Anestesia moral


 Aconteceu há alguns anos, virou caso de polícia e saiu no jornal. Naquela época, fiquei vários dias com aquilo na cabeça. Quando li a notícia, guardei a história no bolso do casaco — uma pedrinha pequena, mas pesada demais para carregar em silêncio. É o tipo de situação que começou em um desvio miúdo e terminou despertando uma pergunta insistente: o que faz uma pessoa boa tropeçar tanto, a ponto de virar outra diante dos olhos dos outros?

Há um pensamento antigo, de séculos, que veio à tona, que todo vício e toda virtude nascem da mesma raiz, do mesmo impulso de amar alguma coisa. Pensando bem, é dessas ideias que cabem no mundo inteiro. O amor pode ser zelo, cuidado, compaixão, presença. Mas pode ser também apego torto, interesse disfarçado, vaidade com roupa limpa. O mesmo impulso que leva alguém a servir uma sopa quente num prato fundo pode empurrá-lo, em silêncio, para um gesto pequeno e errado, desses que se tenta chamar de “só desta vez” para ver se a consciência aceita a desculpa.

O Seu João, assim como vou chamá-lo, era homem de confiança. Voluntário numa casa de idosos, encarregado das compras e do estoque, um sujeito que ninguém imaginaria no centro de uma confusão. E é justamente isso que mais assusta: o fato de o mal, muitas vezes, não chegar com cara de monstro. Ele entra de chinelo macio, fala baixo, obedece ao horário do café, sabe onde ficam as chaves e onde a fiscalização não alcança.

Tudo começou com um boleto. Um boleto particular, uma dificuldade pontual, uma quantia retirada com a promessa íntima de devolver depois. Quem nunca viu a mente fazer esse tipo de manobra, reduzindo um erro a uma exceção provisória? A promessa de reposição funciona quase como um curativo moral. A pessoa pensa que vai acertar a conta em poucos dias, e a consciência aceita o acordo, meio cansada, meio enganada.

Só que o dinheiro não volta sozinho para o lugar. O que volta, com frequência, é o hábito. E o hábito tem uma voz tranquila, quase doméstica. Ele vai dizendo que ninguém notou, que dá para esperar mais um pouco, que a situação está apertada, que a instituição vive de escassez, que falta tanta coisa ali que um pouco a menos não vai fazer diferença. Quando a falta vira rotina, o erro perde a aparência de escândalo e ganha ar de costume.

Foi aí que a história parece ter atravessado uma linha invisível, o verdadeiro horror da fragilidade humana: a constatação de que esta linha, entre a integridade e a ruína moral, é muito mais fina do que gostaríamos de acreditar. No começo havia remorso, incômodo e algum resto de vergonha. Depois, com o tempo e sem o olhar de ninguém por perto, o próprio desgaste da consciência foi abrindo espaço para uma espécie de anestesia moral. O sujeito já não precisava esconder direito. De tudo, essa foi a parte mais triste. Quando alguém deixa de se preocupar em ocultar o que faz de errado, é sinal de que o mal ganhou certa naturalidade dentro de casa.

E a casa, nesse caso, era um asilo. Um lugar de gente frágil, doente, dependente, muitas vezes sem voz, sem defesa, sem energia até para reclamar. O alimento minguava. A qualidade caía. Faltava remédio, faltava limpeza, faltava higiene, faltava o mínimo. E o mínimo, em certos lugares, é o nome mais bonito que a dignidade consegue receber. Fico imaginando o estrago que um desvio desses produz no cotidiano: a comida rala, a fralda trocada tarde demais, a sala sem asseio, o remédio que não vem, o cuidado que some. A crueldade, nessas situações, não costuma fazer barulho. Ela vai tirando pedaços.

O mais duro é pensar que ninguém suspeitava. João parecia ser um homem honesto, prestativo, conhecido, confiável. A venda só caiu dos olhos da diretoria quando um doador experiente fez a pergunta que ninguém queria formular. Bastou esse único estalo para que uma auditoria revelasse o que esteve o tempo todo escondido da luz do dia. As provas apareceram, a polícia chegou, e o que era sombra virou indiciamento, prisão, processo.

Para mim, ainda restaram perguntas. Como alguém muda tanto? Ou como alguém revela tanto? Porque eu desconfio que nem sempre a mudança é uma transformação completa. Às vezes, o que acontece é a retirada dos freios. Sem controle, sem vigilância, sem o constrangimento de ser visto, certos impulsos crescem feito mato em terreno abandonado. O que parecia bondade pode ser só aparência bem cuidada. O que parecia caráter pode estar apenas esperando uma oportunidade menor para se mostrar inteiro.

E eu fico pensando que talvez o caráter não seja um dom que a gente já nasce tendo, guardado e pronto para uso dentro do peito. Talvez seja uma construção miúda, diária, quase silenciosa, feita de pequenas escolhas que ninguém aplaude, como um músculo do corpo que só se fortalece porque foi exercitado todo dia, sem plateia. Quando a pessoa escolhe o atalho com frequência, o atalho vira estrada. Quando escolhe esconder o desvio, o desvio ganha endereço. E quando escolhe ferir os mais frágeis, ainda que devagar, o coração vai desaprendendo o peso da culpa.

No fim, eu não consigo olhar para esse caso só como crime. Vejo ali um retrato incômodo da fragilidade humana. A gente gosta de acreditar que o bem mora pronto dentro de nós, arrumado, esperando ocasião. Mas o bem, como o amor, precisa de cuidado, disciplina e presença. Sem isso, até o homem que começou querendo ajudar pode acabar servindo ao pior de si. E é aí, nesse exato ponto, que a história continua me perseguindo, porque o verdadeiro horror talvez seja perceber que o abismo começa bem perto de onde a gente pisa, num espaço pequeno, quase invisível, exatamente onde a consciência baixa a guarda. É ali que o coração, distraído, deixa de vigiar o próprio passo.


Um comentário:

  1. Anônimo19:46

    Esta belíssima crônica me fez lembrar muitas vezes do Kant. Me fez lembrar muitas dos temas maçônicos que dizem ser o bem e o mal polos opostos de uma mesma coisa; o quente o frio, a luz e a escuridão. Na sua crônica, você deixou claro. Como é o quanto devemos vigiar de onde para onde estamos indo. Admiro seu jeito de abordar temas tão delicados com esta maestria que convida o leitor a seguir seus passos e buscar resposta às suas indagações. PARABÉNS

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