O espelho quebrado

 

por Giovanni Angius, em 28/8/2026.

O deusito da terra está na mesma: parvo como ab initio.

Melhor fora (digo eu cá) não lhe teres infundido o raio dessa luz,

que lá se chama Razão,

e que na prática só presta para o tornar mais bruto que os mais brutos.

Mefistófeles, em Fausto — Goethe.

O feed exibe uma mulher intocável. Dayara — arquétipo do luxo contemporâneo — brilha sob tetos afrescados de palacetes em Milão, janta em iates na costa de Miami e desfila alta-costura pelas avenidas mais caras de São Paulo. Mas nos bastidores, trancada no quarto de hotel, diante do espelho, despojada das caras perucas e das camadas de maquiagem que cobrem sua palidez, vive Odete — consumida pela paranoia, dependente de ansiolíticos e assombrada pelos dias que passou encarcerada em uma cela fria antes que uma liminar de habeas corpus a devolvesse ao asfalto.

— Você vai postar agora — diz Pietro, sem levantar a voz. — O ângulo é três quartos, luz de janela, nada de filtro pesado. O público quer autenticidade, não perfeição.

Odete segura o celular como quem segura uma arma apontada para si mesma.

— Autenticidade? — ela ri, um som seco. — Eles querem o espetáculo. Eu sou o espetáculo.

— Você é o que o algoritmo deixar você ser — responde Pietro, ajustando o terno sob medida. — E o algoritmo, hoje, recompensa a desfaçatez, o escândalo, a ostentação desenfreada. Culpa e empatia são fraquezas que matam o engajamento.

Ele não veste capa nem carrega contratos em pergaminho; seu discurso de mentalidade inabalável basta como o arquiteto do pacto. Ele não apenas dita o ângulo exato das joias alugadas e a cadência da voz nos pronunciamentos ensaiados, mas a alimenta diariamente com o Livro Amarelo moderno: a obsessão pelas métricas cruéis do Algoritmo, a cartilha invisível que ensina a transformar a vida em performance.

— E se eu não quiser mais? — pergunta Odete, olhando para as próprias mãos trêmulas.

— Não é sobre querer — diz Pietro. — É sobre sustentar o avatar. Enquanto os promotores públicos fecham o cerco contra o esquema internacional de lavagem de dinheiro que financiava sua rotina nababesca, você não tem escolha. Recuar é desaparecer.

Em vez de recuar, ela dobra a aposta sob a tutela cínica de Pietro: vitimiza-se publicamente, monetiza a própria desgraça como um acessório a mais em sua rotina e manipula a devoção cega de milhões de seguidores, transformando o crime em mero espetáculo de superação e poder.

— Olha só — diz ela, mostrando a tela. — Hoje, minha liberdade tornou-se o meu item mais caro. Cada notificação, um lembrete de que sou forte.

Pietro sorri, sem calor.

— Perfeito.

O colapso atinge o ápice durante uma live em uma milionária cobertura em Paris. Confrontada em tempo real com o vazamento de áudios que revelam sua cumplicidade explícita com o crime organizado e o desprezo nojento que nutre pelo próprio público, a máscara se estilhaça.

— Odete, desliga — ordena Pietro, já de pé, já se afastando.

— Não consigo — ela responde, os olhos fixos no reflexo da tela. — Eles estão vendo. Eles precisam ver.

— Eles já viram o suficiente — diz ele.

Pietro sai do apartamento, sem pressa, sem pânico, indiferente, pegando o casaco, conferindo o próprio celular para contatar o outro cliente no Brasil, deixando-a iluminada apenas pelo brilho azulado e impiedoso da tela.

Sem conseguir desligar a câmera, Odete entra em um delírio narcísico ao vivo; o filtro digital oscila e falha, revelando não uma deusa intocável, mas seu rosto real, uma mulher desfigurada.

— Eu sou Dayara — sussurra ela, como quem reza.

Mas o espelho não responde.

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