Descobri a única terapia que dispensa médico, remédio e plano de saúde. Não veio de nenhum laboratório, não passou por comitês de ética, não tem bula e não se compra em farmácia. Ela rola, é redonda e chuta longe a ansiedade acumulada do ano. Sim, estou falando da Copa do Mundo, essa entidade quase religiosa que, a cada quatro anos, se instala na minha rotina e reorganiza completamente as minhas prioridades — e, ao que parece, as de todo mundo à minha volta também.
Reparo, por exemplo, que minha vizinha, aquela que vive reclamando que não sobra dinheiro nem para trocar a lâmpada queimada da varanda, apareceu essa semana com uma televisão nova, dessas enormes, quase do tamanho da parede da sala. Comprada em vinte e quatro vezes, é claro, porque diante de um Mundial, o cartão de crédito descobre poderes que a poupança nunca teve.
E não é só ela. Sento para tomar um café na padaria e ouço, na mesa ao lado, uma discussão inflamada sobre a nacionalidade do árbitro de vídeo — um rapaz nascido em algum país báltico cujo nome ninguém sabe pronunciar direito, mas cuja idoneidade profissional está sendo avaliada com o rigor de um tribunal internacional. Essas mesmas pessoas — arrisco dizer — não saberiam nomear três ministros do próprio país nem o vereador que representa o bairro onde moram. Mas sobre o VAR? Tese de doutorado.
Já o outro que vive chegando atrasado no trabalho e culpando o trânsito, o despertador, o alinhamento dos astros — qualquer coisa, menos a ele mesmo —, foi flagrado acordando às quatro da manhã com cara pintada, para assistir a um jogo entre duas seleções cuja existência desconhecia até a véspera. Não houve despertador que falhasse, não houve preguiça que vencesse. Ficou ali, atento, xingando um lateral que jamais ele saberia apontar numa fila.
É engraçado pensar que o mundo lá fora continua desmoronando no seu ritmo de sempre. A inflação sobe, o boleto vence, o preço do tomate parece querer disputar uma vaga no espaço sideral. E, ainda assim, a grande angústia coletiva da semana é saber se a viagem de Vancouver até a Cidade do México vai deixar as pernas do nosso ponta-esquerda cansadas demais para o próximo jogo. Fico pensando: se a humanidade dedicasse aos problemas reais um décimo da dedicação que dedica às planilhas de bolão — aquelas verdadeiras obras de engenharia, com fórmulas, abas coloridas e critérios de desempate dignos de olimpíada de matemática —, talvez já estivéssemos colonizando outro planeta. Ou, pelo menos, teríamos resolvido o problema do reboco que está caindo aos pedaços na minha cozinha.
Mas não. Durante a Copa, o brasileiro desenvolve uma espécie de imunidade seletiva contra o caos. O chefe pode berrar a plenos pulmões no escritório, que a verdadeira crise da semana continua sendo a suspeita de uma contratura no lateral direito. É quase um analgésico coletivo: uma bola rolando a milhares de quilômetros de distância, e de repente todos os meus problemas reais — a conta atrasada, a torneira pingando, aquela conversa incômoda que venho adiando há semanas — encolhem até parecerem meros detalhes.
E aqui percebo, com espanto e uma pontada de vergonha, que eu — este que vos escreve e que se propõe a rir dos absurdos alheios — sou a prova viva de tudo o que acabei de descrever. Escrevo sobre a irracionalidade alheia enquanto, ao fundo, já visto a camisa da seleção. Talvez seja isso mesmo: a gente enxerga o ridículo no espelho dos outros porque é mais fácil do que encarar o próprio.
De todo modo, olho espantado para o relógio e percebo que faltam poucos minutos para a bola rolar. Finalizo rapidamente o texto, faço o upload para o blog e, sem conferir nada, fecho o notebook, apressado. Deixo os boletos ali, espalhados sobre a mesa, esperando pacientemente. Ligo a TV, grito com o juiz antes mesmo do apito inicial e sinto, por noventa minutos, aquela paz estranha e ilógica que só um jogo de futebol sabe proporcionar. Afinal, as contas sempre podem esperar até o segundo tempo.
Parabéns meu Irmão!!! É isso mesmo
ResponderExcluirParabéns, confrade. Cronista-mor da AMACAL
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