por Giovanni Angius, em 11/9/2026.
A fumaça do café coado subia devagar entre as duas na mesa simples da cozinha. Devia ser umas cinco horas da tarde. Pela janela do apartamento no quarto andar, o som da avenida lá embaixo parecia um motor contínuo que nunca parava e que nunca chegava a lugar nenhum.
Marta observava o movimento da rua, enquanto Júlia girava lentamente uma colher dentro da xícara, um hábito de décadas de convivência.
— O Juliano passou lá no escritório hoje — disse Marta, quebrando o silêncio. — Comprou um carro novo. Deu uma entradinha e financiou o resto em sessenta meses. O rapaz mal consegue pagar o aluguel do conjugado, Júlia.
Júlia deu um sorriso cansado, sem tirar os olhos da colher.
— O meu irmão não quer um carro, Marta. Ele quer as pessoas olhando para ele no semáforo. Ele vive trocando de namorada, mudando de apartamento, acumulando essas dívidas... Outro dia me disse que precisava “sentir que a engrenagem está rodando”. Acha que, se parar de correr atrás de alguma novidade por uma semana, ele simplesmente some.
— Gasta uma energia monumental para terminar exatamente no mesmo lugar — Marta comentou, servindo mais um fio de café. — Mas notei uma coisa no olhar dele hoje. Ele parece compreender que aquele carro não muda nada. E, mesmo assim, pegou o carnê rindo. É quase uma teimosia.
— Não é teimosia, é o jeito dele de não morrer antes da hora — Júlia suspirou, olhando para a janela. — É como o Ricardo, lá no teatro amador do centro comunitário do bairro. Você foi ver a peça dele?
— Fui. Ele estava ótimo como o velho rabugento.
— Pois é. O Ricardo passa o dia inteiro trancado naquela guarita de segurança, olhando para telas de monitoramento cinzas. Uma vida de doze por trinta e seis, vigiando o nada. Mas quando ele sobe naquele palco improvisado... Marta, ele se entrega de um jeito que dá até medo. Ele chora, ele grita, ele é rei por duas horas. E o mais assustador é que o teatro estava quase vazio. Tinha meia dúzia de pessoas na plateia.
— E quando a cortina fecha? — Marta perguntou, ajeitando os óculos.
— Quando a cortina fecha, ele guarda o figurino na mala velha, me abraça e volta para o turno da noite. No dia seguinte, a guarita continua esperando por ele. Sem reclamar. Ele sabe que aquela glória dura exatamente até o último aplauso daquele punhado de pessoas que vão lá. Ele consome o papel ali, no instante, e depois aceita o silêncio do crachá de volta. É o que o salva daquela guarita.
Marta olhou para as próprias mãos, pensativa. O antigo relógio da parede da cozinha tiquetaqueava alto, marcando um tempo que não perdoava ninguém.
— Acho que todo mundo cria um escudo — disse Marta. — Olhe o meu irmão, o Carlos. Desde que entrou para a associação de moradores do bairro, ele não dorme. Quer asfaltar a ruela, quer brigar com a prefeitura por causa do lixo, quer organizar o mutirão da praça. Ele liga para os secretários, toma chá de cadeira, ouve “não” toda semana.
— O Carlos sempre foi um trator — concordou Júlia.
— Mas a praça vai voltar a ficar suja, Júlia. Os moleques vão pichar o banco novo no mês seguinte. Eu disse isso a ele ontem, no telefone. Sabe o que ele me respondeu? “Eu sei, Marta. Mas a praça é o que temos para hoje. Se eu não brigar por esse asfalto agora, o dia de hoje vira fumaça”. Ele não tem ilusões de que vai salvar a cidade. Ele só se recusa a ficar sentado no sofá esperando o tempo passar. Ele prefere lidar com a realidade do jeito que ela aparece.
Júlia finalmente parou de girar a colher. Olhou para a amiga, capturando o reflexo de ambas no vidro atravessado pela luz oblíqua do fim da tarde fria. Duas mulheres que já tinham visto casamentos começarem e terminarem, filhos crescerem, pais partirem. Testemunhas de pessoas tentando preencher o vazio com carros, palcos e calçadas e, talvez, com conversas como aquela.
— Sabe o que eu acho mais curioso? — Júlia falou baixo, arrastando a xícara para o lado. — Nós passamos a vida assistindo a isso. Juliano, Ricardo, Carlos... todos correndo em círculos. E nós duas aqui, julgando, achando que estamos de fora da engrenagem só porque conseguimos enxergar o tamanho do buraco onde eles estão caindo.
Marta soltou um riso curto, sem humor, e cruzou os braços.
— Mas não estamos de fora, Júlia. Nossa lucidez é só o nosso próprio jeito de empurrar a pedra. A diferença é que a nossa é o peso de saber que o mundo não nos deve uma resposta, e ainda assim decidir fazer o café todo dia.
— É verdade — Júlia concordou, olhando para os azulejos antigos da cozinha. — A gente se encontra aqui há trinta anos. Para falar das mesmas coisas, lamentar as mesmas perdas, ver as rugas aparecerem. A nossa amizade é essa testemunha silenciosa. Se a vida é esse deserto sem resposta, estar aqui com você é a minha forma de não enlouquecer com o silêncio. Eu venho aqui porque sei que você também reconhece isso. E a gente continua.
Marta estendeu a mão sobre a superfície de fórmica da mesa, tocando de leve os dedos da amiga. Um gesto simples, gasto pelo tempo, mas absolutamente firme.
— No fundo, a gente limpa o balcão, cuida dos outros e senta para conversar sabendo que o mundo não vai melhorar amanhã — disse Marta, com uma serenidade cortante. — Essa mesa é o nosso palco. E a nossa revolta é essa: rir de tudo isso juntas, sem precisar de nenhuma promessa ou milagre para voltar aqui amanhã.
Marta se levantou, pegou as duas xícaras e as levou até a pia. Abriu a torneira. A água correu levando consigo os últimos vestígios do café.
Do lado de fora, a avenida continuava fazendo seu ruído interminável.
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