionava como sino de mosteiro ao contrário: em vez de chamar para Deus, chamava para a rotina. Em vez de elevar a alma, lembrava obrigações futuras, cadernos por arrumar, uniformes por passar, metas por cumprir. O mundo recomeçaria em poucas horas, indiferente aos desejos individuais.

O menino não conhecia Pascal, claro. Não sabia nada sobre sua obra Pensamentos. Mas intuía algo essencial: havia momentos em que a vida fazia menos barulho, e justamente por isso ficava mais nítida. O domingo à noite era um desses momentos.

Foi também ali que começou sua antipatia por certos programas de variedades. Não por desprezo cultural, nem por pose intelectual. Era mais simples. Ele percebia, mesmo sem formular, que muita coisa servia apenas para preencher o tempo sem tocar a alma. Luzes, risadas, auditórios, celebridades e falatório — tudo isso parecia espuma cobrindo um poço fundo.

Enquanto outros assistiam com alegria genuína, ele sentia cansaço. Havia ruídos demais para pouca substância.

Com o passar dos anos, descobriu que aquela sensação não era só dele. Muita gente conheceu a chamada “melancolia de domingo”, esse vazio coletivo que visitava bairros inteiros no mesmo horário. Cada um sofria à sua maneira: alguns comiam mais, outros discutiam por bobagem, outros ligavam para alguém sem assunto, outros aumentavam o volume da TV.

Hoje, o divertissement continua vivo, apenas mudou de roupa. Hoje talvez não entre pela vinheta da televisão, mas pela rolagem infinita do celular, pelos vídeos curtos, pelas notificações, pela necessidade de estar sempre ocupado. O mecanismo é antigo: se o silêncio ameaça surgir, corre-se para qualquer barulho. Pascal diria que nada mudou no coração humano.

Quanto àquele homem, ainda hoje, quando escuta certas músicas de abertura ou sons de programas antigos, sente um eco distante no peito. Não chega a ser tristeza. Tampouco nostalgia. É outra coisa: é a lembrança de que existiu um tempo em que, aos domingos, às oito da noite, o universo parecia suspirar fundo e dizer:

— Agora encare a si mesmo.


Silêncio no elevador

 

Todo prédio tem seus ruídos oficiais: o portão que range, a moto que chega tarde, o cachorro do terceiro andar que late para existências invisíveis, a descarga apressada de algum vizinho e o arrastar de cadeiras em horários impróprios. O salto alto que não para de andar pela casa toda, uma jornada sem fim. Mas havia também o silêncio do elevador, e esse ninguém costumava notar.

Era uma mudez particular. Não o silêncio puro, impossível nas cidades, mas em suspensão. Assim que a porta metálica se fechava, parecia que o mundo lá fora ficava em pausa por alguns segundos. O elevador subia ou descia carregando sacolas, pressas, perfumes, problemas existencais e pequenas tragédias domésticas, tudo em absoluto constrangimento.

Naquela manhã de terça-feira, entrou primeiro o morador do 702. Terno azul, pasta preta, olhar de quem já estava atrasado desde 1998. Apertou o térreo e ficou examinando os números vermelhos no painel como se fossem ações da bolsa. No quarto andar entrou a senhora do 403, trazendo uma planta no colo e um cheiro de café recém-passado. No sexto, juntou-se o rapaz do 601, fones no ouvido, roupa de academia, expressão neutra de estátua moderna.

Os três desciam juntos, unidos apenas pelo cabo de aço e pela inconveniência da proximidade.

Ninguém se olhava. Cada um mantinha a antiga liturgia dos elevadores: fixar os olhos num ponto inexistente, tossir discretamente, conferir o celular sem necessidade ou estudar o teto como se houvesse ali afrescos renascentistas.

O narrador daquela cena — se existisse um narrador escondido na luminária — talvez lembrasse de Martin Heidegger, filósofo alemão que observou como o ser humano vive lançado no mundo, mergulhado em tarefas, hábitos e expectativas. Para ele, grande parte da vida corre sob o domínio do impessoal, aquilo que ele chamou de das Man, o “se”. “Se faz assim”, “se diz isso”, “se evita conversa no elevador”.

E como o “se” mandava, ninguém falava.

A senhora da planta até ensaiou um “bom dia”, mas o 702 consultava o relógio com severidade, e o 601 balançava levemente a cabeça ao ritmo de alguma música privada. O cumprimento morreu antes de nascer, como tantos projetos humanos.

No quinto andar, o elevador deu um pequeno tranco.

