A penha e a maré

 

por Giovanni Angius, em 8/8/2026.

O ar da varanda guardava o calor manso no início da noite. Ao fundo, uma música discreta se misturava ao burburinho dos amigos que haviam vindo comemorar o nascimento das páginas do meu novo livro. O garçom passava entre as mesas com o vinho, enquanto, perto da grelha, o chef cuidava das carnes.

Para mim, era uma noite de celebração. Para Felipe, parecia o começo de alguma coisa para a qual ainda não havia nome.

Enquanto os pequenos grupos se espalhavam entre a bebida e as conversas amenas, ele permanecia junto ao guarda-corpo da varanda, de frente para o mar de Camburi, os olhos presos à linha do horizonte, que escurecia. A cidade começava a acender suas luzes. Lá embaixo, os carros corriam pela avenida Dante Michelini, indiferentes à ruína particular de qualquer um.

Horas antes, a corretora de investimentos onde Felipe ocupava um cargo importante fora tragada por um escândalo de desvio de fundos. A diretoria havia sido afastada, a Internet já falava em colapso, e o desemprego deixara de ser uma possibilidade para se tornar uma certeza.

O golpe, entretanto, não estava apenas na perda do cargo. Confiando nos bônus e na prosperidade do mercado, Felipe havia iniciado uma reforma enorme no seu apartamento. Agora, equilibrava-se sobre um abismo de dívidas, sem saber qual dos compromissos venceria primeiro. Tinha no rosto a expressão estupefata de quem descobre, tarde demais, que a vida jamais havia assinado o contrato de previsibilidade que ele julgava ter em mãos.

Dona Elza aproximou-se sem pressa. Era uma grande amiga e professora aposentada de Língua Portuguesa e Literatura. Trazia consigo uma serenidade que não vinha de respostas prontas, mas de ter visto muitas certezas se desfazerem — e algumas voltarem, diferentes, depois de algum tempo.

Ela parou ao lado dele e olhou para a praia.

— Está mais fresco aqui fora — disse. — Mas você parece estar com calor.

Felipe tentou sorrir. Não conseguiu.

— Perdi o chão, Dona Elza.

— Perdeu o emprego.

— Não é só isso.

Ele apoiou as mãos no guarda-corpo.

— Levei quinze anos para construir uma carreira, uma rotina, uma certa estabilidade. Em poucas horas, tudo acabou. E eu fiz compromissos contando com o mês seguinte, com bônus futuros, com a empresa crescendo... — Respirou fundo. — Agora não sei como vou pagar as contas. Nem sei quem sou sem aquele trabalho.

Elza acompanhou com os olhos o movimento dos carros.

— Você passou tempo demais respondendo pelo cargo.

Felipe virou-se para ela, meio irritado.

— Eu sei que parece uma frase bonita, mas as contas continuam existindo.

— Eu não disse que não existem.

— A reforma está pela metade. O banco não vai aceitar que eu explique impermanências na vida. O condomínio também não.

— Ainda bem — respondeu ela, com um meio sorriso. — Seria uma conversa muito comprida.

Felipe soltou uma breve risada, mas logo voltou a olhar para o mar.

— Eu devia ter previsto isso.

— Previsto o escândalo?

— Não. Mas devia ter sido mais cuidadoso. Menos confiante.

— Talvez. — Ela ficou calada um instante, girando a taça devagar. — Mas fica remoendo o quê, exatamente? O que já passou não muda nada.

Felipe ficou em silêncio. Dona Elza devolveu a taça vazia e pegou outra que o garçom lhe oferecia. Tomou um pequeno gole.

— Você tratava o futuro como uma extensão de planilha. — disse ela, olhando para os carros lá embaixo. — Comportado. Previsível.

— E o que eu faço com isso agora?

— Separa uma coisa da outra — disse ela. — O que aconteceu, e o que você já está contando para si mesmo sobre o que aconteceu.

— Não vejo diferença.

— A empresa quebrou. Isso é fato. — Ela hesitou, como se procurasse a palavra certa e não achasse. — O resto é história que você está escrevendo por cima.

Ele permaneceu calado, como se examinasse a frase contra a paisagem.

— Não sei se consigo enxergar uma saída.

— Você não precisa enxergar a saída inteira. Apenas o próximo passo.

— Parece pouco.

— Em certas noites, é o máximo que se consegue.

Um grupo de amigos riu na mesa ao lado. A música mudou, e por alguns instantes o som das conversas pareceu vir de muito longe.

— Eu construí tudo em torno daquela carreira — disse Felipe. — O apartamento, os hábitos, os planos. Até as pessoas com quem convivo…

— Então talvez não seja apenas uma carreira que precise ser revista.

Ele a encarou.

— A senhora está dizendo para eu vender o apartamento?

— Estou dizendo que, se for necessário, você pode vender o apartamento sem concluir que se vendeu junto com ele.

Felipe baixou os olhos.

— Eu sempre achei que abrir mão ou retroceder fossem formas de fracasso.

— Depende do que você acha que está segurando. — Ela pousou a taça no guarda-corpo, como se o gesto valesse mais que continuar a frase.

Felipe respirou devagar. Pela primeira vez desde que se aproximara da varanda, seus ombros pareceram ceder um pouco.

— E se eu não conseguir voltar ao que era?

— Talvez esse seja justamente o ponto.

— Não parece muito animador.

— Voltar ao que era não é uma obrigação. Nem sempre é possível. Nem sempre seria desejável, se a gente soubesse tudo o que sabe depois.

Ele esboçou outro sorriso, mais verdadeiro.

— A senhora sempre encontra um jeito de piorar uma frase antes de melhorá-la.

— É meu vício das salas de aula.

Dona Elza voltou-se para o mar. Ao fundo, o Convento da Penha iluminado permanecia sobre a pedra, imóvel na distância, enquanto a água avançava e recuava sem pedir licença.

— Amanhã você vai precisar ligar para o banco, rever os gastos, interromper a reforma e conversar com algumas pessoas — disse ela. — Vai ser desagradável. Mas são coisas que podem ser feitas. O resto — saber exatamente quem você será daqui a um ano — pode esperar.

Felipe acompanhou o movimento das ondas.

— Não sei se vou conseguir.

— Acho que você ainda está aqui.

— Isso é uma resposta?

— Para hoje, é.

Ele ficou olhando para o Convento da Penha. A construção estava lá, imóvel havia séculos, mas, mesmo de longe, era possível imaginar o trabalho silencioso do vento, da chuva e do sal.

— Engraçado — murmurou. — A gente passa a vida tentando construir alguma coisa firme…

— E depois descobre que firmeza não é a mesma coisa que imobilidade. — Ela concluiu a frase.

Felipe deixou escapar o ar que parecia preso no peito desde a manhã.

Olhou mais uma vez para o Convento, apoiado na pedra, e para a água, que nunca era a mesma duas vezes. Afastou-se da beira da varanda com um pouco menos de peso no corpo — sem saber, ainda, se aquilo era coragem ou apenas cansaço.


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