por Giovanni Angius, em 27/8/2026.
Action is consolatory.
It is the enemy of thought
and the friend of flattering illusions.
Joseph Conrad.
Às doze e quinze, a praça de alimentação do centro empresarial atinge a sua cadência mecânica. O som das bandejas de inox batendo contra os trilhos, o tilintar frenético dos talheres e o zumbido uniforme do ar-condicionado compõem a trilha sonora da engrenagem. Ninguém ali anda devagar; a pressa confere dignidade ao passo, como se a lentidão fosse uma confissão pública de irrelevância.
Sentamos em uma das infinitas mesas redondas de fórmica: Carlos, Nelson e eu.
Carlos não tira os olhos da tela do celular. Entre uma garfada de arroz e outra de frango grelhado, seus polegares disparam respostas curtas, quase telegráficas. Ele ajusta planilhas, confere notificações vermelhas e suspira com um peso teatral.
— Se eu não despachar essas pendências agora, o fechamento da tarde vira um inferno. — Murmura, mastigando sem saborear.
Não há raiva na sua voz, apenas uma entrega devota ao dever imediato do dia. Para Carlos, o fluxo ininterrupto de tarefas é o ar que respira; responder a cada chamado urgente é a âncora que o impede de se perguntar por que acorda todos os dias às seis da manhã. A rotina não o escraviza: ela o protege.
Do outro lado da mesa, Nelson, nosso supervisor, opera em outro registro. Ele gesticula, empolgado, com o guardanapo de papel ainda enrolado nos dedos. Fala da reestruturação do departamento, dos novos indicadores e do legado que a equipe deixará ao final do trimestre. Constrói para si e para quem quiser ouvir a imagem de um protagonista essencial, alguém cujo sacrifício move o mecanismo rumo ao progresso. Cada pequeno ajuste num processo burocrático ganha contornos de épico moral. Nelson precisa dessa narrativa heroica; sem a fantasia de que cumpre um papel grandioso, o peso dos relatórios descartáveis seria insuportável.
Eu, por descuido, deixei o telefone no bolso da calça.
Sem uma tela para fixar a vista e sem o ímpeto de intervir na conversa, olho o vapor suave que sobe do prato de comida. Naquele hiato involuntário, o ruído ao redor parece diminuir de volume. Uma clareza incômoda e gélida se instala em minha mente. Olho para os lados e vejo dezenas de homens e mulheres engolindo calorias às pressas para abastecer a tarde de trabalho, todos convencidos de que a próxima reunião decidirá os rumos do mundo. A coreografia perde o encanto; revela-se apenas o mecanismo nu de corpos cumprindo funções provisórias num edifício de vidro espelhado. A sensação não é de superioridade, mas de um desamparo vertiginoso. Por alguns segundos, vejo aquela movimentação sem a justificativa que costumamos lhe dar, sem o filtro da pressa ou da vaidade, pesa como chumbo no peito.
O silêncio começa a me sufocar.
Antes que o peso da constatação me paralise de vez, enfio a mão no bolso. Puxo o celular, desbloqueio o aparelho e abro o aplicativo de mensagens. Procuro por qualquer coisa não lida, qualquer urgência artificial que exija resposta rápida. Digito algumas palavras apressadas sobre um arquivo em anexo.
O coração desacelera, a respiração volta ao normal. Volto a ser um homem ocupado. Penso então que não há consolo mais eficaz contra a vertigem da existência do que uma tarefa para terminar com urgência antes das duas.
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