por Giovanni Angius, em 12/8/2026.
Naquela manhã em Laranjeiras, a chuva começou antes das seis. Não era uma tempestade, mas uma chuva persistente e parecia que ia ocupar o dia inteiro. Batia contra as fachadas, escorria pelas calçadas e deixava os fios dos postes brilhando. No ponto de ônibus, Marta protegia a bolsa contra o corpo e observava a rua transformar-se numa sucessão de poças.
— Hoje o ônibus vai atrasar — disse o homem ao lado.
Marta olhou para ele. Era seu vizinho, Anselmo, que trabalhava numa oficina de refrigeração.
— O senhor viu o comunicado?
— Depois de vinte anos esperando ônibus, a gente aprende algumas coisas.
Marta sorriu.
Poucos minutos depois, o ônibus apareceu, avançando devagar, como se também estivesse cansado. A fila se comprimiu sob o abrigo. Uma senhora reclamou que o motorista nunca respeitava o horário; um rapaz disse que o Transcol nunca funcionava direito; outro ainda afirmou que era melhor acreditar em milagres.
No ônibus lotado, Marta conseguiu um lugar junto à janela. Trabalhava numa clínica médica e estava por decidir se aceitaria uma proposta de emprego em Viana. O salário era melhor, mas a mudança obrigaria seu marido, Paulo, a procurar outro trabalho. O filho, Pedro, teria de trocar de escola. A mãe de Marta, que morava sozinha, precisava de ajuda constante.
Ela passou os dedos pelo vidro embaçado e escreveu, sem perceber, uma palavra: ficar?
Depois apagou com a palma da mão.
Na clínica, na Enseada do Suá, o dia começou com uma discussão. Os computadores da recepção haviam travado, e o Seu Álvaro, da administração, culpava imediatamente a moça da manutenção.
— É preciso verificar. Sempre acontece isso depois que ela mexe.
A moça, Camila, estava perto da porta, segurando sua maleta de ferramentas.
— Ontem, eu só troquei um cabo de impressora — justificou.
Seu Álvaro bufou. Para ele, a questão parecia encerrada: se Camila estivera ali, então Camila era culpada.
— Camila, olhe isso para mim antes de buscar um culpado — pediu Marta.
Camila agradeceu com um olhar. Seu Álvaro não pediu desculpas, mas também não insistiu na acusação.
Bastou reiniciar o sistema. Em poucos minutos, tudo voltou ao normal.
Momentos depois, na copa durante um cafezinho, Marta contou a Paulo sobre a proposta de trabalho.
— Você vai? — ele perguntou.
— Ainda não sei.
Paulo ficou em silêncio. Ela contou do salário melhor, da possibilidade de crescimento e, depois, foi lembrando tudo o que vinha junto: a mudança, a escola de Pedro, o trabalho de Paulo, a mãe morando sozinha. Falava e parava, como se cada argumento trouxesse outro em seguida. Era preciso ponderar sem obedecer cegamente ao impulso, sem fingir que os sentimentos não existiam.
À tarde, a chuva aumentou. O movimento na clínica também. Uma menina chorava sem cessar enquanto a mãe tentava acalmá-la. Marta ofereceu um copo de água.
A chuva, a demora no atendimento e a urgência dos problemas tornavam todos mais impacientes. Marta não pensou que tudo ficaria bem. Não tinha como saber. Apenas suspirou fundo e pensou: “vamos começar pelo que podemos fazer agora”.
No fim do expediente, Marta saiu e encontrou as ruas lotadas de gente andando às pressas. Algumas correndo para se proteger. A água descia pelas sarjetas carregando detritos. Um ônibus passou depressa e lançou uma onda suja sobre a calçada.
— Isso é uma injustiça — disse Anselmo, que também esperava no ponto.
Marta olhou para a calça molhada.
— É desagradável. Mas não sei se é uma injustiça.
— Qual é a diferença?
— A chuva não decidiu nos molhar, Seu Anselmo.
Ele riu.
— Então a chuva está inocentada?
— Sim… talvez. Sei lá.
Deram uma pequena risada. A chuva era um acontecimento. A drenagem, uma responsabilidade da prefeitura.
O ônibus estava atrasado em mais de meia hora. Durante a espera, Anselmo contou que o filho queria sair da escola para trabalhar com ele na oficina.
— O menino diz que estudar não serve para nada — afirmou.
— E o senhor, o que acha?
— Acho que ele está errado.
— Talvez seja preciso perguntar por que ele pensa assim.
— A senhora está dizendo que ele pode ter razão? — perguntou, franzindo a testa.
— Acho que primeiro é preciso entender os motivos dele.
O homem ficou calado, o olhar no vazio.
Quando finalmente chegou em casa, Marta encontrou Pedro na cozinha, tentando consertar um rádio antigo. O aparelho estava aberto sobre a mesa, cercado por fios e peças.
— Você sabe o que está fazendo? — ela perguntou.
— Ainda não. Mas estou tentando descobrir.
Ele tinha à frente o esquema do circuito. Marta reconheceu nele algo semelhante ao que fazia durante o dia: observar, organizar peças, testar.
— Vê se não é a pilha — disse ela.
— Foi a primeira coisa que verifiquei.
Na sala, Paulo esperava com duas xícaras de café. Sobre a mesa, havia um papel dividido em quatro partes: dinheiro, família, trabalho e vontade.
— Fiz uma lista — disse ele.
Marta sentou-se, pegando a xícara.
— E resolveu?
— Não. Mas agora o problema parece menos barulhento.
Ela leu os itens. Em cada parte havia frases curtas, algumas contraditórias. O salário maior permitiria pagar o tratamento da mãe. A mudança afastaria a avó de Pedro. O novo trabalho poderia abrir portas. O emprego atual era seguro, mas havia anos Marta se sentia parada.
— O que depende de nós? — perguntou Paulo.
— Podemos pedir alguns dias para responder — disse ela. — Podemos saber se existe trabalho para você lá. Podemos dar uma volta pela cidade. Podemos conversar com minha mãe. Não precisamos decidir esta noite.
Do quarto, Pedro gritou:
— Mãããe! Consegui!
O som saiu baixo e cheio de chiados. Uma música antiga se espalhou pela casa. Ninguém conhecia o nome, mas os três ficaram escutando.
Lá fora, a chuva continuava, indiferente aos planos de todos.
Nada ainda estava resolvido. Marta pegou o papel sobre a mesa e acrescentou uma última palavra, abaixo das quatro partes: perguntar.
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