por Giovanni Angius, em 19/8/2026.
A chuva varou a madrugada inteira, e agora, às seis e meia, ainda cai persistente sobre a cidade. Nos pontos de ônibus das avenidas, pessoas esperam, cada uma carregando os próprios julgamentos sobre a manhã.
Uma caixa de supermercado aperta a bolsa contra o peito e resmunga: “Que dia horrível. Tudo dá errado em dia assim”. Ao lado, um jovem, entregador de aplicativo, confere o celular e pensa: “Se eu perder mais uma corrida, a semana já era”. Mais adiante, a estudante, de fones no ouvido, suspira: “Vou chegar atrasada de novo. O professor vai achar que não me importo”. E assim é: pensamentos aceitos como sentenças definitivas antes mesmo da primeira gota secar na roupa.
O ônibus chega atrasado, lotado de gente. Dona Marta é empurrada ao entrar e, por reflexo, pensa: “As pessoas são grosseiras”. Mas, por um instante, lembra-se de algo que leu no panfleto que há uns dias: “Antes de qualificar, descreva”. Respira e reformula internamente: “As pessoas estão apressadas e molhadas; eu também”.
Mais tarde, na cantina da escola, o relógio na parede marcava nove horas.
Dona Marta limpava a bancada de inox com o mesmo pano desbotado que parecia ter visto mais turmas de alunos do que ela própria conseguia lembrar. O cheiro de pão francês com margarina tostado na chapa dominava o ar abafado, misturando-se ao vapor suave da panela onde o molho de tomate borbulhava em fogo baixo.
Em instantes, a sirene estridente anunciaria o recreio. Uma avalanche de passos infantis desceria os degraus de cimento como uma tempestade viva, na pressa infinita de quem tem a certeza absoluta de que o tempo nunca se esgota. Ela conhecia bem aquele ímpeto; décadas atrás, ela mesma corria por aquele pátio, convicta de que a juventude era uma propriedade definitiva.
Hoje, suas mãos calejadas cortavam os pães com uma calma mecânica. A cada fatia que tombava sobre a bandeja de alumínio gasta, ela percebia a marcha discreta dos dias que não pedem licença para passar. As gerações vinham em ondas: os rostos infantis cresciam rápido demais, sumiam pelos portões de ferro, ganhavam rugas, tornavam-se adultos cansados ou partiam em silêncio deste mundo, enquanto as paredes de azulejo branco continuavam ali, impassíveis, acumulando camadas de tinta sobre o reboco gasto.
A sirene disparou. O corredor se encheu de ecos e gargalhadas urgentes. Um menino franzino, com o uniforme puído e a respiração entrecortada pela corrida, esticou as mãos sobre a bancada fria, faminto por um cachorro quente com um copo de suco e pela eternidade daquela manhã.
Dona Marta entregou o lanche e fitou aqueles olhos acesos por um breve segundo. Sabia que o vigor que movia todo aquele barulho era apenas um sopro passageiro antes que a noite cobrisse o pátio vazio. Deu um amplo e sereno sorriso, certa de que a finitude não tira o gosto da merenda, mas faz cada mordida valer a pena.
No fundo, ela sabia que ninguém deixou de se molhar, de chegar atrasado ou de enfrentar suas rotinas do dia. A realidade continuou exatamente a mesma, indiferente às vontades de cada um. A diferença esteve naqueles breves momentos em que pensou sobre tudo o que está, de fato, sob seu controle e na constatação de que a chuva, afinal, é apenas chuva.
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