por Giovanni Angius, em 20/8/2026.
Arthur não era antissocial. Essa informação precisa ser dada logo, antes que alguém o confunda com esses homens que tratam a humanidade como uma doença contagiosa e chamam de filosofia o prazer de não cumprimentar os vizinhos. Arthur frequentava a faculdade, assistia às aulas, convivia com os colegas e, de vez em quando, até aceitava um convite para sair. Sabia rir. Sabia contar uma história. Namorou. Teve amigos.
O problema não era conviver. O problema era que, depois de algum tempo convivendo, Arthur precisava voltar para casa.
Enquanto os colegas prolongavam a noite em bares, festas ou rodas de conversa, ele voltava para o quarto, acendia uma luminária, colocava música para tocar e abria um livro. Havia qualquer coisa naquela sucessão de páginas que lhe devolvia uma espécie de equilíbrio. Sozinho, não precisava representar entusiasmo, inventar opiniões, acompanhar risadas que não compreendia ou demonstrar interesse por assuntos que logo lhe pareciam esquecíveis.
Arthur gostava da própria companhia, mas ainda não sabia disso. Naquela idade, confundia a preferência pelo silêncio com algum defeito de fabricação. Perguntava a si mesmo por que não era como os outros. Por que não sentia a mesma necessidade de estar sempre acompanhado? Por que algumas conversas lhe pareciam exaustivas depois de cinco minutos? Por que, em certos fins de semana, a ausência de convites lhe provocava antes alívio do que decepção?
Ele não se considerava especial. Ao contrário: julgava-se incompleto.
Certo dia, numa mesa da biblioteca da faculdade, encontrou um volume de filosofia que alguém havia deixado aberto. Atraído pelo nome severo do autor, Schopenhauer, folheou algumas páginas.
Arthur estudava Medicina. Aprendia a arquitetura do organismo, seus mecanismos e as formas pelas quais o corpo se desviava de si mesmo. Aprendia também que a doença não era apenas uma alteração num órgão, mas uma ameaça que alcançava a vida inteira.
O filósofo lhe mostrou outra anatomia. Uma anatomia sem bisturi. Ao ler que a riqueza interior torna a solidão suportável, Arthur não pensou imediatamente: “Sou extraordinário”. Seria uma conclusão vaidosa demais. O que lhe ocorreu foi algo mais modesto e mais importante: “Então existe uma razão para eu me sentir assim”.
Arthur passou a observar a própria vida por aquela nova lente. Percebeu que, quando ficava sozinho, nem sempre sentia vazio. Muitas vezes, pensava melhor. Estudava com mais concentração. Lia durante horas. Caminhava sem pressa. Observava as pessoas nos bancos das praças, nos corredores da faculdade, nas filas dos hospitais. Gostava de conversas profundas e cansava-se das que pareciam existir apenas para preencher o silêncio.
Era como se tivesse colocado uma legenda sob uma fotografia que carregava dentro de si desde menino. A solidão, então, deixou de parecer uma sala vazia. Tornou-se uma sala ocupada por ele. Aos poucos, a ideia passou do livro para o comportamento. Arthur começou a recusar alguns convites. Reduziu certas amizades. Preferiu pequenos círculos às grandes rodas. Aprendeu a passar um domingo inteiro sem telefonar para ninguém e sem esperar que alguém telefonasse. Descobriu o prazer de caminhar sozinho depois das aulas, como se a cidade pudesse ser lida com mais atenção quando não precisava ser comentada.
Os colegas começaram a achar que ele se julgava superior. Talvez tivessem razão.
Arthur passou a considerar superficiais as pessoas que não liam os mesmos livros, que preferiam festas a conversas, que falavam de assuntos que ele não julgava dignos de uma existência humana. A filosofia, que antes lhe servira para compreender a si mesmo, começou a servir-lhe para condenar os outros.
Era uma tentação perigosa. Arthur ainda não sabia distinguir entre não depender da multidão e desprezar a multidão. Confundia autonomia com distância. Chamava de lucidez o que, às vezes, era apenas orgulho.
E essa conduta o fez sofrer quando percebeu que até uma ideia elevada podia ser deformada pelo ego de quem a adotava. Foi a própria Medicina, porém, que começou a desfazer o equívoco.
Certa tarde, durante o estágio, atendeu uma senhora que morava sozinha. Não era uma solidão escolhida que pudesse ser interrompida pela abertura voluntária de um livro ou pelo prazer de uma caminhada. Era uma solidão feita de portas fechadas, telefones que não tocavam e dias que se repetiam sem testemunhas.
A mulher falava devagar. Não tinha uma doença especialmente grave, mas demorou muito para concluir a consulta. Contou coisas que não diziam respeito diretamente aos sintomas: falou do marido morto, dos filhos distantes, de uma vizinha que havia se mudado. Quando finalmente se levantou, segurou a mão de Arthur por alguns segundos a mais do que seria necessário. Ele percebeu, então, que o sofrimento humano não obedecia inteiramente às suas teorias filosóficas.
Arthur voltou ao filósofo com menos entusiasmo e mais maturidade. Releu as passagens sobre o recolhimento. Talvez a reflexão não sugerisse que uma mente atenta devesse fechar-se aos outros com desdém. Talvez significasse apenas que uma vida interior rica não pode depender continuamente da aprovação alheia para existir.
Naquele momento, Arthur percebeu que havia dentro dele um homem que perguntava por que não era como os demais e outro que começava a compreender que não precisava ser igual a eles — nem superior. Precisava apenas aprender a permanecer consigo mesmo.
Esse último Arthur era menos brilhante, certamente. Era, porém, mais humano.
Você encontra os meus livros em:
Nenhum comentário:
Postar um comentário