O beijo no jardim

 

por Giovanni Angius, em 7/8/2026.

O banco de madeira parecia ter sido colocado ali só para receber gente que não tem pressa. Ficava numa das alamedas do Parque da Pedra da Cebola, pertinho da escultura do beijo do colibri, aquela que homenageia o Augusto Ruschi. Eu estava por ali, à toa. O velho se destacava entre os retalhos de luz e sombra projetados no chão. Jaqueta de couro meio descorada, boné estilo berretto italiano, num sossego que me chamou muito a atenção.

Ele não olhava para o celular, não conferia o relógio, não esperava ninguém com a ansiedade de quem marca encontro e fica contando os minutos. Apenas estava ali, presente. A brisa batia leve, o sol da manhã fazia uma luz brilhante nas copas, os cheiros do parque subiam misturados — terra molhada, grama cortada, um resto de café de alguém que passou com copo térmico na mão. O velho respirava tudo aquilo como se fosse um privilégio.

Depois de um bom tempo, apareceu um homem mais jovem. Trinta, trinta e cinco anos, algo assim. Chegou devagar, sentou ao lado, sem alarde. Começaram a conversar numa calma que parecia ensaiada, mas era natural. Um falava, o outro ouvia. Entre uma frase e outra, sempre uns segundos de silêncio, como se o ar precisasse assentar antes de receber a próxima palavra.

Há encontros que só existem porque, por alguns minutos, alguém se dispõe verdadeiramente a ouvir o outro.

Fiquei ali, observando à distância, sem querer me aproximar. Não sentia curiosidade de bisbilhotar o assunto. Seriam amigos? Ou parentes? Ou ainda dois desconhecidos que o acaso encostou num banco qualquer? Tanto faz. O que me pegou foi o modo como se olhavam. Havia uma entrega no olhar, uma espécie de nudez sem defesa. Não era só o rosto que estava exposto; era algo mais frágil, como se cada um dissesse, sem falar: “Estou aqui, pode vir, pode dizer, eu escuto antes de julgar”.

Não havia pressa nas respostas. Pareciam ocupados em captar o sentido — ou o próprio sentimento — que trocavam. O olhar atento funcionava como um limite discreto, uma ética implícita que impunha respeito e paciência. Um imperativo mudo de que o outro é sagrado e intangível.

A cena durou muitos minutos. Em certo momento, imaginei que tivessem sentido meu olhar. Mas não. Minha observação era invisível para eles, e isso me dava uma estranha sensação de leveza. Eu era só mais uma sombra no parque, sem peso, sem consequência.

Após um longo silêncio, o mais jovem se levantou. Sem cumprimento, sem aceno, sem despedida. Olhou em volta, como quem busca referências no espaço, deu uma olhadela rápida para o velho e se afastou. O velho ficou olhando para o infinito à sua frente. Devolvido à própria solidão, mas não triste. Apenas inteiro.

Mais tarde, surgiu um garotinho. Cinco ou seis anos, talvez. Caminhou com a familiaridade dos pequenos e se aconchegou entre os joelhos do velho. Logo em seguida, ambos se levantaram. Só aí percebi uma jovem mulher se aproximando — provavelmente a filha do velho e mãe do menino. Seguiram juntos na direção da portaria do parque e se foram, sumindo entre as árvores.

Nenhum deles jamais saberá que estive a observá-los ao longe. Essa era a única certeza sólida de toda a minha manhã. E aquilo me fez lembrar da impermanência de tudo na vida inumerável, da nossa incansável incapacidade de revelar, por esforço puramente intelectual, o sentido último da existência. A vida não se entrega em teoremas; ela se manifesta naqueles pequenos encontros em que nos dispomos, ainda que por instantes, a acolher a existência do outro sem tentar contê-la ou explicá-la.

Fui até a lanchonete e pedi um café. Sentei com a xícara entre as mãos, imóvel, remoendo a cena. Tentava entender o que havia testemunhado, buscando traduzir em mim as lições silenciosas daquele banco de jardim. O café esfriou um pouco antes do primeiro gole. Eu nem percebi.


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