por Giovanni Angius, em 14/8/2026.
A sala de reuniões tinha o ar pesado. Sobre a mesa, espalhavam-se gráficos, planilhas e o famoso “Relatório de Eficiência Operacional”, um calhamaço de duzentas páginas que ninguém havia lido por inteiro, embora todos soubessem que ele era da maior importância.
Marcos, diretor de operações, caminhava de um lado para o outro. De vez em quando, puxava o nó da gravata para cima, como se precisasse apertar também a própria determinação.
— Se a matriz rejeitar esse documento, nossa credibilidade estará destruída — disse ele. — Isso aqui não é uma simples entrega. É a nossa reputação.
Dr. Arnaldo, advogado sênior da firma, assentiu com gravidade. Usava os óculos na ponta do nariz e tinha na testa um vinco que parecia fazer parte de sua anatomia.
— O artigo oitavo do Regimento Interno é muito claro — disse. — Qualquer desvio na formatação dos anexos poderá ser interpretado como infração grave. Precisamos tratar isso com o máximo rigor.
Na outra ponta da mesa, Renato e Helena cuidavam dos gráficos. Ela mexia no teclado. Ele examinava a tela.
Marcos continuava andando.
— Precisamos revisar tudo novamente. Margens, cabeçalhos, referências cruzadas, numeração das páginas…
— A margem do anexo B está com dois centímetros e meio — informou Arnaldo.
Marcos parou.
— Dois centímetros e meio?
— Exatamente.
— Quanto deveria ter?
— Três.
Marcos levou a mão à testa.
Renato baixou os olhos para esconder um sorriso.
— Algum problema? — perguntou Marcos.
— Nenhum.
— Você está rindo.
— Estou tentando não rir.
— E por quê?
Renato olhou para o monitor.
— Porque passamos quatro horas discutindo meio centímetro de margem.
Marcos ficou sério.
— Isso é importante, Renato.
— Eu sei. O problema é que o gráfico da página doze diz que vendemos zero unidades do produto no mês passado.
Helena mordeu o lábio para conter o riso. Arnaldo ergueu os olhos dos papéis.
— Uma coisa não exclui a outra. O relatório precisa estar tecnicamente correto.
— Claro — disse Renato. — Só estou pensando que talvez estejamos conseguindo fazer um documento impecável sobre um negócio que deixou de existir.
Marcos franziu a testa.
— Como assim?
Helena finalmente se virou para eles.
— Ele está falando do contrato.
— O que tem o contrato?
Ela pegou o celular.
— O cliente cancelou o projeto.
Ninguém falou nada. Marcos olhou para Helena como se ela tivesse acabado de anunciar uma catástrofe internacional.
— Quando?
— Há duas horas.
— E você só está dizendo isso agora?
— Eu tentei avisar, mas o senhor estava explicando a importância existencial do formulário azul.
Renato soltou uma risada. Helena também. Marcos permaneceu imóvel. Dr. Arnaldo, porém, continuava folheando o Regimento.
— É possível que haja algum procedimento específico para situações desse tipo — murmurou.
Renato olhou para ele.
— Para cliente cancelar contrato?
— Para interromper um processo em andamento.
— Acho que o cliente já cuidou dessa parte.
Helena levantou o celular.
— Ele foi bastante eficiente.
Marcos sentou-se. Por alguns segundos, ficou olhando para a montanha de papéis sobre a mesa. O relatório, as planilhas, os anexos, as margens, os cabeçalhos. Tudo aquilo que, minutos antes, parecia tão importante agora adquiria uma aparência quase ridícula.
Renato não resistiu:
— Pelo menos podemos dizer que o documento ficou pronto.
Marcos olhou para ele.
— Ficou?
— Ficou.
— Então está tudo certo.
Renato começou a rir. Helena acompanhou. Marcos tentou permanecer sério. Não conseguiu. Primeiro apareceu um sorriso discreto. Depois, uma risada curta. Em seguida, ele passou as duas mãos pelo rosto e começou a rir de verdade.
— Meu Deus! — disse. — Quatro horas!
— Quatro horas — confirmou Helena.
— Por causa de meio centímetro!
— E vinte páginas sobre o formulário azul — acrescentou Renato.
Marcos olhou para Arnaldo.
— E você escreveu dez páginas sobre o protocolo de envio.
Arnaldo ergueu os olhos.
— O protocolo é importante.
Marcos voltou a rir.
— Claro que é. Importantíssimo.
Pegou a gravata e a desatou.
— O café está frio, o cliente foi embora, o relatório ficou perfeito e ninguém vai ler uma linha dele.
Helena sorriu.
— Pelo menos a margem está correta.
Marcos bateu a mão sobre a mesa, rindo.
— Isso! A margem está correta!
Por alguns instantes, os quatro ficaram ali, diante daquele monumento à eficiência inútil. Só o Dr. Arnaldo permanecia sério. Folheava o Regimento com atenção, passando uma página depois da outra.
— Deve haver alguma cláusula — disse.
Renato levantou-se.
— Deve mesmo.
— Sobre o quê?
— Sobre a hora do almoço.
Marcos olhou para o relógio.
— Tem razão.
Guardou a gravata no bolso do paletó, empurrou a papelada para o centro da mesa e se levantou.
— Vamos almoçar.
Helena recolheu o celular.
— E o relatório?
Marcos olhou para o calhamaço.
— Deixa aí. Já fez a parte dele.
Renato sorriu.
— Qual parte?
Marcos abriu a porta e saiu, dando uma rápida olhada para a mesa. Não disse mais nada, mas todos entenderam.
Helena foi atrás. Renato também. O Dr. Arnaldo permaneceu por mais alguns segundos, sozinho na sala. Depois fechou o Regimento. Fitou o relatório. Olhou para as xícaras vazias sobre a mesa. E, por um instante muito breve, pareceu ensaiar um sorriso.
— A margem está correta — murmurou.
O Regimento continuou impávido sobre a mesa.
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