por Giovanni Angius, em 2/9/2026.
Quando a memória decide puxar um fio da juventude, ela quase sempre traz de volta a luz da tarde na avenida Vitória. Eu me peguei pensando nisso outro dia, lembrando dos tempos da velha ETFES, espalhada ali ao lado do estádio do Rio Branco. Entre o barulho dos ônibus e as conversas soltas no pátio, a figura de Alfredo destoava dos demais colegas. Ele fazia Agrimensura, mas o que media mesmo eram as ideias. Lia tudo, discutia literatura com brilho raro, mas guardava um silêncio intransponível quando a política entrava na roda.
Naqueles primeiros anos da década de 1970, o silêncio era um bicho perigoso. Como ninguém sabia de onde ele vinha nem o que pensava a fundo, a turma cuidou de preencher, mesmo que inconscientemente, esses vazios. Dizia-se à boca pequena que Alfredo participava da luta armada, que aparelhos clandestinos o abrigavam, que conspirava contra o regime. Não havia prova de nada, apenas o boato ganhando consistência de verdade.
Eu próprio senti o peso dessa engrenagem uma tarde, em Jucutuquara. Fui tomar café na casa de uns vizinhos queridos e dei de cara com Afonso, tio do meu amigo e policial federal. Homem cordial, de camisa de manga curta bem passada. No meio de uma conversa fiada sobre futebol e o calor da ilha, ele me olhou de soslaio, girando a xícara na mão:
— E na escola técnica, rapaz? Conhece aquele Alfredo, da agrimensura? Sabe o que ele faz por lá?
O tom era despretensioso, mas a espinha gelou. Respondi sem titubear, com a prudência de saber que havia ali uma sondagem disfarçada de curiosidade.
— Conheço superficialmente, Seu Afonso. Aliás, acho que todo mundo só o conhece de vista. Ele quase não fala de si. É um sujeito muito culto, estudioso. Vive entre livros, mapas e cálculos.
Ele me fitou em silêncio por uns dois segundos, deu um gole no café morno e mudou de assunto. Nunca mais o Afonso nem ninguém tocou no nome de Alfredo para mim.
Os anos passaram e a vida dispersou todo mundo. Alfredo acabou indo embora para o interior de São Paulo, numa cidade pacata, a cerca de cem quilômetros da capital.
Ficamos décadas sem contato. Até que, recentemente, a filha dele, vindo a Vitória para resolver questões de família, me ligou. Catarina, hoje professora de História, soube do meu nome através do próprio pai. Marcamos um café na padaria Monte Líbano, na Praia do Canto, próxima ao hotel onde estava hospedada. Conversamos bastante sobre as minhas lembranças daquela época e as curiosidades sobre o pai quando moço. Pela aparência, tem uns trinta e tantos anos e dá aulas em um colégio militar em São Paulo — ironia fina que a vida reserva às biografias mais lineares.
Ela me contou que, num domingo recente, enquanto preparavam o almoço na varanda da casa dele, viu o pai lendo notícias no tablet com a mesma expressão compenetrada que devia ter desde os tempos da escola técnica. Alfredo passou dos setenta, o cabelo todo branco, mas ainda guardava nos olhos alguma coisa daquela utopia que esperara a vida inteira.
— Pai — Catarina puxou conversa, arrumando os pratos —, os meninos lá da escola estavam discutindo a Guerra Fria essa semana. Engraçado como eles têm certeza absoluta de coisas que nunca viram. Cada um repete o que ouve em casa, como se fosse um mantra sagrado.
Alfredo tirou os óculos de leitura, descansando-os sobre a mesa de madeira:
— É sempre assim, filha. Quando muita gente se junta com medo, o pensamento estanca. As pessoas compram uma bandeira pronta porque carregar a própria dúvida pesa demais. Eu vi isso na minha juventude inteira.
— Mas você também comprou a sua, não comprou? — ela provocou com mansidão, sem a menor ponta de desrespeito. — Você passou a vida esperando um mundo que não veio. E até hoje, quando nos sentamos aqui, você ainda defende aquelas velhas ideias como se fossem promessas adiadas.
O velho deu um sorriso curto, melancólico, passando a mão pelos olhos cansados.
— Precisava. A gente também precisava de um abrigo, Catarina. O problema daquele tempo é que ou você marchava com a oração deles, ou se agarrava à nossa revolução. Parecia que não existia chão no meio. Quem tentava ficar lúcido no meio do fogo cruzado acabava moído pelos dois lados. A ilusão era o único jeito de respirar sem enlouquecer.
— E você acha que eu traí o seu abrigo? — Catarina perguntou, encarando-o de frente. — Dando aula onde dou, ouvindo hino todo dia, convivendo com a disciplina que você sempre combateu?
Alfredo ficou em silêncio um instante, olhando as árvores do quintal. Quando voltou os olhos para a filha, a voz estava desarmada de qualquer ideologia:
— No começo, confesso que me deu um nó no peito. Coisa de velho teimoso. Mas depois entendi. Você não foi para o meu bando nem se vendeu ao outro. Você foi entender como a engrenagem funciona por dentro. Se eu passei a vida tentando acordar de um sonho que me engoliu, o mínimo que posso desejar é que você viva com os seus próprios olhos, e não com os meus.
Catarina me contou essa passagem rindo de leve, com a voz cheia de ternura e alívio.
Foi uma boa conversa, um encontro saudoso e muito agradável.
Despedimo-nos. Voltei para casa pensando no Alfredo que conheci lá nos tempos da “Etéfes”, na avenida Vitória, sob o cerco das certezas de outrora, para descobrir que uma das poucas vitórias possíveis sobre a cegueira do mundo é essa: conseguir sentar à mesa com quem pensa diferente de nós e ainda enxergar, naquela pessoa, o amor de alguém que também é parte de nós.
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