Às quatro e dezessete

 

por Giovanni Angius, em 27/7/2026.

O ar no porão estava estagnado e tinha o cheiro de poeira antiga. Os sons abafados que vinham do exterior aumentavam a sensação do tempo parado e da vida suspensa.

Lá fora, o sol das duas da tarde esquentava o telhado da velha casa de madeira, mas ali embaixo, alguns degraus abaixo do nível do solo, a luz entrava por uma janelinha quadrada, alta, ao rés do chão da rua, meio suja dos respingos, e desenhava um recorte pálido no chão.

Alessandro ajoelhou-se sobre o cimento frio. Tinha os joelhos marcados pela poeira cinzenta e as palmas das mãos sujas de fuligem. Havia passado as últimas duas horas arrastando caixas de papelão deformadas pelo tempo, separando o que seria doado do que iria para o lixo. Seu pai falecera há quatro meses, mas só agora reunira a coragem necessária para descer os dezesseis degraus de madeira rangente.

No fundo do porão, sob a sombra projetada por um armário de metal enferrujado, repousava uma caixa de madeira pesada, com dobradiças de ferro escurecido. Alessandro a conhecia. Era a caixa de ferramentas do pai. Na infância, aquela caixa parecia inviolável, um artefato sagrado que apenas as mãos grossas e calejadas do velho podiam abrir.

Antes de abri-la, Alessandro teve um instante de hesitação física. Sua mão parou no ar, paralisada pela rápida lembrança de ser repreendido por mexer naquela caixa. Quando criança, teria que enfrentar o medo que hoje está ausente.

Ele aproximou-se devagar, hesitante. A tampa de madeira rangeu ao ser levantada, libertando um sopro concentrado de óleo de máquina, graxa e ferrugem.

Dentro, entre chaves de boca, alicates e martelos com cabos gastos pelo uso contínuo, algo no fundo chamou sua atenção. Embrulhado num pedaço de flanela xadrez desbotada, havia um objeto menor. Alessandro o pegou e desenrolou o pano.

Era um relógio de bolso antigo, dourado, com o vidro do mostrador trincado. Os ponteiros estavam parados exatamente às 4h17.

Alessandro congelou. Lembrava-se daquele relógio. O pai o guardou a vida inteira, mas nunca o usou. Era o relógio que pertenceu ao avô — um homem rígido, distante, que o pai raramente mencionava e de quem herdara a mesma severidade silenciosa no olhar.

Lentamente, Alessandro passou o polegar pelo vidro trincado. O frio do metal pareceu atravessar sua pele. Naquele instante, o silêncio do porão pesou sobre seus ombros.

Ele não estava apenas segurando um relógio quebrado numa sala escura. Ele estava diante da herança invisível que o pai lhe deixara: a incapacidade de expressar afeto, as palavras engolidas durante as refeições em família e os silêncios profundos formavam a armadura de dureza que o próprio Alessandro, sem perceber, começara a vestir no seu próprio casamento e na relação com o filho pequeno.

O tempo do pai havia parado. O tempo do avô também.

Alessandro sentou-se no chão de cimento, encostando as costas na parede fria. Fechou os olhos e apertou o relógio na palma da mão. Uma lágrima quente abriu um rastro limpo na poeira de seu rosto, seguida por um soluço abafado que ecoou suavemente entre as paredes do porão.

Naquele momento de profunda solidão, os batimentos do coração eram pesados: o som de fora sumindo por um instante, a poeira parada no feixe de luz e as lembranças dolorosas.

Não era um choro apenas de dor pela perda. Era também carregado com um certo alívio e reconhecimento. Ali, na escuridão do submundo da casa paterna, Alessandro olhou para a sombra da sua linhagem — a dor não resolvida dos homens que o precederam.

Momentos depois, deu um respiro a mais antes da virada para o renascimento de si mesmo.

Com a mão livre, ele puxou a coroinha do relógio e girou-a com cuidado. O mecanismo rangeu, hesitou, e então o tic-tac baixo, seco e ritmado voltou a soar no silêncio do porão.

Os ponteiros voltaram a andar.

Ele sorriu sem alegria e sem tristeza, só com aquela serenidade estranha de quem encontra uma fresta. Guardou o relógio no bolso da camisa, bem perto do peito, levantou-se e limpou as mãos na calça. Subiu os degraus lentamente. Lá em cima, o dia continuava quente e os passarinhos seguiam a sua cantoria.

A vida, sem alarde, pedia passagem. Alessandro retornou a ela com um passo mais leve.


Um comentário:

  1. Anônimo15:39

    Para o meu gosto, sua crônica é belíssima! O seu falar, me fez convidar Carl Jung para ouvir a descrição que você fez da teoria teoria dele. A “máscara”, a “sombra” e a “persona” se revezando naquelas horas que o baú foi aberto. PARABÉNS! Achei muito gostosa de e captar tudo que vc tão habilmente colocou as palavras para nos revelar. VALEU!

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