por Giovanni Angius, em 21/8/2026.
Amanheci com o sobressalto metálico do celular: Defesa Civil (ES) ALERTA de CHUVA PERSISTENTE na GRANDE VITÓRIA nas próximas horas. Risco de alagamentos.
Olhei pela janela ainda meio sonolento, meio desperto. O céu cinzento sobre a praia parecia um teto de chumbo desabando. O primeiro impulso é sempre o mais mesquinho e humano: a raiva miúda. Por que justo hoje? Por que essa cidade insiste em virar mar a cada tempestade? O corpo tensiona como se a indignação de um sujeito de pijama pudesse empurrar as nuvens de volta para o oceano.
Por alguns minutos fiquei olhando a chuva engrossar. Na rua, os guarda-chuvas surgiam como pequenas manchas escuras caminhando apressadas pelas calçadas. Um entregador, encolhido sobre a motocicleta, esperava o sinal abrir. Uma senhora puxava pela mão uma criança que saltava sobre as poças, indiferente ao mau humor do céu. A cidade inteira parecia ter recebido o mesmo aviso que eu e, ainda assim, cada pessoa encontrava seu jeito de continuar.
Pensei nos estoicos. Um deles provavelmente diria para eu calçar as galochas e ocupar-me apenas daquilo que estava ao alcance das minhas mãos. Depois me lembrei de Nietzsche. Havia algo além da simples resignação: a ideia de desejar a própria realidade, inclusive aquilo que chega sem pedir licença. Amar o inevitável.
Tomei meu café e saí mais cedo. Calçado resistente, pastas protegidas em sacos plásticos, a rota mentalmente recalibrada para fugir dos pontos críticos. O asfalto brilhava como espelho negro e as bocas de lobo engoliam a enxurrada com um gorgolejo voraz.
No primeiro cruzamento, o trânsito já começava a engrossar. Um carro parou no meio da rua, e o motorista desceu para verificar a água que avançava sobre os pneus. Atrás dele, uma fila de veículos se formou. Algumas buzinas começaram a reclamar, como se o barulho pudesse acelerar o escoamento da água.
Mais adiante, um ônibus avançava devagar, levantando pequenas ondas junto ao meio-fio. Dentro dele, rostos sonolentos acompanhavam a chuva através dos vidros embaçados. Pensei que todos nós, de alguma maneira, estávamos sendo forçados a diminuir o passo. A chuva tinha feito aquilo que tantas vezes tentamos fazer sem conseguir: interromper a pressa.
De repente, a irritação cedeu espaço a um estranho vigor. Cada poça desviada, cada gota no vidro do carro, cada atraso e cada movimento cauteloso dos outros motoristas passaram a ter uma espécie de presença própria. O mundo não estava errado; o mundo estava apenas acontecendo, e eu estava dentro dele.
Cheguei ao destino com a barra da calça úmida e os sapatos salpicados de sujeira. Na recepção, encontrei apenas um colega. Ele me mostrou o celular: a reunião estava cancelada. Dois colegas estavam presos no trânsito; outro avisara que não conseguiria sair de casa. A agenda do dia, cuidadosamente organizada na véspera, havia sido desmontada em poucos minutos pela meteorologia.
Em outro tempo, o fel da frustração teria estragado a manhã. Naquele dia, porém, puxei a cadeira, servi um café e abri o caderno de anotações.
O colega riu e disse que tinha levado quarenta minutos para percorrer um caminho que normalmente fazia em quinze. Contou que, no meio do trajeto, ajudara uma mulher a empurrar o carro que parara numa área alagada. Enquanto falava, recebeu uma mensagem da mulher perguntando se ele havia chegado bem.
Fiquei pensando naquilo. A chuva que, para mim, começara como uma inconveniência particular havia se espalhado pela cidade e entrado na manhã de milhares de pessoas. Para cada um, ela tinha uma história diferente. Alguém perderia um compromisso. Outro chegaria atrasado para a consulta. Alguém encontraria uma pessoa desconhecida para ajudar. E há quem simplesmente dormiria mais uma hora.
O tempo que a chuva roubou virou o tempo que a chuva me deu.
Ao longo do dia, aquela ideia foi ficando comigo. Pensei no eterno retorno de Nietzsche. Se aquela manhã — o alerta ruidoso, o céu fechado, o trânsito parado, os sapatos molhados, a reunião cancelada — tivesse de se repetir infinitas vezes, eu seria capaz de recebê-la outra vez sem desejar que fosse diferente?
A pergunta parecia exagerada para uma sexta-feira chuvosa. Ainda assim, havia nela alguma coisa incômoda e verdadeira.
Quando o celular vibrou mais tarde anunciando o fim do alerta, o trânsito já começava a desatar seus nós e a água baixava pelas calçadas. Ao sair, encontrei a cidade cansada, brilhando sob as luzes da noite que começava. Pessoas voltavam a caminhar depressa. Os ônibus em ritmo frenético. As poças ainda guardavam pedaços do céu.
Olhei para os sapatos secando a um canto e pensei que aquele dia, com todos os seus inconvenientes, já fazia parte da minha história. Não havia como devolvê-lo, corrigir seus desvios ou refazer seus minutos.
Talvez fosse isso que Nietzsche quisesse perguntar ao nos convidar a imaginar a repetição eterna da própria existência: se tivéssemos de viver novamente o que vivemos, seríamos capazes de dizer sim?
Olhei mais uma vez para a chuva que ainda caía, agora mansa. Se a tempestade voltasse amanhã, exatamente assim, que venha.
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