Nada grave. Apenas um soluço mecânico. Mas bastou para romper o encanto da impessoalidade. O homem do terno levantou os olhos. A senhora apertou a planta contra o peito. O rapaz tirou um dos fones.

— Ih — disse ele.

Foi a primeira palavra real daquele encontro.

O elevador seguiu normalmente, porém algo já havia mudado. O susto mínimo lembrou aos três que estavam ali juntos, de carne, osso e vulnerabilidade. Não eram apartamentos empilhados em caixas numeradas; eram pessoas dividindo a mesma caixa menor.

— Esses elevadores andam estranhos — comentou a senhora.

— Verdade — respondeu o homem do terno, com voz surpreendentemente gentil. — Semana passada travou no oitavo.

— Sério? — perguntou o rapaz, agora completamente sem fones.

E pronto. O mundo se abriu em conversa de trinta segundos.

Descobriu-se que a planta era uma jiboia teimosa, resistente à falta de luz; que o rapaz trabalhava à noite e treinava cedo para espantar o cansaço; e que o homem do terno era contador e tinha medo secreto de lugares fechados, ironia que a vida lhe cobrava diariamente.

Quando chegaram ao térreo, já não eram estranhos absolutos. Também não eram amigos, claro. Ninguém sairia dali para jantar junto ou fundar uma república comunitária. Mas havia surgido algo raro nas cidades: o reconhecimento mútuo.

Heidegger talvez sorrisse, se os filósofos sorrirem dessas coisas. Porque ele dizia que o cotidiano tende a nos dissolver no anonimato das rotinas. A gente acorda, trabalha, responde mensagens, paga contas, repete opiniões prontas e circula entre outros como quem desvia de postes. Vive-se muito, presencia-se pouco.

No elevador daquele prédio, por alguns segundos, a engrenagem falhou — e ainda bem.

O 702 segurou a porta para a senhora sair com a planta. O rapaz desejou bom treino para si mesmo, num gesto confuso que fez os outros rirem. Cada um seguiu seu rumo pela calçada, novamente engolido pela agenda, pelo trânsito, pelas notificações.

Mas agora o prédio tinha menos paredes invisíveis.

Nos dias seguintes, passaram a se cumprimentar. Coisa simples. Um “bom dia”, um “vai chover”, um “como vai a planta?”. Nada que mude a história universal, embora talvez mude a história miúda de uma terça-feira qualquer.

Porque às vezes o sentido da existência não aparece em grandes revelações, e sim no instante em que a porta se fecha, o elevador range, e alguém resolve quebrar o silêncio herdado.

No fundo, o ser-no-mundo também mora em condomínio.


A arte de procrastinar com consciência


por Giovanni Angius, em 25/4/2026.

Aquela mulher sempre teve excelentes motivos para adiar. Não estabelecia desculpas baratas, dessas que se desmontam ao primeiro vento. Motivos sólidos, bem acabados, quase elegantes. Na juventude, faltava tempo. Na fase adulta, faltava estabilidade. Depois, vieram as contas, os filhos, os compromissos, a fadiga, o barulho do mundo. Mais tarde, surgiu um argumento ainda mais sofisticado: agora faltava energia.

E assim foi levando a vida com uma habilidade rara: a de postergar com inteligência.

Entre os muitos projetos guardados em gavetas mentais, havia um que nunca morria. Um romance. A ideia lhe surgira cedo, quase pronta, como certas visitas inesperadas que entram sem bater. A história da família que deixava sua terra natal no início do século XX, atravessava o oceano em busca de um futuro melhor e, aos poucos, perdia o vínculo com aqueles que permaneceram na terra. Cartas rareando, sobrenomes deformados pela língua estrangeira, fotografias sem legenda, memórias desbotadas. Havia fatos reais misturados à invenção, o que lhe dava ainda mais valor. Não seria apenas um livro; seria uma espécie de resgate. Mas resgates também podem esperar.

De vez em quando, ela abria um caderno novo. Comprava boas canetas. Organizava pastas no computador. Lia sobre técnicas narrativas. Assistia a entrevistas de escritores. Fazia listas de capítulos. Pesquisava navios da época, portos antigos, mapas de imigração. Trabalhava bastante no entorno sem tocar a obra em si. Era uma pessoa produtiva nas margens.

Se alguém perguntasse por que ainda não começara, sempre tinha respostas prontas. Queria maturidade suficiente para fazer jus ao tema. Precisava de mais dados históricos. Um romance exige disciplina, e disciplina requer uma fase mais calma da vida. Além disso, não se deve escrever apressadamente algo tão importante. Tudo muito sensato. Tudo muito razoável. Tudo muito eficiente — para não escrever uma linha.

