Era uma sexta-feira de sol tímido e Dona Dirce decidiu que era dia de fugir da rotina. Moradora de Jardim Camburi, em Vitória, ela conseguiu convencer o filho Enzo e a vizinha Ivone a subirem a serra. O destino era o interior de Domingos Martins, mais especificamente uma vendinha de comida caseira escondida em uma estrada de terra, cercada por plantações de café — aquele tipo de lugar que tem rede na varanda e cachorro que late só por educação.
No carro, o rádio cantava um samba suave, as janelas iam abertas para deixar entrar o ar que esfriava à medida que subiam a rodovia, inspirando todos com aquele dia tão bonito. Ivone trouxe uma sacola cheia de quitutes para o caminho: sanduíches de presunto e queijo, suco de laranja e um potinho de pimenta artesanal que ela jurava ser “suave, pode confiar”. Enzo, sempre atento às questões práticas, monitorava o trajeto no GPS do celular e avisou a mãe:
— Mãe, nada de inventar de cortar caminho por estrada de chão desconhecida hoje, tá? Quero o almoço inteiro.
Dona Dirce riu e respondeu com aquele olhar de quem já acumulou quilometragem de vida:
— Já dirigi em estradas muito piores, filho. Sei muito bem por onde ando.
O restaurante era uma casinha de madeira pintada de azul, com mesas dispostas no terreiro e mudas de flores protegidas do sol nas floreiras sob telas finas. Havia um senhor de chapéu de palha que cuidava do fogão a lenha, uma moça que anotava os pedidos em um bloco já amarelado e um menino que corria entre os canteiros com um sorriso que só criança tem — uma energia leve que parecia dissolver qualquer pressa. Sentaram-se à sombra de uma frondosa araucária e logo a conversa virou memória: velhas histórias de família, o tempo das colheitas e quem ali tinha mais cara de avó — que, no caso, era Dona Dirce, sem dúvida alguma.
O almoço veio rápido: arroz soltinho, feijão com caldo gordo, frango caipira com quiabo e uma polenta frita que derretia na boca. Tinha também uma salada crua de tomates, pepino, abobrinha verde, cenoura e repolho. Enzo, tentando impressionar Ivone, ergueu o potinho de pimenta e disse:
— Só uma gotinha para provar que tenho coragem.
Ivone revirou os olhos:
— Não exagere. Você não tem costume.
Riram, provaram, e o mundo parecia pequeno e perfeito. O almoço estava ótimo e o clima maravilhoso.
Foi então que, do lado de fora, ouviu-se um estrondo metálico, seguido de um xingamento contido e passos apressados. Todos se levantaram. Na estrada de terra, bem à frente do restaurante, dois carros — um popular vermelho e uma caminhonete velha carregando sacos de café — estavam enroscados um no outro. Uma batida leve, mas suficiente para estraçalhar um retrovisor e espalhar vidros que faiscavam sob a luz mansa do meio-dia. O motorista do carro vermelho, um rapaz de camiseta, saltou com o rosto vermelho e bem nervoso; o da caminhonete, um senhor de boina e feições coloniais, cuspia imprecações no ar com as mãos calejadas.
A cena quebrava por completo a tranquilidade do lugar. O cozinheiro parou com a escumadeira na mão, o menino que corria entre as mesas ficou de boca aberta, e Ivone, sempre pragmática, já segurava a bolsa como se preparasse sair correndo. Dona Dirce notou que o rapaz tremia mais de vergonha do que qualquer outra coisa, enquanto o senhor de boina reclamava em voz irritada:
— Na minha vida inteira nunca bati! — com um sotaque carregado de origem alemã.
Enzo foi o primeiro a se aproximar para ajudar a recolher os pedaços de plástico e vidro que pudessem machucar quem passasse por ali.
Ninguém havia se ferido — esse foi o primeiro alívio, mas o clima estava tenso. Um morador local, sem perder o humor característico da região, comentou em voz alta:
— É o que dá querer passar reto no mata-burros.
Alguns clientes riram sem graça. O dono do restaurante, limpando as mãos no avental já encardido, sugeriu um copo d'água para os envolvidos e ofereceu uma mesa nos fundos para que conversassem longe dos olhares curiosos.
— Nada de polícia nessa história… — comentou assustada a moça do bloco de pedidos.
Trocaram documentos, desabafaram o restinho de raiva e, como quase sempre acontece no interior, descobriram que eram parentes distantes por parte de um casamento de duas gerações atrás — uma ironia que fez todo mundo suspirar aliviado.
O almoço terminou num meio-riso, meio-susto. Antes de ir embora, o rapaz pediu desculpas aos presentes pelo transtorno e, com a voz mais mansa, ofereceu-se para arcar com os reparos da caminhonete. O senhor de boina, após um silêncio que pareceu uma sentença, bateu no ombro do jovem e disse:
— Pois então vamos tomar um cafezinho com broa e resolver isso como gente grande.
E foram, ambos com passos meio curvados, como se tivessem desatado um nó de orgulho.
No retorno para Vitória, o carro vinha mais quieto. O rádio agora tocava um bolero. Cada um ia calado, mastigando as imagens do dia. Dona Dirce, que costumava comentar tudo, ficou pensativa fitando as curvas da estrada, e disse:
— Sabe, quando a gente acha que só vai almoçar e rir, a vida lembra que tem outras ideias.
O restante da viagem transcorreu em silêncio. Cada um parecia ocupado demais com os próprios pensamentos enquanto a BR-262 descia em direção ao mar. Chegaram em casa com o sol já mais baixo.
Naquela noite, quando alguém perguntou como havia sido o passeio, Dona Dirce respondeu apenas:
— A comida estava ótima. Mas o melhor foi o cafezinho com broa depois da batida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário