A benção mãe natureza, aqui estou eu de novo
Vivendo esta beleza, milagre que sempre louvo
Sentir o pé na terra e na relva fria do orvalho
Ouvir o canto dos pássaros
Ver a dança inocente dos galhos.
Carlos Bona
Os cheiros da beira mar têm memória. Toda vez que o sinto — churrasco na grelha, maresia — sou transportado para a Praia da Barra do Sahy, em Aracruz, onde barracas enfileiradas vibravam com risos, violões, e a alegria de viver ao ar livre.
Não sei quando parei de acampar; não houve um “chega” pronunciado, só uma luz que foi se apagando, devagar, sem ninguém perceber o exato instante em que a sala ficou escura. Um ano não deu pra ir. No outro, os filhos já não queriam mais. Depois veio o trailer, que substituiu a barraca, e depois nem ele mais saiu da garagem. E pronto: aquela vida virou lembrança.
Mas que lembrança boa, gente…
Eu converso bastante com Dedé sobre isso. A gente se conhece há mais de quarenta anos — pensa nisso, quarenta anos! Mais tempo do que muita gente vive inteiro. Conheci ele e a Rose ainda na época das barracas de lona fina, daquelas que vazavam quando chovia mais forte. Nossos filhos praticamente cresceram juntos no camping, os dele e os meus, brincando na areia enquanto a gente bebia uma cerveja gelada e ficava de olho disfarçado, sem parecer que estava de olho.
Tinha um ritual que eu adorava: o sopão comunitário. Cada família levava um ingrediente, ninguém combinava nada direito, e o resultado era sempre uma surpresa — às vezes uma delícia, às vezes uma coisa estranha que a gente comia rindo, fingindo que estava ótimo. Hoje eu acho que aquilo era uma metáfora sem a gente saber: cada um entrava com o que tinha, e o que saía dali era melhor do que qualquer prato pensado sozinho.
Outro dia eu estava pensando nisso, sentado na varanda de casa, e me lembrei de um trecho que li sobre Cícero. O cara escreveu, lá pelos seus tantos anos antes de Cristo, um texto sobre a velhice colocando na boca de um personagem, Catão, uma ideia que me pegou de jeito: que a velhice não precisa ser vista como decadência, mas como colheita. Como se a vida toda fosse um plantio, e só na maturidade a gente consegue colher o que valeu a pena.
Fiquei pensando: pois é, é exatamente isso. Eu não tenho mais a disposição física para montar barracas debaixo de sol quente, nem a paciência pra dormir num colchão inflável que sei que irá murchar de madrugada. Mas tenho uma coisa que aquela época não conseguiu me dar de bandeja: o significado do que vivi. E isso, ao contrário do colchão, não murcha.
Cícero, ao tratar da amizade, trazia uma ideia simples, mas profunda: amizade de verdade não é aliança por interesse, é coisa que se constrói com o tempo, com memória compartilhada. Não é nostalgia de sofá lamentando o passado — é o contrário, é usar essas lembranças pra manter um vínculo vivo, hoje, agora.
É exatamente isso que eu vivo com Dedé e Rose. A gente não acampa mais junto, claro. Mas de vez em quando eles vêm aqui em casa, ou eu e a Tileza vamos até sua casa na Praia Formosa, bem próxima à Barra do Sahy, visitá-los. E quando isso acontece, vira festa. Eu fico horas conversando com Dedé sobre besteira nenhuma e sobre tudo ao mesmo tempo, e a Tileza some pra cozinha com Rose, as duas rindo de algo que eu nunca vou saber o que é. É sempre como se tivesse novidade entre a gente, mesmo depois de décadas — sei lá como isso é possível, mas é.
E no meio disso tudo tem o WhatsApp, claro, porque ninguém escapa dele. Mensagem quase todo dia, um “bom dia” aqui, uma foto do neto ali, um telefonema de vez em quando só pra ouvir a voz.
Acho que é isso que deixarei para os meus filhos e netos. Não uma barraca, nem um trailer guardado na garagem. Mas o exemplo de que amizade se cultiva, se mantém, se atravessa o tempo sem precisar de aventura nenhuma — só de presença, mesmo que rara.
Hoje já não sonho com campings. Meu lugar é a calma da escrivaninha, meus textos e meus livros. Descobri que algumas viagens continuam acontecendo sem que a gente saia da cadeira. Basta abrir uma lembrança.
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