No fundo, desconfiava do mecanismo, mas não o desmontava. Há aqueles que preferem conviver com a poeira a mover os móveis e, muitas vezes, fingir que não se é livre é mais confortável.

Foi então que, certa noite, ao arrumar uma estante, encontrou um papel antigo. Nele, sua própria letra jovem descrevia a primeira cena do romance: “... uma mala fechada às pressas, uma mãe olhando para trás, um menino sem entender a despedida…”. Leu aquilo e sentiu um desconforto estranho, como quem recebe uma carta enviada por si mesma décadas antes. Não era saudade. Era flagrante.

Jean-Paul Sartre chamava de má-fé essa curiosa capacidade humana de mentir para si mesmo sem perder a pose. Não se trata de enganar os outros, o que já daria trabalho suficiente. Trata-se de agir como se a própria vida estivesse sendo conduzida por forças externas inevitáveis. O sujeito diz: “não posso”, quando talvez o mais honesto fosse dizer: “não quero pagar o preço”.

Percebeu, assim, sentada no chão, entre livros empoeirados, que jamais lhe faltara tempo absoluto. Faltara escolha assumida. Escrever exigiria sacrificar outras coisas: conforto, distrações, a imagem romântica de “autor em potência”. Enquanto o romance permanecia apenas possível, era perfeito. Nenhum capítulo ruim, nenhuma crítica, nenhum fracasso. No reino do adiamento, tudo nasce genial. Começar seria arriscá-lo ao mundo.

Por isso procrastinar pode ser tão sedutor. Não é mera preguiça; às vezes é estratégia de autopreservação. Quem adia indefinidamente conserva intacta a fantasia de que poderia ter sido extraordinário. Quem faz, ao contrário, corre o risco de descobrir seus limites. E há quem prefira o brilho imaginário à luz imperfeita do real.

Nos dias seguintes, observou sua rotina como um investigador observa um suspeito conhecido. Reparou na facilidade com que surgiam tarefas urgentes justamente quando pensava em escrever. A lâmpada da cozinha precisava ser trocada. O armário merecia reorganização. Notícias importantíssimas exigiam leitura imediata. Até a vontade súbita de aprender marcenaria apareceu. A mente, quando quer fugir, é inventiva.

Mas algo mudara. Já não conseguia acreditar completamente nas próprias justificativas. E quando a desculpa perde a fé de quem a produz, ela envelhece rápido.

Numa manhã comum, sentou-se à mesa sem solenidade. Não comprou caderno novo. Não esperou inspiração. Não reorganizou arquivos. Apenas abriu um documento em branco e escreveu a cena da mala, da mãe e do menino. Ficou ruim. Naturalmente ficou ruim. Releu e viu excessos, frases tortas, emoção demais num trecho, de menos noutro. Sorriu.

Era a primeira imperfeição concreta de um projeto que passara anos sendo uma perfeição imaginária.

Talvez tenha entendido, enfim, que liberdade não é fazer tudo no momento ideal. É responder pelo que se faz — e pelo que se evita fazer. A vida inteira terceirizara suas escolhas ao calendário, ao cansaço, às circunstâncias. Agora via que até a omissão carrega assinatura. Tomou consciência de que cada gesto é uma afirmação de quem decidira ser.

Escreveu mais duas páginas naquele dia.

A mudança de vida não foi imediata. Continuou adiando pequenas coisas, perdeu tempo com banalidades, inventou pretextos menores. Ninguém se transforma por decreto. Mas havia uma diferença essencial: já não procrastinava inocentemente.

E isso, embora pareça pouco, era o começo de alguma honestidade consigo mesma. 

 O espelho do banheiro às seis da manhã

por Giovanni Angius, em 24/4/2026.

Às seis da manhã, a casa ainda parecia dormir por dentro. O relógio da cozinha marcava a hora com uma insistência burocrática, e a luz fria do banheiro fazia tudo parecer mais sincero do que deveria. Ali estava ele, diante do espelho, espuma no rosto, navalha na mão, uma toalha no ombro e uma lista inteira de obrigações esperando do lado de fora da porta.

O casamento da filha seria naquela tarde.

Havia flores para conferir, parentes para receber, atraso de fornecedor para resolver, terno para buscar, motorista para coordenar, discurso para improvisar e, como sempre, pequenos incêndios emocionais para apagar sem alarde. Desde cedo, o telefone vibrava sobre a pia como se o mundo inteiro dependesse dele para funcionar.

