Aguinha com gelinho pequeno

 

por Giovanni Angius, em 10/8/2026

Na Itália, o Dia dos Pais é celebrado em 19 de março, dia de São José. A escolha não é por acaso. José foi aquele homem silencioso que aparece nos Evangelhos fazendo aquilo que, muitas vezes, os pais fazem sem alarde: proteger, sustentar, ensinar, acompanhar. Sua grandeza está justamente na discrição.

No Brasil, a festa acontece no segundo domingo de agosto. Por aqui, a data ganhou seu jeito próprio, entre propagandas, presentes, abraços, almoços demorados e famílias reunidas em torno de uma mesa.

Aqui em casa, o Dia dos Pais deste ano teve um sabor bem capixaba.

A casa ficou cheia. Mulher, filhos, genro, nora e neta. Vozes misturadas, risadas, pratos chegando à mesa, copos sendo servidos, conversas que começavam num assunto e terminavam sabe-se lá onde. Em alguns momentos, cada um mergulhava na tela do próprio celular. A família estava toda junta, embora alguns de nós, por breves períodos, estivessem em lugares completamente diferentes.

Preparei uma moqueca de badejo com banana-da-terra, pirão e arroz branco. A panela de barro ficou no fogo por um bom tempo, soltando aquele cheiro que parece convocar as pessoas para a cozinha. O vinho acompanhou o almoço e, como costuma acontecer quando a comida é boa e a família está reunida, a mesa demorou a ser desfeita.

Enquanto mexia a panela, pensei em meu pai.

Ele era italiano, nascido em Bonorva, un piccolo paese in Sardegna. Às vezes penso em como a vida é curiosa. Meu pai nasceu numa ilha do Mediterrâneo e veio parar neste lado do Atlântico. Eu, muitos anos depois, estava ali, numa cozinha capixaba, preparando uma moqueca numa panela de barro.

Por alguns segundos, o cheiro da comida pareceu abrir uma porta. Lembrei-me dele.

Fiquei olhando o caldo cozinhar e fiz uma breve prece. Pensei na voz, nos gestos, nas coisas que permanecem de uma pessoa depois que ela já não está aqui para repeti-las. Há lembranças que chegam sem avisar. A gente não as procura. Elas simplesmente aparecem. Fiquei ali, diante do fogão, mergulhado naquele instante.

Então Helena interrompeu minha viagem.

— Quero aguinha, vovô, com gelinho pequeno, por favor.

A alta filosofia da saudade ruiu diante de um copo de plástico.

Servi a água, coloquei um canudo e entreguei a ela. Helena bebeu satisfeita e saiu correndo para a sala, de volta às suas bonecas com os inseparáveis paninhos.

Voltei para a moqueca. Voltei para a taça de vinho. Voltei para a família. Voltei para aquele domingo.

Foi engraçado perceber como a vida consegue nos puxar de volta. Eu estava pensando em meu pai, na distância entre a Sardenha e o Espírito Santo, naquilo que permanece de quem amamos depois que a morte leva o corpo. Então uma menina de quase três anos me pediu água com pouco gelo e me devolveu ao presente.

Talvez seja assim que as gerações se encontrem.

Meu pai me ensinou coisas que provavelmente eu só compreendi muitos anos depois. Eu ensinei algumas coisas aos meus filhos. Agora, sem perceber, recebo pequenas lições de Helena. Uma delas é que, diante de certas questões grandes demais, convém beber água, correr para a sala e continuar brincando.

Ser pai também deve ter alguma coisa a ver com isso: estar presente enquanto os filhos crescem e, depois, aprender a assistir à vida seguir adiante. A gente segura a mão por algum tempo. Depois solta. Eles caminham sozinhos. Mais tarde, chegam os netos, e descobrimos que a história continua por caminhos que não estavam nos nossos planos.

Meu pai está em algum lugar do passado. Eu estou aqui, entre a panela de barro e a mesa da família. Helena está no futuro. E, por algumas horas, todos esses tempos estiveram juntos naquela cozinha. Bonorva e o Espírito Santo. Meu pai e meus filhos. A saudade e a água com gelinho pequeno. O que já passou e aquilo que ainda está começando.

Quando uma família se reúne em torno de uma mesa por algumas horas impede que o tempo siga em linha reta.

Depois que o almoço termina, os pratos são lavados, as pessoas vão embora, a casa silencia outra vez. A saudade se esconde.

A panela de barro volta para a prateleira mais alta da despensa.

Buona Festa del Papà!

Feliz Dia dos Pais!


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