por Giovanni Angius, em 15/7/2026.
Toda satisfação, ou aquilo que comumente se chama felicidade,
é própria e essencialmente negativa, nunca positiva.
A vida oscila, como um pêndulo, entre a dor e o tédio.
Arthur Schopenhauer.
Antes mesmo de clarear de vez, saí de casa com a modesta disposição de quem só quer comprar pão francês ainda quentinho. A padaria na outra esquina de casa já estava desperta. A vidraça, embaçada pelo contraste entre o frio da rua e o calor do forno, parecia esconder um pequeno mundo particular. O rádio tocava baixinho uma música antiga que eu identifiquei dos meus tempos de juventude. O cheiro do café recém-passado chegava primeiro do que qualquer palavra, e o vapor que subia das xícaras dava à cena um ar quase sonolento e bem aconchegante.
Entrei na fila. Havia umas seis pessoas à minha frente. Um senhor olhava um panfleto de ofertas sem realmente lê-lo; uma moça consultava o celular com impaciência, esperando que o tempo obedecesse aos seus dedos; uma criança tentava convencer a mãe de que um sonho recheado era necessidade básica da infância.
Tudo me parecia familiarmente calmo. Ou talvez fosse apenas o jeito como eu sentia aquela manhã. O balcão de madeira e vidro, as bandejas com pães dourados, o tilintar da caixa registradora, tudo surgia aos meus olhos como se tivesse sido cuidadosamente ensaiado para parecer cotidiano.
Foi então que o pequeno teatro resolveu mudar de ato. Um homem entrou apressado, furou a fila com a naturalidade de quem acreditava possuir algum privilégio invisível e foi direto ao balcão. Antes que alguém dissesse qualquer coisa, pediu meia dúzia de pães.
Atrás de mim, ouvi um resmungo.
— Tem gente cara de pau mesmo, né?
Não sei por que motivo, mas o homem do balcão virou o rosto justamente na minha direção, como se a frase tivesse sido endereçada a mim. Por um segundo, tive a impressão de que outras pessoas também olharam.
Foi o suficiente. Senti aquele calor antigo subir pelo peito. Uma vontade imediata de esclarecer que eu não tinha furado fila nenhuma. Mais do que isso: já comecei a construir, mentalmente, um discurso impecável. Eu explicaria os fatos, devolveria a grosseria com elegância, talvez até arrancasse alguma aprovação silenciosa dos demais presentes.
Curioso como essas respostas perfeitas sempre chegam com rapidez quando ainda não saíram da cabeça. Percebi que já estava escolhendo palavras, ajustando o tom da voz, imaginando a expressão de derrota do interlocutor. Tudo isso antes mesmo de abrir a boca.
E então, por alguma razão difícil de explicar, achei graça de mim mesmo. Ali estava eu, numa fila de padaria, às sete da manhã, prestes a disputar um campeonato imaginário cujo prêmio seria ter razão diante de desconhecidos que provavelmente esqueceriam meu rosto antes do final da manhã.
Sorri discretamente. A música voltou a chamar a minha atenção. O cheiro do pão recém-saído do forno pareceu ganhar força outra vez. Era como se alguém tivesse abaixado o volume daquele narrador inflamado que mora dentro da gente.
Olhei novamente para o homem que havia furado a fila. Só então notei coisas que antes me escaparam. As olheiras profundas. A barba malfeita. A camisa amassada. Enquanto esperava o atendimento, ele conferia o dinheiro no bolso repetidas vezes, contando as notas como quem tem medo de descobrir que falta alguma. Ao seu lado, um menino pequeno puxava sua manga e perguntava baixinho se ainda daria tempo de chegar à escola.
Não descobri a história dele e nem precisava. Bastou perceber que, assim como eu carregava minhas próprias pressas, talvez ele também estivesse sustentando um peso que não cabia em si.
Quando chegou minha vez, pedi os pães e um café. Enquanto aguardava o troco, meus olhos encontraram a vitrine dos doces. Havia uma torta de limão impecável, dessas que parecem prometer uma felicidade proporcional ao brilho da cobertura.
Pensei que eu merecia aquele pedaço. A ideia surgiu sem cerimônia, com a mesma convicção com que, minutos antes, eu acreditava merecer vencer uma discussão.
Acabei comprando. Sentei-me perto da janela. O primeiro pedaço foi excelente. O segundo, quase tão bom quanto. No terceiro, a novidade já começava a desaparecer. Quando terminei, restava apenas o prato vazio e uma leve sensação de que a expectativa havia sido mais saborosa do que a própria sobremesa.
Achei curioso. Poucos minutos antes eu desejava vencer uma disputa que nunca existiu. Agora desejara um doce que já não fazia diferença alguma depois de acabado. As duas vontades tinham chegado com a mesma urgência e ido embora com a mesma discrição.
Saí da padaria segurando o saco de pão ainda quente. A rua já estava cheia. Os ônibus passavam, um cachorro latiu atrás de um portão, alguém varria a calçada sem muita pressa. A cidade seguia seu expediente de sempre, indiferente às pequenas batalhas que cada um travava consigo mesmo. Enquanto caminhava para casa, percebi que não havia derrotado ninguém naquela manhã. Também não encontrara nenhuma felicidade definitiva entre os doces da vitrine.
Ainda assim, alguma coisa parecia mais leve. Talvez porque certas cargas desapareçam justamente quando deixamos de carregá-las. Ou talvez porque, às vezes, o melhor que pode acontecer numa simples fila de padaria é descobrir que nem toda vontade merece ser obedecida. E que um pão quente, quando chega à mesa sem o gosto amargo de uma discussão inútil, costuma alimentar um pouco mais do que a fome.
No fim, talvez a felicidade habita menos no doce da vitrine ou no prazer de ter razão, e mais nesse pequeno instante em que a gente percebe que não precisa atender a toda vontade que bate à porta. Um texto delicado sobre as batalhas que inventamos e sobre a leveza de simplesmente deixá-las passar.
ResponderExcluirJ.E., Apr:.