O muxá de Dona Luzia

 

por Giovanni Angius, em 6/8/2026.

É madrugada de domingo e Seu Benedito já está de pé. Lá fora, a garoa fina molha a terra da chácara, em Venda Nova do Imigrante. Dentro de casa, Dona Luzia mexe uma panela de muxá e a cozinha inteira cheira a milho, coco e canela.

O dia,  entretanto, começou com algumas contrariedades. O pneu dianteiro da velha picape amanheceu no chão e, na quinta-feira, uma chuva de granizo havia castigado boa parte do milharal.

Seu Benedito olha para o pneu, olha para o céu e resmunga um palavrão baixinho.

— Começou bonito...

Dona Luzia, da cozinha, responde:

— Reclama depois. O muxá está quase pronto.

Ele ri. Pega o macaco, a chave de roda e vai para o terreiro. Em poucos minutos está com lama até os joelhos, tentando trocar o pneu ainda no escuro. De vez em quando fala alguma coisa que a chuva trata de levar embora.

Dona Luzia continua trabalhando. Abre os panos de prato, separa as porções, ajeita os potes e confere tudo duas vezes. O milho que o granizo deixou de pé será pouco para a semana, mas aquele assunto pode esperar. A iguaria da culinária capixaba, não.

Às cinco e meia, a picape desce a serra. Na carroceria vão alguns ovos, uns maços de couve, tomates, aipim e o pouco de milho que escapou da chuva de pedra. No banco da frente, Dona Luzia segura as caixas no colo como quem transporta coisa preciosa.

— Segura direito isso aí — diz Benedito.

— Estou segurando.

— Porque se virar, você vai vender muxá de cabeça para baixo.

— E você vai vender ovo quebrado.

Os dois riem.

Às seis, a banca na feira da Gurigica já está montada. Aos poucos, a rua começa a ganhar vida. Passa o peixeiro empurrando carrinho com caixas de isopor, vem gente carregando sacola, um homem anuncia suas cebolas, alguém discute o preço do abacate e uma criança corre atrás da mãe com um pedaço de pastel na mão.

Dona Luzia coloca o muxá sobre a bancada. Ainda está quente. O vapor sobe da panela e se mistura ao cheiro de café, pastel, coentro, fruta madura e chuva.

A primeira freguesa chega.

— Bom dia, Luzia. Hoje tem?

— Tem. E está melhor que o marido.

Seu Benedito, do outro lado da banca, protesta:

— Isso é calúnia em praça pública!

A freguesa ri e pede duas porções. Depois chegam outras pessoas. Uma antiga freguesa olha para a banca e percebe que há menos produtos que de costume.

— Poxa, Benedito, pouca coisa hoje, né?

Ele ajeita o boné e responde:

— O granizo trabalhou bastante esta semana.

— E agora?

Ele aponta para a banca.

— Agora a gente trabalha também.

Ela olha para o muxá.

— E isso aqui?

Dona Luzia entra na conversa:

— Isso aqui o granizo não consegue destruir.

— Então me vê dois.

— Três — corrige Benedito. — Um é para mim.

— Você já comeu antes de chegar na feira — diz Luzia.

— Era só para controle de qualidade.

A manhã vai passando. O dinheiro entra devagar. O muxá acaba primeiro. Depois vão os ovos, o aipim, os tomates. A couve fica para o fim.

Entre uma venda e outra, Seu Benedito conversa com os vizinhos de banca, comenta o tempo, conta vantagem sobre o tamanho das espigas que ainda pretende plantar e reclama da picape velha.

— Essa caminhonete ainda vai me matar.

O feirante ao lado completa:

— Primeiro ela precisa sobreviver a você.

E todos caem na risada.

Perto do meio dia, a banca está quase vazia. Dona Luzia começa a recolher a tranqueira. Seu Benedito conta o dinheiro, confere novamente e guarda tudo na bolsinha de couro na cintura.

Não foi uma grande feira. Também não foi perdida.

Quando desmontam a banca, a chuva já parou, mas o asfalto ainda está molhado, refletindo um pedaço de céu que começa a abrir. Dona Luzia fecha a última caixa.

— Sobrou muxá?

— Um.

Seu Benedito olha para ela.

— Então esse é meu.

— Seu nada.

Ela pega a colher e divide o que restou em dois. Comem ali mesmo, de pé, antes de guardar as coisas na picape.

Depois entram no carro. Seu Benedito liga o motor, que reclama antes de pegar. Dona Luzia olha para a banca vazia e sorri.

— Domingo que vem tem mais.

Ele engata a primeira.

— Tem mesmo.

E descem a rua, levando para casa suas caixas vazias, o dinheiro da feira e a promessa de muxá para a próxima semana.


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