Mas naquele instante, por dois ou três minutos, o mundo precisaria esperar. Porque havia um homem tentando acertar a linha da barba enquanto olhava para alguém que conhecia há décadas e, ainda assim, mal compreendia.

O espelho tem esse talento desagradável: mostra o rosto e insinua perguntas.

Ele esticou a pele da bochecha esquerda. Reparou nos fios grisalhos perto da orelha. Surgira também uma ruga nova, discreta, porém ambiciosa, instalada entre as sobrancelhas. A juventude não avisa quando vai embora; apenas passa a delegar funções.

Pensou na filha de vestido branco e sentiu aquele orgulho que vem misturado com uma leve perda. Não uma perda triste, exatamente. Algo mais sofisticado. Uma espécie de despedida feliz. Criou, cuidou, protegeu, ensinou a andar de bicicleta, a atravessar a rua, a desconfiar de promessas fáceis. Agora ela pisaria sozinha numa vida que não caberia mais em seus conselhos.

Sorriu sozinho. Depois parou de sorrir. Uma pergunta entrou sem pedir licença: e ele?

A filha começaria um novo ciclo. Mas e o pai? Em que ponto da estrada havia deixado certas vontades largadas no acostamento? Onde estavam aquele curso que nunca fez, a viagem adiada, o violão que comprou e mal tocou, o livro começado em três janeiros diferentes, a coragem de mudar o trabalho que apenas suportava?

Passou a lâmina devagar no queixo. Há dias em que a espuma da barba parece esconder mais que o rosto.

Lembrou-se de Søren Kierkegaard, que dizia ser a angústia uma vertigem da liberdade. Não medo de cair, exatamente, mas o espanto de perceber que se pode saltar. O abismo não assusta só pela profundidade; assusta porque revela a possibilidade.

Talvez fosse aquilo.

Não estava angustiado apenas com o casamento, os gastos, os parentes inconvenientes ou a chuva ameaçando estragar as fotos. Estava angustiado porque, ao ver a filha seguir a própria vida, percebia que ele também continuava livre para refazer a dele. E isso, para um adulto ocupado, é uma notícia quase inconveniente.

É mais fácil reclamar da rotina do que admitir que ainda se pode mudá-la.

A pia tinha duas torneiras antigas que nunca fechavam direito. Pingavam em intervalos irregulares, como pensamentos insistentes. Ele enxaguou a lâmina, olhou de novo para o espelho e teve a impressão de que o homem refletido parecia cansado, sim, mas não derrotado. Havia diferença.

Cansaço é o peso do caminho. Derrota é desistência. A maior parte das pessoas confunde uma coisa com a outra.

Do quarto veio o som de gavetas abrindo. A esposa já acordara. Em algum lugar da casa, alguém procurava uma extensão elétrica ou uma gravata desaparecida. O grande espetáculo social do casamento começava seus ensaios finais. E ele ali, discutindo metafísica com o azulejo.

Secou o rosto.

Pensou então que talvez liberdade não fosse largar tudo e comprar uma passagem só de ida para lugar nenhum, como sonham os cansados nas segundas-feiras. Talvez liberdade fosse algo menos cinematográfico e mais difícil: reorganizar a própria vida sem precisar destruí-la inteira.

Telefonar menos para o trabalho aos domingos. Voltar a estudar. Dizer alguns nãos atrasados. Cuidar do corpo com menos promessas e mais constância. Convidar a esposa para viajar sem esperar bodas redondas. Retomar o violão desafinado. Escrever a primeira página sem exigir a última pronta.

Talvez a liberdade more em pequenas desobediências contra a inércia.

Vestiu a camisa. Abotoou devagar, como quem fecha um raciocínio. Antes de sair, lançou ao espelho um último olhar. Não buscava juventude, nem respostas definitivas, nem reconciliação completa com o tempo. Buscava apenas reconhecer-se.

Conseguiu o suficiente.

Abriu a porta do banheiro e entrou no corredor já tomado pelo movimento da casa. A filha ria em algum cômodo. Alguém chamava seu nome. O dia corria para cima dele com todas as suas urgências.

Mas agora havia algo diferente. O homem que saiu dali ainda tinha compromissos, contas, responsabilidades e pressa. Continuava o mesmo pai, o mesmo marido, o mesmo profissional. Só carregava uma novidade discreta: a suspeita de que sua vida ainda não estava pronta.

E às vezes, às seis da manhã, diante do espelho do banheiro, isso já basta para começar de novo.