Beco das Pulgas


 Hoje acordei decidido a caminhar pela Cidade Alta, no centro de Vitória. Aos sessenta e nove anos, a gente se acostuma com a ilusão de conhecer cada esquina da sua própria cidade. Puro engano. Peguei o carro, estacionei perto do Palácio Anchieta e segui a pé até a continuidade da Rua Duque de Caxias. Logo depois do ponto onde funcionava a antiga banca de jornais, abre-se o Beco das Pulgas. Acredite ou não, até hoje eu não conhecia aquele lugar.

Meu destino certo era um sebo localizado no prédio de arquitetura marcante da antiga Typographia Samorini, com sua fachada exibindo, em letras garrafais de alto-relevo, sua fundação no longínquo ano de 1915. Ao cruzar a porta, fui engolido por um mar de discos de vinil, CDs e livros amarelados; prateleiras formavam um labirinto que só parecia desordenado. No centro desse caos tranquilo estava Marcos — artista plástico, formado pela Ufes — o único senhor da lógica secreta do lugar. A um gesto seu, cada peça parecia reaparecer no exato lugar onde deveria repousar.

Fui logo puxando prosa, explicando as razões da minha visita matinal. A primeira era uma curiosidade irresistível: fiquei fascinado em descobrir a existência de um beco comercialmente ativo no coração da capital, pulsando vida e resistindo às inconstâncias do tempo. O Marcos concordou comigo e me disse que a prefeitura tem planos para o beco. Segundo contou, eles vão revitalizar o espaço, restaurar o charmoso piso de pedra portuguesa e incentivar a vinda de novos passantes, dando o merecido valor ao comércio local.

Minha segunda motivação era específica. Eu procurava o romance O Egípcio, escrito por Mika Waltari. Tive o privilégio de ler essa obra na década de mil novecentos e oitenta. Naquela época, ao terminar a leitura, decidi presentear o meu exemplar para uma colega de trabalho. Bastou mencionar o título para testemunhar o domínio que o livreiro tinha sobre o próprio acervo, em meio ao caos.

— Cara, esse título exato eu estou em falta, mas vendi há poucos dias o último exemplar de O Etrusco, do mesmo autor. — disse, apontando para uma prateleira empoeirada.

A nossa conversa fluiu de forma tão natural e animada que parecíamos dois amigos de longa data botando o papo em dia. Esquecemos a formalidade de duas pessoas recém-apresentadas. Um cliente novo entrou na loja interessado em explorar uma pilha de LPs clássicos, abrindo brecha para o Marcos me guiar através das prateleiras do estabelecimento.

O sebo virava um verdadeiro ateliê nas dependências mais ao fundo da loja. Encontrei mesas cheias de tubos e frascos de tinta, pincéis gastos, telas, papéis esboçados e muita tranqueira espalhada. No meio daquele ambiente que inspirava o trabalho do artista, repousava soberana sobre uma mesinha, algo inusitado: uma grelha elétrica com tampa de vidro. Ao perceber o meu estranhamento, ele abriu um sorriso sincero, explicando o propósito daquele eletrodoméstico:

— Isso aqui é para garantir uma carninha assada com os companheiros de arte que vêm me visitar.

Fiquei admirado pelo modo como ele conduz os próprios dias em uma frequência livre das amarras convencionais. A cena evocou minhas lembranças da história da arte. Imaginei logo os pintores franceses do impressionismo, sujeitos corajosos enfrentando dificuldades financeiras sem fim. Apesar dos tropeços da realidade, eles preenchiam suas telas com a luminosidade divina e a leveza essencial do ser humano.

O relógio avisou a chegada do meio-dia. Troquei um aperto de mão de despedida com o Marcos e comecei a caminhada de retorno até o carro. Um pouco mais adiante, subindo a Nestor Gomes, fui surpreendido pelo aroma irresistível vindo das portas do Exporão, tradicional restaurante do centro. O estabelecimento ocupa o mesmo subsolo do saudoso Porão, antigo bordel enraizado nas histórias e memórias dos frequentadores mais maduros da Ilha. Detalhar os contos noturnos daquele lugar renderia muitas outras conversas, aliás, um excelente pretexto para outra crônica.

O chamado do estômago tinha urgência. Desci os degraus de acesso e me entreguei à clássica feijoada das sextas-feiras. O prato estava farto e saboroso.

Finalizado o almoço, suspirei abraçado por uma satisfação absoluta. A mente divagou até os ensinamentos de Epicuro em seu Jardim. O sábio de Samos carrega a injusta fama de pregador dos luxos exagerados, mas sei que o seu verdadeiro ensinamento segue a direção oposta. Para ele, a genuína alegria da existência repousa nas experiências mais simples, como comer um pão fresco, bater um papo verdadeiro com um amigo, sentir o vento na pele ou afastar as ambições pesadas. O seu segredo de vida é buscar a ausência completa de perturbações na alma.

A energia daquele ateliê caótico continuou reverberando no meu peito ao longo da tarde, confirmando que a verdadeira riqueza das cidades — e da vida — costuma permanecer escondida nos lugares que atravessamos depressa demais.


Um comentário:

  1. Anônimo22:26

    Adorei, parabéns, gosto muito do seu estilo, na leitura me encontrei dentro do contexto.

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