O avesso da palestra

 

por Giovanni Angius, em 12/9/2026.

O auditório cheirava a plástico novo dos estofados e o entusiasmo metódico de manual de autoajuda. No palco, o orador desfilava fórmulas milagrosas de programação neurolinguística, prometendo modular comportamentos, reprogramar circuitos íntimos e harmonizar qualquer atrito humano como quem calibra um circuito elétrico.

— Se você aplicar a técnica dos três passos, vai ver que o conflito some — dizia ele, gesticulando como quem segura um controle remoto da alma alheia.

Eu assistia àquilo com uma distância segura de espectador desinteressado, movido apenas pela curiosidade. Não buscava redenção nem técnica; estava ali por acaso, com um ingresso que um colega do escritório me deu para ver como os outros tentavam domesticar o mistério do convívio.

O verdadeiro choque, contudo, não veio dos slides, mas do intervalo. No meio do vaivém de xícaras de café, sucos e salgadinhos, dei de cara com Eduardo. Quarenta anos desapareceram em um segundo. O rosto grisalho ainda guardava a centelha do rapaz da velha ETFES, daqueles tempos de réguas de cálculo, motores elétricos e da rígida disciplina que a gente desafiava com cerveja, viagens improvisadas para Conceição da Barra e a barulhenta irmandade d’A Turma.

— Não acredito… Eduardo? — falei, antes que ele virasse.

Ele se voltou devagar, como quem reconhece uma voz antes do rosto.

— É você mesmo? — os olhos apertaram, depois se abriram num sorriso cansado. — Puxa, quanto tempo, hein?

— Demais. Você tá igual, só que… mais vivido.

Ele riu, um som curto, sem graça.

— Vivido é uma palavra bonita pra dizer gasto.

Deixamos as fórmulas comportamentais do palestrante para trás e fomos parar em um quiosque na orla de Camburi. O vento do mar batia nas mesas enquanto as garrafas de cerveja e as doses de pinga começavam a quebrar a casca do tempo.

— Lembra daquela viagem para Conceição da Barra? — perguntei, enchendo o copo. — A gente achava que um dia iríamos nos tornar ricos ou famosos.

— E olha onde a gente tá — ele ergueu a dose. — Numa palestra, ouvindo um cara dizer que a vida é um algoritmo.

Rimos, mas o riso não durou muito. Aos poucos, as piadas juvenis deram lugar a outra substância, mais densa e turva. Eduardo começou a falar, e logo percebi que a palestra fora apenas o pretexto do destino: ele precisava de um altar para queimar suas memórias.

— Sabe o que é engraçado? — ele disse, olhando em direção ao mar escuro. — O cara há pouco falando de reprogramar a mente, como se a dor fosse um bug que a gente deleta com um atalho.

— É… — concordei, sem querer interromper o fluxo.

— Minha vida não tem atalho, irmão. Tem desvio. Tem estrada quebrada. Tem coisa que não conserta.

Sua voz desfilou desvios de rota profissional, frustrações de carreira e, com um peso que parecia parar o ar entre nós, a ferida que nunca cicatrizou: a perda trágica de uma filha ainda criança, quase bebê. Falava com a urgência de quem guarda uma represa prestes a romper.

— Ela nem chegou a andar. — A voz falhou, mas ele não desviou o olhar do horizonte. — Às vezes eu penso: será que eu podia ter feito alguma coisa diferente? Será que tinha um jeito?

Fiquei em silêncio. Não o interrompi. Não ofereci as tolices prontas que o palestrante vendera horas antes, nem tentei consolar o inconsolável. Como poderia eu, que mal compreendo o desenho dos meus próprios dias, indicar a bússola para os de outrem?

— Eu não sei, Eduardo — disse, por fim, baixo. — Só sei que estou aqui.

Ele assentiu, devagar.

— É… isso já ajuda. Às vezes a gente só precisa de alguém que não fuja da dor.

Ao olhar para ele, percebi que minha alma estava mais apaziguada. A dele ainda ardia.

Ele mencionou a esposa que resistiu ao tempo, o filho formado e os netos — nos quais parecia encontrar uma razão para continuar caminhando apesar do abismo de uma dor que permanecia aberta.

— Os meninos me salvam, sabe? — os olhos brilharam, úmidos. — Quando eu olho pra eles, penso: ela não tá aqui, mas o amor que a gente teve por ela… isso continua. De algum jeito, continua.

— Continua — repeti, sentindo o peso da palavra.

A noite avançou, a lucidez foi amaciada pelo álcool, e o peso do mundo permaneceu intacto. O mar adiante seguia seu ritmo indiferente, como se nada do que acontecia naquelas mesas importasse. E talvez não importasse mesmo — pelo menos não para as ondas.

— Vamos marcar de novo? — perguntei, já na calçada, o vento bagunçando o cabelo.

— Vamos — ele apertou meu ombro, firme. — Mas sem palestra, hein? Da próxima vez, só a gente e o mar.

— Combinado.

Despedimo-nos com abraços fortes e promessas de novos encontros, sabendo que nenhum de nós havia solucionado o enigma de existir. Ficou apenas o mar escuro de Camburi, quebrando com indiferença sobre a areia, enquanto a gente seguia cada um para o seu lado, carregando o que dava para carregar.


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