O buda na beira da estrada

 

por Giovanni Angius, em 5/8/2026.

Saí de Colatina no sábado à tarde, com as orientações e conselhos que fui buscar junto a um velho irmão de Maçonaria para tratar de alguns encaminhamentos em minha Loja. Assuntos que exigiam equilíbrio, paciência e uma boa dose de compostura. A conversa foi esclarecedora e me ajudou bastante, claro, mas aconteceu um fato inesperado no meu retorno. Algo que me acertou em cheio, quase sem aviso, ali na beira da BR-101, diante do Buda de Ibiraçu.

Eu já tinha visitado o lugar outras vezes e sempre que é possível faço uma pequena parada, como uma pausa para enfrentar a estrada mais descansado. Estar ali é agradável. A estátua impressiona logo de cara. São 35 metros de altura e 350 toneladas de aço e concreto, uma presença que não passa despercebida nem por quem está só de passagem. Dizem que é o segundo maior Buda sentado do mundo, e está em estado de meditação sobre a flor de lótus, com uma expressão que parece dizer: sossegue. E eu, que vinha rodando por dentro durante todo o dia, entendi a mensagem.

Parei para tomar um caldo de cana e comer um pastel de palmito. A coisa mais simples do mundo, e justamente por isso tão boa. É tradição. Necessito disso para ajudar a retomar o rumo de meus pensamentos. Na praça, sentei, respirei, olhei em volta, e vi pessoas espalhadas pelo espaço, cada uma no seu ritmo, cada uma com sua pressa íntima, sua sede, seu cansaço, seu pequeno destino de fim de semana.

Na lanchonete, reparei num casal que me pareceu simpático. Tinham ali seus 60 e poucos anos, talvez 65, e carregavam a calma que surge em quem já atravessou muitas estações juntos. Cumprimentei os dois, fiz meu pedido no balcão e fiquei observando de canto, com discrição. Havia entre eles uma delicadeza singela, que não fazia alarde. Não era afetação, nem encenação de felicidade. Era outra coisa. Era convivência trabalhada com o tempo.

Enquanto mordia o pastel, fiquei olhando para eles. Havia ali uma intimidade tranquila que não precisa se anunciar. Pensei que talvez fosse isso que tantos anos juntos fazem com duas pessoas: ensinam uma a conhecer os silêncios da outra. A expressão ganhava corpo. Havia uma paz sem pose, sem propaganda, sem necessidade de convencer ninguém.

Mais tarde, na lojinha da escola de cerâmica mantida pelo mosteiro, voltei a encontrá-los. E foi aí que a impressão se adensou. Eles pareciam ainda mais alinhados com o lugar, como se a serenidade do ambiente também tivesse lhes caído sobre os ombros. Pensei, com a simplicidade que essas cenas costumam impor, que estar juntos por muito tempo talvez seja aprender a cuidar do outro sem transformar esse cuidado em cobrança. É uma lição dura, porque a gente costuma querer segurar a pessoa como quem segura uma certeza. Só que gente não é pedra, nem objeto de coleção. Gente muda, envelhece, ganha rugas, novas manias, silêncios diferentes.

O tempo, nesses casos, ensina uma coisa que a juventude costuma ignorar: ninguém permanece igual por décadas. E ainda bem. Se o amor quiser sobreviver, precisa reconhecer essa metamorfose cotidiana. Amar, com os anos, tem muito de reaprender o rosto amado. Há uma beleza nisso. A pessoa que está ao nosso lado hoje não é exatamente a mesma de ontem, e nem precisa ser. O vínculo que dura aprende a respirar junto com a mudança.

Restou uma ideia meio teimosa que fica rodando depois da estrada acabar. Um presente que alguém pode dar a quem ama é a presença consciente. Um casal longevo, pensei, lembra dois bambus crescendo lado a lado: as raízes se apoiam embaixo, mas acima há espaço suficiente para o vento circular.

De volta a Vitória, a rotina retomou seu compasso na segunda-feira. Os impasses, antes tão pesados, já não tinham o mesmo tamanho. Consegui resolver tudo e segui a vida.

Ainda assim, permaneceu comigo aquela imagem improvável: um Buda enorme à margem da estrada, um pastel de palmito, um caldo de cana, e um casal anônimo me ensinando, sem discurso nenhum, que o tempo não destrói. Às vezes, ele só depura. E há momentos em que uma parada rápida na estrada esclarece mais do que uma viagem inteira de pensamentos.


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