por Giovanni Angius, em 2/8/2026.
O sinal luminoso de “aperte os cintos” se apagou enquanto o Boeing 777 atingia a altitude de cruzeiro rumo a Tóquio. Seriam doze horas de travessia sobre o Pacífico. Menos de uma hora após a decolagem, os alto-falantes chiaram. A voz do piloto anunciou, com um tom de formal polidez, que o sistema central de entretenimento havia sofrido uma pane irreparável. Não haveria telas individuais, nem filmes, nem sinal de internet a bordo.
Da poltrona logo atrás, era impossível não perceber como a notícia atingiu aqueles dois passageiros de maneiras completamente diferentes.
Daniel, vou chamá-lo assim, encarou a tela preta à sua frente como quem olha para um abismo. O reflexo do seu próprio rosto no monitor desligado parecia ridicularizá-lo. Ele apalpou os bolsos: o celular estava sem bateria e a tomada da poltrona não funcionava.
Em pouco tempo, o silêncio da cabine começou a serpentejar por sua espinha. Sem o feed das redes sociais para rolar, sem mensagens para responder e sem notificações para validar sua existência, o ambiente ao seu redor pareceu encolher.
Para escapar daquela quietude sufocante, ele tentou conversar com o passageiro ao lado, que respondeu apenas com um aceno cortês antes de se voltar para a paisagem noturna. Inquieto, chamou a comissária para pedir um copo d’água que não queria, levantou-se inúmeras vezes para ir ao banheiro sem necessidade e passou a checar o relógio a cada quatro minutos.
Sem nada para ocupar as mãos, Daniel acabou encontrando aquilo que passara anos evitando: a própria companhia. E ela lhe pareceu pesada demais. Ele abriu o bolso da mochila várias vezes, embora soubesse exatamente o que havia dentro. Tirou o cartão de embarque, dobrou-o, desdobrou-o, olhou outra vez para o relógio. Nenhum daqueles gestos resolvia coisa alguma.
Muito tempo depois o sossego o alcançou sob a forma de cansaço. Dormiu.
Em outra poltrona, próxima de Daniel, Elisa, assim vou chamá-la, ouviu o anúncio do piloto e soltou um suspiro quase imperceptível.
Ela ajustou a pequena almofada atrás do pescoço, fechou os olhos e deixou o corpo afundar na poltrona. Para ela, aquele blecaute tecnológico não era uma privação, mas uma trégua. Uma ilha de tempo no meio de uma vida agitada.
Enquanto o avião cortava a escuridão, aos poucos seu romance voltou a ocupar os pensamentos. Sem as interrupções do mundo digital, ela usou as horas seguintes para revisitar mentalmente a estrutura que estava planejando. Fez anotações em seu caderno, lapidou diálogos e cenários, buscou soluções para a dinâmica e fluidez do seu texto. Mais tarde, resgatou a lembrança de uma sinfonia que gostava muito, reconstruindo os acordes em sua mente.
Ela parecia não sentir falta de nada. Escreveu durante algum tempo, fechou o caderno, permaneceu longos minutos apenas olhando a escuridão do lado de fora. Havia quem olhasse aquela janela e visse apenas ausência. Ela parecia enxergar alguma coisa ali.
O voo ia bem avançado quando conseguiu dormir.
Quando as rodas do avião finalmente tocaram o solo do aeroporto de Narita, cerca de doze horas depois, um homem e uma mulher saíram diferentes daquela aeronave — mas não da maneira que a moralidade convencional gostaria.
Daniel desembarcou exausto, irritado e mentalmente dilapidado, sentindo-se enjaulado por um tempo que lhe pareceu uma eternidade. No saguão do aeroporto, enquanto aguardava na fila do passaporte, ele pegou o celular, conectou-se ao Wi‑Fi gratuito e, em segundos, já estava rolando o feed, respondendo mensagens antigas, buscando validação imediata. O tédio o esperava em casa, no trabalho, no espelho do banheiro. Naquela situação, ele não sabia nomear o que sentia, só que precisava de barulho para não ouvir o próprio silêncio.
Logo em seguida, Elisa desembarcava revigorada, serena e com a mente clara. Mas, ao sair do aeroporto, olhou para o céu nublado e percebeu algo incômodo: a clareza que trouxera do voo já começava a se dissipar diante das notificações, dos compromissos, das demandas do mundo. Ela sabia que, em breve, a sinfonia reconstruída na memória seria substituída por prazos, reuniões, conversas superficiais. A solidão que a libertara no avião seria, em terra, um luxo difícil de sustentar.
No saguão, seguiram em direções opostas. Daniel caminhava depressa, já ao telefone. Elisa diminuiu o passo antes de desaparecer entre os demais passageiros.
Nenhum dos dois encontrou a redenção definitiva. Ambos apenas foram devolvidos a si mesmos, nua e cruamente. Ele, com seu vazio; ela, com sua riqueza interior — mas também com a consciência de que essa riqueza exige vigilância constante.
No pátio, o avião estava vazio e seguindo para as inspeções e manutenções de rotina. O próximo voo partiria em breve, com novos passageiros, novas telas, novos silêncios.
Por doze horas, Elisa não sentiu falta de nada — nem tédio, nem dor, nem do resto do mundo. Daniel, nem por um instante.
Esperei os demais passageiros deixarem o saguão antes de seguir meu caminho. Durante todo o voo pensei que estivesse apenas assistindo à história daqueles dois, mas não, eu percebi que a pergunta era outra: quando todas as telas se apagam, quem sobra em mim?
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