por Giovanni Angius, em 21/9/2026.
O calor das três da tarde descia pesado sobre o calçamento da Rua da Lama, em Jardim da Penha. Dentro do bar, o ventilador de teto girava com um zumbido cansado, cortando o ar empapado do mormaço e do cheiro de café passado com pastel de queijo.
Atrás do balcão de fórmica verde, Tião equilibrava a vida com uma precisão disciplinada, quase militar. Ninguém por ali sabia o sobrenome dele, nem de onde tinha vindo antes de fincar pé ali há quase vinte anos. Para a vizinhança — para os estudantes da Ufes que pediam cerveja fiado, para os aposentados da mesa de dominó da calçada e para o dono do bar —, ele não era um homem com noites em claro ou remorsos guardados no fundo da gaveta: ele era o Tião Garçom.
E Tião fazia questão absoluta de ser isso. Mais do que qualquer um.
Quando entrava alguém no bar, o corpo dele reagia antes mesmo do pensamento. Dava um passo mais rápido em direção à ponta do balcão. O pano de prato, engomado e surrado de tantas lavagens, voava do ombro para a mão esquerda num movimento calculado, limpando um círculo invisível sobre a mesa. A cabeça inclinava exatamente no ângulo da deferência cordata:
— Pois não, doutor. Saindo aquela gelada trincando. É pra já.
O tom era cantante, prestativo, afiado. Tião não atendia: ele encenava um garçom. Se a comanda atrasava na cozinha, ele não praguejava como gente de carne e osso; abria os braços numa mímica ensaiada de desculpas, sorria e dizia que “a casa pede um pouco de paciência”. Ele andava entre as mesas como se os pés corressem sobre trilhos já parafusados no chão de caquinhos vermelhos.
Tudo nele era função. Um copo vazio chamava a mão dele como o ímã chama a limalha de ferro. Tião parecia ter sido feito em série numa fábrica de boteco: sem passado para lamentar, sem futuro para temer, pronto para servir.
O problema começou em um dia comum, de pouco movimento.
Não tinha vento na rua. O dominó tinha acabado cedo por causa do sol forte, e só havia um cliente sentado no fundo, folheando A Tribuna, sem pressa. Tião estava de pé, encostado na estufa de salgados, com a bandeja redonda debaixo do braço.
Olhou para as mãos e percebeu um leve tremor. Depois olhou para a porta de ferro do bar, aberta para a calçada onde a luz do sol brilhava branca e cegante.
Ali, a poucos metros, passava o ônibus da linha 124 roncando em direção à praia. Pessoas cruzavam a rua carregando sacolas, adolescentes voltavam do Darwin, um sujeito de chinelo puxava conversa com o jornaleiro na esquina. O mundo lá fora estava escancarado, imenso, sem roteiro, sem dono para mandar bater o ponto e sem cliente para exigir cerveja no ponto.
Sentiu uma espécie de arrepio pela espinha, mesmo naquele mormaço.
Tião percebeu algo diferente: se quisesse, podia simplesmente largar aquela bandeja de inox no balcão. Podia desamarrar o avental encardido, jogar o pano por cima da estufa, virar as costas para o patrão e sair andando rumo à orla de Camburi sem olhar para trás. Ninguém no universo o impedia. Nenhuma corrente invisível o prendia àquela fórmica. O patrão ficaria atônito, claro; os velhos do dominó ficariam sem o tira-gosto; as contas do aluguel viriam no fim do mês. Mas eram consequências, não correntes.
Ele não era um garçom da mesma forma que o balcão era de madeira ou o copo americano era de vidro. O copo não podia escolher quebrar a si mesmo ou voar pela janela; ele, Tião, podia. Ele estava garçom porque escolhia assim.
A sensação foi bem esquisita: Uma vertigem, como um buraco abrindo debaixo do peito. A liberdade parecia uma onda no mar revolto que dá um caldo, derrubando o cara. Não ter desculpa doía. Não poder botar a culpa na sina, na falta de estudo ou na vida ingrata dava medo — um medo sem cara nem forma.
De repente, entrou Seu Osvaldo, morador antigo do prédio ao lado, arrastando as pernas e suando sob a camisa polo listrada:
— Tião, meu filho! Hoje o calor tá de matar. Pelo amor de Deus, me traz uma água com gás e duas pedras de gelo.
O som da voz bateu nos ouvidos de Tião como um bote salva-vidas atirado em mar aberto.
Num reflexo quase desesperado de socorro, Tião agarrou a bandeja com força, colou os cotovelos junto ao corpo e recompôs a máscara. Os olhos dele faiscaram com a rapidez usual, e a cabeça inclinou no ângulo exato:
— É pra já, Seu Osvaldo! Gelo com limãozinho ou só o gelo puro?
Nenhum comentário:
Postar um comentário