O que sabíamos depois do almoço


por Giovanni Angius, em 10/9/2026.

O encontro foi um acidente feliz de sábado: três passos desatentos pelo piso espelhado do shopping na Enseada do Suá, um tropeço de olhares e, quando deram por si, estavam atravessando a meia-luz do Outback em busca de uma mesa de canto.

Depois que chegaram as canecas e a cebola empanada — o pão australiano, como sempre, uma delícia —, Paulo foi o primeiro a falar. Estava irritado com um debate político a que assistira na noite anterior.

— Vocês viram aquilo ontem?

— Vi o começo — disse João, enquanto Roberto pegava uma pétala de cebola. — Depois achei melhor preservar minha saúde mental.

Paulo riu.

— O que me impressiona é a certeza daquela gente. Um fala como se tivesse descoberto a fórmula do país. O outro parece conhecer a cabeça de duzentos milhões de pessoas.

— E você? — perguntou João.

Paulo levantou os olhos.

— Eu o quê?

— Você sabe como o país deveria funcionar?

— Claro que tenho minhas ideias.

— Ideias ou certezas?

Roberto soltou uma risada.

— Pronto. Começou: lá vem filosofia.

Paulo apontou o guardanapo para João.

— Você faz isso de propósito.

— O quê?

— Essa pergunta que parece inocente.

— É só uma pergunta.

— Não é. Você pergunta já sabendo onde quer chegar.

João sorriu.

— E você já sabe onde eu quero chegar?

Roberto bateu de leve na mesa.

— Essa foi boa.

Paulo recostou-se na cadeira.

— Está bem. Não sei. Satisfeito?

— Bastante.

— Você é impossível.

João pegou uma batata frita.

— Pode ser.

Roberto olhou para os dois.

— Vocês percebem que conseguiram transformar uma cebola empanada numa discussão sobre o conhecimento humano?

— Não fui eu — disse João.

— Foi você, sim.

— Eu só perguntei. — meio na defensiva.

Roberto apontou para Paulo.

— E ele caiu.

A conversa poderia ter terminado ali, mas não.

Paulo voltou ao debate da televisão. Falou dos políticos, dos comentaristas, dos livros de história que lera. Lembrou de um general que, segundo ele, perdera uma guerra por acreditar demais na própria estratégia.

— O homem tinha certeza de que conhecia o inimigo — disse Paulo. — Não conhecia. Conhecia apenas o que imaginava sobre o inimigo.

João mexeu lentamente na bebida.

— Isso vale para quase tudo.

— Lá vem…

— Não, espera. Estou falando sério.

— Você sempre fala sério quando diz “estou falando sério”.

Roberto riu. João continuou:

— A gente passa uma quantidade enorme de tempo tentando descobrir o que os outros pensam. E, às vezes, nem sabe direito o que fez e porquê fez ontem.

Paulo ficou alguns segundos em silêncio.

— Isso é verdade.

Roberto levantou a sobrancelha.

— Olha. Uma certeza que durou três segundos.

— Vai cuidar da sua vida — respondeu Paulo, rindo.

Chegaram as costelas. Por alguns minutos, a filosofia perdeu espaço para o molho barbecue, os talheres e uma disputa silenciosa pelas batatas.

Foi Roberto quem retomou o assunto.

— Querem saber por que as pessoas gostam tanto de ter certeza?

João fez um gesto para que continuasse.

— Porque dúvida dá trabalho.

Paulo assentiu.

— Como assim?

— É simples. Se eu tenho certeza de que o problema é o governo, já resolvi metade da minha vida. Se o problema é a oposição, melhor ainda. Se é Deus, o diabo, o vizinho ou o síndico, tanto faz. Escolhe um culpado e dorme tranquilo.

— Você está exagerando — disse Paulo.

— Estou?

— Está.

— Então me diga uma coisa. Quando você não sabe por que uma coisa aconteceu, você fica tranquilo?

Paulo abriu a boca e fechou. Roberto sorriu.

— Pois é.

João olhava para o prato.

— Talvez a gente prefira uma resposta ruim a uma pergunta que ficou aberta.

Paulo apontou para ele.

— Essa eu gostei.

— Eu também — disse Roberto. — Só não transforma em frase de livro.

João riu.

O almoço avançou sem que nenhum deles percebesse. As canecas eram substituídas, os pratos esvaziados e a conversa fazia curvas inesperadas. Passaram da política para a velhice, da velhice para a morte, da morte para os planos que haviam feito quando eram jovens.

Paulo contou que, aos vinte anos, tinha certeza de que aos quarenta estaria com a vida resolvida.

— E estava? — perguntou João.

— Aos quarenta eu tinha mais problemas do que aos vinte.

— Então alguma coisa você aprendeu.

Paulo pensou.

— Aprendi que fazer planos é uma atividade de alto risco.

Roberto riu.

— Finalmente uma conclusão útil.

João apoiou a mão direita sob o queixo, levantou as sobrancelhas e ficou olhando para o vazio.

— Engraçado. A gente passa a juventude achando que conhece a vida. Depois passa o resto do tempo descobrindo que ela muda de assunto.

— Isso você roubou de algum filósofo? — perguntou Roberto.

— Não.

— Tem certeza?

João hesitou.

— Agora você me pegou.

Os três riram. Depois houve um silêncio breve. Não era desconfortável. Cada um parecia ocupado com alguma lembrança. Paulo falou mais baixo:

— Sabe o que eu acho estranho? Às vezes lembro de coisas que aconteceram há trinta anos e tenho certeza de que foram exatamente daquele jeito.

Roberto interrompeu:

— E foram?

— Não faço ideia.

— Então como tem certeza?

Paulo sorriu.

— Não tenho mais.

João tomou um gole.

— Talvez seja melhor assim.

Roberto o encarou.

— Você está aprendendo.

— Com quem?

— Com a batata frita.

João levantou a caneca num brinde.

— À batata frita, então.

— E à nossa ignorância — acrescentou Paulo.

Roberto fez uma careta.

— Essa palavra é muito feia.

— Qual?

— Ignorância.

— Por quê?

— Parece que alguém está chamando você de burro.

João pensou um instante.

— Pode chamar de não saber.

— Melhor.

— E qual é a diferença?

Roberto deu de ombros.

— Não sei.

Paulo bateu na mesa, rindo.

— Agora foi você!

Roberto olhou para João.

— Está vendo? Peguei a doença.

Passava das quatro quando finalmente pediram a conta. Nenhum dos três sabia explicar como cinco horas haviam desaparecido. A conta foi dividida em três partes iguais, depois de uma breve discussão sobre quem havia tomado uma bebida a mais.

Na saída, a luz do corredor do shopping os obrigou a apertar os olhos. Caminharam devagar, ainda falando de coisas que já haviam discutido e de outras que provavelmente esqueceriam antes do Uber chegar para levá-los para casa.

Paulo parou junto à escada rolante.

— Então, afinal, o que a gente descobriu hoje?

Roberto colocou as mãos nos bolsos.

— Que o Outback é caro.

João riu.

— Essa nós sabemos.

Paulo insistiu:

— Estou falando sério.

Os três ficaram em silêncio por alguns segundos.

Roberto olhou para os dois.

— Descobrimos que a gente sabe menos do que acha.

João concordou.

— E que isso não é tão ruim.

Paulo pensou um pouco antes de responder.

— Desde que ainda dê para almoçar junto.

Ninguém disse mais nada. Trocaram tapas nas costas, prometeram outro sábado e se dispersaram pelos corredores iluminados do shopping. Não sabiam exatamente o que haviam levado daquelas cinco horas, mas isso pareceu suficiente.


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